Estamos sendo exterminadas

O genocídio de meninas já transformou as mulheres em uma minoria numérica

O jornal americano Washington Post publicou, em abril de 2018, uma matéria sobre as consequências de anos de políticas governamentais na Índia e na China, que levaram a um desequilíbrio enorme no número de homens e mulheres nesses dois países. De acordo com as melhores evidências científicas, sempre existiu uma diferença no número de homens e mulheres em cada região ou país, muito embora esse número, na média, não signifique uma maioria que possa determinar que um sexo ou outro seja uma minoria. Ao falar de minorias que precisam lutar por seus direitos, nem sempre estamos falando de minorias numéricas. Nos EUA, negros são minoria, mas não porque existem em número significativamente menor do que o número de pessoas brancas, como é o caso, por exemplo, de populações que migram para outros países. Num contexto mais amplo, as minorias devem ser analisadas a partir de sua representatividade política.

Portanto, sempre partimos do princípio, até agora, de que, embora o número de homens e mulheres em cada país seja desigual, na média, mulheres sempre foram metade da população mundial. Entretanto, somos minoria política há muito tempo. Não é possível dizer que há mulheres em igual número governando países ou administrando os grandes conclomerados industriais. Em ano de eleições, muito se discute sobre representatividade feminina. Devemos votar em qualquer mulher que se candidate, mesmo que ela claramente não tenha plataformas voltadas exclusivamente para a melhoria de vida das mulheres? Devemos só votar nas candidatas que estão claramente comprometidas em erradicar a violência masculina contra as mulheres? Ou devemos assumir ainda uma terceira via e boicotar totalmente o sistema político, preferindo formar grupos independentes longe dos partidos, formar lideranças horizontais e projetos que trabalhem de forma direta com as mulheres que precisem de ajuda? Além dessas questões, de acordo com a matéria do jornal americano, não apenas somos minoria política, mas agora também somos uma minoria numérica a nível mundial. Os dois países mais populosos do mundo são a Índia e a China, que agora contam com 37 e 34 milhões de homens a mais do que mulheres, respectivamente. Uma reportagem do Globo de 2015 já apontava um estudo da ONU, mostrando que o número de fêmeas humanas sofre uma redução significativa desde os anos 60. O que levou a uma discrepância tão grande no número absoluto de machos e fêmeas humanas no mundo? As pesquisas de órgãos internacionais como a ONU apontam as políticas de cada país como principal culpado. Onde há oportunidades reais para mulheres serem independentes financeiramente, o número entre os sexos tende a ser equilibrado — e normalmente há um ligeiro aumento da população feminina. No caso da China, a política do filho único é um claro exemplo de como as leis podem afetar a vida das mulheres. Anos de proibição de ter mais de um filho em cada família levaram casais a abortar fetos em massa, ou a deixar filhos recém-nascidos em casas para morrer, possibilitando os pais obterem permissão de tentar por outro filho, sob a alegação de que a gravidez anterior não teria produzido uma criança viva. Na teoria, os abortos e a matança de bebês poderia acontecer em igual medida para os dois sexos, dependendo das preferências dos pais. Mas vivemos em um mundo misógino, onde mulheres ainda não têm direitos políticos suficientes para a própria subsistência. Portanto, os fatos que se apresentam são claros: as chinesas abortavam, na esmagadora maioria, fetos que seriam meninas, e os casais abandonavam recém-nascidos, majoritariamente, do sexo feminino. As meninas que chegaram a primeira infância também foram vítimas de infanticídio.

Na Índia, a crença de que as meninas dão “muito trabalho” estaria na principal causa de abortos e infanticídio de fêmeas humanas. As meninas dão trabalho porque precisam de absorventes na adolescência e dão trabalho porque os pais precisam providenciar um dote para seu casamento. Portanto, muitos pais consideram “insustentável” financeiramente ter uma filha. Junte a isso a misoginia escancarada da sociedade indiana, que dificulta denúncias de estupro, não pune agressores, permite o casamento infantil, e temos a receita perfeita para o extermínio em massa de boa parte da população feminina.

Mais de 70 milhões de homens a mais no mundo é algo que traz consequências desastrosas para toda a humanidade. Mais homens significa que as taxas de natalidade vão cair assustadoramente, porque há menos mulheres para gestar. Homens podem fertilizar mulheres praticamente todos os dias do ano. Mulheres só podem “produzir” um bebê uma vez ao ano. Isso tudo teoricamente, claro. Na prática, há questões de infertilidade, de possibilidade e de probabilidade envolvidas. Uma forma que homens sempre tentaram resolver esse tipo de problema foi com a redução de todas as mulheres férteis a “incubadoras”, com o sagrado propósito de perpetuar a espécie para a sobrevivência da sociedade. Lembra muito o Conto da Aia, de Margareth Artwood.

Além da natalidade, sociedades que possuem um número maior de homens do que de mulheres observam um aumento da violência masculina e da solidão masculina — e é exatamente essa cartada que os Incels (Celibatários Involuntários) jogam para justificar a sua misoginia, alegando que estão sozinhos porque as mulheres hétero só querem agora se relacionar com homens que tenham uma determinada aparência e status social.

Tempos sombrios se aproximam. Não bastava as mulheres não ter representatividade política suficiente para atender a todas as demandas — somente este ano a Irlanda legalizou o aborto, e Argentina ainda está debatendo o assunto. Agora também, somos oficialmente uma minoria numérica no planeta. A conta já está chegando para todas nós.


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