Brincar de boneca:Como isso educa para o cuidar?

Ingrid Peixoto
Feb 15, 2019 · 3 min read

Porque a forma como as crianças brincam indicam como elas poderão ser no futuro.

Sempre que se fala em brinquedo para crianças é automático para a maioria das pessoas encaixar meninas com bonecas, meninos com carrinhos. E não é por acaso, brincar de bonecas é uma forma de socializar mulheres para o cuidado, para a empatia e para enraizar nelas a vontade de ser mãe. A Maternidade compulsória, termo usado para designar o fenômeno social que de forma subjetiva empurra mulheres para a maternagem, ensina para meninas desde muito pequenas que elas devem cuidar de suas “filhinhas”, e serem as “mães” de suas bonecas.

Já os meninos não são incentivados a brincar de bonecas, nem estimulados a serem cuidadores, pois é raro serem vistos como “pais” de seus bonecos. Meninos são educados para serem provedores, não cuidadores. Seus brinquedos os estimulam a serem protagonistas de suas vidas e os bonecos são normalmente heróis como Batman, Hulk, Homem-aranha,e nas suas brincadeiras os meninos se tornam esses heróis, nunca seus pais. Nesse quesito, a boneca Barbie foi uma revolução para as meninas que pela primeira vez puderam se idealizar numa personagem feminina adulta, e não ser apenas a sua mãe. Mas enquanto meninos com seus bonecos brincam de ser super-heróis salvando o mundo, as meninas costumam brincar de casinha com suas bonecas-bebê e mesmo com as Barbies, sendo mantidas na atmosfera da vida doméstica. É também comum presentear meninas com panelinhas, ferros de passar, vassourinhas e uma variedade de brinquedos que simulam os trabalhos que envolvem ter um lar. Mas o problema não é meninas terem bonecas e meninos terem carrinhos, o problema é confinar meninos e meninas nessa lógica sexista de brinquedos e brincadeiras, reduzir o universo infantil deles à esteriótipos. Meninas não devem crescer achando que filhos e casa são obrigações femininas, e meninos não devem crescer achando que não precisam participar dos cuidados com filhos e a casa, quando não deixamos isso claro para as crianças, isso implica que estamos empurrando silenciosamente mulheres para serem boas cuidadoras, e donas de casa, enquanto deixamos os homens serem individualistas e negligentes com sua família e tarefas do lar.

E é exatamente isso que se reflete na vida adulta: onde mulheres trabalham 72% a mais do que homens nas tarefas domésticas, Homens tendem a ser mais narcisistas que mulheres , e não sentem remorso em abandonar mulheres grávidas de seus filhos (39% dos lares são de mães solo) abandonar os filhos ( 5,5 milhões de crianças não têm o nome do pai na certidão de nascimento)abandonar mulheres presas (Abandono é a principal diferença entre mulheres e homens na cadeia)e até suas esposas com câncer (Mulheres enfrentam o câncer e são abandonadas pelos companheiros). Essa socialização diferenciada é um processo multifatorial, que claro, não envolve apenas o brincar na infância, e alguns homens e mulheres escapam dessas estatísticas majoritárias, mas esses comportamentos são desenvolvidos na infância e adolescência e estão intrinsecamente ligados ao papel sexista que se atribui aos meninos e meninas. É contraproducente reclamar que “homens não ajudam em casa”, “não tem jeito com crianças”, “não cuidam das esposas doentes” etc, quando não se educa os homens para isso.

Então para que as próximas gerações de mulheres sejam menos empurradas para a maternidade compulsória e para que homens sejam melhores companheiros, melhores cuidadores e mais conscientes que as tarefas domésticas são obrigação dos moradores da casa e não uma atribuição feminina deixemos as crianças livres para brincar, sem moldar seus gostos com esteriótipos ultrapassados. Incentivemos meninos ao cuidar, a sentir empatia, incentivemos meninas a serem protagonistas de suas brincadeiras, sem estarem sempre cuidando de outrem.
Sabe o máximo que pode acontecer com um menino que brinca de bonecas? Ele pode virar um bom pai! Que perigo heim? Brincar de casinha então, que homem autossuficiente ele pode se tornar né?
E uma menina que brinca de super herói, carrinhos e joga bola pode sei lá, acabar crescendo como uma mulher corajosa, boa motorista e com uma ótima coordenação motora!


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Uma leitora feminista, e nas horas vagas arquiteta e urbanista.

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