Mark Zuckerberg odeia pessoas pretas

Pessoas negras usuárias do Facebook têm suas contas banidas por se manifestar contra o racismo

Tradução do texto de The DiDi Delgado

Existe um ditado bem conhecido na comunidade Negra: “você deve ser bom em dobro pra conseguir metade”. Isso às vezes é denominado a “Taxa Preta”. Significa que pessoas Pretas devem trabalhar duas vezes mais do que pessoas brancas pra receber uma fração de seu pagamento. Então, por exemplo, se estou cursando uma faculdade, devo tirar somente A’s para conseguir um estágio que “Chad” conseguiria com um 2,0. Se estou em uma entrevista de emprego, preciso ser duas vezes mais qualificada do que Hannah — pra chegar longe o suficiente no processo de entrevista e ser pega no teste de drogas. E, se estou organizando uma comunidade em redes sociais, devo ter o dobro de contas no facebook do que ativistas brancas, porque Mark Zuckerberg simplesmente odeia pessoas Pretas.

Ou, pelo menos, é o que parece.

Enquanto escrevo isso, estou enfrentando dois banimentos simultâneos. Eu, como muitas outras pessoas pretas ativistas, mantenho duas contas — uma principal e uma “reserva”. É enfurecedor e tedioso, mas atribuo isso à “Taxa Preta”. Uma vez que ativistas pretas e pretos têm maior probabilidade de ter seus conteúdos denunciados e removidos por “violar os padrões da comunidade”, temos dado nossos pulos para manter nossa presença e nossa militância online. Atualmente, minhas duas contas — a principal e a reserva — foram ambas banidas por “promover discurso de ódio”. Isso significa que trolls intolerantes espreitam minha página e denunciam qualquer e toda coisa, esperando que eu esteja violando os vagos “padrões” impostos pelo facbeook. É tipo quando pessoas brancas chamam a polícia por reflexo sempre que veem uma pessoa preta na rua. Com a exceção de que nesse caso não é minha presença física que é ameaçadora, é minha presença digital.

Durante o banimento do facebook, a conta do usuário retém todas as funcionalidades em termos de leitura e de navegação do site, mas postar de qualquer forma é proibida. Você pode ver conteúdo; só não pode se comunicar. Isso, convenientemente, impede que usuários informem a seus seguidores que eles foram injustamente banidos, essencialmente travando a criação de consciência sobre o fenômeno. Isso é um insulto duplamente porque é reminiscente de antigos regramentos de escravidão, que muitas vezes consideravam permissível que pessoas pretas lessem, mas ilegal que escrevessem (um catalisador em potencial para “insurreição e rebelião”). Parece que a intenção por trás do silenciamento de ativistas Pretos assumidos não mudou nos últimos séculos. E enquanto Mark Zuckerberg ainda não me sentenciou a “39 chibatadas em [minhas] costas nuas”, não posso afirmar com certeza se essa penalidade não está escondida em algum lugar por trás dos termos de serviço ridículos do facebook.

Eu já perdi a conta de quantos ativistas Pretos perderam suas contas temporariamente ou foram permanentemente bloqueados por postar conteúdo que mesmo que vagamente desafie a supremacia branca.

Ativista proeminente e cofundadora da Safety Pin Box, Leslie Mac foi recentemente banida por postar “silêncio é violência”, em referência a pessoas brancas estadunidenses que não se pronunciam contra o racismo. Ativista de direitos humanos e psicóloga, Drª Mary Merrill recebeu seu terceiro banimento do facebook por um post instingante que aparentemente violou padrões por conta douso da frase “Cara Gente Branca”. Nynah Marie, cofundadora da Brown Girls Out Loud, foi ironicamente banida por um status em que criticava as práticas racistas de banimento do facebook. Ativista Sherronda Brown foi banida duas vezes por postar prints de racismo e assédio sexual que ela recebia em comentários do facebook e mensagens privadas. Apesar de as mensagens originais terem sido denunciadas sem consequência, ainda assim ela foi banida por postar provas do abuso. É tipo ser processada por assédio sexual por postar fotos do Casey Affleck. Caô, Zuck.

Até Shaun King — que já foi orador convidado na sede do Facebook — teve sua conta banida por postar um e-mail racista que ele havia recebido de um supremacista branco. Denúncias de racismo parecem ser a ligação entre usuários Pretos do facebook que são repetidamente censurados. Assim como na vida real, quando uma pessoa de cor (ou Shaun King) denuncia racismo, ela é prontamente silenciada e acusada de ela mesma ser racista. E essa censura não impacta só ativistas. Qualquer post julgado violento é removido das páginas de TODAS AS PESSOAS que o compartilharam — essencialmente silenciado milhares de vozes Pretas (para o deleite de Mark Zuckerberg, que definitiamente odeia pessoas Pretas).

Uma vez, em um status discutindo locais seguros para famílias Pretas morarem, eu fui banida por comentar, “Mas Canadenses são racistas pra caramba”. O banimento foi uma surpresa, já que o comentário foi bobo, preciso e enterrado nas profundezas de uma corrente de discussão. Apesar de os padrões de comunidade do facebook alegarem “o número de denúncias não tem impacto na remoção ou não de algo”, eu me convenci de que o comentário deve ter sido denunciado de forma maliciosa e retirado sem revisão humana. De jeito nenhum um moderador do facebook teria lido o contexto da discussão e pensado que justificava o banimento de uma mãe Preta e ativista. Ou, pelo menos, isso era o que eu esperava.

Para testar minha teoria, eu achei dois posts racistas — um enganosamente racista e um flagrantemente racista — e pedi para que algumas centenas de meus seguidores os reportassem por discurso de ódio para ver como o facebook responderia.

O primeiro post foi uma imagem de oficiais de polícia segurando cartazes em que se lia “As vidas de policiais importa” [sic]. O sgeundo post era um status que dizia, “crioulos merecem morrer”. Eu escolhi esses posts porque — em termos de conteúdo — seu significado é o mesmo. Os dois declaram o oposto de Vidas Negras Importam (Black Lives Matter). Em outras palavras, “vidas de policiais importam” é a forma socialmente aceitável de dizer “crioulos merecem morrer”. Mas como a maioria das pessoas não admitem isso (vejam a seção de comentários para provas), pensei que me ajudaria a determinar quantas vezes um post precisa ser denunciado antes de ser automaticamente retirado.

“denunciados 400 vezes e subindo” x “reportado 168 vezes antes da remoção”

O post de “vidas de policiais importam” foi denunciado mais de 400 vezes, mas nunca removido do facebook — nem mesmo temporariamente. Desnecessário dizer, também, que a página não foi banida. 15 horas depois da primeira onda de denúncias, meus seguidores começaram a receber mensagens do facebook lhes informando de que o post não violava as regras da comunidade. O post de “crioulos merecem morrer” foi retirado em poucas horas, e aquela página nunca foi banida, apesar de exigir inúmeros exemplos de discurso de ódio.

O que eu aprendi desse experimento é que ativistas Pretos não estão sendo banidos devido a algoritmos falhos e hiper-denúncias. Trolls da internet ajudam a garantir que nossos posts são revisados, mas a partir daí a supremacia branca assume. Estamos sendo banidos por empregados reais do facebook com vieses raciais evidentes e zero entendimento de dinâmica social ou contexto histórico. Então, quanto mais reconhecimento tem um post, mais provavelmente será denunciado, e mais provavelmente Mark Zuckerberg pessoalmente banirá o usuário, porque ele literalmente odeia gente Preta… pra caramba.

Ativista assumido e pária ocasional, Masai Andrews foi banido tantas vezes que isso o motivou a criar uma petição online exigindo que o facebook revisasse a aplicação racista e desigual de seus padrões de comunidade. A petição, que já foi assinada mais de 6.000 vezes, oferece mudanças claras de política que o facebook poderia implementar para combater a censura sistêmica vivenciada por usuários pretos do facebook. Também aponta que usuários transgênero continuam passando por discriminação ao serem forçados a usar seus “nomes mortos” ou arriscarem serem banidos. A petição é endereçada aos sete “indivíduos brancos cisgêneros atualmente alocados como executivos do mais alto nível do Facebook”. Isso inclui o notório odiador de pessoas pretas, Mark Zuckerberg.

Aqui é a deixa para surgirem palpites pra que pessoas pretas façam “sua própria plataforma!” se não gostamos dessa discriminação. Eu chamo isso de argumento “volte para a África”. Ignora o fato de que corporações brancas têm um monopólio virtual dos recursos e da infraestrutura necessários para tamanha empreitada, e somente serviria pra isolar ainda mais a sociedade branca da ideologia anti-racismo. Tenho certeza de que o facebook, assim como o resto do mundo, adoraria que pessoas Pretas simples e silenciosamente desaparecessem. Mas, como diz um comercial de cerveja socialmente consciente, não vai rolar.

Para ativistas Pretos, facebook é mais do que nossa dose diária de dopamina por memes e curtidas. Ele se tornou uma ferramenta vital para transmitir narrativas marginalizadas que são excluídas da mídia mainstream. Ele provou ser um recurso inestimável para organização intra-comunidades e a mobilização de nossa base. Apesar das várias falhas de segurança do facebook, ainda é a plataforma global colaborativa mais onipresente. O aplicativo messenger integrado também é o aplicativo número um no ocidente, e está empatado com o whatsapp como o aplicativo de mensagens número um do planeta. Whatsapp, incidentalmente, também é propriedade do Facebook. Então, ao restringir usuários de forma preconceituosa, o facebook não está somente impedindo as vozes pretas de alcançar as massas; ele está nos impedindo de nos comunicar com nossas amizades e famílias.

Mark Zuckerberg já sabe que seus funcionários, assim como os canadenses, são racistas pra caramba — o que não é de se surpreender, considerando que somente 2% dos empregados do facebook são Pretos. Ano passado ele emitiu uma nota repreendendo-os por modificar repetidamente referências ao “Black Lives Matter” que eram encontradas nos escritórios do facebook [n/t: escrevendo, em seu lugar, “todas as vidas importam” (“all lives matter”)]. Claramente, essa nota não teve um impacto profundo na cultura racista da companhia. Se Mark Zuckerberg realmente quisesse discutir a respeito dos problemas de diversidade no facebook e sobre discriminação contra usuários Pretos do facebook, tudo que ele teria de fazer seria substituir seu time de moderadores branco-lírio por umas pretas poderosas. Não é como se ele não tivesse recursos a seu dispor pra fazer isso acontecer. Ele parece satisfeito em permitir que as coisas permaneçam como estão. Então só me resta presumir que é porque Mark Zuckerberg, bem… você sabe.

Nota da autora: se Mark Zuckerberg me processar por conta do conteúdo desse texto, vou considerar como uma confirmação de que eu estava certa o tempo todo. Xeque-mate, Zuckerberg.

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