Feminismo não é sobre igualdade de gênero

Tradução do blog RadFemFatale

Ariana Amara
Oct 16, 2017 · 8 min read

Parece haver uma confusão sobre a definição do termo “feminismo”, alavancada por declarações de celebridades que se tornaram ecos nesse assunto. “Se você é a favor da igualdade, você é feminista,” de acordo com Emma Watson. Em resposta às críticas que recebeu por seu ensaio de topless para Vanity Fair em março deste ano: “Feminismo é sobre dar escolhas às mulheres. É sobre liberdade. É sobre libertação. É sobre igualdade.”

Se esses mantras soam amigáveis e palatáveis, é porque eles foram criados de acordo. O feminismo moderno foi reconstruído por meio de uma retórica individualista que ignora largamente as restrições sociais da ordem masculina.

É interessante como a escolha de Watson em se objetificar, reflete exatamente o que os homens teriam feito as mulheres fazerem de qualquer forma: ao invés de serem forçadas a se objetificar para o consumo masculino, as mulheres agora podem aproveitar da liberdade de escolher pela objetificação. Dessa maneira, fica implícito que nossa opressão se torna empoderadora caso ela seja uma escolha. O feminismo Neoliberal, que usa de termos como igualdade de gênero e escolha, se foca no indivíduo em vez de focar no sexismo sistêmico, e rejeita as análises de como as escolhas impactam a sociedade. Ele é, na melhor das hipóteses, equivocado, e na pior, é usado para produzir efeitos que são ativamente anti-feministas e se parecem mais com a retórica usada por movimentos masculinistas do que do movimento de mulheres.

Recentemente, em meio às várias mulheres que vieram a frente para denunciar os abusos sexuais e assédios cometidos por Harvey Weinstein, Watson postou no twitter: “Neste caso as mulheres foram as afetadas, mas eu também estou do lado de todos os homens, e de qualquer pessoa que sofreu abuso sexual.”

Os apontamentos de Watson demonstram a popularização do conceito de que feminismo é sinônimo de igualdade. Como podemos ver por suas reações para o caso de Weinstein, essa forma de ver os sofrimentos das mulheres recai em uma diluição do movimento das mulheres e resulta no desejo de Watson de se desculpar aos homens quando comenta assuntos que afetam diretamente e desproporcionalmente a vida das mulheres. Em seus comentários recentes, ficou claro que dentro da onda de tornar o movimento das mulheres mais palatável para o público em geral, é necessário ignorar o princípio base do feminismo: nós vivemos dentro de um sistema patriarcal, em que homens comandam, e os maus tratos direcionados às mulheres e meninas são para nos manter em uma posição subordinada aos homens. Feminismo não é sobre manter as mulheres, ou os homens, confortáveis dentro da estrutura patriarcal existente, nem devemos centrar os homens dentro de nosso movimento.

Os homens criaram o patriarcado e se beneficiam dele; se fosse de outra forma, eles estariam lutando ao nosso lado para acabar com ele. Mulheres já têm trabalho o suficiente para si mesmas, para ter que adicionar o trabalho emocional de manter os homens felizes, homens que provavelmente possuem mais poder que nós para provocar mudanças. Sugerir que mulheres devam ir por esse caminho é dizer que nossas demandas para melhorar nossa qualidade de vida não são válidas a não ser que homens estejam envolvidos; que nós não existimos independentemente enquanto humanas com experiências diferentes; e se baseiam na expectativa sexista de que mulheres sejam as cuidadoras: nosso trabalho emocional deve ser oferecido de graça, ou somos taxadas de egoístas.

Watson, como Embaixadora da Boa Vontade da ONU e porta-voz da campanha “He for She”, já fez inúmeros discursos redefinindo o movimento das mulheres como um movimento pela igualdade dos sexos. Um dos comentários mais curtidos em um video de um de seus discursos diz:

“O que é feminismo: o chamado para homens e mulheres serem tratados com igualdade.

O que NÃO é feminismo: dizer que mulheres são melhores que homens e que homens não merecem a atenção que mulheres recebem. Se você não entende o significado de feminismo, por favor, pare e vá se educar.”

Em outras palavras: se mulheres não estão falando s0bre ajudar os homens, elas são egoístas. Quando focamos em nós mesmas e nas formas únicas que o patriarcado destrói e subordina mulheres e meninas, nós estamos precisando nos educar. Quando mulheres demandam mais para si mesmas, nós somos desviantes e moralmente defeituosas.

O termo “igualdade de gênero”, apesar de soar agradável, é prejudicial à habilidade de mulheres de desafiar efetivamente as barreiras comuns que, em algum grau, todas as mulheres experimentam em suas vidas. Mulheres não existem enquanto gênero, nós existimos em corpos de fêmeas; gênero é um termo para designar os estereótipos socialmente construídos de masculinidade e feminilidades, uma hierarquia criada pelos homens para assinalar atributos como algo fixo da biologia. Esse foi o raciocínio foi criado pelos homens para justificar a exploração das mulheres.

Quando definimos feminismo como igualdade de gênero, o que estamos na verdade defendendo é a igualdade dentro do sistema de gênero — respeito igualitário para a masculinidade e a feminilidade — e não pessoas reais que existem. Igualdade de gênero é um termo que apaga mulheres, que são subjugadas pelo corpo, e geralmente essa subjugação é construída pelos padrões gênero que racionalizam nossa opressão. Em todos os aspectos das nossas vidas somos policiadas: existir nos espaços públicos é o suficiente para convidar o assédio; a sexualidade feminina foi sequestrada e usada para vender produtos que enriquecem os homens; somos tratadas como rebanho reprodutor; quando somos estupradas, é a sexualidade feminina percebida que é a culpada, ao invés do direito que homens sentem sobre nossos corpos.

Nenhuma dessas questões é abordada quando usamos o termo igualdade de gênero para falar sobre o que o feminismo significa para nós. Igualdade de gênero significa quase literalmente respeitar as normas sociais impostas no lugar dos direitos humanos, de nossos direitos e experiências, e apaga nossa habilidade de centrar nosso movimento em mulheres. Feminismo é, primeiramente e principalmente, um movimento para fêmeas. Uma vez que removemos as mulheres da definição de feminismo, ele se torna banguela.

Chimamanda Ngozi Adichie, em um artigo para The Guardian, resume a questão magnificamente. “Algumas pessoas me perguntam: ‘Por que a palavra feminista? Por que não dizer que você acredita nos direitos humanos, ou algo assim?’ Porque seria desonesto,” Adichie continua. “Feminismo é parte dos direitos humanos em geral, claro — mas escolher usar uma expressão vaga como ‘direitos humanos’ é negar o problema específico e particular do gênero. Seria uma forma de fingir que não foram as mulheres que, por séculos, foram excluídas. Seria uma forma de negar que o problema do gênero tem a mulher como alvo. Que o problema não é o fato de você ser um humano, mas especificamente uma fêmea humana. Por séculos, o mundo dividiu os seres em dois grupos e prosseguiu excluindo e oprimindo um desses grupos. É apenas justo que a solução para esse problema reconheça esse fato.”

Vamos voltar para Emma Watson e sua declaração de que feminismo é sobre liberdade, libertação e igualdade. Suas idéias não são de forma alguma apenas suas; elas representam a falta de entendimento mainstream do que o que é que mulheres precisam para alcançar a liberdade de escolha que ela apoia.

Para começo de conversa, a esquerda mainstream coloca essas ideias juntas, como se fossem sinônimas — como se igualdade se manifestasse como uma libertação. Mas então precisamos nos perguntar: o que significa igualdade?

Para entender o significado de igualdade nesse contexto, precisamos entender como ela tem sido definida pela sociedade. Salários iguais para trabalhos iguais, por exemplo, é uma causa defendida por várias mulheres em Hollywood. É uma causa alavancada como uma questão feminista, ao invés de uma questão econômica. A busca pela igualdade de remuneração reconhece que dinheiro é poder enquanto estranhamente ignora a realidade do sistema capitalista, que depende da desigualdade para se manter. Igualdade de salários não representa quase nada para as mulheres que fazem uma quantidade desproporcional de trabalho doméstico em relações heterossexuais, não importa o quanto elas ganhem mais que seus parceiros.

É também curioso que garantir que mulheres tenham oportunidade de receber trabalho igualitário não seja frequentemente defendido pelos proponentes da remuneração igualitária, talvez porque a educação das mulheres não é uma meta individualista, mas requer uma grande quantidade de trabalho para reestruturar o sistema. Além do mais, mulheres brancas e ricas defendendo a remuneração igualitária parece ser uma causa defendida para proveito próprio, e tanto é que elas se mostram indispostas a ajudar mulheres que não possuem as mesmas habilidades ou recursos para serem contratadas em áreas de prestígio como as delas. Ou talvez, criticar o próprio capitalismo e reconhecer que “igualdade de remuneração” dentro de um sistema desigual é um oxímoron.

Neste caso, torna-se claro que igualdade está sendo definida pela esquerda como igualdade com o homens: buscar os mesmo direitos e privilégios que os homens aproveitam no patriarcado tem sido o padrão pelo qual o feminismo moderno está medindo a liberdade das mulheres. Quando o feminismo se define como sendo a busca pela igualdade com homens, é um claro reconhecimento que homens são o padrão pelo qual estamos nos medindo, e portanto esse deixa de ser um pensamento feminista.

Ao invés de falarmos, “Mulheres podem fazer tudo que os homens fazem”, nós temos que reconhecer que mulheres podem fazer coisas incríveis que homens jamais poderão. Nossas diferenças biológicas — a capacidade de gerar vida — é um dom. Homens e mulheres são mais parecidos entre si do que diferentes, tirando esse aspecto da reprodução, e ainda assim, é muito revelador que a fragilidade percebida de nossos corpos, junto com a capacidade de gerar vida, estão entre os grandes obstáculos para que os homens nos percebam como, e nos permitam ser, seres humanos completos.

A razão de as mulheres serem oprimidas é porque somos diferentes dos homens. Historicamente, o patriarcado usou dessa diferença para justificar nossa subordinação. Nós não precisamos ser vistas como iguais aos homens: nós precismos ser vistas como tão valiosas e válidas, não apesar, mas por causa de nossas diferenças. Mulheres não deveriam ser percebidas como os homens apenas para serem levadas a sério.

Citando Germaine Greer, “Eu nunca fui uma feminista pela igualdade… Eu não acho que a condição atual dos homens é nada pela qual nós devemos aspirar”. Nós temos que começar a rejeitar a ideia de que lutar pela igualdade que os homens têm vai resultar em nossa libertação, assim como a coerção para se incluir homens em nosso movimento. Se nós não desafiarmos o sistema patriarcal, muitas das nossas conquistas dependerão da vontade deles — nossos direitos serão entregues a nós às migalhas, e nós seremos forçadas a continuar pedindo aos homens para que nos garantam esses direitos.

Fale em voz alta e com orgulho: feminismo é sobre a libertação das mulheres do patriarcado.


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