BoJack Horseman 4ª Temporada — Nossas mães são mais complexas do que imaginamos

O cavalo deprimido de Hollywood é o homem mais real e disposto à auto-análise da TV

Beatrice, Hollyhock, BoJack e o legado de depressão passado por gerações

Parece que a ficção de animação está chegando a outros patamares de complexidade narrativa. É curioso como por meio de personagens e mundos fantasiosos que a animação pode criar, questões extremamente humanas podem ser representadas tanto de forma metafórica, quanto pelo simulacro verossímil do nossa condição e existência. BoJack Horseman é uma animação criada por Raphael Bob-Waksberg e transmitida originalmente pela Netflix desde 2014, agora em sua 4ª temporada.

Em um mundo em que os animais humanoides e os humanos convivem em sociedade, um cavalo depressivo de Hollywood, famoso por fazer parte de um sitcom popular nos anos 90, decide retomar sua carreira contratando a escritora fantasma Diane (Alisson Brie) para escrever um livro com suas memórias. BoJack Horseman (dublado por Will Arnett) vive confortavelmente em sua mansão em Los Angeles com seu amigo Todd (Aaron Paul) mas nunca conseguiu produzir algo relevante desde o término de seu sitcom Horsing Around, além de ter um problema com álcool, drogas e falta de responsabilidade sexual e emocional para lidar com as pessoas em sua vida, decorrente de traumas familiares e problemas com a mãe.

É por meio das situações inusitadas criadas pelo mundo que humanos e animais convivem, se comunicam e participam das atividades sociais e midiáticas juntos que a comédia ganha proporções hilárias e ao mesmo tempo, cria uma maneira de atenuar as questões existenciais sérias das personagens que são tratadas na série.

Mas agora vamos falar das novas questões trazidas pela quarta temporada que apenas aprofundaram a história pessoal de BoJack e nos deram uma nova referência de análise dessa comédia-drama nonsense que parece um dos programas mais inteligentes da TV atualmente.

*spoilers*

Confesso que esperei pacientemente até o 8 de Setembro que apresentou a quarta temporada de BoJack Horseman. Desde a overdose de Sarah Lynn na terceira temporada, me perguntei o quão mais próxima a animação nonsense — em que um mundo em que animais e humanos convivem em igualdade de condições — poderia estar da complexidade e dificuldade das relações reais entre humanos no mundo contemporâneo. BoJack é uma série animada que parece puro entretenimento de cara, mas não se engane: em 23 minutos de episódio animado, vemos uma crítica da indústria da mídia poucas vezes analisada por outras séries, e com tanta liberdade.

A quarta temporada mescla o momento atual da sociedade capitalista americana — o processo eleitoral, as legislações financiadas por grupos lobistas, a epidemia de violência armada e a cobertura midiática extensiva — ao mesmo tempo que retoma um tema que molda o imaginário emocional dessa sociedade: as perdas humanas de toda guerra que os Estados Unidos criaram e o trauma geracional que isso causou nas famílias. Além de abordar o tratamento clínico de mulheres que foram lobotomizadas por “histeria” ou “depressão”, com uma visão de crítica de como essas práticas contribuíram para a formação do trauma, que agora desemboca na depressão quase suicida de BoJack.

Tudo isso parece complexo demais para uma animação de comédia, mas talvez o gênero esteja trazendo um frescor narrativo ao tratar e expor questões que geralmente seriam tratadas apenas no drama. Mas o drama das questões reais quando acoplado à risada da comédia induz à reflexão, e nesse aspecto, a narrativa de BoJack Horseman não peca. A série necessita de reflexão para que seja digerida desde sua primeira temporada, mas agora chegamos em um ponto crucial.

Terminamos a terceira temporada com o astro do sitcom dos anos 90 à beira do suicídio: dirigindo em alta velocidade pelas estradas da Califórnia depois de presenciar a overdose de sua amiga e ex-atriz mirim Sarah Lynn, BoJack tem pouca saída. Estragou a possibilidade de fazer o filme que sempre quis com a diretora que o compreendia, viu seu melhor amigo morrer sem o perdoar, desapontou quem o ajudou, presenciou a crueldade e o moedor humano da indústria do entretenimento sendo complacente e agora se sente completamente vazio percebendo a superficialidade da própria vida. Não sem motivo e também não sem merecer. Mas há uma nova integrante para essa história que vem em busca de BoJack e tem o potencial de alterar sua trajetória.

BoJack pela voz de Will Arnet

Fuga é o mecanismo de auto-sabotagem socialmente atribuído e justificado pela masculinidade criada pelo patriarcado, homens que se vêem confrontados apenas fogem das situações para evitar encarar uma verdade sobre si. BoJack não hesita em admitir seu comportamento viciado, e depois de uma série de decepções, simplesmente desaparece de Hollywood por quase um ano.

Nesse meio tempo, sua amiga Diane se esforça para oferecer um pouco de razão ao marido alucinado, que seduzido pelos lobistas, decide ser uma ótima ideia se candidatar a governador da Califórnia. Mr. Peanutbutter, em uma alusão à corrida eleitoral que elegeu Donald Trump presidente, é a celebridade de sitcoms e reality shows que encaixa perfeitamente nos planos dos lobistas de elegerem um governador que use de seu poder para influenciar legislações que facilitem a exploração de áreas ambientais protegidas e privatizações de presídios estudais. Piadas com a constituição estatal e o próprio processo eleitoral — que se torna uma corrida de ski —expõe a situação política trágica atual dos Estados Unidos ao mesmo tempo que chocam pela possibilidade de acontecerem na vida real. Vai saber.

“I am specificly on the side of the facts, and also on the side of feelings”

Diane agora trabalha para um blog “feminista” de entretenimento e segue frustrada com os caminhos que o jornalismo reservou pra ela. Com a ausência de BoJack, é por meio das mensagens de voz dela que os eventos do último ano são recapitulados. Todd, ao contrário, não parece saudoso com a partida de BoJack e segue com Princess Carolyn e Mr. Peanutbutter em seus planos mirabolantes.

É no segundo episódio que temos alguma notícia do paradeiro de BoJack: depois de um momento de epifania ao observar cavalos selvagens correndo ser interrompido pelas mensagens de Diane, BoJack vaga pelas estradas dos EUA até chegar em Michigan, na cidade de seu avô Joseph Sugarman (hehe), na casa em que sua mãe Beatrice foi criada. É por meio das revelações da infância de Beatrice, que são intercaladas pela estadia de BoJack na casa no presente, que o fio narrativo começa a guiar o espectador para desvendar o segredo familiar ainda desconhecido por BoJack.

Em temporadas passadas, Beatrice sempre apareceu como a mãe carrasca que debochava do próprio filho e reclamava abertamente da frustração que foi em sua vida casar e ter tido a família que teve. O profundo ressentimento entre BoJack e a mãe se somava às ausências e negligências do pai — que nunca foi uma figura em que BoJack pudesse se inspirar — e cresceu a ponto de se tornar um rompimento quase total entre BoJack e Beatrice após a morte do pai.

É no momento que BoJack se reencontra com a casa abandonada de sua família, que a história de Beatrice naquele mesmo espaço começa a tomar forma. Ela era parte de uma família tradicional de classe média alta, e seu pai era dono de uma pequena fábrica de cubos de açúcar na região. Sua mãe, Honey Sugarman, dona de casa dedicada, a tratava de forma diferenciada do irmão mais velho CrackerJack, com cuidados específicos da criação para submissão da feminilidade. CrackerJack tocava piano, cantava e chupava picolé, enquanto a pequena Beatrice se contentava em chupar limão e a tentar parecer bonita e magra. No período que compreendeu a Segunda Guerra Mundial, o irmão CrackerJack foi convocado pelo exército e morreu em combate, provocando consequências devastadoras no seio da família. Honey Sugarman não foi capaz de lidar com a falta de compreensão e apoio do marido e da sociedade após a morte do filho. A solidão e o sentimento de culpa à levaram a uma depressão profunda que foi tratada, como era comum na época, com lobotomia.

Honey Sugarman na escuridão pós lobotomia

A destruição visível da própria mãe fez Beatrice se comprometer a não amar. Para ela, foi o amor da mãe pelo irmão que fez a mãe enlouquecer e se perder para sempre. Além de ser uma compreensível forma de auto-defesa, a falta de amor na vida de Beatrice, e as restrições que ela enfrentaria ao decorrer de sua história por ser mulher, revelam parte da dificuldade dessa mãe de lidar com o próprio filho.

As restrições de gênero provocadas pelo patriarcado a obrigaram a se tornar compulsoriamente a mãe e esposa que Beatrice jamais quis ser. Seus planos de juventude eram o conhecimento, os estudos, as ideias e questionamentos. Uma jovem bastante parecida com a outra jovem que bate à porta de BoJack em busca de um teste de paternidade.

Hollyhock foi a supresa da temporada. A jovem cavalinha que vimos no fim da terceira temporada fazer uma ligação para BoJack, chega em Hollywoo na verdade, a procura da própria mãe. Hollyhock foi adotada por um “casal” poliamoroso de oito homens gays, então apesar de não conhecer seu pai biológico, o que Hollyhock busca ao procurar BoJack é a identidade e paradeiro de sua mãe.

Hollyhock é sossegada

Ao se aproximar de BoJack, Hollyhock descobre que tem uma avó ainda viva e mesmo com a falta de vontade de BoJack de encontrar a própria mãe, Hollyhock vai ao encontro de Beatrice em uma clínica de idosos. Beatrice agora está sofrendo com a demência e foi abandonada às próprias memórias, reconhece surpreendentemente Hollyhock quando a vê, mas não reconhece o próprio filho e passa a chamar BoJack de Enrietta.

Hollyhock se assusta com a quantidade de rancor que envolve a relação de BoJack com Beatrice, mas apesar dos traumas de BoJack, Hollyhock é capaz de perceber e empatizar com a situação vulnerável que a avó se encontra no momento. Beatrice precisa de ajuda, e quem ela tem no momento é BoJack e a neta recém aparecida.

Seus devaneios ativados pela demência a fazem fantasiar com um boneco que ela pensa que é de fato um bebê, e que se revela um segredo guardado da família Horseman, juntamente com a fixação de Beatrice com o peso de Hollyhock. As amarras de uma vida esculpida pela expectativa do pai - que desde cedo tomou as rédeas da educação de Beatrice após a lobotomia e visível morte em vida de sua mãe - fez a garota inteligente e curiosa se esforçar para caber em um papel que não lhe servia, abusando de pílulas para emagrecimento com naturalidade.

Beatrice se casou com o aventureiro Butterscotch Horseman, que tinha o sonho de escrever um romance social proletário e que a engravidou na primeira noite juntos. Eles fugiram para Califórnia para começar a nova vida em família que logo se tornou um pesadelo: as brigas e a rejeição de Beatrice ao papel social delegado à ela, a impediram de ter qualquer tipo de relação próxima com o filho BoJack, que cresceu na solidão de um lar desajustado. Após diversas discussões sobre as dificuldades financeiras, Butterscotch decide finalmente ir trabalhar na fábrica de Sugarman, e assim, a família Horseman deixa de ser parte do proletariado da região para pertencer à uma classe média emergente.

A nova posição social do casal fez Beatrice exigir a “ajuda” que ela necessitava: empregadas e babás. Podendo terceirizar os cuidados de BoJack à outras mulheres que ela pagava e criticava, Beatrice pôde enfim contentar-se com sua vida de dona de casa.

Essa mãe frequentemente infeliz que possui um segredo chega a seus últimos momentos de vida incapaz de evitar a verdade que carrega. O triângulo BoJack — Beatrice — Hollyhock tem o potencial de resolver mistérios dolorosos demais para serem revelados em sã consciência e por isso foram guardados em tantos lugares de lembranças traumáticas. É nessa interconexão dos traumas dessa família que nós, enquanto espectadores, podemos perdoar BoJack e Beatrice, entendê-los e torcer para que haja esperança, para que a busca de Hollyhock pela mãe seja um fator de união e redenção, apesar de tanta culpa e responsabilidade a ser atribuída.

Beatrice, como tantas mães que não chegamos a conhecer completamente, é mais complexa que nós imaginávamos.


Aplauda! Clique em quantos aplausos (de 1 a 50) você acha que ele merece e deixe seu comentário!

Quer mais? Segue a gente:

Medium
Facebook
Twitter