As reflexões de uma mulher afro-americana sobre o movimento transgênero

Se nós nos sentimos presos em nossos corpos, talvez não sejam os corpos que precisam ser mudados.

Ariana Amara
Jul 23, 2018 · 7 min read

Apoiadores de ideologia trans acreditam que estão libertando pessoas das concepções restritivas sobre gênero. Na realidade, quanto mais nossa sociedade tenta se libertar dos estereótipos de gênero, mais ela se torna escrava deles. Ao dizer que pessoas podem nascer no corpo de gênero errado, transativistas estão dizendo que existe um grupo de sentimentos apenas disponíveis para mulheres, e outro grupo de sentimentos reservados para os homens.

Por Nuriddeen Knight

Meus pais nunca compraram Cinderella, A Pequena Sereia, ou Branca de Neve para mim. Essas não eram as histórias contadas lá em casa, nem filmes que costumávamos ver em nossa TV. Não existia a Princesa Tiana na época, mas meus pais escolhiam nos mostrar apenas princesas “não-brancas”*: Mulan (Asiática), Pocahontas (Indígena), e Jasmin (Árabe). Nós também amávamos os animais africanos de “O Rei Leão”. Nós nunca idealizamos a branquitude em nossa casa. Nada disso foi dito abertamente, mas imagino que tenha sido intencional. Apenas em retrospecto que eu pude perceber a forma de auto-amor tácito que meus pais estavam cultivando em nós.

Ainda assim, isso não foi o bastante. Por volta dos treze anos, eu percebi que o mundo me dizia que peles claras e cabelo “bom” eram melhores, corpo magro era melhor, e a branquitude, sempre melhor. Em alguns momentos, eu desejava poder ser branca. Eu implorava para que minha mãe alisasse meus cabelos, e ela o fazia. Eu já fiz dietas irracionais para perder peso, e eu já tentei manter minha pele negra clara longe do sol.

Se eu tivesse ido até meus pais implorando a eles para ser branca, eu acho que eu causaria neles uma risada, depois um choro, e uma tentativa de me confortar, além de pensarem em que momento eles falharam enquanto pais. Mas se eu dissesse à eles não só que queria ser branca, mas que eu era de fato branca? E se eu simplesmente declarasse que a cor do meu corpo simplesmente não correspondia à cor que eu me via em minha mente? Eu imagino que teria causado à eles uma grande confusão.

O famoso romance de Toni Morrison, The Bluest Eye, faz um paralelo com essa ideia. A personagem principal, Pecola, é uma garota negra da pele bastante escura e que deseja desesperadamente possuir olhos azuis. No fim da história, ela acaba possuindo olhos azuis — ou pelo menos, ela acredita que possui. Nós, enquanto leitores, não aplaudimos isso. Na verdade, no fim da história, nós ficamos com a impressão de que Pecola enlouqueceu. Nós sabemos que não são simplesmente os olhos azuis que ela deseja, ela quer algo muito mais profundo — amor, aceitação, respeito, honra… os desejos humanos intangíveis que nós todos almejamos, mas que não são igualmente concedidos. Nós sabemos que ela não conseguiu isso, e é na verdade uma vítima de abuso perpétuo, e não há solução fácil para seus problemas.

Mas e se fosse realmente possível para mim me tornar uma pessoa branca, ou para Pecola possuir olhos azuis? Seria esse o fim da história — o feliz para sempre? Mudar nossa aparência iria magicamente apagar todos as questões de auto-estima e auto-valor?

Não, é claro que não. Os olhos e a cor da pele nunca foram o problema: o racismo e o abuso são. Nós estaríamos apenas colocando um curativo na questão real. Os homens e as mulheres que “pareciam” brancos durante a era vergonhosa da lei Jim Crow nos EUA podem ter ganhado privilégios sociais das pessoas que nasceram brancas, mas eles também perderam suas origens, seus laços familiares e sua integridade, graças à mentira à que foram forçados a propagar todo santo dia.

Mas e se, ao invés de querer ser branca, eu quisesse ser um homem? E se, ao invés de correr chorando para o colo dos meus pais dizendo que eu era uma pessoa verdadeiramente branca, eu os dissesse que eu sou na verdade um homem e que eu desejo desesperadamente mudar meu corpo para condizer com o que tenho em mente? Se, nesse cenário, você acha que meus pais deveriam aplaudir minha coragem, aceitar minha nova identidade de gênero e correr para o cirurgião mais próximo, por favor se pergunte: “Por que?”

Não existe dúvida de que raça e sexo são duas coisas completamente diferentes. Raça é uma construção social inventada durante a época da escravidão. Antes dos europeus escravizarem os africanos, não existia um povo negro “unido” na África, e nenhum povo “branco unido” na Europa. Graças à escravidão, os rótulos de negro e branco se tornaram uma forma conveniente de continuar com a opressão, mas ela é uma forma relativamente nova de identificar seres humanos.

Mas o sexo não é uma invenção humana. Sim, papéis de gênero são culturalmente criados. Ainda assim, isso não apaga o fato de que todo ser humano (com exceção dos indivíduos intersexo, que representam uma mínima porcentagem) nasce com um aparato distinto de atributos físicos e biológicos que os tornam machos ou fêmeas. Essa verdade não pode ser apagada com o tempo.

Quando queremos ser algo além do que a nossa verdadeira e autêntica realidade, isso se torna auto-ódio. Uma pessoa negra que deseja se tornar branca está praticando auto-ódio, assim como um homem que deseja ser uma mulher ou uma mulher que deseja ser um homem. Nós vivemos em um clima social incrivelmente auto-centrado, mas nós não encorajamos as pessoas a amarem seus próprios corpos? Nós dizemos às mulheres a amarem suas curvas e amar sua idade e sua pele, mas nós não dizemos para elas (nem para os homens) a amar o sexo que possuem?

Nós lamentamos os horrores da mutilação genital feminina, mas continuamos a permitir a prática ao nosso lado. Nós ignoramos os lamentos de pacientes que acordam em seus leitos cirúrgicos cheios de remorso. Nós ignoramos seu sofrimento e os iludimos com promessas de ajustes rápidos e felicidade instantânea. No site The Federalist, Stella Morabito cita um homem que, após acordar de sua cirurgia pensou, “O que foi que eu fiz?”

Estranhamente, em sua entrevista para Vanity Fair, Bruce Jenner ecoa os pensamentos desse homem quando ele se lembra de seus próprios pensamentos depois de sua cirurgia de feminização que durou dez horas: “O que foi que acabei de fazer? O que eu fiz comigo mesmo?”. Outro paciente no pós-operatório comentou em um forum online, “Eu estou em luto pela forma como eu mutilei meu corpo.” No Public Discourse, Walt Heyer escreveu sobre o arrependimento que sentiu depois de ter feito sua cirurgia de mudança de sexo.

Nós estamos jogando um jogo perigoso. Um homem ou garoto que teve seu pênis cirurgicamente removido não pode voltar no tempo para seu corpo natural. E se nós gastássemos o dinheiro que gastamos com cirurgias e drogas em terapia e aprendizado sobre amor próprio? Nós deveríamos estar propagando uma mensagem de auto-aceitação ao invés de entrar de cabeça nas novas cirurgias ou acreditar que nascemos no corpo errado.

Paradoxalmente, quanto mais nossa sociedade tenta se livrar dos estereótipos de gênero, mais ela se torna escrava deles. Ao dizer que pessoas podem nascer no corpo errado, transativistas estão na verdade dizendo que existe um grupo de sentimentos apenas disponíveis para mulheres, e outro grupo de sentimentos reservados para os homens. Portanto, eles acreditam, que aqueles que sentem coisas que não estão em conformidade com os padrões de sentimentos aceitáveis para seu sexo, devem mudar externamente seu gênero para estar em conformidade com suas mentes.

Por que estamos aceitando ideias retrógradas sobre feminilidade ou masculinidade? O que significa “se sentir” como uma mulher? Nós não deveríamos questionar essas ideias da mesma forma que questionamos as ideias de “lugar de mulher” ou “coisa de homem”? Quando foi que começamos a aceitar ideias de “pensamentos engendrados” ou “sentimentos engendrados”?

Como uma estudante de Linguística Arábica, eu recentemente aprendi que mulheres e homens não são tão opostos como são complementares. A ideia de que alguém pode se sentir de forma oposta ao sexo biológico não faz sentido nem linguisticamente, nem na realidade. Homens e mulheres são diferentes, mas não tão categoricamente a ponto de um poder se sentir o outro. Nós todos somos seres humanos, livres para pensar no quisermos sem ter que questionar nossa autenticidade como homem ou mulher.

“Bruce vive uma mentira. Mas ela não é uma mentira,” contou Bruce Jenner em sua entrevista com Diane Sawyer. Bruce, agora Caitlyn Jenner, contou a Sawyer que ele tem uma “alma de mulher”, que ele passou sua vida inteira “fugindo de quem realmente era.” Na época da entrevista, a voz de Jenner e sua aparência já eram bastante diferentes do que ele costumava ser no passado, mas a mudança não era drástica o bastante para dar a ilusão de que ele fosse uma mulher. De fato, Jenner parece bem mais feminina na capa de Vanity Fair. Ainda assim, se ele escolher fazer a cirurgia de “resignação” sexual, ainda não vai se tornar uma mulher, mas apenas uma ilusão de uma. Como o Dr. Paul McHugh, ex-psiquiatra chefe do Hospital Johns Hopkins, escreveu, “‘Mudanças de sexo são biologicamente impossíveis. Pessoas que passam pela cirurgia de redesignação sexual não mudam de homem para mulher ou vice-versa. Na verdade, eles se tornam homens afeminados ou mulheres masculinizadas.”

Pessoas que se opõe ao movimento trans são geralmente acusadas de preconceituosas. Na verdade, eu — assim como muitos — não cultuo nenhuma forma de ódio por pessoas que sofrem com disforia de gênero. Na verdade, eu me sinto profunda compaixão e preocupação por eles em seu sofrimento. Como alguém da área da psicologia, eu espero que nós possamos um dia encontrar maneiras mais holísticas, menos invasivas de tratar essa disforia. Entretanto, devo admitir que algo que me soa bastante insultuoso em relação a todo esse fenômeno. É um insulto ao outro sexo pensar que ao “se vestir como tal”, ou “falar como tal”, ou afirmar se “sentir como tal”, você pode ser tornar o que deseja. Ser homem não é sobre usar terno, e ser mulher não é sobre usar maquiagem. Se nós nos sentimos presos em nossos corpos, talvez não sejam os corpos que precisam ser mudados, mas talvez nossos espíritos que precisam ser reconectados.

Nuriddeen Knight é ex-aluna da Teachers College, Columbia University, onde ela conseguiu seu MA em psicologia com foco na criança e na família.

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