Da captura capitalista do conceito de empoderamento

Ou: como o capitalismo se apropriou de um conceito anticapitalista.

Empoderamento. A palavra do momento nos movimentos sociais, agora, é empoderamento. Tem sido tão falada que já disseram que se tornou um clichê. Uma rápida pesquisa no google mostra que o número de pesquisas por esse termo explodiu nos últimos anos.

Mas será que a gente sabe o que é empoderamento? Quero dizer, será que realmente sabemos o que é?

Historicamente falando, a palavra em inglês empowerment começou a ser usada em meados das décadas de 60 e 70 do século passado por diversos grupos diferentes (desde psicanalistas, passando por feministas, até budistas). Mas foi com a publicação do livro Black Empowerment: Social Work in Oppressed Communities, de Barbara Solomon, que se delineou verdadeiramente seu conceito.

Barbara Solomon vai discutir as dificuldades de se desenvolver trabalhos sociais voltadas às pessoas pretas dos Estados Unidos, e por que isso acontece. Ela explica que todos os anos de valoração negativa de pessoas pretas — em outras palavras, o racismo — afetaram significativamente a forma como pessoas pretas, individualmente e em grupo, se enxergam, se relacionam, se expressam, adquirem e lidam com conhecimento… e isso leva à incapacidade de tomar decisões por si, pensando no que é melhor para si e para sua comunidade — mas o que é realmente melhor, não aquilo que nos dizem ser melhor.

Vejam. Empoderamento, portanto, está relacionado à agência e capacidade de tomar decisões sobre questões que concernem somente à sua própria classe. São as mulheres falando pelas mulheres, pessoas negras falando pelas pessoas negras, porque somente quem cresceu vivendo e vive, de fato, as opressões cotidianas na pele vai conseguir identificar a melhor maneira de resolvê-las, de lidar com elas. Por isso o protagonismo do grupo vitimizado é tão importante — o protagonismo é, em si, uma forma de empoderamento, porque confere aos sujeitos a tal agência, a potência, o direito à determinação de sua própria vida e seu próprio destino; coisa que sempre lhes foi negada.

A obra bebe na fonte de diversas teorias anteriores, incluindo a Pedagogia do Oprimido de nosso querido Paulo Freire, que fala da importância do processo de conscientização do sujeito oprimido — somente assim, reconhecendo e compreendendo sua situação no mundo, esse sujeito poderia romper correntes e tornar-se politicamente consciente e capaz de fazer escolhas por si próprio. Não é possível o empoderamento, portanto, sem tomada de consciência, por parte do sujeito, do lugar que ele ocupa no mundo, da sua condição, da sua realidade material. A revolução que não começa no próprio sujeito, em sua identidade, em sua intimidade, está fadada ao fracasso…

… e é isso que vem acontecendo.


O conceito de empoderamento foi totalmente subvertido para compreender literalmente seu oposto!

Num processo de distorção muito louco, em algum momento da história internética e facebookiana, empoderamento virou sinônimo de fortalecimento da autoestima. Virou sinônimo de autoafirmação, de abraçar a própria identidade independentemente — eis a questão — das opressões envolvidas na própria construção desses fatores.

Porque isso é gostoso. É fácil. É infinitamente mais fácil aderir a um discurso individualista que tira a responsabilidade da mudança social do indivíduo, desprezando o que ele faz em sua vida privada, individualmente. Toda mulher que conhece o feminismo sofre e sente muita raiva, isso é ululante, é um processo absurdamente catártico. Ninguém reconhece a própria opressão numa boa. Fica difícil ler notícias de estupro e de pedofilia, fechar o computador, passar três camadas de batom e ir pra balada com as migas.

É nessa onda que, por exemplo, a maquiagem, um dos pilares da manutenção e da reprodução da feminilidade, virou requisito necessário para se empoderar, principalmente no caso de mulheres negras (a quem o cuidado com a própria beleza e estética sempre foi negado), mulheres gordas, mulheres fora do padrão, de forma geral.

São anos, décadas de produção acadêmica feminina sobre a crueldade da imposição de ritos de feminilidade (vide Sheila Jeffreys, Naomi Wolf, etc) simplesmente jogados no lixo sob o argumento de que — “mas deixa ela fazer o que ela quiser, ela é livre pra isso!”.

Meu doce de côco. Usar maquiagem, reproduzir rituais de feminilidade, depilar-se, enfim — nada disso é um ato de liberdade. Você não escolhe fazer algo quando esse algo já lhe foi imposto. A negação desses atos, isso sim, é uma escolha.


“Ai mas eu não entrei no feminismo pra ficarem ditando mais regra pra cima de mim”

Primeiro que você não entra no feminismo, porque feminismo não é clubinho. Segundo que ninguém está ditando regra; estamos simplesmente nos conscientizando de uma realidade, um fato: rituais de feminilidade são misóginos e foram criados por homens e impostos às mulheres por uma série de motivos e com uma série de finalidades (por exemplo, manter-nos submissas a determinados padrões estéticos inalcançáveis, manter-nos frágeis e constantemente em perigo — ou é muito fácil correr de salto agulha e usando um vestido com que você mal respira? — e nos fazer lutar entre nós pela atenção e pela admiração de… homens.). Isso se chama crítica; autocrítica.

E quem se beneficia com isso? Quem se beneficia com o esvaziamento do real sentido de empoderamento?

O capitalismo, é claro. Quem vende maquiagem. Quem vende produto de beleza. Quem vende as roupas bafônicas e lacradoras. Quem vende revista. Quem faz novela. Porque o capitalismo não vende só produtos; vende ideias, e, precisamente, as ideias que lhe são convenientes, por óbvio.

E as empresas não são estúpidas (aliás, quem trabalha com marketing pode ser tudo, menos estúpido). Elas sabem que, se continuarem reproduzindo discursos considerados socialmente retrógrados, perderão clientela. Então é infinitamente mais fácil e lucrativo mudar de discurso para continuar vendendo para a população guerreira da justiça social do que não mudar e perder dinheiro. E ainda, de quebra, você ganha elogios de grupos e coletivos que deveriam ser anticapitalistas.


Retomando o que já foi dito no começo: não à toa o empoderamento virou um clichê. É claro que é um clichê, porque se esvaziou: ele agora é um coringa pra se vender qualquer coisa. Qualquer coisa.

Empoderamento é reconhecer opressões para podermos nos livrar delas. Não é jogar glitter na opressão porque assim nosso cotidiano vai ficar mais suportável.

Se nós estivéssemos realmente passando por um processo de empoderamento, nós estaríamos boicotando produtos de beleza. Boicotando padrões estéticos. Boicotando a feminilidade de forma geral. Boicotando a divisão de vestuários em “gênero”. Boicotando estereótipos sexuais.

Estaríamos aprendendo a amar nossa beleza natural, sem necessidade de cosméticos, cirurgias mutilantes e acessórios que limitam nossa movimentação. Estaríamos conhecendo nosso corpo e admirando a complexidade de nosso sistema reprodutivo. Estaríamos falando de menstruação, de cândida, de métodos contraceptivos e de ginecologia natural. Estaríamos falando sobre masturbação e gozo. Estaríamos compartilhando vivências e experiências. Estaríamos falando sobre maternidade real e acolhendo mães em nossos espaços. Estaríamos falando sobre nossas dores. Estaríamos nos apoiando.

Isso, sim, é ir contra o que o patriarcado espera. Isso, sim, é emancipação feminina. Porque cria um senso de coletividade. E coletividade não é sinônimo de “pessoas reunidas”; são pessoas reunidas que pensam e agem de forma coletiva. Muitas decisões coletivas podem não ser agradáveis para nós individualmente, mas o serão pra coletividade — e, no final, é isso que importa, porque sozinhas nós nunca conseguiremos nada (não nós mulheres especificamente, mas nós classes oprimidas).

Isso significa que você tem que parar de fazer todos os rituais de feminilidade, inclusive aqueles de que você “gosta” (por exemplo, a maquiagem ou a depilação)?

Não. Mas seja honesta e assuma não só a qualidade desse comportamento (a ritualização da opressão), mas sua finalidade e as consequências, para a coletividade, de você perpetuar isso mesmo tendo consciência de sua natureza.

“Ai você quer que a gente fique o tempo todo de consciência pesada então”

Quero sim. Quero, velho, porque isso significa assumir responsabilidade. Vou repetir: feminismo não é clubinho e ser feminista não é pretexto pra você fazer o que quiser e foda-se. Se você quer fazer o que você quiser sem pensar nas consequências disso pra sua classe, privilegiando apenas suas próprias vontade e liberdade individuais, seu movimento teórico é outro, sinto dizer.

Por isso a gente tem que desconfiar quando vemos empresas, canais de televisão e outras instituições capitalistas com um discurso supostamente “feminista”. Qual o interesse delas nesse discurso, considerando que elas não seriam, de forma alguma, beneficiadas por uma mudança do status quo?


Empoderamento é coletividade. Empoderamento é pensar coletivamente. Empoderamento é conscientização, catarse, duvidar de tudo que já te disseram antes, pra que você possa tomar as decisões por você mesma.

Capisce?