Disforia de gênero não é uma coisa só

Original: J. Michael Bailey, PhD e Ray Blanchard, PhD para 4thWaveNow, 07/12/2017, https://4thwavenow.com/2017/12/07/gender-dysphoria-is-not-one-thing/

Tradução: Winnie Lo

Esse é o segundo artigo de uma série de autoria dos Drs. Bailey e Blanchard; veja aqui a primeira parte.

Vários pais e mães têm filhas que se encaixam no perfil do aparecimento súbito da disforia de gênero na adolescência. Esse fenômeno é discutido em detalhes pelos autores após os dois primeiros tipos, na seção “Disforia de Gênero de Surgimento Repentino (Sobretudo Mulheres Adolescentes e Jovens Adultas).” Algumas pessoas também poderão considerar a seção “Dois tipos mais raros de disforia de gênero” de particular interesse (perto do final do artigo).

Michael Bailey é professor de Psicologia na Universidade Northwestern. Seu livro O Homem que seria Rainha [The Man Who Would Be Queen] fornece um relato científico sobre dois tipos de disforia de gênero entre homens de nascença, e está disponível para download aqui.

Ray Blanchard graduou-se em Psicologia na Universidade de Pennsylvania em 1967 e é PhD da Universidade de Illinois desde 1973. Foi psicólogo na Clínica de Identidade de Gênero para Adultos [Adult Gender Identity Clinic] do Centro de Dependência e Saúde Mental [Centre for Addiction and Mental Health] (CAMH) em Toronto, de 1980 a 1995 e Diretor dos Serviços de Sexologia Clínica [Clinical Sexology Services] da CAMH de 1995 a 2010.

Um problema na narrativa prevalente atual em torno da disforia de gênero é não fazer distinções entre tipos de pessoas com grandes diferenças aparentes. Por exemplo, Bruce Jenner parecia ser um homem muito masculino, um atleta olímpico que se casou com três mulheres diferentes e teve com elas seis crianças, antes de se tornar Caitlyn Jenner. Em contraste, Jazz Jennings, nascida no sexo masculino, era tão feminina que ela obteve um diagnóstico de transtorno de identidade de gênero aos quatro anos. Ela se atrai pelo sexo masculino. Jenner e Jennings são tão diferentes na sua apresentação e história de vida que para nós é surpreendente que alguém ache que estejam na mesma condição. Jenner e Jennings são exemplos de dois tipos muito diferentes de disforia de gênero que foram muito estudados cientificamente, e divergem fundamentalmente nas motivações, apresentações clínicas e causas possíveis.

Que tantos terapeutas e ativistas não consigam reconhecer essa distinção é perturbador por pelos menos dois motivos. Primeiro, isso sugere que ou eles desconhecem a evidência científica relevante ou estão deliberadamente a ignorando. Segundo, não conseguir fazer distinções cientificamente válidas e fundamentais entre diferentes tipos de pessoas disfóricas de gênero só pode impedir o progresso no sentido de encontrar a melhor abordagem para ajudar cada uma delas. Sarampo, gripe e estreptococo estão todos associados à febre. Contudo, se tivéssemos meramente agrupado tudo como “febre”, não teríamos tratamentos efetivos para nenhum deles.

Tipos de disforia de gênero

A disforia de gênero não é comum. Mas há pelo menos três tipos distintos de disforia de gênero que, no presente, ocorre regularmente em crianças e adolescentes. Iremos resumi-los detidamente aqui. Dois outros tipos de disforia de gênero são muito menos comuns nesses grupos etários, e portanto serão abordados menos completamente, perto do final desse ensaio. Os três tipos principais diferem diferem em sua idade de início (infância, adolescência ou na idade adulta), sua velocidade de aparecimento (gradual ou súbita), suas orientações sexuais associadas (membros do mesmo sexo ou a fantasia de pertencer ao sexo oposto) e sua razão de sexo (igualmente provável ou não entre homens e mulheres).

O primeiro tipo — disforia de gênero com início na infância — definitivamente ocorre tanto em meninos como em meninas biológicas. Ele é altamente correlacionado com a homossexualidade — a preferência sexual pelo próprio sexo biológico — em especial pessoas nascidas no sexo masculino. (A orientação sexual em geral não é aparente até que uma criança chega à adolescência ou à idade adulta, entretanto.) Esse é o tipo que Jazz Jennings teve antes da transição de gênero dela. O segundo tipo — disforia de gênero autoginefílica — ocorre apenas em machos. Ele é associado com a tendência de ser excitado sexualmente pelo pensamento ou imagem de si mesmo como mulher. Esse tipo de disforia de gênero às vezes começa durante a adolescência, outras vezes na idade adulta, e o aparecimento costuma ser gradual. (Porém, o aparecimento pode parecer súbito para os membros da família.) Embora Caitlyn Jenner não tenha discutido seus sentimentos abertamente, suspeitamos fortemente que ela é autoginefílica. O terceiro tipo — disforia de gênero de surgimento repentino — ocorre principalmente em meninas adolescentes. Esse tipo é caracterizado em grande parte pela idade e velocidade do início, em vez da orientação sexual associada, e pode não estar limitada a um sexo, como é o segundo tipo. Nossa impressão é que a disforia de gênero de surgimento repentino é especialmente comum entre filhas de pais e mães que leem 4thWaveNow, bem como participantes que escrevem no fórum de apoio em gendercriticalresources.com.

Os dois primeiros tipos (disforia de gênero com início na infância e disforia de gênero autoginefílico) foram bem estudados, embora a disforia autoginefílica tenha sido estudada principalmente em adultos. O terceiro (disforia de gênero de surgimento repentino) só foi observado recentemente, e é possível que não fosse muito frequente até recentemente.

Como você sabe qual tipo de disforia de gênero sua criança tem? Se houve sinais claros muito antes da puberdade que a sua criança fosse disfórica de gênero, ela/ele tem disforia de gênero com início na infância. (Você certamente teria notado sinais no momento; ao menos você teria codificado sua criança como alguém extremamente fora da conformidade de gênero.) Se a sua criança mostrasse sinais de disforia de gênero pela primeira vez durante a adolescência, ela ou ele apresenta um dos outros tipos de disforia. Lembre-se, a disforia de gênero autoginefílico ocorre apenas em pessoas nascidas no sexo masculino, e se inicia durante a adolescência ou na idade adulta. (E para uma mãe ou um pai, geralmente parece repentino.) Descrevemos os três tipos mais detalhadamente abaixo.

Disforia de gênero com início na infância (meninos e meninas)

A característica mais óbvia que distingue a disforia de gênero com início na infância dos outros tipos é o aparecimento precoce da não conformidade de gênero. A não conformidade de gênero é uma tendência persistente de se comportar como o sexo oposto de várias maneiras, inclusive preferências de vestimenta e aparência, estilo de brincadeira, preferências por companheiros/as de brincadeiras, interesses e objetivos. Um menino com extrema não conformidade de gênero pode vestir-se como menina, brincar com bonecas, não gostar de jogos violentos, demonstrar indiferença a esportes em equipe ou esportes de contato, preferir meninas como companheiras de brincadeiras, tentar estar por perto de mulheres adultas em vez de homens, e ser conhecido por outras crianças como “mariquinha” [sissy] (um termo em geral usado para ridicularizar e envergonhar meninos afeminados). Uma menina com extrema não conformidade de gênero demonstra o padrão oposto, descrita pela palavra menos depreciativa “moleca” [tomboy] em vez de mariquinha.

O início da não conformidade de gênero em casos infantis é bastante cedo, tipicamente assim que se observa o comportamento de gênero.

É importante entender que nem todas as crianças em não conformidade de gênero (até mesmo as crianças com extrema não conformidade de gênero) apresentam disforia de gênero. De fato, provavelmente a maioria não a apresenta. Mas desconhecemos casos de disforia de gênero com início na infância sem não conformidade de gênero.

A disforia de gênero nos casos infantis exige que as crianças estejam descontentes com seu sexo de nascimento. Além disso, em geral elas anseiam ser — ou mesmo afirmam ser — do sexo oposto.

O que sabemos sobre a disforia de gênero com início na infância?

A disforia de gênero com início na infância tem sido estudada sistematicamente por dois centros de pesquisa internacionais de alta qualidade (um em Toronto, liderado por Kenneth Zucker, outro na Holanda, liderado por Peggy Cohen-Kettenis). Ambos centros avaliaram e acompanharam amostras representativas de crianças disfóricas de gênero atendidas em suas clínicas. De forma tranquilizadora, os resultados são bastante semelhantes nos dois locais. Ainda, seus resultados se assemelham aos de amostras menos representativas estudadas anteriormente nos Estados Unidos.

A literatura publicada mostra que ao menos no passado, 60 a 90% das crianças cuja disforia de gênero começou antes da puberdade se ajustaram ao sexo de nascimento sem necessidade de transição de gênero. Contudo, isso pode estar mudando devido às alterações da prática clínica que encorajam a transição de gênero (ver abaixo).

É importante perceber que a disforia de gênero com início na infância é o único tipo de disforia de gênero que tem sido bem estudado em crianças e adolescentes. Isso significa, por exemplo, que os dados sobre persistência e desistência que fornecemos se aplicam apenas àquele tipo. Desconhecemos dados comparáveis sobre as disforias de gênero autoginefílica ou a com início rápido. Além do mais, a maioria das pessoas, quando pensam em “crianças e adolescentes transgêneras” têm em mente a disforia de gênero com início na infância. (E elas pensam em Jazz feliz mais do que pensam nas cirurgias graves e no tratamento hormonal vitalício a que Jazz irá se submeter.) Mas essa associação é ilusória para todos os casos de disforia de gênero que não tenham se iniciado na infância. As disforias de gênero autoginefílica e a com início rápido possuem causas e apresentações bem diferentes do que a disforia de gênero com início na infância.

Sexualidade

Crianças com disforia de gênero iniciada na infância possuem uma propensão muito mais elevada de desfecho não-heterossexual (ou seja, homossexual ou bissexual) na idade adulta, se comparadas com crianças típicas. Meninos disfóricos de gênero com início na infância que desistem da disforia em geral se tornam homens não-heterossexuais. Uma menor porcentagem relataram heterossexualidade durante o acompanhamento. Aqueles que transicionam passam a ser mulheres trans atraídas por homens.

Embora a maioria das meninas disfóricas de gênero com início na infância que foram acompanhadas se identifiquem como heterossexuais, aquelas que desistem da disforia possuem uma taxa bem mais alta de não-heterossexualidade comparadas com a população geral. Entre aquelas que transicionam, a maioria é atraída por mulheres.

Repetimos: não há evidência de que os pais consigam mudar a eventual orientação sexual das suas crianças, nem achamos que deveriam tentar.

Fatores de risco para persistência da disforia de gênero com início na infância

Quais as crianças disfóricas de gênero com início na infância que irão persistir, e quais irão desistir? A evidência sugere que não é possível distinguir esses dois grupos com alta confiança, embora possamos distingui-los melhor do que o acaso.

Há alguma evidência de que a gravidade da disforia de gênero distingue esses dois grupos, embora esteja longe de ser um preditor perfeito. Crianças que não apenas dizem que querem ser o sexo oposto mas também afirmam que são do sexo oposto podem ser especialmente propensos a persistir. Não estão claros os motivos pelos quais a crença expressa por uma criança de ser do sexo oposto prediz a persistência, e essa variável nem mesmo permite previsões quase perfeitas. A ideia de que isso seja o teste essencial para “trans de verdade” é um exagero.

Outros fatores de risco com fundamentação empírica incluem ser de um nível socioeconômico mais baixo e ter traços autistas, ambos os quais predizem persistência. Por que esses fatores importam? Os pesquisadores especularam que as famílias socioeconomicamente desfavorecidas têm maior propensão a ter problemas que as impedem de fornecer o ambiente social de apoio consistente com maior probabilidade de ajudar que crianças disfóricas de gênero desistam. Traço autistas incluem pensamento perseverante e obsessivo, ambos os quais podem tornar a desistência mais difícil. Além disso, pais e mães de crianças com traços autistas podem estar tão preocupados com outros problemas que são permissivas com a provável promoção da transição de gênero.

Um poderoso preditor da persistência é a transição social, quando uma criança vive como o sexo oposto. Até recentemente isso era praticamente inédito. Cada vez mais, entretanto, a transição social não é apenas conhecida mas também encorajada por muitos terapeutas de gênero. (Assista a um episódio de “I am Jazz.”) Na Holanda a transição social tem sido comum por mais tempo do que nos EUA. Um estudo recente descobriu que a transição social foi o mais poderoso preditor da persistência entre pessoas nascidas no sexo masculino. Ou seja, meninos disfóricos de gênero autorizados a viver como meninas apresentaram forte tendência de querer se tornar mulheres adultas. (A mesma tendência aconteceu para pessoas nascidas no sexo feminino, mas foi menos robusto.) Isso não é surpreendente. Se permitimos que uma criança disfórica de gênero viva como o sexo oposto, o que a fará mudar de ideia? Ninguém contesta que crianças disfóricas de gênero gostariam mesmo de mudar de sexo.

O que você deveria fazer?

Os estudos necessários para ter certeza ainda não foram conduzidos. Mas com base no quadro geral, sugerimos:

Se você quiser que sua criança com disforia de gênero iniciada na infância desista, e se a sua criança está ainda bem abaixo da idade da puberdade (que varia, mas digamos, menos de 11 anos), você deveria firmemente (mas com gentileza e paciência) insistir que a sua criança é um membro do sexo de nascimento dele/dela. Você deveria considerar buscar um terapeuta se isso for difícil para você e sua criança. Você não deveria permitir que sua criança se envolva em comportamentos como crossdressing e jogo de fantasia como o outro sexo. Acima de tudo, você não deveria deixar que sua criança transicione socialmente para o outro sexo.

Ao mesmo tempo, você deveria reconhecer que apesar de seus esforços, sua criança pode por fim precisar da transição para ser feliz. Se a disforia de gênero da sua criança persiste até a adolescência (de novo, as idades variam de criança em criança, mas digamos uns 14 anos), ela ou ele tem maior propensão à transição. Nesse ponto, em nossa opinião, pais e mães deveriam considerar apoiar a transição.

Disforia de gênero autoginefílica (meninos adolescentes e homens)

Da perspectiva de um pai ou uma mãe, a disforia de gênero autoginefílica (que ocorre apenas em pessoas nascidas no sexo masculino) muitas vezes parece ter surgido do nada. É provável que isso seja verdade quando o início é na adolescência ou na idade adulta. Um menino adolescente pode de repente anunciar que ele na verdade é uma mulher presa no corpo de um homem, ou que ele é transgênero, ou que ele quer a transição de gênero. Tipicamente, essa revelação se dá após a sua intensa pesquisa na internet e participação em fóruns transgêneros. É importante que o adolescente não tenha mostrado sinais claros e consistentes seja de não conformidade de gênero, seja de disforia de gênero, durante a infância (ou seja, antes da puberdade).

Há uma importante distinção entre a disforia de gênero com início rápido e a disforia de gênero autoginefílico que parece ter início na adolescência. A disforia de gênero com início rápido é de repente adquirida, enquanto a disforia de gênero autoginefílico pode ser de repente revelada, após ter se desenvolvido em segredo por vários anos. Falaremos mais disso adiante.

De onde vem a disforia de gênero autoginefílica? Sabemos muito sobre a motivação desse tipo de disforia de gênero. A maioria do nosso conhecimento vem de estudos sobre adultos nascidos no sexo masculino que transicionaram durante a idade adulta. Alguns desses adultos tinham disforia de gênero durante a adolescência, mas todos eles tinham como causa raiz da sua condição: autoginefilia.

(Atenção: Autoginefilia é sobre sexo. Entendemos que é estranho e inconfortável para qualquer pai e mãe pensar nas fantasias sexuais das suas crianças. Mas você não consegue entender seu filho com esse tipo de disforia de gênero sem fazer isso.)

Autoginefilia é a excitação sexual um homem pela fantasia de ser uma mulher. Ou seja, homens autoginefílicos ficam excitados quando pensam em si mesmos como mulheres, ou se comportam como mulheres. O típico menino adolescente heterossexual tem fantasias sexuais sobre meninas ou mulheres atraentes. Os meninos adolescentes autoginefílicos podem também ter tais fantasias, mas além disso ele tem fantasia de si mesmo como uma mulher atraente e sexy. O comportamento mais comum associado com a autoginefilia na adolescência é o crossdressing fetichista. Nesse comportamento, o adolescente do sexo masculino veste roupas femininas (tipicamente lingerie) em privado, se olha no espelho e se masturba. Alguns homens autoginefílicos não são apenas sexualmente excitados por crossdressing, mas também pela ideia de possuir partes do corpo feminino. Essas fantasias relacionadas ao corpo são em especial suscetíveis de serem associadas à disforia de gênero.

É importante distinguir a autoginefilia da disforia de gênero autoginefílica. A autoginefilia basicamente é uma orientação sexual, e uma vez presente não vai embora, embora sua intensidade possa diminuir. A disforia de gênero autoginefílica às vezes acompanha a autoginefilia, e é o forte desejo de transicionar de homem para mulher. Um homem deve ter autoginefilia para ter disforia de gênero autoginefílico, mas só porque ele é autoginefílico não significa que ele terá disforia de gênero. Muitos homens autoginefílicos levam suas vidas contentes em permanecer masculinos. Além do mais, às vezes a disforia de gênero autoginefílica remite, de forma que um homem que queria mudar de sexo não mais assim deseja.

Em geral, é improvável que meninos adolescentes divulgam suas fantasias sexuais aos seus pais. Provavelmente isso seja em especial verdadeiro para meninos com autoginefilia. Além disso, muitos meninos que se envolvem em crossdressing sentem vergonha de fazer isso. O fato de que as fantasias e os comportamentos autoginefílicos sejam em grande parte privados é um motivo pelo qual a disforia de gênero autoginefílica geralmente parece surgir do nada. Outro motivo é que os homens autoginefílicos não são naturalmente muito femininos. Um menino adolescente com autoginefilia não emite sinais óbvios de não conformidade de gênero ou disforia de gênero.

É provável que a maioria dos homens autoginefílicos não buscam a redesignação de gênero, mas isso é difícil de saber. (Precisaríamos conduzir uma pesquisa representativa de todas as pessoas nascidas no sexo masculino, perguntando tanto sobre autoginefilia quanto sobre transição de gênero. Isso ainda não foi feito e não será feito tão logo.) Muitos homens com autoginefilia estão contentes com o crossdressing ocasional. Alguns se casam com mulheres e muitos também têm filhos. A formação familiar não é garantia contra a transição posterior, embora possa retardá-la um pouco. Nas últimas décadas, quando homens autoginefílicos transicionaram, com maior frequência o fizeram entre a idade de 30 a 50 anos, após terem se casado com mulheres e gerado filhos. É possível que os homens autoginefílicos recentemente estejam tentando a transição em idade mais jovens, inclusive na adolescência.

A relação entre a autoginefilia e a disforia de gênero do tipo autoginefílico é incerta. Uma visão é que a disforia de gênero pode emergir como uma complicação da autoginefilia, talvez dependendo de eventos fortuitos ou fatores ambientais. Outra visão é que os autoginéfilos que se tornam progressivamente disfóricos de gênero guardam algumas diferenças de autoginéfilos simples desde o início (por exemplo, mais obsessivos). Como não conhecemos de fato as causas da autoginefilia, é um tanto difícil resolver essas várias interpretações no momento.

A autoginefilia — a motivação central da disforia de gênero autoginefílica — pode ser considerada uma orientação sexual incomum. Tal como acontece com outros tipos de orientação sexual masculina, não sabemos como mudá-la, nem deveríamos tentar. O dilema é como conviver com a autoginefilia de forma a permitir a maior felicidade. Para alguns com autoginefilia, isso significará permaencer como homens. Para outros, significará a transição para mulheres.

O que sabemos sobre a disforia de gênero autoginefílica?

Muito do que sabemos sobre a disforia de gênero autoginefílica vem da pesquisa conduzida em adultos. A maioria das primeiras pesquisas foram conduzidas pelo cientista que desenvolveu a teoria da autoginefilia, Ray Blanchard. Esse trabalho foi posteriormente confirmado e ampliado por outros pesquisadores, especialmente Anne Lawrence, Michael Bailey e estudantes de Bailey.

A pesquisa de Blanchard identificou dois distintos subtipos de disforia de gênero entre pacientes adultos do sexo masculino na clínica de gênero. Um tipo, que ele denominou “disforia de gênero homossexual” é idêntico à disforia de gênero com início na infância em meninos. Pessoas do sexo masculino com essa condição são homossexuais, no sentido de que se atraem por outras pessoas do sexo biológico masculino. Blanchard forneceu evidência persuasiva de que os outros pacientes do sexo masculino eram autoginefílicos. Hoje somos favoráveis à teoria de que há apenas dois tipos de disforia de gênero bem estabelecidos entre pessoas do sexo masculino, pois não foi oferecida nenhuma evidência convincente para qualquer outro tipo. Isso pode mudar — estamos comprometidos com uma visão científica aberta. Em particular, é possível que alguns casos de disforia de gênero com início na adolescência em pessoas do sexo masculino sejam essencialmente o mesmo que a disforia de gênero com início rápido que ocorre entre pessoas nascidas no sexo feminino. Isso irá requerer mais pesquisas para se consagrar, no entanto.

A autoginefilia provavelmente é rara, embora seja difícil de saber ao certo. Entre homens que buscam a transição de gênero, contudo, é comum. De fato, nos países ocidentais dos anos recentes, inclusive nos EUA, a autoginefilia foi responsável por pelo menos 75% dos casos de transsexualismo homem-para-mulher.

Dada a importância da autoginefilia para entender a disforia de gênero, pode ser surpreendente que você nunca tenha ouvido falar dela. A autoginefilia permanece uma ideia em grande parte escondida porque a maioria das pessoas — inclusive jornalistas, familiares e muitos homens com autoginefilia — têm forte preferência por outra narrativa padrão, ainda que falsa: “Transexualismo é sobre ter a mente de um sexo no corpo do outro sexo.” Muitas pessoas acham essa narrativa tanto mais fácil de entender como menos perturbadora do que a ideia de que algumas pessoas do sexo masculino querem a mudança de sexo porque consideram isso fortemente erótico.

Embora muitos homens autoginefílicos considerem a descoberta da ideia de autoginefilia uma revelação positiva — a autoginefilia tem sido tão intrigante para eles quanto para você — alguns outros estão enfurecidos com a ideia. Há dois motivos principais pelos quais alguns homens autoginefílicos estão em negação. Primeiro, eles acreditam corretamente que muitas pessoas considerem uma explicação sexual para a disforia de gênero desagradável — o desconforto com a sexualidade é desenfreado. Segundo, eles acham que essa explicação para os seus próprios sentimentos menos satisfatória que a explicação padrão da “mulher presa em corpo de homem”. Isso é porque a autoginefilia é um traço masculino, e autoginefilia é sobre querer ser mulher.

É bom estar ciente do status controverso da autoginefilia, porque ativistas transgêneros muitas vezes são hostis à ideia. Você não vai aprender mais sobre isso com os ativistas. E se seu filho tem frequentados discussões da internet, ele pode também ressentir-se da ideia. Enfatizamos que a autoginefilia é controversa por razões sociais, e não científicas. Nenhum dado científico a desafiou com seriedade.

Sexualidade

Homens com autoginefilia podem ter uma variedade de fantasias e interesses autoginefílicos, desde crossdressing, fantasiar sobre ter um corpo feminino, apreciar (por motivos eróticos) atividades femininas estereotipadas como fazer crochê, até fantasiar-se grávido ou menstruado. Um estudo descobriu que homens autoginefílicos que fantasiam sobre ter a genitália feminina também tendiam a ser aqueles com a maior disforia de gênero.

Homens autoginefílicos às vezes se identificam como heterossexuais (ou seja, atraídos exclusivamente por mulheres); às vezes como bissexuais (atraídos tanto por homens e mulheres), e às vezes assexual (ou seja, não se atraem por nenhum indivíduo). O trabalho de Blanchard mostrou que a autoginefilia pode ser pensado como um tipo de heterossexualidade masculina, direcionada para dentro. A autoginefilia muitas vezes coexiste com a heterossexualidade direcionada para fora, e portanto os homens autoginefílicos geralmente dizem também se atrair por mulheres. Alguns homens autoginefílicos apreciam a ideia de que são atraentes, como mulheres, para outros homens. Eles podem ter fantasias sexuais sobre fazer sexo com homens (no papel feminino); alguns podem até mesmo agir sobre essas fantasias. Isso explica a identificação bissexual entre alguns homens autoginefílicos. Em alguns outros, a intensidade da autoginefilia — que é a atração a uma “mulher interior” imaginária — é tão grande que não restam sentimentos eróticos por outras pessoas. Isso explica a identificação assexual. (Homens autoginefílicos assexuais têm muitas fantasias sexuais, mas essas fantasias tendem a não envolver outras pessoas.)

Quando homens autoginefílicos recebem hormônios femininos como parte de sua transição de gênero, geralmente vivenciam uma redução perceptível do desejo sexual. Alguns relataram que isso diminuiu seu desejo pela transição de gênero também. Outros, entretanto, não relataram mudança no desejo pela transição. (Em todo caso, a terapia hormonal é uma intervenção médica com sérios efeitos colaterais potenciais, e não a recomendamos como forma de tratar a disforia de gênero, exceto nos casos em que após consideração muito cuidadosa, busca-se a transição de gênero.)

Autoginefilia é uma parafilia, quer dizer, um interesse sexual incomum quase exclusivamente encontrado em homens.

Repetimos: autoginefilia é uma orientação sexual — para ter certeza, uma orientação incomum que é difícil de entender. Não há evidência de que pais e mães possam alterar a orientação sexual de suas crianças. Nem achamos que deveriam tentar.

O que você deveria fazer?

Consistente com os nossos valores, conhecimento e bom senso, acreditamos que homens com disforia de gênero autoginefílico não deveriam buscar a transição de gênero de imediato, assim que tiverem a ideia pela primeira vez. A transição, em última instância, requer procedimentos médicos graves com consequências irreversíveis. Mas não temos certeza de qual é a abordagem certa para a disforia de gênero autoginefílica. Em parte, isso se deve à escassez de pesquisas sobre o desfecho conduzidas por cientistas conhecedores e abertos sobre a autoginefilia.

Primeiro, recomendamos que seu filho seja informado sobre a autoginefilia. A melhor maneira de fazer isso cabe a você. Provavelmente não há um jeito que não seja incômodo. Considere mostrar-lhes esse blog. As pessoas deveriam tomar as importantes decisões de vida com base em fatos, e para os homens a disforia de gênero autoginefílico e a autoginefilia são fatos. O padrão de “mente/cérebro feminino em corpo masculino” é uma ficção.

Alguns homens se tornam menos motivados a buscar a mudança de gênero quando entendem a sua autoginefilia. Contudo, outros não ficam desmotivados. Conhecemos muito menos sobre os padrões de persistência e desistência da disforia de gênero autoginefílico do que sobre a disforia de gênero com início na infância.

Se um homem autoginefílico se familiarizou com a evidência científica, pacientemente considerou as potenciais consequências da transição de gênero após um período de tempo não trivial, e ainda assim desejar a transição, não nos opomos a essa decisão. É possível que muitos homens autoginefílicos sejam mais felizes após a transição de gênero. Mas não deve haver pressa para que qualquer adolescente decida.

Disforia de Gênero de Surgimento Repentino (principalmente em adolescentes e jovens adultas do sexo feminino)

A disforia de gênero de surgimento repentino (DGSR ou em inglês ROGD, Rapid-onset gender dysphoria) parece ter surgido do nada. Pensamos que isso seja porque a DGSR de fato surge do nada. Isso não quer dizer que todas as adolescentes com DGSR eram felizes e mentalmente saudáveis antes do início da sua DGSR. Mas é importante notar que elas não apresentavam sinais de disforia de gênero como crianças pequenas (antes da puberdade).

O caso típico da DGSR envolve uma adolescente ou jovem adulta do sexo feminino cujo mundo social fora da família glorifica o fenômeno transgênero e exagere sua prevalência. Além disso, provavelmente isso inclui uma dose pesada de envolvimento da internet. A menina adolescente adquire a convicção de que é transgênera. (Não raramente, outros em seu grupo de pares adquirem a mesma convicção.) Esses grupos de pares encorajam umas a outras para acreditar que toda a infelicidade, ansiedade e os problemas de vida provavelmente se deve a elas serem transgêneras, e que a transição de gênero é a única solução. Subsequentemente, pode haver pressa em direção à transição de gênero, inclusive a hormonização. A oposição dos pais à transição de gênero muitas vezes leva a discórdia familiar, até mesmo distanciamento. Ameaças de suicídio são comuns.*

Acreditamos que DGSR é um fenômeno socialmente contagiosa no qual uma pessoa jovem — tipicamente nascida no sexo feminino — passa a acreditar que ela possui uma condição, sem tê-la. A DGSR não é sobre a descoberta de uma disforia de gênero que estava lá o tempo todo; antes, é sobre passar a acreditar por engano que os próprios problemas se devem a uma disforia de gênero anteriormente encoberta (de si mesma e de outros). Para ser claro: as pessoas com DGSR de fato possuem um tipo de disforia de gênero, mas é uma disforia de gênero devida à persuasão da quem é especialmente vulnerável a uma ideia falsa. Não é a disforia de gênero devida a algo como ter a mente/cérebro de um sexo preso ao corpo do outro sexo. Quem tem DGSR obviamente deseja a transição de gênero, e elas muitas vezes estão obcecadas por essa perspectiva.

A subcultura que promove a DGSR parece compartilhar alguns aspectos dos cultos. Tais aspectos incluem a expectativa de um acordo ideológico absoluto, o uso de jargões muito específicos, a visão de mundo como “nós” contra “eles” (até mais do que em adolescentes típicos), e o encorajamento para cortar laços com familiares e amigos que não estão “com o programa”. Também possui semelhanças estranhas com uma epidemia muito prejudicial que ocorreu há uma geração: a epidemia das falsas “memórias recuperadas” de abuso sexual infantil e a epidemia associada do transtorno de personalidade múltipla, discutidas mais adiante. Primeiro, entretanto, revisamos o pouco que sabemos sobre a DGSR.

E quanto às pessoas nascidas no sexo masculino?

Por que nós continuamos enfatizando as pessoas nascidas no sexo feminino versus pessoas nascidas no sexo masculino? Há três razões. Primeiro, o único estudo já conduzido sobre a DGSR descobriu números substancialmente mais elevados de mulheres do que homens (mais de 80% de casos do sexo feminino). Segundo, houve um aumento impressionante no número de meninas adolescentes que se identificam como transgêneras e se apresentam em clínicas de gênero. Terceiro, há um tipo diferente de disforia de gênero — Disforia de Gênero Autoginefílico — que provavelmente representa a maioria e todos os casos aparentes de DGSR em pessoas nascidas no sexo masculino. Porém, não conseguimos estar completamente seguros de que o número pequeno de casos de DGSR em pessoas nascidas no sexo masculino seja devido à autoginefilia. É possível, portanto, que o que discutimos aqui se aplica a algumas pessoas nascidas no sexo masculino também.

O que sabemos?

DGSR é um fenômeno tão recente que sabemos pouco com certeza. Temos quatro fontes de dados. Primeiro, um importante estudo sobre DGSR foi apresentado por Lisa Littman na reunião anual da Academia Internacional para a Pesquisa em Sexo[International Academy of Sex Research]. (Ainda não foi publicado, mas desconfiamos que em breve será.) É o único estudo empírico sistemático até a presente data. Segundo, tivemos várias conversas com mães de meninas com DGSR. Terceiro, lemos vários estudos de caso sobre o fenômeno. Quarto, entramos em contato com clínicos que trabalham (seja como terapeutas ou consultores) com crianças com DGSR, ou seus familiares. Felizmente, as fontes têm fornecido resultados convergentes. Estamos bastante confiantes sobre as seguintes generalizações:

  • A grande maioria das pessoas com DGSR são do sexo feminino, e a idade mais típica de início varia desde ensino médio até a faculdade.
  • Pessoas com DGSR têm uma elevada taxa de identidades não-heterossexuais antes do início da sua DGSR.
  • Sinais de contágio social extremo são típicos. Por exemplo, isso inclui vários membros do grupo de pares que começaram todos a se identificar como transgêneros. Às vezes isso ocorre após programas educacionais sobre transgêneros patrocinados pela escola.
  • Pessoas com DGSR têm altas taxas de certos problemas psiquiátricos, em especial os aspectos relacionados com o transtorno de personalidade borderline (ou seja, autolesão não suicida) e formas leves de autismo (que costumava se chamar “síndrome de Asperger”).
  • Em geral, a saúde mental e as relações sociais de crianças com DGSR ficam muito piores uma vez que adotam identidades transgêneras.
  • Pais e mães que resistem à DGSR das suas crianças não são “transfóbicos” ou socialmente intolerantes. São pais e mães que, por exemplo, geralmente aprovam o casamento homoafetivo e direitos iguais para pessoas transgêneras.

Nosso posicionamento atual sobre a DGSR

A disforia de gênero de surgimento repentino (DGSR) ocorre quando uma pessoa jovem (geralmente uma menina adolescente) se convence de que é transgênera, apesar de fortes evidências de que a pessoa jovem tinha poucos ou nenhum sinal associados com as formas estabelecidas de transgeneridade. Como e por que isso acontece?

Apesar das muito limitadas pesquisas disponíveis até o momento, temos fortes intuições e palpites sobre o que está acontecendo, com base na sua semelhança com um fenômeno do passado: as epidemias de memórias recuperadas e personalidades múltiplas. Gastamos esforços consideráveis nessa seção para tanto explicar essas epidemias passadas quanto estabelecer os paralelos com a epidemia atual que nos preocupa agora: Disforia de Gênero de Surgimento Repentino. Acreditamos que quem se esquece (ou ignora) o passado está condenada a repeti-lo.

Durante a década de 1990 houve uma explosão de casos em que as mulheres passavam a acreditar que haviam sido molestado sexualmente, geralmente pelo pai delas e muitas vezes repetidamente e brutalmente. Elas acreditavam nessas coisas mesmo quando antes de “recuperar” essas “memórias” — muitas vezes durante psicoterapia — não se recordavam de qualquer coisa parecida. Elas acreditavam nas memórias mesmo que as memórias fossem muitas vezes altamente implausíveis (por exemplo, membros da família teriam percebido). Muitas mulheres com memórias recuperadas cortaram as relações com as suas famílias. Algumas desenvolveram sintomas do transtorno de personalidade múltipla. Sabemos agora que as memórias recuperadas eram falsas. E o transtorno de personalidade múltipla não existe, ao menos da forma que quem era afetado e seus terapeutas acreditavam. Referimo-nos às memórias recuperadas e ao transtorno de personalidade múltipla, que possui causas semelhantes entre si — e algumas causas semelhantes à DGSR — como RM/MPD (recovered memories/multiple personality disorder — memórias recuperadas/transtorno de personalidade múltipla).

Eis as principais semelhanças entre DGSR e RM/MPD:

  1. Casos consistentes com RM/MPD eram muito raros antes da década de 1980 mas se tornaram uma epidemia. O mesmo parece estar acontecendo com a DGSR;
  2. Ambos afetam principalmente jovens mulheres, embora a RM/MPD começasse substancialmente mais tarde (em média aos 32) do que a DGSR (tipicamente na adolescência). (Outra epidemia destrutiva de contágio social — acusações de bruxaria no Salem colonial — envolvia principalmente meninas adolescentes.)
  3. As explicações tanto para RM/MPD e DGSR pelas “crentes verdadeiras” contradizem a experiência passada, o bom senso e a ciência. A memória e a integração da personalidade não funcionam da forma que terapeutas de RM/MPD acreditavam. Por exemplo, crianças e adultos que vivenciaram o trauma não conseguem reprimi-lo — eles se lembram apesar das suas melhores tentativas. E a disforia de gênero em pessoas nascidas no sexo feminino não começa após a infância — a menos que seja uma condição adquirida como a DGSR.
  4. Ambos mostram ampla evidência do contágio social por crenças falsas e prejudiciais. Em RM/MPD, a “rota da infecção” geralmente ia do terapeutas com fortes crenças em RM/MPD para suas pacientes sugestionáveis, que adquiriam uma crença semelhante, aplicou-a às suas próprias vidas, e fabricaram acusações falsas e monstruosas contra antigos entes queridos. (Um resultado nocivo da terapia ou do tratamento médico é chamado de iatrogênico.) Na DGSR, a rota da infecção parece ser principalmente direto de jovem para jovem. Para ter certeza, os terapeutas entram em cena depois que a pessoa com DGSR adquire a crença de que ela é transgênera, e então são cúmplices de danos tremendos. Mas parece (ainda) de rara ocorrência que uma jovem convencida da DGSR por um terapeuta.
  5. Ambos estão associados a ideologia sociopolíticas. (Curiosamente, ambas ideologias ainda são acolhidas em programas de Estudos de Gênero em muitas universidades.) Para RM/MPD, o sistema ideológico é que o abuso sexual de crianças pelos homens não só tem sido muito comum (verdadeiro), mas que tem sido desenfreado, até mesmo a regra (falso). Junte essa ideologia com uma crença na teoria e nos métodos freudianos (como hipnose), e o que poderia dar errado? Muitas coisas, como se descobriu. Para DGSR, a ideologia relevante é menos coerente, mas inclui as ideias aparentemente contraditórias de que o gênero é “fluido” (aqui significa que nem todo mundo se encaixa na dicotomia homem-mulher); que obrigar as pessoas a categorias rígidas de gênero é uma causa comum de angústia social e pessoal; mas que a transição de gênero é uma forma subutilizada de ajudar as pessoas.
  6. Tanto RM/MPD e DGSR estão associadas a problemas de saúde mental, em geral, e em especial a um perfil de personalidade consistente com o transtorno de personalidade borderline (TPB). Isso não quer dizer todas as pessoas seja com RM/MPD ou com DGSR tenham TPB; simplesmente que a evidência sugere que esse transtorno é comum nesses grupos. Por exemplo, a alta taxa de autolesão não suicida que observamos das fontes acima mencionadas é impressionante. Tal comportamento está fortemente associado ao TPB. (Para uma discussão sobre TPB entre portadores de RM/MPD, veja este artigo, da página 510 em diante.)
  7. Adotar a crença de que quem tiver RM/MPD ou DGSR está associado com um declínio acentuado no funcionamento e na saúde mental.

Alguns dos fatores que parecem serem em comum com a DGSR — e alguns que são semelhantes entre DGSR e RM/MPD — provavelmente encorajam a adoção de falsas crenças e identidades. Eles incluem o frágil senso de si mesmo (TPB), busca de atenção (TPB), dificuldades sociais (TPB e traços autistas), maleabilidade social (TPB e adolescência), pressão social (adolescência) e fortes convicções (ainda que irracionais e mal fundamentadas) que torna especialmente provável a adoção de falsas conclusões (doutrinação sociopolítica). Adolescentes com uma história real de não conformidade de gênero, ou cujas orientações sexuais sejam não-heterossexuais, podem estar especialmente vulneráveis para acreditar que esses sejam sinais de que eles sempre foram transgêneros. Adolescentes que estejam com problemas na vida especialmente pode estar à procura de uma explicação e ser em particular receptivos a mudanças drásticas.

Com base nas fontes de dados acima mencionadas com as quais estamos familiarizados, e nos nossos palpites informados, suspeitamos que muitas pessoas com DGSR estavam em geral perturbadas antes de decidir que eram disfóricas de gênero e muitas levarão vidas um tanto problemáticas mesmo após sua DGSR (esperamos) dissipar. Obviamente, DGSR só pode piorar as coisas, tanto para a pessoa afetada como para a sua família.

O que fazer

Como DGSR é um fenômeno tão recente, há muito pouca orientação sobre como ajudar as pessoas afetadas. Lisa Marchiano escreveu dois ensaios excelentes com muito bom senso, e recomendamos começar por aí.

Segundo, deixe de lado, por agora, a disforia de gênero de surgimento repentino. Identifique os problemas da sua criança que existiam antes da DGSR e que podem ter contribuído para ela. Enxergar esses problemas será útil para todo mundo, e talvez sua criança irá até concordar.

Terceiro, com respeito à DGSR, faça o que você puder para adiar qualquer consideração sobre transição de gênero. Dos diferentes tipos de disforia de gênero, a DGSR é o tipo para o qual a transição de gênero é o menos justificável e menos pesquisada. Lembre-se, a DGSR é fundamentada numa falsa crença adquirida por meios sociais. Nenhum dos fatores acima citados que tenham feito a sua criança a adotar essa falsa crença será corrigido ao permitir que ela transicione.

Dois tipos mais raros de disforia de gênero

Por uma questão de completude, incluímos dois outros tipos de disforia de gênero. Suspeitamos que ambos sejam raros, mesmo entre pessoas com disforia de gênero. Um de nós (Blanchard) já viu casos do primeiro tipo, disforia de gênero auto-homoerótico, que parece ser uma disforia de gênero motivada eroticamente. Nesse caso, pessoas nascidas no sexo feminino e sexualmente maduras (ou seja, biologicamente não mais crianças) preocupam-se sexualmente em se tornar um homem gay e interagir com outros homens gays. Nenhum de nós viu alguém que se encaixe claramente no segundo tipo, disforia de gênero resultante da psicose. (Nossa inclusão desse tipo foi motivada em grande parte pela discussão da Dra. Anne Lawrence, uma importante estudiosa que ambos respeitamos.) Nesse tipo, uma pessoa (seja do sexo masculino ou feminino ao nascer) adquire a ilusão de que é do sexo oposto, por ela/ele estar sofrendo de graves deficiências no pensamento.

Superficialmente, as duas condições possuem algumas similaridades com alguns outros tipos de disforia de gênero. Por exemplo, uma pessoa do sexo feminino com disforia de gênero de surgimento repentino pode se atrair sexualmente por homens e assim se esforçar para se tornar um homem gay, semelhante à disforia de gênero auto-homoerótico. A diferença importante é que a mulher com disforia de gênero de surgimento repentino não é motivada principalmente por um desejo erótico de ser um homem gay. Em vez disso, ter a perspectiva de fazer sexo com homens gays é um subproduto da condição dela, não o ponto principal. A mulher com disforia de gênero de surgimento repentino a adquire via contágio social, em termos gerais (ou seja, inclusive sinais culturais de que a disforia de gênero seja desejável de alguma maneira crucial). Com respeito ao outro subtipo raro, ambos já conhecemos pessoas disfóricas de gênero com psicose. Contudo, nesses casos, a psicose não era a causa da disforia de gênero. Foi simplesmente um problema adicional que a pessoa disfórica de gênero possuía. No caso da disforia de gênero resultante da psicose, a crença de ser transgênero (ou do sexo oposto) é claramente um ilusão que resulta do pensamento transtornado — e não, por exemplo, do contágio social ou da autoginefilia.

Disforia de gênero auto-homoerótico

Esse tipo raro de disforia de gênero se limita às pessoas do sexo feminino. Os casos publicados consistiam de mulheres cuja disforia de gênero começou no final da adolescência ou na idade adulta. (É concebível que possa se iniciar mais cedo em alguns casos.) Essa disforia ocorre em mulheres (heterossexuais) que se atraem sexualmente por homens, mas que desejam passar por redesignação sexual para que possam ter relações “homossexuais” com outros homens. Essas mulheres parecem ser excitadas sexualmente pelo pensamento ou imagem de si mesmas como homens gays. Criamos o rótulo disforia de gênero auto-homoerótico para denotar essa orientação sexual. Há poucos dados sistemáticos sobre esse tipo de disforia de gênero, embora datem de mais de 100 anos atrás as menções clínicas a mulheres heterossexuais com fortes traços masculinos que dizem se sentir como se fossem homens homossexuais e que se sentem atraídas fortemente por homens afeminados.

Está bem documentado que ao menos alguns disfóricos de gênero auto-homoeróticos foram submetidos a redesignação sexual cirúrgica e estiveram satisfeitos com a sua decisão. Não há razão convincente para questionar tais autorrelatos de satisfação pós-operatória, embora as técnicas cirúrgicas atuais não produzam pênis artificiais totalmente convincentes ou funcionais, é difícil imaginar que os auto-homoeróticos considerem fácil atrair parceiros homens gays que possam ignorar isso.

Esse tipo de disforia de gênero não parece ser o equivalente feminino da disforia de gênero autoginefílica, embora as diferenças possam parecer sutis. Disfóricos de gênero autoginefílicos (do sexo masculino) se atraem pela ideia de ter o corpo de uma mulher; disfóricos de gênero (do sexo feminino) auto-homoeróticos se atraem pela ideia de participar de sexo com homens gays. Para autoginefílicos ou autoginéfilos, tornar-se uma mulher lésbica é um objetivo secundário — a consequência lógica de se atrair por mulheres e desejar se tornar uma mulher. Para auto-homoeróticos, tornar-se um homem gay parece ser o objetivo principal ou muito próximo disso.

Os poucos relatos de casos disponíveis sugerem que a disforia de gênero auto-homoerótico pode ter antecedentes ideacionais ou comportamentais na infância. Entretanto, essas mulheres não são tão evidentemente masculinas do que as meninas com disforia de gênero com início na infância (pré-homossexual). Por essa razão, e por ser tão raro para começar, é improvável que muitos pais e mães detectem essa síndrome em suas filhas. É concebível, contudo, que quando acontece, os casos de disforia de gênero auto-homoerótico possam ser percebido pelos outros como a disforia de gênero de surgimento repentino. Isso não é porque a disforia de gênero surgiu de repente, mas sim porque as suas fantasias eróticas iniciais e atípicas estavam invisíveis aos seus pais.

Disforia de gênero causada por ilusões psicóticas

A ideia de que a disforia de gênero pode às vezes refletir ilusões psicóticas é certamente plausível. Ilusões na esquizofrenia, por exemplo, muitas vezes são bizarras mas convincentes para a pessoa que as veem. Infelizmente, nenhum de nós (Ray Blanchard ou Michael Bailey) teve contato direto com uma pessoa que se encaixe claramente nesse perfil, e portanto temos muito menos confiança nessa categoria de disforia de gênero do que nas outras. Nossa falta de familiaridade direta não necessariamente significa tanto. Mesmo que a disforia de gênero devida à psicose fosse razoavelmente comum (comparada com as outras formas de disforia de gênero), não teríamos esperado nos deparar com isso. Pessoas com doenças mentais graves em geral estão em tratamento por causa de suas doenças mentais e não pela disforia de gênero. Até recentemente, as clínicas que tratam pessoas com disforia de gênero teriam triados para fora os pacientes com doenças mentais graves, devido a preocupações de talvez comprometer seu diagnóstico e tratamento. Mas hesitamos em adotar esse tipo de disforia de gênero como “definitivamente existente”, porque tememos que os psiquiatras que alegaram enxergá-lo possam ter tido treinamento insuficiente para observar outros tipos de disforia de gênero, como a autoginefilia. Por isso, eles podem ter concluído que a psicose causou a disforia de gênero, quando na verdade a psicose pode ter simplesmente ocorrido junto à autoginefilia na mesma pessoa. Um de nós (Bailey) recentemente entrou em contato com a mãe de um jovem rapaz que parece ter o perfil esperado para a disforia de gênero devido a ilusões psicóticas, e não havia evidência de que esse rapaz fosse autoginefílico. Ainda assim, estamos ao menos certos sobre a existência — bem menos sobre a prevalência — desse tipo de disforia de gênero.

Não há um só tipo de disforia de gênero: algumas implicações

Deveria estar claro agora que a “disforia de gênero” não é um termo suficientemente preciso. Pais e mães de crianças disfóricas de gênero deveriam saber que tipo de disforia de gênero sua criança tem. Para tanto é necessário aprender sobre os três tipos mais comuns. Ou seja, para entender por que a sua criança é Tipo A, é necessário saber por que ele ou ela não é Tipo B ou Tipo C. Isso não é simplesmente acadêmico. Há diferenças essenciais entre os distintos tipos de disforia de gênero.

Se conhecimento é poder, então a falta de conhecimento é negligência. É escandalosa a ignorância de alguns principais clínicos de gênero acerca de todos os aspectos científicos da disforia de gênero. Para fazer melhor, deveriam começar por aqui. Não recomendamos a contratação de clínicos de gênero hostis à nossa tipologia. Idealmente, ele estariam em acordo.

Saber que há tipos muito distintos de disforia de gênero também levanta questões — e preocupações — sobre pessoas transgêneras de um tipo que usam suas próprias experiências para dar recomendações a crianças/adolescentes dos outros tipos. Nada na experiência de Caitlyn Jenner lhe permite entender como Jazz Jennings se sentia — e vice versa. Mas vários ativistas transgêneros expressivos que têm histórias típicas de disforia de gênero autoginefílica não hesitam em pressionar os pais, legisladores e clínicos pela aquiescência, leis e terapias sem distinção aos tipos de disforia de gênero em crianças. Aliás, eles não raramente reivindicam ter conhecimento especializado com base nas próprias experiências. Mas as suas experiências são irrelevantes aos dois tipos de disforia de gênero que eles não possuem. E mesmo com respeito à autoginefilia, esses ativistas transgêneros estão quase todos em negação. Isso significa que suas lembranças públicas das próprias experiências ou são distorcidas ou são mentiras definitivas. Uma exceção notável é Dra. Anne Lawrence, que se tornou uma importante pesquisadora sobre disforia de gênero, e que tem sido honesta e aberta sobre a sua autoginefilia. Dr. Lawrence tomou o tempo para aprender a literatura científica em relação aos diferentes tipos de disforia de gênero e não insiste que suas experiências pessoais se aplicam a disfóricos de gênero não autoginefílicos. Quando os autoginéfilos em negação tentam orientar a narrativa em direção à uniformidade, as maiores vítimas são, de fato, outras pessoas com autoginefilia. Essas incluem os autoginéfilos honestos, que frequentemente entram em contato conosco mas têm medo de ataques públicos por parte daqueles em negação. As vítimas em potencial mais relevantes a esse blog são os jovens autoginefílicos, que correm o risco de serem influenciados para decisões que de outra forma não fariam, na base de fantasias imprecisas adotadas por aqueles que não conseguem enfrentar a verdade sobre a sua própria condição.

Para nós, o grupo mais trágico, juntamente com suas famílias, inclui as pessoas que adquiriram a disforia de gênero de surgimento repentino. Aquela condição parece ser a interação trágica do atual espírito de época [zeitgeist] transgênero (“Se está em toda parte, é ótimo!”) e das mídias sociais com a vulnerabilidade de adolescentes perturbados, em especial meninas adolescentes. Elas estão sob risco de intervenções médicas desnecessárias, desfigurantes e prejudiciais à saúde.

  • Nota. O suicídio é trágico e terrível, e por causa disso, recomendamos levar a sério as ideias, ameaças e gestos suicidas da sua criança. Escrevemos em outro momento sobre o risco de suicídio entre pessoas disfóricas de gênero, e pensamos que esse risco seja elevado comparado com pessoas não-disfóricas de gênero, mas ainda assim improvável.

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