Minhas amigas e eu poderíamos dominar o mundo… mas é que estamos cuidando de nossos namorados
Gostaria de deixar de falar desse assunto, mas os homens tem que fazer sua parte.
Por Beatriz Serrano — traduzido do Buzzfeed Espanha

Tenho a sorte de ter uma boa quantidade de amigas brilhantes. É sério, brilhantíssimas, mulheres engenhosas, decididas, graciosas, inteligentes, iluminadas. Mulheres que não se deixam diminuir. Algumas com carreiras, outras não. Mas todas com suas ambições, sonhos e metas na vida. Estar com qualquer uma delas é saber que vou voltar para casa melhor do que saí: enriquecida pela conversa, aliviada, feliz.
No outro dia estive com um desses seres de luz para tomar um vinho. Estávamos com uma imensa vontade de nos vermos e tínhamos muito assuntos pendentes para conversar. Falamos de trabalho, de projetos, de artigos que lemos, de coisas que havíamos escrito. Nos aconselhamos livros e outras leituras mais rápidas. Falamos de nossas casas. De gatos. De filhos. Daquele documentário de Joan Didion e da palestra de Virginie Despentes. De fazer planos para a Primavera. Falamos de tudo. Pensei, mais uma vez, na sorte que tenho de estar rodeada de pessoas tão enriquecedoras. Entre isso tudo, houve um momento que falamos de nossos companheiros. E a partir daí nossos companheiros ocuparam 100% da nossa conversa.
Tenho várias histórias como essa. Porque me aconteceu um milhão de vezes.
Tenho uma amiga que muitas vezes se queixa da carga de trabalho doméstico que tem que encarar. Faz um tempo que se deu conta de que seu companheiro está constantemente em sua cabeça e ela planeja pelos dois.
E acontece uma coisa muito boba, que é que quando ele vai ao mercado ele não compra as coisas que ela pode precisar (um pacote de absorventes, um xampu especial, uns prestobarbas), mas quando ela vai ela nunca se esquece de ver se está acabando o desodorante, pasta de dentes ou creme de barbear dele. E por mais que tenha sido falado ele segue sem entender. A queixa dela vem de que já não sabe de que outra forma fazê-lo entender que enquanto ela os vê como uma equipe, ele sempre joga sozinho.
Com outra amiga o que acontece é que já tentou de maneira ativa e passiva que ele se encarregue de metade das refeições da semana, mas sente que ele impõe a ela uma carga dupla quando é a vez dele. Quando ela vai às compras ela decide o que vão a jantar nos próximos quatro dias e nesses quatros dias tem uma janta incrível pronta às nove da noite. Depois ela deixa uma lista para as três noites restantes. E quando ele vai fazer as compras acaba ligando para ela porque ela colocou “frango assado” e ele precisa saber quais são todos os ingredientes que precisa comprar para assar um frango. Por algum motivo, ele não pode procurar no Google. Ela é seu Google.
Outra delas entrou em uma fase de resistência. Vai esperar o lixo engoli-los, para ver se seu companheiro, quem ela pediu várias vezes para cuidar de parte das tarefas domésticas, é capaz de viver nesse estado insalubre ou se finalmente acabarão chamando o Ministério da Saúde para desocupar a casa. Ela me diz isso morrendo tanto de nojo quanto de rir.
Não apenas a casa é um campo de batalha. Tenho outra amiga que está completamente exausta com o imenso esforço emocional que é sua relação. O que acontece com ela é que quando seu companheiro tem qualquer problema ou infelicidade, em lugar de explicar a ela o que está acontecendo, pesa o ambiente com sua indiferença. Quando ela passou três dias se sentindo completamente imbecil (tentando rechear os silêncios de carinho, humor e alegria sem conseguir que ele parasse com a cara de bunda) surge enfim A CONVERSA. É aí então que ele a diz tudo que o incomoda ou o pode ter incomodado e ela se põe no modo terapeuta para solucionar todos os problemas. O que a incomoda é que ela tem que se ocupar com a limpeza dos armários mentais dela mesma, e uma vez que termina, tem que começar a limpeza dos dele.
O que me incomoda é que os problemas que minhas amigas têm são intercambiáveis com os meus. Que eu também já passei por eles, ou estou passando, ou sei que passarei. Me incomoda que nada que me contam me parece apenas um conto. Mas o que me incomoda de verdade é que aqui estou, com meu punhado de amigas brilhantes menores de 30 anos, reduzindo-nos ao papel de cuidadoras de pessoas que não cuidam tão bem de nós como deveriam.
Me incomoda que com estas amigas poderia dominar o mundo. Poderíamos enriquecermos até rechear nossos vazios culturais, emocionais e vitais em algumas tardes. Poderíamos passar horas falando de cinema, de política, de literatura, de arquitetura, de história ou de memes de Internet. Poderíamos, já que é 2018, não ocupar nossas conversas com esses dramas domésticos que parecem tirados de um quadro de uma novela.
E me incomoda o profundo corte de gênero que tem esta situação. Porque certamente que eles, bebendo com seus amigos, são alheios a todas essas desventuras cotidianas, enquanto nós vivemos desabafando e dando conselhos sobre como enfrentar por outra vez essa conversa sem ferir o ego dele no caminho.
Me incomoda a quantidade de tempo e recursos emocionais que temos que investir em essas miudezas. Me incomoda saber que estou perdendo um tempo valiosíssimo analisando esses problemas. E rio na cara dos que dizem que já conseguimos igualdade e que eles “ajudam” muito em casa. Quem dera fosse assim. Porque tenho um punhado de amigas brilhantes ao meu redor que estão fartas e que me lembram, dia sim e dia também, o longo caminho que ainda temos que percorrer.

