Como um psicoterapeuta que apoiou os direitos dos transgêneros por anos foi submerso em um pesadelo Kafkiano depois de perguntar se os jovens que mudam de sexo podem se arrepender depois.

Tradução por Júlia Cabral

LARBAC
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Feb 9, 2018 · 11 min read

Original: http://www.dailymail.co.uk/news/article-4979498/James-Caspian-attacked-transgender-children-comments.html

Ninguém poderia acusar o psicoterapeuta James Caspian de ser um intolerante ou preconceituoso contra as pessoas transgênero. Suas referências LGBT — isto é, lésbica, bissexual e transgênero — são impecáveis. Para este cauteloso homem gay, sua referência não é apenas ser responsável pela administração da caridade transgênera The Beaumont Trust, mas sim a sua dedicação de mais de uma década de vida para aconselhar centenas de pacientes que desejam mudar seu gênero.

Ele publica trabalhos acadêmicos sobre o assunto, contribui em livros e aborda as melhores ideias em conferências de profissões da área de saúde ao redor do mundo — e fez treinamento intensivo em colegas psicoterapeutas sobre a conscientização transgênero.

Se alguma vez houve um especialista nessa área, James, de 58 é ele. Mas, ultimamente, ele teve uma visão política cada vez mais frustrante em torno do lobby trans depois de que um estudo que James queria realizar em pessoas transexuais foi bloqueado pela Bath Spa University por ser “politicamente incorreto”. A natureza da pesquisa? Fazer perguntas sobre o aumento do número de pessoas que estavam mudando de gênero e, em seguida, se arrependendo.

“Eu não sou anti-trans. Ajudei centenas de pessoas enquanto elas estavam transicionando, mas quando comecei a fazer as primeiras pesquisas fiquei surpreso com o que descobri”, ele diz. “Não tanto porque parecia haver um número cada vez maior de pessoas jovens transicionando, particularmente mulheres, mas sim porque muitos deles tentavam reverter a transição mais tarde”.

“Algumas dessas jovens disseram que haviam cometido um erro, mas que tinham sido influenciadas por uma espécie de movimento social acelerado pela internet. Quando eu conversei com colegas sobre o que estava achando, um deles disse: ‘Não sabia que poderíamos falar sobre isso’. A discussão está sendo censurada por uma minoria pequena, mas com voz, na comunidade LGBT, que parece ter uma agenda para empurrar os direitos trans até o limite, custe o que custar. É por isso que essa pesquisa era importante. Acho que nós chegamos em um ponto como sociedade onde as pessoas estão com medo de dizer o que pensam, e isso não é uma boa coisa no meu campo”.

James não está sozinho em suas preocupações. Desde que a sua entrevista na Radio 4 foi a público no mês passado sobre a censura perturbadora do debate sobre a identidade de gênero, ele diz que foi inundado com mensagens de apoio.

Uma mensagem de uma mulher trans dizia: “Conheço muitas pessoas, inclusive eu, que apoiam plenamente sua pesquisa e foi tão encorajador ouvir você falar sobre um assunto tão importante e contemporâneo. Jovens precisam entender o enorme passo que é tomar essa decisão. Vamos torcer para que a universidade veja algum sentido. Eu te desejo o que há de melhor.”

O senso comum, no entanto, parece ter desaparecido nesse espaço em particular. James está interessado em apontar que se preocupa profundamente com as pessoas transgêneros, mas diz que também se preocupa com jovens impressionados, ​​que poderiam estar apressados em tomar decisões e vão se lamentar mais tarde.

“Eu quero ser completamente transparente. Eu não acho que tem algo de errado com pessoas explorando identidades de gênero”, ele diz. “Entretanto, algumas pessoas estão passando por tratamento médico e cirurgias das quais eles vão se arrepender”.

James escolhe suas palavras cuidadosamente. Ele teme que tenha que ser cauteloso sobre o que diz por medo de ser massacrado por grupos sociais. “O medo parece definir o debate em torno dos direitos trans”, ele diz. Desafie os extremistas e você será acusado de ser transfóbico — alguém preconceituoso contra pessoas transsexuais. Parece quase absurdo que James se encontre nesta posição, já que ele é um dos principais especialistas em transgênero da Grã-Bretanha.

Depois de se formar na Universidade de Westminster com um diploma em chinês, ele decidiu que queria ser um psicoterapeuta e fez pós-graduação no National College of Hypnosis and Psychotherapy.

Ele desenvolveu um interesse em questões de transgênero depois de basear sua dissertação em transexuais chineses e ser convidado em 2001 a se tornar um administrador da instituição de caridade transgênero, The Beaumont Trust. James também é um membro da Associação Profissional Mundial da Saúde de Transgêneros. Até o começo do ano, ele era um administrador do órgão regulador oficial de psicoterapia, o UK Conselho de Psicoterapia. James ocupou o cargo por dois anos, no qual atuou como consultor para um grupo de trabalho elaborando um “Memorando de Entendimento” sobre questões dos transgêneros. O “Memorando de Entendimento” é um acordo entre vários grupos profissionais de saúde, religiosos e LGBT sobre como lidar com pacientes.

O tópico abordado foi a ‘terapia de conversão’, tema altamente emotivo. Essa terapia é nada mais a prática de tentar alterar a orientação sexual de um indivíduo, ou o seu desejo de mudar o gênero, através do aconselhamento. A prática remete ao início do século XXI, quando a homossexualidade e o transgenerismo foram consideradas doenças que poderiam ser tratadas. Todos do grupo de trabalho — incluindo James — concordaram que a terapia de conversão deveria ser banida.

James, no entanto, queria que o memorando aceitasse especificamente o fato de que algumas pessoas se arrependiam da transição e que há pacientes que podem ter outros problemas psicológicos subjacentes. Sem descobrir esses fatos irrefutáveis, ele temia que profissionais da saúde pudessem estar sendo impedidos de explorar motivos potenciais mais profundos para um paciente dizer que quer mudar de sexo. O comitê, que incluiu profissionais de saúde e representantes do grupo LGBTIQ (onde “I” representa intersex e ‘Q’ é queer) Pink Therapy e a Associação de Conselheiros Cristãos, decidiu não incluir as recomendações de James.

O Memorando de Entendimento entrará em vigor este mês. Efetivamente, ele poderia impedir um terapeuta, quando apresentado a uma pessoa que quer mudar o sexo, de explorar qualquer possível motivo posterior por trás da sua decisão. E isso perturba muito James.

“Qualquer terapeuta ético não tentaria impor sua visão de como um cliente deveria ser, mas ele certamente deveria poder explorar se a identidade de gênero é realmente o seu problema psicológico. Precisamos de uma estrutura que permita que os terapeutas explorem livremente outras questões subjacentes que podem estar presentes antes de iniciar o tratamento de redesignação, e sem o medo de ser acusado de terapia de conversão. O Memorando de Entendimento está dizendo que devemos aceitar qualquer identidade de gênero que um cliente diga sem qualquer questionamento”.

“Eu era uma dessas pessoas envolvidas na causa que entendia a transição do ponto de vista clínico e não era um ativista, então não tenho nenhuma questão a recriminar — apenas uma preocupação com clientes e profissionais”, ele diz.

“Quando vi a proibição da terapia de conversão, eu disse: ‘Se você não for cuidadoso, vai fazer as pessoas pensarem que elas não podem questionar o que alguém que foi até elas está dizendo, e isso é perigoso. Conselheiros já me contataram para dizer que estão preocupados que se um jovem cliente — digamos um jovem de 16 anos — venha a eles com uma série de problemas de saúde mental ou uma história de abuso sexual e diga ‘eu quero transicionar’, que não será seguro dizer ‘bem, vamos olhar para essa abuso sexual que você sofreu. Isso poderia ter alguma coisa a ver com a forma como se sente sobre o seu corpo? ‘, porque isso poderia ser interpretado como terapia de conversão.

“Uma psicoterapeuta que trabalha com jovens me ligou na noite passada para dizer que está preocupada com o fato de que este memorando poderia simplificar as coisas em um grau assustador. Ela disse: ‘Se tudo que eu fizesse fosse afirmar que os meus pacientes são trans sem examinar qualquer problema de saúde mental eu não acho que seria capaz de ajudá-los apropriadamente’”.

“Do mesmo jeito, as pessoas temem que não seja seguro se tratar com alguém que quer destransição, ou seja, reverter a sua mudança de sexo. “Digamos que uma mulher trans que não é mais feliz nesse gênero vai a um conselheiro para dizer que quer voltar a viver como um homem. Esse conselheiro pode ser acusado de terapia de conversão se ele o ajudar?”.

“Eu continuava argumentando por uma expressão específica que diga: ‘Nós reconhecemos que algumas pessoas se arrependem da sua transição e as revertam ou mudam de ideia’. Mas toda vez que eu tentei a expor, ela foi rejeitada. Existem muitos ativistas na comunidade LGBT e eu sinto que todo mundo tem medo deles”.

“Um deles me disse no telefone: ‘Você vai impedir esse memorando?’. É claro que eu não queria bloqueá-lo, mas queria tornar seguro para todos. Foi um telefonema longo e bastante intimidador. Eu senti que tudo o que dizia estava sendo interpretado como uma ameaça. Eu senti que essa pessoa não estava preparada para ouvir qualquer coisa do que eu estava dizendo. Isso fez eu me arrepiar inteira, literalmente. Esse é um tipo de medo realmente poderoso. O problema é que os ativistas sentem que têm o direito de dizer qualquer coisa, e quem não concorda com eles pisa em ovos por medo de ser acusado de ser transfóbico”.

“Eu fiquei noites sem dormir por causa do Memorando. Eu acordava às 3h da manhã pensando nisso. E naquele momento, eu sinceramente senti que era a única pessoa no mundo que estava carregando os interesses das pessoas que transicionaram e se arrependeram. Ninguém mais envolvido sabia o que eu sabia sobre como essas pessoas estavam sofrendo, porque eu estava estudando elas”.

Originalmente, James decidiu embarcar na sua pesquisa depois de conversar com o internacionalmente respeitado Dr. Miroslav Djordjevic, professor de urologia e cirurgia na Faculdade de Medicina da Universidade de Belgrado, na Sérvia, quando ele estava em Londres para uma conferência, há três anos atrás.

“Ele faz muita cirurgia de redesignação de gênero em pacientes do mundo todo. Dr. Miroslav disse que, no ano passado, realizou sete operações de reversão da redesignação de gênero em pessoas que transicionaram do masculino para o feminino e depois decidiram que estavam errados e queriam voltar para o que eram antes”.

James revela que “isso significa que eles não poderiam recuperar seus genitais masculinos, então na verdade o Dr. estava criando phalloplasties [a tradução literal, faloplastias, significa outro tipo de cirurgia no Brasil], substituições cosméticas desenvolvidas na Primeira Guerra Mundial para soldados que foram terrivelmente feridos”.

“Ele disse que seu trabalho sugeriu que a porcentagem de destransição de pessoas estava aumentando e havia necessidade de pesquisa. Eu decidi fazê-la, então fui à Bath Spa University e me inscrevi para um Mestrado em Aconselhamento e Psicoterapia, e comecei a fazer pesquisas preliminares.

“Tradicionalmente, as pessoas sempre pensaram que a taxa de arrependimento entre aqueles que transicionam é entre 1 e 5%, então a postura comum entre as pessoas do mundo transgênero é de despreocupação. Mas essa taxa é baseada em uma pesquisa antiga dos anos 80 e 90. Minha pesquisa preliminar sugeriu que essas porcentagens estavam desatualizadas. Basta você olhar o crescimento do número de pessoas que se arrependem e revertam sua transição na internet, em sites e blogs. No ano passado, um grupo de jovens mulheres nos Estados Unidos que destransicionaram teve sua primeira convenção. Há muitas postagens na internet daqueles que se arrependem de mudar de gênero. Cada um escreve de uma forma desesperadamente triste”.

Vamos tomar o exemplo de um anônimo de 30 anos de idade que passou de mulher para um homem e agora está em destransição. Ele escreveu em um blog:

James, um homem que é profundamente sentimental e começou a trabalhar como enfermeiro psiquiátrico auxiliar, balança a cabeça. “Muitas das pessoas mais jovens que se apresentam nas clínicas de gênero têm um histórico de problemas de saúde mental, tais como auto-mutilação, ansiedade social, distúrbios alimentares e assim por diante. Eles vêem a transição como sua panacéia”.

Além disso, James diz que a proporção de pessoas atendidas em clínicas de gênero que se encaixam no espectro autista é aproximadamente seis vezes maior que a população em geral.

“O discurso ativista é: ‘Ah, é porque eles são trans, então, se eles não fossem discriminados e pudessem ser apenas eles mesmos, não teriam teriam problemas de saúde mental “. Isso é muito simplista. Eu queria encontrar a verdade”.

Em Novembro de 2015, James apresentou o primeiro título da sua proposta de pesquisa do mestrado: “Um exame das experiências de pessoas que sofreram uma cirurgia de reversão da redesignação de gênero”, que foi aceita.

“Algumas pessoas me contataram para dizer: ‘sim, nós revertermos nossa cirurgia de gênero, mas estamos tão traumatizados que não queremos falar sobre isso’. Isso me fez perceber o quão importante é essa pesquisa”.

“Depois, um grupo de jovens mulheres nos Estados Unidos me contatou. Eles transicionaram de mulher para homem e fizeram mastectomias duplas, e depois destransicionaram para voltar a ser mulher. Elas pararam o tratamento hormonal que reprimia o ciclo menstrual, mas não queriam uma cirurgia para reconstruir seus seios. Eu queria incluí-las na minha pesquisa, particularmente as que disseram que a ideia original de transicionar veio de uma pressão social e política, não de razões psicológicas”.

Ele apresentou um título revisado em outubro de 2016: “Um exame da experiência de pessoas que foram submetidas ao Procedimento de Reatribuição de Gênero e / ou reverteu uma transição de gênero”. James aceitou que a pesquisa talvez não fosse “politicamente correta”, mas sentiu que era importante. No mês seguinte, a universidade rejeitou sua proposta com base no fato de que “a publicação de um material desagradável em blogs ou mídias sociais pode prejudicar a reputação da Universidade”.

“Tudo o que eu queria fazer na minha pesquisa era ouvir o que as pessoas estavam dizendo e relatar”, diz James.

“A sociedade está mudando tão rapidamente que muitas pessoas se sentem deslocadas e procuram sua identidade em outro lugar. O fato é que agora a idéia de identidade trans está sendo trazida para a sala de aula e está por toda a internet”.

“Eu realmente acho certo que pessoas que transicionaram tenham direitos e sejam legalmente reconhecidas pelo seu gênero. Pessoas lutaram por anos por isso e é realmente importante. Algumas pessoas precisam transitar e se beneficiam disso. É um campo complexo, e é por isso que precisamos ter uma discussão saudável sobre e não ter medo de fazê-la. Isso se tornou um tipo de emaranhado Kafkiano bem estranho. Alguém precisa entender o que está acontecendo”.

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