Glitch
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Oct 2, 2018 · 4 min read

Não importa o quanto você ajeite, enfeite ou finja que é inofensivo, o objeto inanimado que é uma “boneca sexual” é meramente um reflexo do que os homens sentem que têm o direito de fazer com as mulheres.

Por Meghan Walker — traduzido do Feminist Current

Bonecas Sexuais Aura Dolls

Surgiu semana passada a notícia que um “bordel de bonecas sexuais” estava abrindo em Toronto. Enquanto questões legislativas impediram que a Aura Dolls (Bonecas Aura) abrisse no local proposto, o revés é provavelmente temporário. Bonecas sexuais de silicone são o produto mais recente a entrar no mercado para homens satisfazerem suas fantasias alimentadas pela pornografia. Anunciado pela Aura Dolls: “cada buraco apresenta texturas diferentes e únicas, curvas e rigidezes para proporcionar sensações intensas que são impossíveis de alcançar mesmo através da penetração real”.

Que lindo, não? Outro passo desumanizante para as mulheres que já são consideradas meramente receptáculos para satisfazer os desejos e fantasias de cada homem. Sem dúvida, elas logo serão programadas para dizer “sim, senhor”, fazer café e varrer o chão.

Vamos ser claras. Não há nada inofensivo sobre “bonecas sexuais”. Elas representam a degradação final das mulheres. Elas representam ainda outro nível de distanciamento da sociedade de sua responsabilidade de valorizar, respeitar e proteger as mulheres. As “bonecas sexuais” são uma manifestação da cultura pornográfica e da crença da sociedade dominante masculina de que ela precisa fazer o que for possível para garantir que homens possam fazer sexo quando e como quiserem, não importa a que custo.

Não é uma boneca de plástico debaixo deles. É toda mulher que os vetaram; toda mulher que eles não podem ter; todas as mulheres que foram mais bem-sucedidas, mais elogiadas e mais desejadas do que o homem pode sonhar em ser… E agora o homem pode fazer o que quiser com aquela mulher. Não se engane, isso não é uma boneca que ele está comendo, ou talvez estuprando, sufocando ou batendo — são todas aquelas mulheres que ele não pode alcançar.

Talvez um dia seja uma mulher de verdade.

Imagem do site 'Campaign Against Sex Robots' (Campanha Contra Robôs Sexuais)

Os homens não têm um direito ao sexo. As feministas trabalharam por séculos para livrar mulheres da objetificação que decorre da opressão. É uma escalada íngreme tornada ainda mais difícil pelas barreiras jogadas em nossa direção. Mulheres pouco vestidas e meninas pequenas vestindo sutiãs e as meias-calças translúcidas são usadas para deixar mais sexuais as propagandas de quase qualquer produto — carro, cerveja, cigarro, roupa, sapatos e lingerie. Quanto mais objetificada a mulher, melhor o anúncio e maior os rendimentos.

A pornografia está livremente disponível a todos, incluindo crianças, com uma busca simples em um telefone. É violenta, desumanizante, e cai dentro do espectro da tortura. Suas vítimas são mulheres e meninas. Graças à cultura pornográfica, a palavra “consentimento” perdeu todo o significado. Na pornografia, as mulheres dizem “não” enquanto lágrimas correm por seus rostos. Sua dor e medo são reais. A mensagem recebida pelos homens é “faça com mais força, faça por mais tempo e faça-a sofrer mais”. As crianças se aglomeram em pequenos grupos em playgrounds da escola durante o recreio ou almoço, prestando atenção ao pornô degradante na tela da criança que pode levar seu telefone à escola.

Enquanto as crianças estão sendo educadas sobre o consentimento nas escolas, simultaneamente estão recebendo mensagens contraditórias da pornografia, e estão aprendendo que as mulheres são objetos descartáveis.

A cultura pornográfica ensina a meninas que seu valor vem da atenção que homens e meninos as dão. Para receber essa atenção elas têm que se transformar em um objeto para o prazer masculino. Os meninos aprenderam na pornografia que têm o direito de usar e abusar de mulheres e meninas. Alguns meninos e homens foram tão convencidos disso que quando mulheres lhes dizem “não” eles ficam raivosos e cheios de ódio.

As meninas adolescentes e as mulheres jovens são mais objetificadas hoje do que em qualquer outra época na história. Os brinquedos que elas brincam, as roupas que elas usam, os filmes e os programas da televisão que elas assistem, e os videogames e jogos online que elas jogam representam as mulheres e meninas como objetos sexuais descartáveis.

“Os bordéis de bonecas sexuais” são um sintoma de um problema maior da misoginia — o direito dos homens se sobrepondo aos das mulheres. Até que os direitos humanos das mulheres estejam respeitados, as mulheres continuarão a não ser nada além de objetos descartáveis.

E o que, no final das contas, é mais descartável do que uma boneca de silicone? Quando acaba de ser usada por um homem, é limpada e transferida para outro usuário. Quando é quebrada, estragada, amassada, e não mais útil, é jogada fora junto com o lixo. Soa como é a vida para muitas mulheres reais, não?

Diga-me outra vez como as bonecas sexuais de silicone são inofensivas fantasias masculinas.

Nós não deveríamos nos surpreender que estamos aqui em 2018. O que é surpreendente, e deve causar indignação, é como tantas pessoas permitiram que nós chegássemos nesse ponto.

Megan Walker é diretora executiva do Centro de mulheres abusadas Londres (London Abused Women’s Centre).


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