Tamillys Lirio
Mar 4, 2018 · 5 min read

Pedindo licença à James Baldwin por minha ousadia, reescrevo o nome de sua incrível obra póstuma, adaptada por Rauol Pack, pois seu título me serve como um banquete para alguém faminto.

Foto: Panteras Negras protestando em Oakland Califórnia, em 1969 (fonte NY Times)

Demorei pra entender as complexidades de ser negra nesse país. Sinceramente não sei tudo, me falta tempo de estrada para compreender as questões de um problema estrutural, das facetas múltiplas das violências que maliciosamente foram travestidas de brincadeira. Não tenho vergonha de admitir, sei muito pouco, mas sei.

Sei principalmente que sou negra e não sou sua.

Vai ver você nem me conhece e deve pensar que estou com um parafuso a menos...

Não descarto essa possibilidade, já que os "parâmetros da normatividade" criados nessa sociedade, não foram feitos por pessoas como eu. O que me falta para o seu conceito de "normal" me sobra de revolta, de indigestão, de cansaço e vontade de gritar.

Sim, você leu direitinho! Eu não sou sua. E lembre-se disso quando pensar que pode me dizer e fazer o que vier à sua mente.

Sei que a tecnologia aumentou essa possibilidade, de dizer pra um completo estranho coisas que você, talvez nunca tenha dito à alguém ao vivo, mas não! Não sou objeto, não sou propriedade, não sou um perfil online, não sou um corpo vazio que vaga na rua, em que você pode depositar toda sua frustração ou seu tesão.

Eu insisto em dizer o óbvio, porque continuo a lidar com as mesmas situações cotidianamente, e se me sinto cansada é porque tem um monte de gente que ainda não ouviu/leu, ou simplesmente ignora. Tenho que preparar minha mente e meu corpo exausto, diariamente, não somente para as violências que cercam a todos, mas para lidar com as nuances esmagadoras de ser mulher e negra num contexto racista e machista.

Sinto medo de ser roubada, assediada e estuprada, como toda mulher atualmente, mas também tenho que pensar naqueles que querem tocar meu cabelo, rir das minhas roupas, ou mesmo naqueles que deixam o lugar ao meu lado vago nos ônibus. Sinceramente, não quero ter que pensar em nada nisso, mas sou forçada. Sou obrigada a receber com um sorriso, a uma pergunta sobre "como lavar meu cabelo", ou a receber pacificamente uma piada sobre cotas. Posso estar no meu pior dia e ter passado por uma situação que me despedaçou por dentro, mas quase ninguém liga, simplesmente agem e esperam que eu reaja bem aos insultos e agressões racistas.


Recentemente o caso da Yasmin Stevam, que foi ridicularizada em larga escala nas redes sociais, por expor em rede nacional que não conseguiu um emprego por ter seu cabelo crespo trançado, tal fato abriu feridas em mim. Feridas que só quem vive sabe. É muito doloroso saber que milhares de meninas e meninos, como eu, tem seus planos e sonhos interrompidos por serem negros, com cabelos crespos, terem a pele escura e traços largos. Me recordo de Dorothy Counts, 15 anos, a primeira estudante negra a estudar numa escola pública na Carolina do Norte em 1957, sendo cuspida, ridicularizada e alvo de risadas por seus “colegas” brancos, apenas por lutar e exigir seu direito de estudar (é possível conhecer um pouco da história de Dorothy no documentário "Eu não sou seu negro").

Fotos de Dorothy Counts sendo hostilizada em 1957 e a foto de Yasmin Stevam, que gerou uma série de memes racistas nas redes.

60 anos se passaram e nada mudou. Ou como disse o diretor do documentário, Rauol Peck, "Seja lá o que a repressão era 40 anos atrás, é o mesmo sistema, apenas usando ferramentas melhores."

Ainda ouço que "não é por mal" e que devo ser educada, pois nem todos sabem que é racismo. Mas o mesmo argumento não é válido, por exemplo, para um caso de assalto, quando tiram a força algo que você batalhou para ter. Ora se racismo é crime, porque é o único que tentam reduzir à "um engano inocente"??Munanga* já dizia, que esse é o crime perfeito, e se insistem em diminuí-lo, é porque ele faz parte do cotidiano de muita gente.

Se a maioria de nós sabe o que é bom ou ruim para si, porque comigo e com as centenas de milhares de pessoas negras nesse país, não há respeito? Porque devo retribuir um ato violento me calando, ou agradando a quem me violentou?

Muitos se sentem à vontade para fazer o que bem entendem com as pessoas negras, porque acreditam que somos sua propriedade. Sabem, como na escravidão? Que os senhores compravam seus escravos e faziam o que queriam com nossos corpos?! Me sinto presa há séculos de opressão.

Eu não sou sua negra!

Você não me comprou, você não assinou uma carta de alforria, à qual devo ser grata eternamente e aceitar "de bom grado" tudo que você me disser.

O mesmo vale para quem acha que devo me submeter à violências escritas em redes sociais. Você não me conhece! Sabe apenas detalhes da minha longa jornada, não sabe das minhas dores diárias. Vivo minhas batalhas inevitáveis, inescapáveis e não vou me sujeitar a ler enxurradas de desaforos, preconceitos de quem não me conhece e não me respeita. Basta!

Foto via Instagram por @artistslaam

Não vivo só dor e sofrimento, tenho muitas conquistas e algum conhecimento para dividir, mas essa atmosfera tóxica, sem filtros e limites insiste em me fazer gritar. E talvez grite até ficar sem voz, para que as próximas gerações possam apenas falar.

E encerrando esse grito preso na garganta evocando o brilhante Baldwin;

" Eu não posso ser pessimista, porque estou vivo"...

Apesar de ter absoluta certeza que ainda temos muito o que vencer, sei que cabe a cada um de nós, romper com a lógica racista que continua massacrando a saúde física e mental dos negros e negras desse país. Cabe à nós negros fortalecer nossos irmãos com estratégias de proteção e com muito conhecimento. Cabe aos brancos reconhecer que o racismo é uma problemática branca e que sem o reconhecimento dos privilégios herdados por séculos de desigualdade, é impossível viver num país melhor.
Nós não somos seus negros.

Notas

Documentário "Eu não sou seu negro" disponível legendado em :https://youtu.be/Nt1qqzVhhBM

O texto acima não reflete o conteúdo do documentário que aborda a visão do diretor Rauol Peck sobre a obra de 30 páginas do escritor James Baldwin, que infelizmente faleceu antes do final da obra. O referido documentário aborda a visão sobre a vida e os assassinatos de Medgar Evars, Malcolm X e Luther king, amigos de Baldwin, atores fundamentais na luta antirracista e por direitos civis nos EUA. Assistir a obra me despertou a necessidade de falar sobre o tema dessa forma!

*Kabenguele Munanga — Antropologo, especialista em antropologia da população afro-brasileira. Trecho da entrevista na Revista Fórum:https://www.revistaforum.com.br/mariafro/2011/11/20/kabengele-munanga-nosso-racismo-e-um-crime-perfeito/


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Mulher Negra, Psicóloga. Aqui consigo escrever o que por muitos anos foi silêncio.

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