Mariana
Mariana
Jan 30 · 3 min read

De acordo com Monique Wittig, “mulher” só existe em moldes heterossexuais. Ao final de “O Pensamento Hetero” (1980), infelizmente atualíssimo, ela categoriza: “ O que é a mulher? Pânico, alarme geral para uma defesa ativa. Francamente, este é um problema que as lésbicas não têm por causa de uma mudança de perspectiva, e seria incorreto dizer que as lésbicas se associam, fazem amor, vivem com mulheres, pois “mulher” tem significado apenas em sistemas de pensamento heterossexuais e em sistemas econômicos heterossexuais. As lésbicas não são mulheres.”

As lésbicas não podem estar mais de acordo. Viver em um mundo onde a heterossexualidade é norma sempre foi tarefa árdua de sobrevivência pra nós que na melhor das hipóteses vamos ser constrangidas ou humilhadas por sermos lésbicas, e na pior das hipóteses vamos morrer por sermos quem somos e amarmos quem amamos. A socialização, ou seja, o conjunto de ritos a fim de construir pessoas socialmente através de seus corpos biológicos incute no nosso imaginário coletivo muitos valores heterocentrados. Não existe escapatória: as produções literárias são plenas de casais heterossexuais, os filmes, as representações nas revistas, as músicas, os posts na internet, tudo. E por que será que lésbicas são tão odiadas assim? Porque caso não houver um estupro corretivo seguido de gravidez, não geramos renda ao sistema heteropatriarcal ao nos aliarmos com pessoas do mesmo sexo.

E afinal de contas, o que é o estupro corretivo? Pra mim é lógico: quando uma lésbica (logo, com veemência não consente em relações heterossexuais, porque gosta de mulheres) é abusada sexualmente. E por que corretivo? Porque é uma forma de coerção social que tem como objetivo colocar as mulheres de volta ao papel sexual destinado socialmente. Então fomos trancafiadas em hospícios por sermos histéricas, por não nos submetermos às vontades dos nossos opressores, por não aceitarmos sermos definidas sob esses moldes que nada tem a ver conosco.

E por que assunto do feminismo? Sem delongas e discursos bonitos de empatia. É uma questão de ética. As ressonâncias de lesbofobia em nossas vidas são ferrenhas. Pouco se sabe sobre nossa saúde sexual porque não somos existentes em termos políticos. Somos ostracizadas politicamente (isoladas no bom português) sob mitos diversos, dentre eles o mito da lésbica predatória, comparada ao que foi dado como masculino (tenha em mente que feminilidade não existe sem masculinidade e que toda masculinidade é tóxica porque mata mulheres). Nos perguntam com muita frequência por que queremos parecer homens quando cortamos nossos cabelos da forma como bem entendemos uma vez que a feminilidade não é sobre nós. (https://medium.com/@bnclla/por-que-voc%C3%AA-quer-se-parecer-com-um-homem-543256f406a5)

É tudo sempre uma questão de coerção e silenciamento. Se o seu feminismo não questionar a heterossexualidade compulsória (um regime político de violência contra a mulher), não vai haver diálogo entre feminismo e lesbianidade, nem construção conjunta. Pense na dor que é não se sentir representada por nada e ter suas próprias relações arruinadas pela lógica hetero. Sem falar nos lesbocídios, espancamentos, expulsões de casa, todo esse sofrimento coletivo que passamos por pertencermos a essa classe.

Não poderia deixar de compartilhar um material sobre apedrejamento de lésbicas: https://we.riseup.net/radfem/o-apedrejamento-de-l%C3%A9sbicas


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sou filha da terra e do céu estrelado e não há parte de mim que não seja dos deuses

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