Gênero não é uma identidade

Uma análise feminista sobre a politica de identidade de gênero

Tradução do texto original do Gender Critical Greens.

OS SERES HUMANOS ESTÃO TODOS BEM

Homens estão bem, mulheres estão bem. Todos os corpos estão bem, todos corpos são perfeitos. Se acreditarmos nisso, qualquer sensação de dissociação ou sentimento negativo sobre nossos corpos deve ser um sofrimento, seja causado por trauma, abuso, pressão social, lesão, doença, machismo, racismo ou deficiência.

BIOLOGIA

Biologicamente, os humanos vêm em dois sexos, isto é, somos sexualmente dimórficos. Um pequeno número de pessoas nasce intersexual, o que não anula a realidade de dois sexos, mas sim a confirma. Você não pode ser uma combinação de duas coisas se as duas coisas não existirem. Tradicionalmente, as pessoas intersexuais tiveram seus corpos alterados cirurgicamente no nascimento para se adequarem a um ou outro sexo, mas agora há um movimento de pessoas intersexuais que desafiam a validade disso. Se todos os corpos estão bem por que forçar essa conformidade em bebês que não conseguem consentir? Por que alterar cirurgicamente corpos que são perfeitos, como todos os corpos são?

PENSAMENTO FEMINISTA SOBRE OPRESSÃO

O pensamento feminista, desenvolvido através da construção da conscientização, da escrita e do ativismo, oferece uma análise do sexo e do gênero que vê o gênero como um sistema de expectativas, compulsões e hierarquias impostas aos homens e mulheres. Afirma que a sociedade patriarcal criou um sistema hierárquico de opressão entre os sexos, segundo o qual os homens como classe têm poder sobre as mulheres como uma classe. Essa hierarquia opressiva cruza com todas os outras, ou seja, racismo, capacitismo, classismo, homofobia, etc para criar hierarquias complexas e entrelaçadas que têm diferentes consequências para diferentes grupos. Os indivíduos em um grupo opressor podem, naturalmente, serem feridos e angustiados, inclusive como resultado de seu papel na hierarquia. O feminismo concentra-se na importância do nosso sexo biológico, porque quando começamos a ver o funcionamento do machismo observamos através da nossa experiência que a biologia é a desculpa para a opressão das mulheres e um importante e crucial local dessa opressão. Portanto, somos oprimidas, discriminadas, controladas e maltratadas nesta sociedade, não por causa da forma como nos identificamos, mas através do sistema reprodutivo de nossos corpos, por meio de abuso e violação sexual (e ameaça), através da prostituição, da pornografia, idade fértil e todos os aspectos da nossa fertilidade. Por milhares de anos, os homens controlaram as mulheres — economicamente, socialmente, sexualmente, emocionalmente e fisicamente— através de nossos corpos e nossa fertilidade.
Esse pensamento não significa que permitimos que a biologia nos defina. Pelo contrário, o feminismo afirma que qualquer mulher pode fazer ou ser qualquer coisa, que nossa feminilidade nunca deve ser um fator limitante, que devemos estar sem limites e que qualquer coisa que nos limite, controle, discrimine ou nos prejudique como mulheres é errada. Mas não podemos simplesmente identificar o nosso caminho para sair da opressão e negar a realidade de nossa composição biológica, evitando que possamos nomear, enfrentar e nos organizar contra o que nos é feito através de nossos corpos.

PENSAMENTO FEMINISTA SOBRE GÊNERO

O gênero é um conjunto de normas impostas-socialmente e construídas-socialmente, que são a estrutura através da qual todos os machos e fêmeas são encaixotados, mas que, em particular, são os blocos de construção da hierarquia entre homens e mulheres. Desde uma idade muito precoce, quase o nascimento, essas expectativas de gênero são impostas através das roupas que usamos, dos brinquedos com os quais brincamos, das cores que são consideradas apropriadas, do comportamento que se espera de nós, das atitudes expressadas em nossa direção. Elas podem variar de cultura para cultura e ao longo da história, mas seu propósito é o mesmo, moldar-nos em papéis na sociedade de acordo com nosso sexo biológico. Essas caixas de gênero são prejudiciais para os homens, especialmente na medida em que proíbem rigidamente a expressão de sentimentos de tristeza, dor ou medo, reprimindo o choro como sendo fraco e feminino. Elas moldam nossos meninos em um estado de separação de suas emoções, que é profundamente prejudicial para estes e para a sociedade. Mas, em muitas outras maneiras, as limitações impostas às meninas através do gênero são a base do machismo e da misoginia que aflige a vida das mulheres.

IDENTIDADE DE GÊNERO?

O gênero é o que o feminismo critica há décadas, então o conceito recente de identidade de gênero como algo a ser escolhido e celebrado é estranho para feministas. Categorias como não-binário, genderfluid, agenero e uma série de outras identidades parecem ser expressões de insatisfação com “ser uma mulher” ou “ser um homem” nesta sociedade. Muito bem também! Ninguém quer ser limitado por sua biologia, pelo que a sociedade nos impõe com base em nossa biologia e por papéis de gênero socialmente construídos. Mas negar a realidade, tentando identificar-se fora de ser macho ou fêmea, não só não funcionará, como o machismo não se importará com a forma como possamos nos “identificar”, mas também, involuntariamente, reforça esses papéis de gênero. É como levantar as mãos e dizer “Você ganhou, uma mulher não pode ser poderosa nesta sociedade, um homem não pode ser gentil e atencioso, e como eu quero ser essas coisas, eu claramente não sou uma mulher/homem.” Não… Não vamos engolir a mentira do patriarcado, continuemos afirmando que a definição objetiva de nós como macho ou fêmea com base na realidade biológica nunca definirá nossa personalidade, nossas atitudes, nossas habilidades, nossos desejos, nosso comportamento, nosso lugar no mundo.
Também é muito perigoso negar a nossa biologia. Os seres humanos não podem realmente mudar de sexo. Podemos tomar hormônios e embarcar em alterações cirúrgicas em nossos corpos. Estes podem mudar nossa aparência, voz, cabelos, peitos, genitais, mas sempre seremos biologicamente o que nascemos, e temos necessidades de saúde com base nisso, por exemplo, apenas os homens sofrem câncer de próstata e os sintomas de doença cardíaca são diferentes para as mulheres.

TRANSICIONANDO

Quando nascemos, somos descritos como homens ou mulheres com base na observação objetiva de órgãos genitais, não como está se tornando moda dizer “designado feminino ou masculino ao nascer”. O que nos é atribuído são papéis sociais baseados em nosso sexo, e isso é problemático. Então a transição, por mais longe que uma pessoa possa levar, não pode transformar alguém no sexo oposto. Pode-se apenas “viver como” o sexo oposto, ou seja, a transição social e alteração da aparência. Muitos de nós, especialmente na comunidade LGB e no movimento das mulheres, respeitamos durante anos a escolha do indivíduo para fazer isso, chamando-os pelo nome e pronome que eles desejam; e os direitos humanos básicos determinam que ninguém deve ser discriminado com base nesta escolha, seja no emprego, no alojamento, no acesso a serviços e também que nenhuma pessoa trans seja abusada ou assediada. Qualquer discriminação ou abuso é bem chamado de “transfobia”.

“MASCULINO PARA TRANS”

As pessoas do sexo masculino que são trans (MTT) foram criadas como homens, ou seja, membros do grupo que concedeu poder e privilégio sobre as mulheres. Eles foram condicionados a assumir os privilégios desse grupo e, de fato, se beneficiaram desses privilégios. Eles inevitavelmente carregam padrões de comportamentos e privilégios associados a esse grupo. Essa é a verdade por mais machucados ou angustiados eles se sintam. Então, afirmar que eles são realmente mulheres, membros do grupo oprimido e, além disso, apesar de serem do sexo masculinos e criados como homens, sempre foram mulheres; reivindicar a participação ao grupo oprimido, mudando a definição desse grupo (ou seja, feminino objetivamente definido pelo sexo biológico) é uma forma extrema de machismo e particularmente provocante para as próprias mulheres. A afirmação de que “as mulheres trans são mulheres” é uma ideologia sem base em fatos, que não é acreditada e nem adotada por muitos MTTs. Adotá-la não é a única maneira de apoiar as pessoas trans, e é bastante insuficiente para os indivíduos que lutam para encontrar uma maneira de viverem felizes em seus corpos masculinos. A razão pela qual não tem base na verdade é que, além do sexo biológico, qual a definição de fêmea? É um sentimento? É uma identidade? É um cérebro separado de um corpo? Aquelas de nós nascidas, criadas e vivendo como mulheres nesta sociedade podemos dizer, com toda compreensão, que tais definições são um insulto às nossas vidas e experiências, para as 85 mil mulheres que são estupradas todos os anos na Inglaterra e no País de Gales, e para as 35% das mulheres em todo o mundo que vivenciam violência masculina. Qualquer tentativa de definir a mulher além da biologia recorre inevitavelmente aos estereótipos de gênero, de modo que todas as referências dessa ideologia ao “ser feminino” ou “sentir-se como uma mulher” são baseadas em ideias socialmente construídas de que desejam usar roupas femininas, brincar com bonecas, maquiagem, coisas “femininas” e, fundamentalmente, não fazer coisas de “garoto”. Curiosamente, raramente se manifesta em um desejo de fazer o trabalho doméstico ou receber 14% menos de remuneração do que um homem. É retratado como uma rejeição dos papéis de gênero, mas é na verdade uma adoção dos estereótipos associados ao sexo oposto, reforçando assim esses estereótipos que pertencem apenas a um sexo e, portanto, uma postura profundamente tradicional, regressiva e misógina. Desculpe, vocês não precisam sair de sua caixa de gênero restritiva, pulando na nossa e redefinindo-nos no processo! Vocês sequer precisam. Homens podem ser qualquer coisa, usar qualquer coisa, fazer qualquer coisa, sentir qualquer coisa. As mulheres não estão definindo ou limitando vocês, apenas o conceito de gênero que está.

A REPERCUSSÃO NEGATIVA CONTRA O FEMINISMO…

A crítica e o desafio do feminismo aos papéis de gênero tiveram grande sucesso nos anos 70 e 80, para benefício de todos. Os Centros de Aprendizagem promoveram a retirada de gênero dos brinquedos, as meninas podiam usar salva-vidas e escalar árvores, os meninos podiam se preparar para a paternidade brincando com bonecas, os livros progrediram de “Janet e John” para histórias com personagens femininas fortes. A retaliação contra o feminismo foi deliberadamente promovido por um sistema capitalista que preferiu vender o dobro de mercadorias para os pais, e com essa retaliação os papéis de gênero se tornaram mais apertados do que nunca. A sociedade comprou toda a imagem de princesas para as meninas, com roupas sexualizadas para meninas cada vez mais novas, enquanto os meninos foram empurrados de volta aos papéis de super-herói macho e esperavam mais uma vez que garotos fossem duros e nunca demonstrassem emoções. Esta foi uma reversão deliberada de muitos dos ganhos feitos pelo movimento de libertação das mulheres, e foi prejudicial para todos nós.

… E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Não é por acaso que o recente aumento maciço e o interesse na transição, particularmente entre os jovens, ocorreu em um momento em que o aperto dos papéis de gênero tornou-se grande, e os jovens com razão desejam sair dessas caixas. A análise feminista das relações de poder tem sido transferida ao longo dos anos para a necessidade de “igualdade de gênero”, como se a discriminação arbitrária e inexplicada fosse o problema e não um sistema de poder conscientemente nutrido. A ausência de uma análise de que os papéis de gênero e a hierarquia são o problema levou à percepção de que, se não gostamos das regras e dos papéis da sociedade, há algo de errado com nós e devemos mudar quem somos; que “gênero” é a realidade e não o sexo biológico; que devemos nos redefinir, não como do sexo que somos, mas como do sexo oposto ou como uma nova “identidade de gênero”. A visão feminista de que o gênero é uma ilusão, um conjunto de regras socialmente impostas que mantêm os homens e as mulheres presos em “caixas” e afirma a supremacia dos homens sobre as mulheres é o que muitos jovens foram impedidos de ouvir, por uma sociedade que tem um interesse em preservar o status quo. Parece que ainda é revolucionário dizer “Mulheres e meninas podem ser qualquer coisa, meninos e homens podem ser qualquer coisa! Não há nada de errado com você se você não se conformar, a sociedade é a culpada!” Agora tornou-se mais urgente do que nunca declamar isso alto e claro, porque nossas meninas estão sendo jogadas e transformadas nas tempestades de identidade de gênero e chegando a algumas conclusões preocupantes e francamente perigosas.

“FÊMEA PARA TRANS”

O maior aumento nas referências às clínicas de “Identidade de gênero” recentemente é entre meninas e mulheres jovens. Nossa atenção foi direcionada aos MTT no qual, pela presença de padrões de privilégio e centralização a partir dos quais eles foram criados/socializados, capturaram toda atenção da mídia. As mulheres estiveram ocupadas lidando com a invasão em nossos espaços de dura conquista de práticas centradas na mulher, como centros de crise de estupro, refúgios para mulheres, organizações feministas e espaços lésbicos, tentando negociar soluções que fossem inclusivas, mas que permitam aquelas que nasceram mulheres o direito de se reunirem e organizarem juntas. Mas, enquanto as nossas costas estavam viradas, nossas meninas inconformes com papéis de gênero foram incentivadas a pensar que elas devem ser homens. Isso está ocorrendo em sites de redes sociais como Reddit e Tumblr através de uma ideologia que diz que, se você não é feminina, ou não está confortável em ser feminina, então você não é fêmea. Muitas meninas que se aproximam da puberdade atualmente em nossa sociedade altamente sexualizada estão preocupadas, terrivelmente infelizes e rejeitando o que se esperam delas conforme seus corpos mudam. Isso não deve ser uma surpresa. Estar cercada por uma geração de meninos criados em pornografia na internet e confrontados com imagens hiper-sexualizadas de fêmeas, apresenta um clima intimidante, se não absolutamente abusivo, para adolescentes. Não é de admirar que as meninas estão rejeitando o papel da disponibilidade sexual, e com ela seus próprios órgãos em desenvolvimento que parecem ser um imã de qualquer coisa, desde a objetivação de “baixo nível” até o abuso sexual definitivo. A cultura do estupro está bem viva, e as meninas que navegam pelas turbulências da adolescência têm todas as razões para rejeitar se tornarem uma mulher. Atualmente, há muita pouca margem de manobra, ou capacidade de optar pela não objetificação, como uma mulher nesta sociedade.
O que é extremamente preocupante é que uma menina se apresentando para uma clínica de identidade de gênero como potencialmente “trans”, muitas vezes como resultado de uma cultura de mídia social que a incentivou a pensar o que ela pode ser, é cada vez mais “afirmada” naquela rígida posição, que quase inevitavelmente leva à transição social. As meninas estão “apertando” seus seios com binders, resultando em doenças pulmonares restritivas e problemas respiratórios. As meninas estão fazendo cirurgias de mastectomia. Meninas estão tomando hormônios bloqueadores da puberdade, levando a tomar testosterona (que geralmente não é aprovada para fêmeas), resultando em esterilização permanente. Esterilização permanente, facilitada por adultos em papéis de responsáveis. Sem mencionar a futura cirurgia genital. Certamente, essa rota deve ser absolutamente um último recurso quando todo o outro suporte terapêutico estiver esgotado. A sociedade adulta está enfraquecendo de forma abrangente nossas jovens meninas não conformes com gênero. Deveríamos estar parabenizando-las por se recusarem a desempenhar papéis femininos de gênero, garantindo-lhes que não há nada de errado com elas e seus corpos, e responsabilizando diretamente uma cultura misógina. Como chegamos na posição progressiva de encorajar a mutilação dos corpos de meninas quando a vida como uma mulher se tornou insuportável para elas? Por que não estamos em alvoroço sobre isso? Os jovens sempre experimentarão estilos, comportamentos, definições e identidades. E eles não apreciarão o mundo adulto em busca de sua cultura. Mas não estamos apenas falando sobre uma fase gótica aqui. Adultos, incluindo pais e profissionais de todos os tipos, têm um dever de cuidado com os nossos jovens, e as consequências da transição para as meninas são simplesmente muito drásticas e duradouras para abandoná-las para essa ideologia.

CONVERSÃO LESBIANA E RESPONSABILIDADE PROFISSIONAL

O que também é claro é que muitas dessas garotas se deixadas sozinhas certamente cresceriam para serem lésbicas. Isso é conhecido pelas narrativas das mulheres destransicionadas, bem como pelas lésbicas que sabem que teriam sido vistas como trans se o clima atual fosse igual quando elas eram jovens. Foi demonstrado em estudos repetidos que uma identidade lésbica em meninas muitas vezes não é comumente formada até o final da adolescência ou no início dos vinte anos. O que isso significa é que muitas meninas que se tornariam lesbianas auto-identificadas estão sendo “preparadas” através de mídias sociais, ideologia trans e serviços profissionais bem-intencionados, mas equivocados, a acreditar que são “trans” em vez de simplesmente meninas que se recusam a estar sexualmente disponíveis para os homens ou a desempenhar o papel esperado como jovens do sexo feminino. Há casos de jovens sendo aconselhados nos fóruns trans de dizerem aos pais que são suicidas para terem acesso ao tratamento que desejam. Que tipo de sociedade perversa oferece às mães a escolha de mastectomia ou suicídio para suas amadas filhas? Essas meninas e seus pais são atendidos por serviços profissionais que compraram um sistema de pensamento que diz que devemos afirmar a identidade de um jovem a todo o custo e fazer o contrário é “transfóbico”. Temos a responsabilidade de oferecer uma perspectiva feminista alternativa sobre suas frustrações como mulheres jovens. Nós não “afirmaríamos” a visão de um anoréxico de si mesmos como sendo gordo, ou o “direito” de uma pessoa que pratica automutilação de danificar seu corpo. Examinaríamos as causas subjacentes, e sempre levaríamos a sério nosso dever de cuidado. O mesmo deve ser feito em casos de potenciais jovens “trans”.
Há também tentativas crescentes de normalizar, para crianças cada vez mais novas, o conceito de que é possível mudar de sexo, sempre com referência a estereótipos de gênero. Livros voltados para crianças de 3–5 anos de idade estão apresentando a mentira regressiva de que, se você quiser usar um arco em seus cabelos e fazer coisas femininas, é claro que você deve ser uma menina e se o seu desejo é rejeitar a feminilidade, a cor rosa e vestidos enfeitados e também ser uma menina ativa e dinâmica, então você deve ser um menino. Como chegamos a isso? E como isso sequer poderia ser considerado feminista?

SENTIMENTOS E REALIDADE

Ouvimos repetidamente de pessoas que se definem como trans, que estas se sentem como uma mulher presa no corpo de um homem, ou vice-versa. As mulheres sabem que sua realidade não é um sentimento que qualquer homem pode reivindicar, mas precisamos reconhecer que esse sentimento é real. É perfeitamente válido afirmar que você tem sentimentos de infelicidade ou dissociação do seu corpo, geralmente chamado de dismorfia corporal (a disforia de gênero é um termo mais contestado. Se o gênero é uma construção social e não é inato, como o feminismo afirma, então, ser infeliz com o seu gênero é simplesmente humano e normal, portanto, somos todos, de fato potencialmente disfóricos, o que faz o termo mais absurdo ainda). No entanto, enquadrar essa angústia como “sentir-se como uma mulher”, levanta uma série de perguntas. Como se sabe como é o sexo oposto? Ser uma mulher ou um homem é mais um sentimento do que uma realidade biológica? Além disso, os sentimentos não são um bom guia para a ação. Qualquer coisa que se exprima como se sentindo mal consigo mesmo, especialmente ao ponto de se tornar tão insuportável que se sente incapaz de viver no corpo que tem, é certamente algo que precisa de ajuda terapêutica. Os sentimentos precisam ser descarregados através de nossos processos naturais de cura como choro, desabafo e etc, trabalhar com um bom terapeuta irá alcançar isso. Os sentimentos profundos precisam de muito descarregamento. Todos sabemos o quanto melhor podemos nos sentir após um bom e longo grito. É claro que a ajuda terapêutica sábia muitas vezes não está disponível, certamente não de tamanho e qualidade suficientes para lidar com o sofrimento profundamente instaurado, e sabemos por pessoas que destransicionaram e outros que a dismorfia do corpo geralmente tem raízes em abuso físico, sexual ou outras experiências traumáticas, com o componente de insatisfação com papéis de gênero citado acima. Desta forma, os sentimentos de necessidade de mudança de sexo não são apenas validados, mas retratados como ação razoável a se tomar por uma sociedade que não aceita e castiga ativamente a não conformidade de gênero. Quando os indivíduos que sofrem de dismorfia corporal se apresentam em uma clínica de identidade de gênero, não são recebidos com suporte terapêutico abrangente para descobrir os motivos de sua angústia e ajudá-los a se recuperar da dor, mas são “confirmados” em seu autodiagnóstico, então a sociedade abre mão de sua responsabilidade e eles são abandonados.

DROGAS

Tal como acontece com muitas outras situações da sociedade, a ausência de ajuda terapêutica sábia, consistente e apropriada, significa que as pessoas muitas vezes precisam encontrar meios alternativos para gerenciar sua dor. Isso frequentemente se manifesta em tomar drogas. Desde um café todas as manhãs para nos despertar, até comprimidos para nos ajudar a dormir, ao álcool ou a drogas ilegais para adormecer nossos sentimentos, medicamentos para problemas mentais, as drogas podem fazer nos sentirmos melhores e em uma sociedade imperfeita são uma solução que a maioria de nós participamos em maior ou menor grau. As drogas hormonais não são diferentes, então uma pessoa que toma hormônios para imitar os atributos do sexo oposto pode “sentir-se melhor”. Isso não é uma surpresa, mas não é mais uma prova de que eles eram realmente um “homem no corpo de uma mulher” do que um anoréxico realmente é gordo. Os sentimentos, embora reais, não são a realidade.

TRANSFOBIA

Deixe-nos ser claros, lésbicas, homens gays e mulheres em geral, particularmente feministas, foram os aliados mais vocais, consistentes e práticos para pessoas trans por décadas. Sabemos o que é ser abusado, ser discriminado simplesmente por quem você é, ser um estranho numa sociedade rígida. Mulheres, lésbicas e homossexuais são os aliados naturais das pessoas trans. Então, o que mudou? Por que há conflito entre as feministas e a comunidade trans? Por que Germaine Greer, uma das mães fundadoras do feminismo, foi difamada nos círculos trans? Por que os banheiros se tornaram o local de tanto aborrecimento? Por que as feministas radicais, como Julie Bindel, uma lésbica e militante por anos contra a violência contra as mulheres, foi censurada e não reconhecida nas universidades, uma tática originalmente usada contra o fascismo? Nenhuma pessoa progressista quer ser transfóbica, e muitas pessoas e organizações foram recentemente seduzidas ou forçadas a adotar uma ideologia particular, ou seja, a de que existe uma “identidade de gênero” inteiramente separada do sexo biológico, isto é, ser homem ou mulher é um sentimento sem relação com a biologia, e que a única maneira de apoiar as pessoas trans e, de fato, evitar ser visto como transfóbico, é adotar essa ideologia. Deve ser dito alto e claro, isso não é verdade. As pessoas trans são muitas e variadas e nem todas concordam com essa forma de pensar. Muitos MTTs e FTTs ainda se vêem como o sexo em que nasceram. Muitos apenas transicionam parcialmente, às vezes apenas socialmente, e mudam suas identidades ao longo do tempo. Muitos decidem que cometeram um erro ou que a transição não resolveu a infelicidade que eles procuravam se livrar, e muitas dessas pessoas destransicionaram. A ideologia trans insiste que aceitemos absolutamente que uma pessoa MTT é uma mulher. Isso não só os absolve de forma individualizada de qualquer responsabilidade pela masculinidade com que eles cresceram e se beneficiaram, mas também levanta a questão: eles não serão mais mulheres se destransicionarem? Em que ponto um MTT em destransição se torna um homem novamente? Aqueles que destransicionam são um inconveniente para a noção essencialista de uma identidade de gênero inata que supera a biologia. Infelizmente para a ideologia do gênero, eles se recusam a se afastar e, quanto mais transições nós vermos, mais eles serão parte da paisagem do nosso mundo.
Apoiar o direito das pessoas trans na não discriminação e abuso não significa concordar com uma ideologia demonstrada como atrasada, misógina e contra a libertação de todos os seres humanos dos estereótipos de gênero. Não é transfóbico ser científico sobre biologia, ou discordar de que um macho biológico é realmente uma mulher apenas porque diz que é. Na verdade, insistir nessa visão é um menosprezo com a real e prejudicial transfobia. Isso resulta, por exemplo, nas atitudes ridículas e também perigosas do Centro Nacional de Saúde enviando avisos para lembrar sobre a realização de exames de papanicolau para MTTs que não têm colo do útero e não enviando para FTTs que têm colo do útero. Claramente ideologias, quando insistem em criar políticas e práticas, têm consequências, e essa ideologia tem conseqüências negativas para as próprias pessoas trans. Devemos ter isso em mente ao examinar qualquer legislação ou política proposta sobre questões trans.

LESBOFOBIA

As lésbicas são mulheres que se atraem no campo sexual mas principalmente afetivo por outras mulheres. Esta seria uma declaração incontestável até recentemente. Agora, temos uma situação em que a própria definição de “mulheres” é contestada e está sendo redefinida. Se “mulher” não significa mais uma fêmea humana adulta, se ser uma “mulher” pode ser simplesmente um sentimento, se uma pessoa nascida e criada como masculina e muitas vezes ainda com um corpo masculino intacto pode se definir como mulher, então a sociedade de lésbicas em particular são confrontadas com um dilema. Se as mulheres trans são uma minoria oprimida de mulheres, então, logicamente, uma lésbica que diz que não consideraria um relacionamento com uma pessoa com órgãos genitais masculinos poderia ser rotulada como transfóbica. Isso é quase impossível de se acreditar pra qualquer pessoa racional, mas realmente está acontecendo. É chamado de “teto de algodão” e é usado pra criticar e abusar de lésbicas. Lésbicas estão sendo informadas de que são transfóbicas por ser quem são, amantes de mulheres. Isso não é apenas ridículo, mas é profundamente lesbofóbico e a comunidade LGBT e todos os que se consideram contra homofobia precisam se preocupar com isso. Também mostra onde a lógica baseada em uma premissa falsa pode levar.

ESPAÇOS SEGREGADOS POR SEXO

É importante que todas as pessoas, inclusive as crianças, possam usar um banheiro público ou vestuário em segurança. Isto foi tradicionalmente alcançado pela segregação com base no sexo biológico, na presunção de que o principal problema de segurança é a violência e o abuso dos homens contra mulheres e meninas, embora isso tenha destacado a questão da violência masculina heterossexual contra homens gays, que nunca foi servido, praticamente ou legalmente, com instalações seguras do abuso homofóbico. Claramente, qualquer pessoa que tenha transicionado fisicamente ou que esteja em processo de fazê-lo, merece a mesma segurança contra a violência masculina. No entanto, insistir que as mulheres e as meninas devem renunciar a sua própria segurança, incluindo indivíduos masculinos em espaços femininos, simplesmente com base em auto-declaração, é errado e perigoso. Muitos FTTs são compreensivelmente ambivalentes sobre a insistência em usar espaços masculinas e, na verdade, muitas vezes preferem ainda usar os femininos. Então, o problema não é identidade. O problema é a violência masculina e a questão é a segurança. Precisamos nomear o problema para encontrar soluções práticas que assegurem segurança para todos, sem que os membros de um grupo ultrapassem o de outro. Isso certamente não está além do espírito da humanidade.

MENTIRAS, MALDITAS MENTIRAS, ESTATÍSTICAS E TODAS OUTRAS COISAS

Muitos que adotam diferentes identidades de gênero estão desfrutando da liberdade de se definirem; existe um elemento de brincadeira e subversão sobre fazer parte dessa tendência divertida e sedutora. Justo. Todos somos livres para nos chamarmos de tudo o que quisermos, podemos mudar a nossa mente, podemos nos divertir subvertendo as expectativas da sociedade. Mas importa se a identidade ou a biologia são o que definem ser mulher ou homem. É importante na coleta de estatísticas da sociedade. Se alguém pode se identificar como mulher, como podemos reunir informações sobre a posição das mulheres na sociedade no que se refere às taxas de remuneração, saúde, crime ou violência. Se a identidade das pessoas, que são uma miríade e com freqüência mudam de um ano para o outro, são as definições pelas quais reunimos estatísticas, então as políticas sociais baseadas nessas estatísticas serão inúteis. É importante em relação às prisões, onde uma identidade trans pode resultar em um agressor masculino violento sendo alojado com mulheres vulneráveis ​​e impotentes. É importante no esporte, onde as mulheres agora são colocadas para competir com aqueles que são biologicamente machos e cujos níveis de testosterona são permitidos serem maiores do que aquelas nascidas mulheres. É importante quando tentamos corrigir séculos de discriminação contra as mulheres, adotando cotas na vida pública, política e organizações; Se qualquer um pode se identificar como mulher, aquelas que nasceram mulheres voltarão a estar no lado perdedor. Todo mundo é livre para se identificar como bem quiser, no entanto, uma vez que elevamos essa preferência pessoal e expressão de personalidade ao mesmo status do sexo biológico, em apenas um golpe perdemos de uma só vez todos os ganhos que as mulheres fizeram e ainda precisam fazer em nossa sociedade dominada pelos homens.

DEBATE & SILÊNCIO

O debate e a discussão têm consistentemente demonstrado ser um pré-requisito essencial para mudanças progressivas na sociedade. Atualmente, existem opiniões opostas e conflitos de interesses em torno das questões do machismo, dos direitos das mulheres, da identidade de gênero e dos direitos de trans. Nos movimentos progressistas, devemos sempre nos esforçar para continuarmos a pensar, estarmos abertos a debater e a escutarmos uns aos outros, a fim de acabar com a opressão e preconceito de todos os grupos de pessoas. Por isso, é preocupante observar o silenciamento de feministas que desafiaram uma ideologia trans que insiste que sua análise é a verdade e a única maneira de apoiar pessoas trans. As feministas estão sem espaços nas universidades; mulheres foram abusadas verbalmente e ameaçadas nas mídias sociais; o acrônimo TERF (Trans Exclusionary Radical Feminist) é usado como uma ameaça e um insulto misógino contra as mulheres; as lésbicas são regularmente ameaçadas de estupro e de serem queimadas como transfóbicas. Esta não é a maneira de conduzir um movimento de libertação e nenhuma maneira de ganhar aliados de uma causa. Insistir que décadas de pensamento feminista é transfóbico e censurar divergências é improdutivo e insultante. As feministas acreditam que as consequências limitantes dos papéis de gênero e da hierarquia são o que oprimem todas as mulheres e ferem todos os homens. Isso inclui pessoas que às vezes podem se identificar como trans, genderfluid, não binário, genderbreer, etc. Estamos todos alimentados com a limitação da nossa humanidade pela sociedade devido ao nosso sexo biológico. Para acabar com isso e nos libertar, devemos estar abertos a um debate respeitoso em torno desta questão ou nunca avançaremos. Qualquer silenciamento só beneficia uma sociedade misógina, homofóbica e patriarcal, e todos seremos os perdedores. Deixe-nos, em vez disso, ganhar essa luta pela libertação do sufocamento de gênero!


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