Grito

“Lesbian Strength”, Força lésbica, 1988

Disseram-me indefinida, uma semi-existência embaçada no limbo entre dois pólos, jamais homem, jamais mulher, jamais gente: anomalia
Disseram-me contagiosa, uma infecção alastrada pelos corações de boas jovens, bruxaria, histeria, o ápice da loucura da mulher
Disseram-me frígida, enterrando meus amores e minha boemia, desdenhando o prazer trépido de minha vulva
Disseram-me macho, pressupondo um nome à minha desviância, a cada escape um estorvo, um embaraço
Disseram-me ilegítima, reorientando meu ser perante ao mundo, tirando do amor e do desejo a razão de meu desencaixe
Disseram-me mácula na integridade do seu deus, alastraram sua palavra entre as indivíduas como um fungo, inevitável praga crescendo em suas entranhas
Disseram-me errada, realidade adulterada, defeito de nascença ou defeito adquirido
Disseram-me incapaz de determinar minha própria natureza
Disseram-me errada por desdenhar dos conquistadores do meu povo
Disseram-me: não!

E num incauto sorriso me recusei, mania nossa de estar sempre a postos, os olhos devastados numa imensidão de ira: não!
Invisível criei-me na margem do mundo, persisti num enredo de escravidão e morte, livrei-me da corcunda podre de meus carcereiros, e por fim ergo-me, guerreira, mulher, lésbica, o rosto à mostra, o coração batendo, pulso rígido de dor e lágrima:
não!

Disseram-me fraca, desviando os olhos de minha resistência, rejeitando-me aos brejos de minhas semelhantes, subestimando nossa capacidade de dar as mãos
mas vocês nunca nos verão chegando

Gritamos nós, mulheres, lésbicas
Gritei-me eu, parte de um todo, enfim pertencente
lutando pelo direito de definir a mim mesma.


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