Feminismo Radical é a única solução para a constante ‘má conduta sexual’ dos homens

O feminismo radical nos desafia a ser melhores do que a cultura patriarcal nos pede — ele nos desafia a rejeitar a glorificação patriarcal do controle, da conquista e da agressão.

Por ROBERT JENSEN5
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“Não estou surpresa,” nos dizem as mulheres, em resposta ao fluxo de revelações das “más condutas” sexuais dos homens, especialmente homens em posição de poder.

Mas nenhum de nós — mulheres ou homens — deveria estar surpreso, porque os Estados Unidos são uma sociedade patriarcal e no patriarcado os homens rotineiramente clamam pelo direito de possuir e controlar os corpos das mulheres para reprodução e para o prazer sexual. Homens — liberais e conservadores — sabem disso tão bem quanto as mulheres.

Em tal sociedade, homens conservadores e liberais geralmente discordam em público sobre as condições em que eles clamam por essa posse. Homens conservadores defendem o controle das mulheres dentro da família heterossexual. Homens liberais defendem um acesso mais amplo às mulheres. Na esfera pública, os debates políticos sobre os direitos reprodutivos e sexuais tomam proporções violentas. Na esfera privada, homens conservadores e liberais argumentam pelo seu “direito” de fazer o que bem entendem, o que faz mulheres acharem difícil separar homens conservadores dos liberais quando o assunto é o comportamento.

Que tipo de mundo essas atitudes produziram? Uma cultura pop sexualmente corrisiva (tanto nas práticas de namoro e por meio das imagem mediadas), com indústrias que exploram a sexualidade se expandindo (principalmente a prostituição e pornografia) e uma intrusão sexual rotineira (o espectro que vai do assédio sexual ao abuso). Mulheres são constantemente objetificadas na cultura pop, que reduz seres humanos complexos a partes do corpo para o prazer masculino. Homens constantemente compram e vendem esses corpos objetificados para o próprio prazer, pessoalmente ou na tela de dispositivos. E quando homens acreditam que eles podem possuir esses corpos sem serem desafiados, eles fazem exatamente isso.

Homens ou mulheres, nós não deveríamos estar surpresos quando em uma sociedade patriarcal — uma sociedade baseada na dominação masculina institucionalizada — os homens exercem a dominação. É claro que o patriarcado não é estático ou unidimensional, nem é o único sistema de autoridade ilegítima. O patriarcado em 2017 não é exatamente o mesmo que era em 1917; patriarcado nos Estados Unidos não é o mesmo que o patriarcado na Arábia Saudita. Raça, classe, religião e nação afetam como o patriarcado se manifesta em época e lugar específicos.

O patriarcado também não é imune à desafios. O feminismo faz avanços, o patriarcado tenta reverter, e a luta prossegue. As mulheres avançam nos negócios, na política e na educação e os homens asseguram seu controle sobre os corpos femininos onde eles possam se safar.

O feminismo radical é o termo para aquele componente da segunda onda feminista (nos Estados Unidos, a fase do movimento que emergiu na década de 1960) que mais diretamente confrontou a exploração sexual masculina dos corpos das mulheres. Nas três décadas em que eu me envolvi com projetos feministas radicais, essa análise se tornou mais útil que nunca para explicar a crescente sociedade corrosiva, a normalização da exploração sexual e os níveis epidêmicos de violência sexual.

Ainda assim, tanto os conservadores quanto os liberais rotineiramente desqualificam o feminismo radical como perigoso, ultrapassado e irrelevante. Por que uma análise que oferece uma explicação atrativa sobre as tendências sociais deveria ser ignorada? Minha experiência sugere que é precisamente a força da análise feminista radical que tem sido evitada. A sociedade americana está de má vontade ou é incapaz de confrontar as patologias do patriarcado, um sistema de autoridade ilegítima tão profundamente entrelaçado ao tecido da vida cotidiana que muitas pessoas têm medo de nomeá-lo, quanto mais confrontá-lo.

Eu lembro claramente minha primeira exposição às ideias feministas radicais, quando eu tinha 30 anos de idade, em meados da década de 1980. Eu sabia que as mulheres que apresentavam esses argumentos, especialmente sobre a exploração masculina das mulheres na pornografia, tinham que ser loucas — porque se elas não estivessem loucas, não somente eu teria que reaprender tudo que eu sabia sobre o sistema de sexo/gênero no patriarcado, mas também teria de mudar por completo meu comportamento. Mas o feminismo radical me venceu — pelas evidências e pelos argumentos, junto com uma honestidade emocional inegável. Uma vez que eu me permitir ouvir com cautela, o feminismo radical não apenas explicou a opressão vivida por mulheres e meninas como também me ajudou a entender o porquê de eu sempre ter achado que jamais conseguiria corresponder aos padrões patológicos de masculinidade no patriarcado.

Eu tinha sido ensinado que feminismo — especialmente o feminismo radical — era uma ameaça aos homens. Eu passei a entender que o feminismo radical na verdade é um presente a nós. Não é tipo de presente que nos faz sentir confortáveis ou em paz, mas ao invés, ele nos desafia a ser melhores do que a cultura patriarcal espera de nós, a rejeitar a glorificação patriarcal do controle, da conquista e da agressão.

Estou para completar 60 anos agora, e a metade da minha vida vivida junto com uma análise feminista não foi sempre fácil, nem me fez superar magicamente todas as minhas falhas. Mas o feminismo radical me permitiu parar de me preocupar em ser “um homem de verdade” e a começar a entender como ser uma pessoa decente.

Robert Jensen é professor na Escola de Jornalismo na Universidade do Texas em Austin e o autor dos livros The End of Patriarchy: Radical Feminism for Men, e Plain Radical: Living, Loving, and Learning to Leave the Planet Gracefully. Você pode contactá-lo em rjensen@austin.utexas.edu ou por meio de seu site: robertwjensen.org.


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