Escrever com “x” não é linguagem neutra

Isso é tão 2013. Parem, por favor.

Me dá coceira toda vez que vejo alguém substituindo os marcadores de gênero em uma palavra por X ou @ com a justificativa de que está escrevendo de forma “neutra”.

Isso é tosco, preguiçoso e falacioso. E você sabe por quê. Mas talvez se pegue pensando, “como, então, escrever ou falar de maneira não sexista?”. Bom, pra te ajudar, vou elencar aqui os principais problemas de escrever com X ou @ e, em seguida, te dar as saídas que euzinha encontro pra me expressar de forma não sexista.

Por que abandonar X/@

  1. É impronunciável, e, portanto, inaplicável à linguagem falada. Quando qualquer pessoa, inclusive você, e mesmo outras pessoas que escrevem de maneira “neutra”, lê “amigx”, das duas, uma: ou a voz na cabeça da pessoa diz “amigxis” ou “amigo” mesmo. E daí o “x” não cumpriu seu propósito.
  2. Não é inclusivo para deficientes visuais ou auditivos, justamente por serem impronunciáveis e acabarem sendo meros recursos visuais.
  3. Não é passível de ser utilizado no mundo fora da bolha da internet, sendo, portanto, extremamente elitista. Você nunca vai ver uma sentença, uma propaganda, um edital ou uma revista utilizando X/@, e com razão — porque a maior parte da população, ao se deparar com um “carxs amigxs” apertaria os olhos e leria de novo pra ter certeza de que não está com problemas de leitura.
  4. Isso dificulta, e muito, a vida de quem tem dislexia e dificuldades de leitura.
  5. Não resolve o problema do sexismo na linguagem porque não mexe em sua estrutura.

Como escrever de maneira não sexista

É claro que não é tão simples quanto substituir algumas letras de vez em quando. No começo é trabalhoso — não vou mentir — mas depois você se acostuma a escrever (e até a falar) de forma neutra, porque fica automático. Aqui vão algumas dicas:

Em primeiríssimo lugar, pare de usar “homem” como sinônimo de “ser humano”. Só isso mesmo.
Quando a palavra não flexionar, simplesmente omita o artigo, no plural.

Por exemplo: ao invés de os jornalistas, os estudantes, os nutricionistas…

… O jogador respondeu às perguntas feitas por jornalistas ali presentes.

… O Diretório levou as demandas de estudantes de todos os campi à reitoria.

… Nutricionistas recomendam a prática de exercícios físicos.

Use coletivos neutros (quando houver) ao invés do plural comum (no masculino).

Por exemplo: discentes, no lugar de alunos; docentes, no lugar de professores.

Utilize sinônimos invariáveis.

Que mundo deixaremos para nossos filhos?

Substitua por: Que mundo deixaremos para nossas crianças?

Substitua por substantivos, quando for possível.

Os jovens ficam 24h conectados à internet.

Substitua por: A juventude fica 24h conectada à internet.

Os negros de São Paulo estão descontentes com a prefeitura.

Substitua por: A população negra de São Paulo está descontente com a prefeitura.

Os trabalhadores serão muito prejudicados pela reforma.

Substitua por: A classe trabalhadora será muito prejudicada pela reforma.

Os humanos são decadentes.

Substitua por: A humanidade é decadente.

Os gestores da empresa desejam um Feliz Natal.

Substitua por: A gestão da empresa deseja um Feliz Natal.

Use as duas formas do plural.

Alunas e alunos; enfermeiras e enfermeiros; bacharelas e bacharéis; psicólogas e psicólogos.

Omita o sujeito, utilizando orações sem sujeito ou voz passiva, se isso não prejudicar a compreensão.

Pesquisadores descobriram novo planeta semelhante à Terra.

Substitua por: Novo planeta semelhante à Terra descoberto. / Descobriu-se novo planeta semelhante à Terra.

Os índios caçam o que comem.

Substitua por: Entre a população indígena, caça-se o que se come.

Os hóspedes não podem receber visita em seus dormitórios.

Substitua por: Visitas não são permitidas nos dormitórios.

Use e abuse das expressões “quem”, “alguém” e “qualquer”. São suas amigas!

É preciso cuidar dos mais pobres.

Substitua por: É preciso cuidar de quem é mais pobre.

Use e abuse das palavras “pessoa” e “indivíduo”.
Substitua o adjetivo por “que” + verbo.

Os lutadores -> As pessoas que lutam.

Os administradores -> As pessoas que trabalham na administração.

Os premiados -> As pessoas que foram premiadas.


“Bruna, e aquelas pessoas que falam que ficam indignades?”

Preciso falar alguma coisa? Não dá pra usar isso de forma séria em contextos formais, seja na fala, seja na escrita. Adianta alguma coisa desenvolver mecanismos como esse, se ele não vai chegar e não vai ser usado em lugares em que o sexismo é reproduzido? (E falo de ambientes de poder, como tribunais ou a academia, mesmo.)

“Ah, mas a linguagem é moldada por como as pessoas a usam. Se um monte de gente começar a falar com E ou U no lugar de A e O, talvez isso se consolide.”

Acho difícil porque a própria razão de ser desse tipo de invenção é falaciosa (parte-se do pressuposto de que de fato existem pessoas de “gênero não-binário”, “gênero-fluido” e etc, na linha do identitarismo de gênero, e sabemos que não é assim que gênero funciona) e muito, mas muito restrita a uma bolha virtual ou acadêmica e jovem.

O que você acha mais fácil: convencer o tio da padaria a te chamar de “elu” (ao invés de “ele” ou “ela”) e dizer que você está “linde”, ou o convencer a falar mais “pessoas” no lugar de “homens” ou outros plurais no masculino?

A nossa língua dispõe, sim, de formas pra falarmos de maneira neutra. É só não ter preguiça.

Por fim:

A linguagem em si não é sexista, acredito. Seu uso é que é sexista, uma vez que a linguagem também reflete uma estrutura de poder (e pode ser — e é — usada para mantê-la, inclusive). Se quiser ler mais sobre isso, recomendo muitíssimo este Manual para uso não sexista da linguagem.

Agora deixe esse X lá em 2013, pelo amor da boa deusa ❤


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