Minha dor.

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Quero contar a vocês

E pra isso peço empatia

De uma dor que carrego

E me aflige todo dia

Como não tenho remédio

Só me resta a poesia

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Minha doença tem nome

Chama-se patriarcado

O tempo todo me dita:

“Sente assim, se vista assado”

“Use maquiagem”

“Fale mais delicado”

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Muitos não entendem

Acham que é frescura minha

Querem calar minha voz

“Seu lugar é na cozinha!”

Mas hoje tenho uma noção

Que antes eu não tinha

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Ser mulher vai muito além

De beleza e aparência

Não é casa, não é família

É mais que isso, é vivência

De opressão e silenciamento

Eu já tenho experiência

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Minha maior afronta

A essa sociedade

É declarar meu amor

Minha lesbianidade

Ter controle do meu corpo

E usá-lo com liberdade

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É fácil fazer piada

Chamar de fancha, caminhão

Como se fosse engraçado

Mas não tem graça não

Conheço a dor e o prazer

De ser sa-pa-tão

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E por falar em prazer

Até parece que é segredo

“Como é que vocês transam?”

“Precisam de algum brinquedo?”

“É suficiente

Usar só língua e dedo?”

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É impressionante

Como todo mundo acredita

Que sexo é só penetração

E que isso a gente imita

É a ausência de um pau

Que ofende, que irrita

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Uma vez explicada

Minha sexualidade

Surge o primeiro obstáculo:

A invisibilidade

Porque a sapatão aqui

Não existe pra sociedade

.

“Você não achou um cara

Que soubesse fazer direito”

“Não gosta de homem?

Como assim? Tá com defeito?!”

Seu discurso não me importa

O que eu exijo é respeito

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Ser lésbica é mais

Que orientação sexual

É a revolução

De amar uma igual

Indo contra o que ensina

O sistema patriarcal

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Porque se eu, enquanto mulher

Apagada e esquecida

Sou capaz de amar alguém

Igualmente oprimida

Isso é motivo de orgulho

Isso é estilo de vida!

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A minha dor

(Isso eu quero esclarecer)

Não é por ser sapatão

É por ninguém compreender

Que é possível não querer homens

É possível se abster

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Minha dor, eu repito

É por essa tal Igreja

Que batiza, que acolhe

Mas em seguida apedreja

Tudo isso porque

É uma mulher que me beija

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Pois eu dou minha cara à tapa

Tô aqui pra incomodar

Não vou baixar minha cabeça

Nem mesmo recuar

E, até eu morrer,

Ninguém vai me silenciar.

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Escrito em 13 de janeiro de 2016.