Depois da Parada Gay, Eu Tenho Perguntas
Você consegue respondê-las?
Tradução do texto de Mary Hell; Link do original: https://medium.com/@bloodymaryhellgirl/after-pride-i-have-questions-22eaafa03acd

Eu sou intolerante por pensar que lésbicas são homossexuais do sexo feminino? Uma lésbica tem o direito de dizer que ela não faria sexo com uma mulher trans, nunca? Parte do transativismo é direcionada a grupos e eventos lésbicos por mulheres trans serem excluídas; é justo que lésbicas excluam pessoas com pênis de qualquer parte de suas vidas? Elas têm esse direito? Uma lésbica que não queira dormir com uma pessoa que tem um corpo masculino devia ser aceita ou ela devia ser re-educada para entender que “algumas mulheres têm pênis” (a maioria das mulheres trans não dão nenhum passo cirúrgico em direção à transição) e aprender que “pênis feminino” e “clítoris grandes” são partes do corpo de mulheres também? Como isso se diferencia de homofobia? É ok rejeitar pênis mas não neo-vaginas? Se você é um homem ou uma mulher hétero, você sente que tem o direito de denunciar lésbicas que rejeitam mulheres trans como terfs/feminazis? Você acha que homens gays são transfóbicos se eles rejeitam relações sexuais com pessoas que têm vaginas ou neo-pênis construídos cirurgicamente? É ok que as pessoas decidam seus limites no sexo, ou os seus limites no sexo deveriam estar abertos a questionamento? Como isso se difere da cultura do estupro?

É moralmente errado que eu genuinamente acredite que o sexo biológico é inato e — bem, biológico? É repulsivo que eu acredite que gênero não é inato, biológico, intrínseco, mas ao invés disso é uma hierarquia da diferença na qual somos socializados desde o nascimento? Eu não acredito que o seu sexo é designado no nascimento, pelos seus médicos ou seus pais; ao invés disso eu acredito que o sexo é observado e anotado e que isso determina em qual ‘direção’ você vai ser empurrado — socialização masculina ou feminina, o que quer dizer que ou você é condicionado a acreditar que é o tipo de humano racional padrão, ou você é condicionada como um tipo diferente e inferior. Estou errada? Você acha que pessoas do sexo masculino e do sexo feminino são tratadas e socializadas da mesma forma? Se for esse o caso, como você explica a discriminação e a desigualdade?
É transfóbico da minha parte pensar que “mulher” é uma palavra com uma definição clara: fêmea humana adulta? Faria mais sentido se expandíssemos a categoria ‘mulher’ para incluir pessoas que nasceram no sexo masculino e foram socializadas como meninos e homens? Se for assim, como isso deveria ser decidido? As mulheres deveriam poder opinar sobre quem é incluído, dado que são os nossos espaços e recursos que serão compartilhados ou tomados? Nós deveríamos abrir a porta para qualquer um que se reinvindique mulher, ou estamos autorizadas a checar se existem perigos em potencial, como condenados por crimes sexuais e pedófilos, por exemplo? Nós deveríamos simplesmente confiar nos homens quando eles dizem que não mentiriam sobre auto-identificação para cometer crimes como esses? Se é verdade que qualquer um que se identifique como mulher é uma mulher, então como podemos manter os direitos e proteções para aquelas de nós nascidas com corpos femininos e socializadas como inferiores aos que nasceram com corpos masculinos? Ou você pensa que mulheres e meninas não precisam de nenhum desses direitos e proteções?
Qual é a diferença entre uma pessoa branca que se identifica como negra e um homem que se identifica como mulher? Ambas são instâncias nas quais pessoas do grupo opressor (branco/sexo masculino) tentam entrar no grupo oprimido (negro/sexo feminino). Indivíduos que nasceram no sexo masculino e reinvindicam mulheridade são freqüentemente apresentados como um exemplo inspiracional para todas nós. Caitlyn Jenner, que nasceu no sexo masculino, até recebeu a coroa de ‘mulher do ano’. Nós teríamos comemorado ao ver Rachel Dolezal1 celebrada como um modelo para pessoas negras? Claro que não; isso seria racista e incrivelmente ofensivo. Então porque celebramos Jenner, uma pessoa que venceu num esporte no qual mulheres eram barradas de competir, uma pessoa que na verdade é responsável pela morte de uma mulher, uma pessoa que disse que a coisa mais difícil na mulheridade é fazer as unhas e decidir o que vestir? Qual é a diferença? É errado que eu simplesmente não entenda automaticamente isso, já que as pessoas parecem sentir que a diferença é tão auto-evidente que não precisa de explicação?
Alguma outra transição é estranha pra você? Idade trans, deficiência trans? A identidade auto-declarada é o único jeito de dizer quem alguém é? É intolerante da minha parte se eu consigo perceber que alguém está vivo por 40 anos, ainda que se identifique como uma menina de sete anos? É intolerante da minha parte não querer que essa pessoa esteja na aula do primário com a minha filha? Ou a questão é que a identidade auto-declarada é sempre a única identidade válida, devendo portanto ser respeitada e acreditada? Se não é sempre, que exceções você faria? É sempre verdade pra gênero, mas não pra raça, sexo, classe, idade ou deficiência? Se é o caso, o que torna gênero tão diferente? Ou você acha que é tudo a mesma coisa — você é quem você diz que é, e pronto?
Eu sou patética por me irritar ao ver mulheres trans celebradas por “romper o teto de vidro” quando foram promovidas, apoiadas e pagas como homens durante suas carreiras inteiras? Te incomodaria se um colega do sexo masculino ganhasse mais que você e fosse continuamente promovido ao invés de você, e então fosse celebrado como um exemplo do comprometimento do seu empregador com a igualdade de gênero? Te incomodaria se um esporte de mulheres no qual você compete permitisse que atletas do sexo masculino competissem no seu time? Ou no time oponente? Você gostaria de uma vantagem que compensasse a vantagem natural deles em capacidade coronária e pulmonar, tamanho, altura, etc.? Ou é transfóbico apoiar times exclusivos para mulheres? Foi ok Fox Fallon nocautear Tammika Brents — foi uma luta justa?
A lei deveria ter alguma forma de distinguir quem nasce no sexo masculino de quem nasce no sexo feminino? É intolerante da minha parte me recusar a usar os novos pronomes femininos de Ian Huntley2? Estupradores e assassinos deveriam ser transferidos para a prisão feminina caso se identifiquem como mulheres? Os crimes deles deviam ser registrados como crimes cometidos por mulheres? Como nós vamos compreender e prevenir a violência masculina, tão enraizada em nossa sociedade, se não tivermos nenhum modo de enxergar e evidenciar a violência masculina? É violento enunciar o fato de que praticamente todos os estupros e a maior parte da violência é perpetrada por pessoas do sexo masculino? Se uma mulher trans te estuprar com o pênis dela, é um crime de ódio não usar os pronomes preferidos pelo estuprador na corte? Ao descrever a violência sexual, a vítima devia dizer “pênis”, ou “clítoris” para não ofender os sentimentos do estuprador? Isso importa? Você vê o potencial para mais abuso e gaslighting contra as vítimas aqui? Especialmente considerando que estamos falando de um sistema que já favorece estupradores com uma taxa de 6% de condenações? Ou eu estou sendo paranoica e preconceituosa com abusadores e estupradores que se identificam como trans?
É errado que eu não me chame de “cis”? Eu acredito que gênero não é inato e sim apenas um conjunto de papéis sexuais estereotípicos, com os quais eu realmente não me identifico — estou enganada? É um erro lógico ou moral? Ou eu estou certa? Alguém pode explicar porque mulheres biológicas são “cis” mesmo quando elas são lésbicas caminhão extremamente inconformes com gênero e que explicitamente não se identificam como cis? Se identidade de gênero é inata e imutável, então porque eu não a sinto? E por que outros estão confusos sobre o próprio gênero, ou o experenciam diferentemente a cada dia? Como você sabe como é ser do sexo oposto ao qual você nasceu? Como você sabe como é ser ‘mulher’? A ‘mulheridade’ é mesmo apenas um sentimento que algumas pessoas têm? Ou é a experiência vivida por uma adulta do sexo feminino? É verdade que é transfóbico falar de menstruação, menopausa, gravidez e biologia feminina em geral porque isso exclui quem nasceu num corpo masculino? Você apóia que se vandalize uma biblioteca de mulheres ou que se espanque mulheres que falam sobre seus corpos como corpos femininos?3 Você concorda com alguns transativistas que dizem que mulheres que foram submetidas a mutilação genital feminina são transfóbicas por falar de suas experiências? Você acha que uma pessoa nascida no sexo masculino, que viveu a maior parte de sua vida adulta como homem e agora se identifica como mulher está certa ao dizer a uma mulher que sobreviveu a uma mutilação genital feminina que ela é privilegiada, porque teve sorte de nascer no sexo feminino?
Se uma criança pequena demonstra interesse em brinquedos, roupas ou atividades que você ou outros acreditam ser típicos do sexo oposto, você deveria se importar? Seria ridículo deixar a criança vestir o que quiser, brincar com o que quiser e se expressar da forma que quiser, porque nenhuma dessas coisas tem a ver com sexo ou gênero, apenas com personalidade? Ou você acha, por exemplo, que se uma criança do sexo masculino consistentemente escolhe da caixa ‘rosa’, que no fundo essa criança na verdade é uma menina? Você acredita que é possível nascer no corpo errado? E você acha que essa é uma visão saudável para se inculcar nas crianças? Você diria a uma criança que tem algo errado com o corpo dela, que “deus cometeu um erro”, que ela está fundamentalmente errada por rejeitar coisas estereotipicamente associadas ao seu sexo? Você acha que alguns pais prefeririam ter uma criança trans do que uma criança gay? Você apóia que crianças que demonstram disforia com seus corpos recebam prescrições de remédios não testados e/ou fora de seu uso aprovado por uma agência reguladora? Uma menina de 17 anos devia ser encorajada a fazer uma mastectomia dupla — e meninas e mulheres que destransicionaram deveriam ser silenciadas quando expressam seu arrependimento por terem transicionado? Jornalistas deviam ser proibidos de falar com essas mulheres ou de informar sobre estudos acerca da destransição? Será que uma vida de dependência médica e cirurgias extremas é realmente a melhor forma de ser o seu ‘eu’ autêntico? É transfóbico investigar se uma Disforia de Gênero de Surgimento Repentino pode ser resolvida sem necessidade de transição médica ou cirúrgica?
É ofensivo que eu faça essas perguntas? Eu devia ter o direito de ter perguntas mas não o direito de perguntá-las em público? Ou eu estou fazendo as perguntas erradas? Mas se eu estiver fazendo as perguntas erradas, como eu vou ter as respostas pras perguntas que fiz? Que perguntas eu deveria estar fazendo? Eu, enquanto artista e escritora socialista e feminista, deveria saber automaticamente as respostas corretas para essas perguntas? O fato de que estou fazendo essas perguntas apenas te prova que eu sou a terf/feminazi/vadia/idiota que você pensou que eu fosse? Você seria capaz de responder qualquer uma dessas perguntas? Ou você pode me mostrar onde eu encontro uma suposição detalhada que responda claramente todas essas perguntas? Eu preciso mudar a minha compreensão de fatos científicos? Fatos são transfóbicos? Eu deveria simplesmente parar de fazer perguntas e aceitar o que me dizem, mesmo que eu não esteja entendendo? Eu tenho o direito de perguntar? Se uma mulher trans fizesse essas perguntas seria transfóbico? O fato de que parte do meu entendimento sobre questões trans vem de mulheres trans críticas de gênero atenua a minha transfobia ou a torna pior? Você levaria essas perguntas mais a sério se eu me identificasse como homem?

1N. da T.: Rachel Dolezal é uma mulher branca que fingiu ser negra, chegando a ocupar posições-chave no movimento negro até ser desmascarada. Também foi processada por roubo através de fraude, por ter recebido indevidamente um auxílio governamental por baixa renda: foi descoberto que ela alegou ter recebido US$3000 em “doações de amigos” num período em que na verdade ela depositou US$84000 em sua conta.
2 N. da T: Ian Huntley é um assassino britânico, condenado por matar duas meninas de 10 anos em 2002, e que também é acusado de crimes sexuais, inclusive contra menores. Atualmente se encontra preso em regime fechado, sem possibilidade de habeas corpus até 2042. Apesar de não haver um pedido formal, segundo uma fonte do Daily Star Sunday ele está pedindo aos demais detentos que lhe chamem de Lian, no feminino e quer uma cirurgia de mudança de sexo para poder ser transferido para o presídio feminino.
3N. da T.: Referência à bilioteca Vancouver Women’s Library, vandalizada em sua noite de abertura em 2017 e à Maria MacLachlan, uma senhora de 60 anos que foi agredida em 2018 por uma pessoa trans nascida no sexo masculino (o caso foi julgado e o réu foi tido como culpado. Entretanto durante o julgamento o juíz do caso, Kenneth Grant, disse à vítima que usasse pronomes femininos para se referir ao seu agressor).

