Conceitos feministas que todos deveriam conhecer

Entender as necessidades das mulheres e promover a sua inclusão efetiva na sociedade é benéfico para todos, mas muitas pessoas recusam essa ideia.

Andreia Nobre
Sep 8 · 8 min read

O feminismo é a luta pela emancipação política das mulheres. No contexto global, significa que o sexo feminino é subjugado ao masculino de todas as formas, em todas as esferas. A opressão da mulher ocorre, fundamentalmente, a partir da exploração da sua capacidade reprodutiva, isto é, da sua função biológica de gestar. Muitos dirão que, sem o esperma, não é possível a concepção. Esse fato biológico, no entanto, não invalida o fato, também biológico, de que sem útero não há gestação. Somos, em muitos aspectos, apenas incubadoras ambulantes, como Offred, personagem principal de O Conto da Aia, de Margaret Atwood.

A teoria feminista foi desenvolvida para que as mulheres pudessem entender a sua história, a origem do patriarcado e como ele age para subjugar as mulheres. Entender o funcionamento do patriarcado nos dá ferramentas para que possamos reagir à opressão e pôr fim ao nosso sistema prisional involuntário. Existem atualmente diversos conceitos à disposição para que possamos compreender por que passamos e como podemos lutar contra o machismo. São ferramentas utilizadas pelo sistema patriarcal para silenciar, desnortear e fragilizar as mulheres, tornando-as presas mais fáceis das suas armadilhas. Ninguém gosta de estar numa prisão, mas se você tornar a prisão um lugar desejável, disfarçando-a de porto seguro, a presa passa a desejá-la.

Embora a opressão da mulher, na sua origem, seja a exploração da sua capacidade reprodutiva, muitos não reconhecem isso pelo fato de que há mulheres, ainda que em números pequenos, em cargos de prestígio ou com alguma visibilidade. Muitos usam esse fato para dizer que o sistema patriarcal não existe e que as mulheres já conquistaram o seu espaço de direito na sociedade. Mas isso é falacioso. Mesmo mulheres proeminentes enfrentam abuso psicológico e, embora estejam mais seguras de abuso físico ou sexual, elas não estão imunes. Exemplo disso são os casos da atriz Sharon Tate, assassinada por Charles Manson, Luiza Brunet, agredida pelo namorado milionário, ou Heather, a mulher que Johnny Depp agrediu fisicamente.

Veja alguns conceitos muito importantes que você precisa conhecer para entender adequadamente a discussão que o feminismo propõe:

Feminismo: movimento pela libertação da mulher do jugo do sistema patriarcal. Inclui a luta pela autonomia do seu próprio corpo (decidir se quer ter filhos, ou quando quer tê-los, ou quantos filhos quer ter, por exemplo), além de combater a hipersexualização dos corpos femininos e a busca por autonomia e independência financeira. O feminismo é antirracista e anticapitalista. Saiba mais aqui.

Sistema patriarcal: conjunto de normas que centra os homens como líderes, fundadores e organizadores de uma sociedade, colocando as mulheres em uma posição de subalternas. Ainda que haja mulheres em posição de liderança e prestígio social, todas as mulheres estão sujeitas às normas do patriarcado. A intensidade da opressão que mulheres vão sofrer vai depender especificamente de sua classe social ou da cor da sua pele (as opressões estruturais). O patriarcado é misógino e tem muitas estratégias para manter o seu domínio sobre as mulheres. Saiba mais aqui.

Opressão estrutural: quando um grupo inteiro sofre o mesmo tipo de subjugação, imposto por outro grupo, que domina o espaço público . A opressão estrutural pode ser dividida em três grupos principais: por sexo (afetando metade da população mundial nascida fêmea humana), pela cor da pele (preconceito às pessoas negras, pardas e qualquer outro grupo que não tenha a cor da pele branca), que também pode ser descrito como “eurocentrismo” e pela classe social (ricos x pobres).

Mulher: Fêmea adulta humana. Mulheres, nascidas com anatomia feminina facilmente observada e registrada ao nascimento (assim como o homem é um macho adulto humano). Cerca de 99% dos humanos nascem com características biológicas externas facilmente observáveis. Estima-se que 1% da população humana tenha alterações no desenvolvimento das características sexuais externas e internas, que são chamadas de pessoas intersexo. Ao contrário do que muitos acreditam, pessoas intersexo não são um “terceiro sexo” ou andróginas/hermafroditas. Pertencer a um dos dois sexos biológicos significa nascer com o equipamento (completo ou com alterações) para produzir grandes gametas (óvulos), no caso das pessoas do sexo feminino, ou pequenos gametas (esperma), no caso das pessoas do sexo masculino. O fato de que pessoas intersexo e pessoas sem condições intersexo possam ter dificuldades em produzir gametas não interfere na classificação de pessoas interesexo como sendo do sexo masculino ou feminino.

Heterossexualidade compulsória: é um regime político utilizado pelo sistema patriarcal que dita que a norma é a relação heterossexual e que toda relação não heterossexual é desviante. Essa estratégia é fundamental para o patriarcado, pois que garante mulheres necessariamente vão estar a serviço sexual e reprodutivo dos homens. É muito simples ver como essa regra se estabelece a partir de como o único modelo de relacionamento disponível, aceito, difundido, amplamente legalizado e celebrado é o da união heterossexual e de como a homossexualidade é vista socialmente como um desvio, uma aberração. Saiba mais aqui.

Misoginia: Palavra grega que significa ódio as mulheres (miso: ódio/gine: mulher). A misoginia é o combustível que alimenta o patriarcado; se homens não forem ensinados a odiar mulheres eles não conseguem sustentar o sistema de dominação que exercem, pois a relação homem-mulher é uma relação mestre-escravo, não é uma relação horizontal, entre dois seres humanos que se veem como iguais, se admiram e se respeitam. Meninos desde muito jovens vão aprendendo que mulheres ocupam um lugar de subalternidade e subserviência e aprendem a desejar e objetificar mulheres. Aprendem que o seu lugar na sociedade é servindo aos seus desejos. Homens não aprendem a amar mulheres, a admirá-las, ou a vê-las com um ser humano completo. E essa é a mola mestra da manutenção do poder do patriarcado.

Machismo: é o sistema cultural que propaga a misoginia. Reflete a ideia de que homens são mais importantes do que mulheres. Impõe culturalmente a ideia de qual lugar as mulheres ocupam na nossa sociedade. Toda produção cultural, educacional, artística, midiática etc, sob o patriarcado é ditada por homens, feita por homens e para homens, e é misógina e machista.

Gênero: é um subsistema cultural que define os papéis sociais que homens e mulheres devem representar, através de estereótipos, criando o campo da feminilidade (o que é próprio da fêmea) e da masculinidade (o que é próprio do macho). Essas esferas (feminilidade x masculinidade) não só se sustentam através de estereótipos (menina gosta de rosa e brinca de boneca, menino gosta de azul e brinca de carrinho) como refletem uma estrutura de hierarquia em que tudo o que é masculino é bom, valorizado, forte e existe em oposição a tudo o que é feminino, que é frágil, submisso, servil, delicado. Portanto, gênero é um sistema que reforça a hierarquia entre homens e mulheres, delimitando seus comportamentos baseado no seu sexo biológico. Saiba mais aqui.

Maternidade compulsória: regime político em que mulheres são compulsoriamente empurradas para realizar o trabalho reprodutivo. Junto com a heterossexualidade compulsória, sela o destino de fêmea como esposa e mãe, a serviço dos homens, no patriarcado. Saiba mais aqui.

Divisão sexual do trabalho: estratégia através da qual, na organização social, são relegados às mulheres trabalhos referentes à esfera privada, como todo o trabalho doméstico e reprodutivo, e ao homem, trabalhos da esfera pública. E relega às mulheres, na esfera pública, profissões ligadas a áreas que exigem habilidades classificadas na esfera do “feminino”, como cuidado e organização, e aos homens, profissões ligadas a poder, execução, criação. Dessa forma, são profissões “femininas”, por exemplo, aquelas ligadas às áreas de magistério (embora mulheres não acessem os postos de poder da área de pesquisa e ciência, que são destinados aos homens), enfermagem, secretariado, todas áreas “acessórias” de profissões tidas como “importantes”, que são as profissões masculinas (engenharia, administração, medicina etc). É a divisão sexual do trabalho que causa, por exemplo, o fenômeno da dupla jornada, em que mulheres atuam no mercado de trabalho, mas continuam acumulando todas as funções do trabalho doméstico. Saiba mais aqui.


Além desses conceitos básicos, há um vocabulário corrente para descrever situações de opressão feminina que afetam todas as mulheres, independentemente de sua classe social ou da cor da sua pele. São conceitos que passaram a ser midiatizados mais recentemente e que talvez você vá ler por aí e não ter muita certeza do que significa:

Broderagem: é o sistema informal no qual os homens protegem uns aos outros, haja o que houver. É usado para incitar uma falsa empatia, em alguns casos. Homens que ferirem a broderagem, ou seja, que acusarem um amigo de machismo, por exemplo, podem perder seu status na masculinidade e serem ostracizados. Vemos broderagem quando um produtor de filmes acusado de assédio sexual, como Harvey Weinstein, é defendido pela sua obra, ou no caso da acusação de estupro contra o jogador de futebol Neymar, em que todos os homens, em geral, assumiram um posicionamento de defesa dele.

Gaslighting: quando um homem faz uma mulher acreditar que a sua realidade não é real. Ele tenta fazer com que a mulher pareça ou sinta-se louca. Ele manipula as situações de tal forma que ela começa a duvidar de suas próprias percepções. É usado para encobrir comportamentos abusivos, frequentemente.

Mansplaining (Homem-explicanismo): quando uma mulher está explicando algo e um homem refuta os seus dados, geralmente explicando a mulheres algo que obviamente ela já sabe. Por exemplo, uma advogada dá um parecer e um homem que não é um advogado diz que ela está errada e que ele sabe mais do que ela, ou um homem tentando explicar a uma mulher sobre menstruação etc. Acontece em todo lugar. Em todo tipo de situação.

Manterrupting: quando uma mulher está falando e um homem a interrompe, sem deixá-la concluir seu pensamento ou atrapalhando a sua linha de raciocínio. Interromper é uma maneira muito usada para desnortear a mulher. É muito comum em reuniões formais ou informais. A fala da mulher simplesmente é desconsiderada.

Manpropriating: quando algo realizado por uma mulher é exaltado como um feito realizado por um homem.

Manspreading: termo usado para designar o hábito masculino de espalhar-se corporalmente ocupando todos os espaços. Como aquele homem que senta de pernas tão abertas no transporte público que chega a ocupar duas cadeiras.

Apagamento das fêmeas: esse ainda é um termo pouco usado. Se refere ao apagamento de termos, palavras e expressões que foram usados para falar apenas de mulheres. Entre as palavras que atualmente correm enorme risco de deixarem de ser usadas para descrever mulheres e assuntos femininos constam: vagina, útero, mulher grávida, amamentação, menstruação. Em inglês, alguns desses termos são mais específicos. Amamentação (breastfeeding, alimentar pelo seio) poderá ser substituída por chestfeeding (alimentar pelo peito). Mulher grávida (pregnant woman) pode virar pessoa grávida (pregnant person). A própria palavra mulher poderá ser sumariamente extinta para virar algo como “pessoas com útero” ou “pessoas com capacidade de gestar, engravidar”. Ou, pior ainda, “portadoras de útero/cérvix/vagina” e “menstruadores”.


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Jornalista, blogueira, poetisa, feminista, amante de antropologia e professora primaria que pratica desescolarizacao

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