Esse texto é sobre bulimia e raça, sobre bulimia e ser mulher preta, e como o racismo transformou minha doença num megazord indestrutível.

Pryscila Galvão
Jun 5, 2018 · 5 min read

Transtorno alimentares, segundo a psicologia “ é um transtorno mental que se define por padrão de comportamentos alimentares desviantes que afeta negativamente a saúde física ou mental do indivíduo” e você provavelmente já ouviu, uma vez na vida, falar sobre ele.

*ATENÇÃO*
ESSE TEXTO PODE (E VAI) CONTER GATILHOS EMOCIONAIS

Comecemos do começo, acho que é o mais sensato a fazer.
Eu comecei a desenvolver bulimia aos 12 anos e comecei a tratar disso aos 15, porém até hoje eu carrego comigo as consequencias por ter virado “amiga da mia” (era assim que meninas bulimicas eram chamadas dentro da internet por elas mesmas). Chamaremos ela de Mia, ok? Porque sinceramente, esse texto já possui um título pesado demais pra ficar repetindo a palavra “bulimia” a cada paragrafo.

Conheci a Mia pela internet, em um blog chamado “Amigas da Ana e da Mia”, e lá ensinava tudo, absolutamente TUDO, pra você começar nesse mundo. Lá eu aprendi a “miar”, dietas absurdas, como fazer dia de “LF” e dia de “NF”, o que comer, como comer, quando comer pra não desmaiar e por ai vai.

Ninguém entra num blog chamado “Amigas da Ana e da Mia” de graça muito menos de brincadeira, ninguém entra pra vida de bulimica simplesmente porque quer chamar atenção, até porque no meu caso foi totalmente o contrário. Sempre fui uma criança grande, seja de altura ou de estrutura, e talvez o fato de eu ter feito natação dos meus 7 anos aos meus 14 tenha ajudado na minha estrutura óssea extremamente larga. Além disso, sempre fui uma criança e uma pré-adolescente com um corpo que meninas da minha idade não tinham. Peitos desenvolvidos, bunda muito grande, coxas grossas, tudo isso em uma criança de 12 anos que estava entrando na puberdade.

Nataly Neri conta sobre a “Mulata que não veio”, e talvez esse texto seja sobre a mulata que veio cedo demais. Aos 12 anos me chamavam “mulher”, falavam que estava uma moça, que eu estava com corpo formado, que eu era grandona e isso não era normal. Comentavam isso com a minha mãe, comentavam isso com a minha irmã quando reparavam que a roupa que eu usava se parecia com a dela de semanas atrás, e ela é 17 anos mais velha que eu. A mulata veio cedo demais e me tirou toda a inocência e infantilidade que eu deveria ter aos 12 anos.

Eu não queria ser mulher, inclusive só fui me denominar assim depois dos meus 18 anos de tanto medo que eu tinha dessa palavra, e a mia me parecia uma boa saída. Todas as fotos que apareciam no blog, no tumblr, na internet no geral, eram de garotas pequenas que pareciam crianças, eram de garotas que eu tinha certeza que não seriam chamadas de mulher, era a saída perfeita.

E assim foi, segui a risca, “miei” por uma semana, pausa de uma semana em LF, depois NF seguida de uma semana de qualquer dieta absurda (que até hoje eu não faço a mínima ideia de como eu tô viva escrevendo isso aqui). E deu certo, eu emagreci, mas engordei na mesma proporção por sempre estar morrendo de fome. Uma das principais características da mia é a compulsão por comida e depois se sentir culpado por isso e, assim, realizar qualquer tipo de castigo, seja a mutilação ou a indução ao vomito. Os dois são bem comuns, realizei os dois, mas a indução ao vomito foi mais presente.

Em um mês eu consegui acabar com 15 quilos, principalmente porque eu praticava esportes na época então acelerou o processo. Mas em lugar nenhum uma criança de 12 anos perder 15 quilos em um mês é normal, então logo minha mãe percebeu. Quando isso aconteceu eu tive que retomar minha alimentação drasticamente para que eu não fosse levada ao um médico ou qualquer coisa parecida que contasse a minha mãe que a filha dela tinha bulimia. Não, eu não podia deixar isso acontecer.

Nesse processo de vomita-não deixa a mãe descobrir-vomita-come-come muito-vomita de novo minha bulimia durou, nesse ritmo, até os 15 anos. 3 anos de muito auto-ódio, depressão e vontade de tirar todas as minhas curvas de mim pra ser o mais reta possível, 3 anos que me renderam refluxo nervoso, depressão, não conseguir me alimentar mais de uma vez por dia e compulsão alimentar.É aqui que a raça entra.

A hipersexualização do meu corpo por terceiros me fez entrar num processo de mutilação que, infelizmente, perdura até hoje. Não posso mentir e dizer que consigo me pesar e ver qualquer numeração na balança sem ficar pensando naqueles números por semanas, ou até meses. Não posso mentir em dizer que aceito meu corpo e minhas curvas totalmente enquanto eu ainda queria ter menos curvas e não ser chamada de mulher, principalmente porque eu sei exatamente a forma que me enxergam com a minha bunda avantajada, com meus seios fartos.

O racismo fez com que mesmo eu tendo um corpo que muitas pessoas desejam, eu consiga odiar ele da forma mais natural possível. Porque tudo bem ser grande, ter curvas, ter seios, ter bunda, uma mulher pode ter tudo isso contanto que ela não seja preta. A cor da minha pele faz com que eu seja associada unicamente ao carnal, a sexo, a perversidade. Já pensou em como foi ser uma menina de 12 anos sendo olhada assim?

A bulimia se tornou um megazord porque mesmo eu aceitando meu corpo ou não, os olhares sobre ele continuam os mesmos, e minha vontade de não ser vista dessa forma segue intacta. Hoje eu consigo ter mais de uma refeição por dia, o alimento para no meu estômago, consigo comer as coisas sem olhar seu valor calórico mas ainda não consigo mudar a forma como me olham. A mia foi a saída pra alguém que estava desesperada, pra alguém que só queria ser olhada como todas as outras meninas eram olhadas. A mia foi minha melhor amiga por muito tempo porque ela realizava, mesmo que não completamente, meu desejo em ser menor, de não ser a mulata, de não ser mulher e sim de ser criança, garota.

Nós precisamos falar sobre bulimia e racismo. Nós precisamos entender como transtornos alimentarem atingem um corpo preto. Eu espero ter contribuído para essa discussão, e espero também que ela continue.


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