Talvez você se identifique, talvez não seja mera coincidência.

Nathália Gouveia
Jun 2, 2018 · 6 min read

Demorei a escrever esse texto porque decidi que só o construiria quando estivesse me sentindo devidamente apropriada (dentro de meus próprios critérios) em relação à minha decisão de assumir que, dali para frente, só me relacionaria afetivo e sexualmente com outras mulheres. Eu sou lésbica, hoje digo sem o receio que antes me dominava e tornava reticente minha fala todas as vezes em que me esforçava para expressar a minha tão recente descoberta. Já estava na hora de falar sobre minha relação com a heterossexualidade compulsória.

Me descobri lésbica aos 20 anos de idade, estando dentro de um relacionamento com um homem, mas até ali era um segredo que eu não contava nem a mim mesma, um delírio que achei que sumiria, achei que estava louca, que estava rancorosa, que estava lendo feminismo demais, segui calada. Já conhecia o feminismo radical, já percebia o quanto a minha realidade material biológica enquanto mulher se configurava enquanto uma sentença de sofrimento, enquanto um atestado de que precisava lutar, mas não estava disponível ainda a permitir que o estudo sobre mim mesma e a sociedade em que estou inserida mudasse tão drásticamente a minha vida.

Quando cito essa descoberta tão tardia, desconfio que boa parte das pessoas considerem previamente que, antes disso, eu não havia tido experiências com mulheres e que era hetero, que foi tudo de uma hora para a outra (e por isso deva me julgar ou desconfiar do que eu digo), mas não. Na realidade, eu me considerava bissexual e me assumi entre os 14 e 15 anos de idade, sabia da minha atração por mulheres e me relacionava com elas de forma limitada, me culpava e tentava tirá-las do foco.

Não sei a que ponto esse movimento de evitação no que se refere à minha atração por mulheres acontecia sem que eu percebesse, lembro apenas de tentar manter, desesperadamente, o foco nos homens, em me apaixonar por eles, tentar construir relacionamentos com eles, um esforço imenso e torturante que eu simplesmente normalizei. Nesse esforço, me mantive em um namoro de dois anos com um rapaz de outro estado que nunca cheguei a conhecer pessoalmente, alimentei amores platônicos e sabotei todas a possibilidades de que estes se tornassem reais, fiz com que alguns desistissem de mim por puro cansaço, e eu sofria, pois acreditava que os amava, quando na verdade estava apenas presa à idealização estereótipada atribuida às relações com homens.

Considero esta, modéstia à parte, uma forma incrivelmente genial que eu, inconscientemente, encontrava para manter intacto o "lado hetero" da minha suposta bissexualidade sem, necessariamente, estar em contato com corpos masculinos o tempo todo. Todavia, como não existe crime perfeito, o disfarce que eu vestia para me esconder de mim mesma caia junto com as minhas roupas todas as vezes em que eu tentei transar com homens, especialmente no momento da penetração. Tudo o que eu sentia era dor, nojo e repulsa, nada proximo da excitação, minha vagina não lubrificava e eu achei que esse era um problema ginecológico, frequentemente escutava para tentar de novo e de novo, porque "nas primeiras vezes é horrível mesmo". Chorava quando pensava que precisaria passar por isso novamente, sem me dar conta de que não, não precisaria.

A pior, porém não ultima, vez em que eu tentei transar com um homem, foi com meu ultimo namorado, e eu espero que ele nunca leia esse texto ou não identifique que foi ele, porque tenho que dizer: aquela experiência se traduz em minha mente quase que como um abuso, um estupro onde não houve estuprador, eu consenti, eu fingi, eu atuei, eu deixei que o heteropatriarcado me estuprasse. Tentamos algumas vezes penetração, mas minhas pernas travavam, tentei sentir prazer de outras formas, ele tentou provocar isso em mim, não conseguiu, mas fingi que sim. A pior parte foi me forçar ao sexo oral: o cheiro, o gosto, a textura, os liquidos que entravam em contato com a minha boca. Lembrar disso me enjoa até hoje, mas sinto que é meu dever jamais esquecer.

Não era a primeira vez que eu tive esse tipo de contato com um pênis, mas foi justo essa a vez em que percebi que não suportaria mais, foi a vez em que não só a minha mente foi atingida, mas meu corpo respondeu como um grito desesperado de mim para mim mesma. Adoeci. Culpei a pizza. Não lembro muito bem do dia seguinte, só lembro de vômito, febre, choro, enjoo e dores por todo o meu corpo. Minha mente se encontrava em conflito entre o ser lésbica e o ter que tentar denovo, conversei com algumas meninas, com uma em específico, que me explicou sua experiência com a heterossexualidade compulsória, tive certeza, mas tive certeza sem contar para mais ninguém.

Passado isso, e eu já tendo terminado aquele relacionamento, ainda acreditei, pela ultima vez, gostar de um homem, foi rápido. Depois, obedecendo o estereótipo de que lésbica só é lésbica por não ter tentado o suficiente, fiquei bêbada e tentei mais uma vez. Comprovei: a questão era que eu sentia atração por corpos femininos, mas compensava a vontade de tocá-los (e que estes me tocassem) com a mais supervalorizada das recompensas que nós, mulheres, recebemos em troca da nossa completa anulação e submissão: a aprovação masculina.

Quem me conhece a fundo sabe que o monstro que mais me assombrou durante a adolescência e inicio da vida adulta foi aquele que eu via refletido no espelho. Eu era obcecada por ser magra, por ser bonita, por ser desejável, e, por mais perto que eu conseguisse chegar a esses padrões nunca parecia suficiente, e eu não sabia o motivo disso, agora eu sei: eu, como boa parte das mulheres que já a experimentaram algumas vezes, era viciada em aprovação masculina. Demorei muito a perceber o quanto meus problemas de autoestima e a heterossexualidade compulsória estavam não apenas profundamente relacionados, mas intrinsecos, configurando quase que uma coisa só, partindo de uma mesma raiz e se retroalimentando.

Por fim, não posso ainda trazer aqui um final feliz em que minhas questões relacionadas ao meu corpo e autoimagem estão resolvidas e onde me aceito e finalmente sou feliz. Reconheço isso como um processo contínuo, sem fim, à medida em que vou me descobrindo enquanto fêmea, à medida em que vou percebendo que tenho um corpo e que ele me serve muito.

Me assumindo lésbica, falando o que eu penso, estudando, fazendo o possivel para apoiar outras mulheres, me afastando afetivamente de homens de forma considerável (e em todos os sentidos), me despindo cada vez mais dos rituais tóxicos da feminilidade: foi assim que troquei a corrida pela aprovação masculina pela oportunidade de me exercer da forma que sou. Talvez algumas considerem isso extremo, mas meu objetivo é centrar a minha vida nas mulheres, pois é assim que me priorizo, estou finalmente centrada em mim.


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Nathália Gouveia

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Feminista radical, vegetariana, psicóloga, pernambucana.

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