Dos tais estereótipos de gênero

E como isso constrói nossa sociedade machista

Cila Santos
Aug 28, 2017 · 5 min read
Image for post
Image for post

Um estereótipo é um conjunto de pressupostos, ideias pré-concebidas que formamos sobre como uma determinada categoria deve parecer, ser, e se comportar.

Por exemplo: quando pensamos na categoria “médicos”, formamos uma imagem mental de pessoas necessariamente inteligentes, estudiosas, cultas, vocacionadas, humanas, responsáveis, heroicas, entre outras coisas. Imaginamos quase sempre a figura do homem branco, vestido com sua roupa branca. É como esperamos que um médico pareça, seja, se comporte.

Image for post
Image for post
é isso que esperam que um médico seja

Se alguém, por acaso, vai a um consultório e encontra um médico vestido de bermuda e camisa rosa; ou se esse médico assume que não sabe responder a uma determinada pergunta; ou se esse médico for uma mulher negra por exemplo; a quebra de expectativa vai ser tão grande que é possível que não se acredite sequer que aquela pessoa seja realmente um “médico”, inclusive duvidando da competência profissional daquele indivíduo (lembra dos médicos cubanos?).

Estereótipos são, portanto, esse conjunto de EXPECTATIVAS que temos sobre algo, que em si não traduzem nenhum dado concreto e nem são capazes de expressar alguma verdade. É uma IMAGEM que formamos que não corresponde a realidade particular daquele indivíduo que pertence àquela categoria. Justamente porque as pessoas são únicas. E tem particularidades.

Dessa forma, a médica negra que falei no exemplo acima pode ser uma profissional impecável. Não há nada nos elementos da sua aparência que tenham ligação com sua performance. Não há nada que indique que ela não seja uma excelente médica. Exceto que sua figura rompe fortemente com o estereótipo, com a expectativa, de como um médico se parece.

E estereótipos são um grande problema. Eles deslocam a atenção do observador do real valor do indivíduo para sua capacidade de atender a performances. Cria diversos “clubes” que só aceitam integralmente àqueles que seguem todas as regras dos seus “manuais de instrução”.

A grande jogada, no entanto, é que é quase impossível seguir à risca todas as regras que os estereótipos ditam. Porque essas regras estão sempre mudando, se aperfeiçoando, se sofisticando. E as pessoas nunca conseguem se qualificar plenamente para os “clubes" que os estereótipos criam. E dependendo da importância social que estes clubinhos tenham, as pessoas se sentem excluídas, rejeitadas, solitárias, infelizes e fazem qualquer coisa para serem aceitas. Para não pagar esse preço social.

Por exemplo, qual a expectativa, qual a imagem, o estereótipo, que temos HOJE (porque já mudou várias vezes) para a “mulher bela”? No geral essa mulher deve ser: a) magra; b) branca; c) cabelos lisos; d) pele perfeita; e) olhos claros; f) traços delicados. Etc, etc, etc e sempre surgindo mais regras. Se uma mulher não atende a todos esses requisitos, ela é feia. Ou pelo menos não é tão bonita. E se ela é feia, ela é rejeitada porque beleza é um valor extremamente valorizado na nossa sociedade.

Image for post
Image for post
digite “mulher bonita” na pesquisa de imagens do Google e deprima-se

E aí você tem meninas, desde a infância, vivendo em função de buscar essa aparência mágica, que crescem se martirizando, gastando tempo, dinheiro, saúde, e vagando infelizes pela vida inteira com a auto-estima arrasada, nunca se sentindo boas o bastante. Nunca se sentindo amadas. Nunca se sentindo bonitas.

A sociedade cria os estereótipos, que são exaustivamente reforçados pela mídia como parte de uma estratégia de mercado. Pessoas infelizes se sentindo excluídas, inadequadas, pagam qualquer preço para mudar isso. E quanto mais regras malucas, quanto mais pessoas querendo se “incluir”, quanto mais problemas se criam, mais soluções se vendem. E o mercado lucra.

Image for post
Image for post
kit completo para beleza da vagina: de creme exfoliante a iluminador. Pois é.

Falando a grossíssimo modo, o gênero é um tipo de estereótipo específico usado para as categorias do sexo biológico. Formando o clubinho do “feminino” que é empurrado para pessoas que nascem com vagina (meninas) e o clubinho do “masculino” para pessoas que nascem com pênis (meninos).

Porém, o gênero é um pouco mais que isso porque contém em si uma armadilha. Observe, abaixo tem uma lista de pares de palavras que são características humanas comuns a qualquer um. Para cada par de características indique qual costuma ser a mais socialmente desejável, aceitável, valorizada, admirada, vista como positiva:

Image for post
Image for post
quadro da desilusão de gênero

Agora, usando o mesmo quadro marque quais são consideradas características “femininas” e quais são consideradas características “ masculinas”, não só segundo o seu critério, mas principalmente de acordo com o senso comum, a sociedade, mídia, novelas, filmes, revistas, e tudo mais.

Parece que o feminino não está muito bem cotado, não?

a) características que geralmente são atribuídas ao masculino são muito mais valorizadas, desejadas e aceitas que as do feminino;

b) características atribuídas ao feminino que são mais valorizadas geralmente existem em benefício ou em função dos homens (cuidado, beleza, sensualidade);

c) características atribuídas ao “feminino" são como a via “negativa” (ou no máximo complementar) do masculino;

d) características atribuídas ao universo masculino são vistas socialmente como mais importantes e poderosas estando acima das atribuídas ao feminino.

E esse é o problema do gênero, ele cria uma relação hierárquica entre homens e mulheres. Onde homens são mais valorizados, admirados, importantes e submetem mulheres que são consideradas inferiores.

Estereótipos de gênero são a base sobre a qual se constrói o machismo na nossa sociedade, onde tudo que é entendido como “masculino" é dominante e superior e tudo que é entendido como “feminino" é dominado e inferior. É o princípio da ideia de desigualdade entre os sexos.

E machismo mata.

Mulheres ganham menos do que homens, e possuem sempre as menores chances de ocupar cargos de chefias. São excluídas do mercado de trabalho por conta da maternidade. E são as principais responsáveis pelo cuidado com os filhos e com o lar. Mulheres são as principais cuidadoras dos pais e parentes adoecidos e na velhice, dos filhos com deficiência. São as principais vítimas da violência doméstica, são a maioria das vítimas de abuso sexual, estupro. Morrem como moscas vítimas de crimes passionais. São traficadas, prostituídas. São objetificadas. Feminilidade é uma prisão. A sociedade enxerga mulheres como seres de menor importância. E os estereótipos de gênero reforçam isso. O tempo inteiro.


Gostou desse texto? Aplauda! Clique em quantos aplausos (de 1 a 50) você acha que ele merece e deixe seu comentário!

Quer mais? Segue a gente:

Medium

Facebook

Twitter

QG Feminista

Feminismo em Revista

By QG Feminista

Feminismo em Revista Take a look

By signing up, you will create a Medium account if you don’t already have one. Review our Privacy Policy for more information about our privacy practices.

Check your inbox
Medium sent you an email at to complete your subscription.

Cila Santos

Written by

live and let die

QG Feminista

Feminismo em Revista

Cila Santos

Written by

live and let die

QG Feminista

Feminismo em Revista

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch

Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore

Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store