Chamando todos os cérebros femininos: parem com o “neurossexismo”

Tradução de Women’s eNews

Bianca Chella
Mar 11, 2017 · 5 min read

Os meios de comunicação estão mais uma vez sugerindo que um novo estudo comprova os antigos estereótipos de gênero sobre as mulheres serem boas na intuição e nas habilidades sociais e os homens como sendo melhores na compreensão dos sistemas e em tomar ações.

Uma equipe de pesquisadores da Universidade da Pensilvânia usou imagens de alta tecnologia nos cérebros de 428 homens e 521 mulheres de 8 a 22 anos e descobriu diferenças no caminho neural entre homens e mulheres (o estudo foi publicado na Proceedings of National Academy of Sciences).

Como o Guardian explicou, “Os cérebros das mulheres são adequados às habilidades sociais e de memória, os dos homens à percepção e coordenação.”

Outra cobertura foi semelhante. A notícia da CBS decretou: “Para qualquer mulher que sente que tentou — e falhou — em raciocinar com um homem ou homens que pensam que são melhores em tomarem ações, um estudo científico novo confirmou essas suspeitas.”

Anderson Cooper disse na CNN que talvez a ideia de Marte e Vênus sobre os sexos estivesse correta. O jornalista da Filadélfia observou: “pode haver alguma verdade às opiniões geralmente comuns sobre o que faz o ‘tiquetaque’ dos homens e das mulheres.”

Transformar os dados científicos neste tipo de psicologia pop instantânea ignora a complexidade da ciência do cérebro, como a história mostrou.

A ciência do século XIX decidiu que os cérebros maiores dos homens os tornavam intelectualmente superiores. Por causa de seus cérebros relativamente menores, as mulheres eram consideradas incapazes de um pensamento racional de alto nível. Elas certamente não pertenciam às universidades e durante séculos elas não eram admitidas nesses locais.

Mas depois aprendemos que a inteligência não varia muito entre homens e mulheres. Neste caso, o tamanho do cérebro significa pouco.

O que significam as diferentes conexões neurais entre os sexos? Só o fato de que elas existem nos diz muito pouco. A maioria dos neurocientistas hoje concorda que um grande mistério do cérebro é a relação entre estrutura e função.

O estudo também não nos diz nada sobre cultura e socialização, que têm um enorme efeito sobre o comportamento. Em seu livro de 2010, “Delusions of Gender”, a neurocientista Cordelia Fine, da Universidade de Melbourne, ofereceu um exame exaustivo de mais de 650 estudos revisados por pares. Ela conclui que a aprendizagem social e as expectativas culturais representam a maioria das diferenças observadas entre os sexos.

O cérebro está sempre mudando

O cérebro está mudando e fazendo novas conexões durante toda a nossa vida. Nossas escolhas — e aquelas que são feitas por nós, especialmente quando somos crianças — são as principais forças que moldam nosso destino. Nenhum emaranhado estático e inato de neurônios o faz, embora, é claro, a biologia desempenhe um papel.

A noção de que você pode explicar diferenças de gênero observadas no comportamento por diferenças de gênero em estruturas cerebrais ou hormonais é, de acordo com Fine, “sexismo disfarçado em finura neurocientífica” — ou o que ela chama de “neurossexismo”.

O comportamento não é estático. Habilidades que achamos que são “hardwired” (ou interligadas) podem vir a não ser. Por exemplo, os testes geralmente mostram que os homens têm melhores habilidades de rotação mental do que as mulheres; imaginando como objetos aparecerão quando são girados no espaço.

Um grupo de cientistas canadenses observou que os jovens que jogavam videogames envolvendo rastreamento tinham habilidades mentais de rotação superiores. Em vez de apenas notar que os machos fizeram melhor do que as fêmeas, e marcando a diferença até o cérebro feminino, a equipe deu mais um passo. Os marcadores baixos foram divididos em dois grupos; um grupo passou 10 horas jogando videogames de rastreamento, enquanto os outros não receberam esse treinamento. O que aconteceu? O treinamento quase completamente erradicou a diferença de gênero nas habilidades de rotação mental. E quando os pesquisadores retornaram seis meses depois, o grupo que recebera o treinamento tinha mantido seus ganhos.

Não tem muito “hardwiring” aí, não é mesmo?

Outra noção popular é de que os machos são inerentemente melhores em matemática do que as fêmeas.

Verdade? Não de acordo com um enorme estudo de Jonathan M. Kane e Janet E. Mertz, da Universidade de Wisconsin. Eles analisaram pontuações de mais de meio milhão de alunos do quarto e do oitavo anos de mais de 60 países. Suas conclusões: não houve essencialmente diferenças de gênero entre meninas e meninos em desempenho matemático. Nos poucos casos em que uma pequena diferença ocorreu, Mertz disse:

“Não é uma questão de biologia: nenhuma das nossas descobertas sugerem que uma diferença biológica inata entre os sexos é a principal razão para uma diferença de gênero no desempenho matemático”.

Suposições sobre o cérebro masculino

As estruturas cerebrais dos homens presumivelmente levam à falta de emoção e capacidade de comunicação.

No best-seller “The Female Brain”, Louann Brizendine afirma: “Uma mulher sabe o que as pessoas estão sentindo, enquanto um homem não consegue detectar uma emoção, a menos que alguém chore ou ameace danos corporais”.

Os homens são supostamente mais prováveis do que as mulheres para responderem aos problemas de um colega de trabalho, dando conselhos, brincando, mudando de assunto ou não dando nenhuma resposta. Para os homens, é dito, status e domínio são importantes. As mulheres supostamente respondem ao problema de um colega compartilhando um problema semelhante ou expressando simpatia.

Mas isso não é verdade, de acordo com pesquisadores da Universidade de New Hampshire.

Quando confrontados com problemas de outras pessoas, homens e mulheres usam essencialmente os mesmos tipos de respostas. Tanto homens como mulheres em grande parte fornecem apoio, dando conselhos e expressando simpatia. Os sexos são notavelmente iguais nos tipos de apoio que eles oferecem. A conclusão clara: as diferenças de gênero na comunicação, especialmente dando apoio aos outros, são relativamente pequenas em magnitude. Os homens são plenamente capazes de oferecer e receber comunicações de apoio. As mulheres não têm um estilo especial de “comunicação”.

Tudo isso importa porque a cobertura da mídia sobre o que homens e mulheres podem e não podem fazer alimenta a disseminação de estereótipos.

Nós encontramos, na pesquisa para nosso livro “The New Soft War on Women”, que os antigos estereótipos de gênero não desapareceram, eles simplesmente se tornaram invisíveis. Eles são mais sutis e mais difíceis de ver, mas não perderam o poder. A ideia de que os cérebros das mulheres ou hormônios ou “naturezas” fazem com que elas não estejam em uma posição de liderança, sejam irracionais e fora de controle ou boas em comunicar, mas ruins em tomar decisões, são tóxicas. Esses estereótipos são os principais obstáculos para as mulheres que estão tentando avançar na sociedade.


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Apenas gosto de estudar e disponibilizar materiais sobre temas variados. Não me usem como referência a movimentos políticos. Não sou ativista e nem nada.

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