Mitos da feminilidade

A ONU Mulheres começou a promover o documentário “Laerte-se” em 2018, chamando a atenção do público interessado ao que se refere, na propaganda divulgada, como “mundo feminino”. Mulheres estão questionando o que é considerado um mundo feminino e estão sendo vítimas de ataques virtuais, como é comum nestes casos atualmente.

As mulheres sempre foram silenciadas desde que o sistema patriarcal tornou-se a norma nas sociedades humanas. É a tática mais comum. Não podemos questionar a feminilidade. A nós, é proibido questionar o que é ser feminino. O que faria parte desse mundo, ou universo feminino? As palavras frequentemente associadas à feminilidade são delicadeza, tolerância, submissão, inferioridade, fragilidade. É possível refutá-las?

Delicadeza:

Existe delicadeza inata à mulher? Só se for a mesma que aos homens e para as mesmas situações. A delicadeza “inata” das mulheres e dos homens serve, surge e se manifesta (e tem de se manifestar) somente nos cuidados às crianças. Sem delicadeza, os bebês humanos morreriam, pois nós nascemos “imaturos”. Todos os humanos nascem “precoces” e terminamos de desenvolver fora do útero — existe inclusive a teoria da extero-gestação, onde se sabe que os primeiros três meses de vida de todo ser humano precisam de cuidados especiais, pois o próprio bebê anda não sabe que nasceu. Não possuímos a mesma capacidade de outros animais que nascem e já se levantam e se alimentam sozinhos.

Tolerância:

Também é um instinto que, se surge, surge com a maternidade, e mesmo assim pode não surgir, para lidar com bebês. Tolerância com o choro estridente, que é estridente mesmo porque é a maior arma que o bebê tem para sobreviver. Chorar bem alto é a forma que ele encontra para ser atendido: estou com fome, com sono, doente.

Tolerância com a sua incapacidade de fazer coisas sozinhos ao nascer. Tolerância para que o bebê sobreviva.

Submissão:

Não existe. No máximo, redenção a determinados fatores biológicos dos quais não podemos fugir para todo o sempre. Nós menstruamos. Dá pra tomar pílula para não menstruar, mas a um custo alto para o nosso corpo. Então aceitamos e lidamos com isso. Gestação: engravidamos, tem que esperar mesmo, não dá para tirar com 5 meses porque não aguenta mais não poder fazer determinadas coisas. Os seios crescem sem a nossa permissão ou intervenção. Os odiados pelos femininos surgem nas axilas, na púbis, nas pernas e temos de aceitar desagravo nas ruas ou nos submeter a retirá-los, muitas vezes de forma dolorosa.

Não somos submissas naturalmente. Não achamos que devemos ser submissas pelo bem da humanidade, ou porque precisamos de ajuda para sobreviver, ou porque é a ordem natural das coisas. Somos criadas de forma violenta (e violência não significa apenas força física, mas também abuso emocional) para que nos tornemos passivas.

Inferioridade:

Só existe quando se trata de força física. Os genes trabalham de forma diferente em diferentes áreas do corpo em homens ou em mulheres. Os nossos genes fortalecem os quadris e os músculos das pernas para a gestação e o parto, os deles fortalecem músculos dos braços, do torso e das pernas. Não é preciso ter força nos braços para cuidar dos filhos, não tanta força como é a que os homens podem conseguir. Biologicamente falando, não precisamos dessa força, mas também somos sistematicamente impedidas de a exercer e praticar desde o nascimento.

Inferioridade intelectual, então, essa nem se questiona se existe. É só uma falácia criada para nos botar em um lugar de submissão. O que existe é apagamento dos feitos e conquistas realizados por mulheres. Nos livros de história, só vemos homens inventores, criadores, conquistadores. As mulheres são apagadas, tidas como irrelevantes. Suas opiniões não importam. É só a fala do homem que interessa ao mundo.

Fragilidade:

A mulher não é frágil. Ter menos força física que os homens em determinadas áreas nunca nos fez frágil. Aguentamos cólicas menstruais, doenças do aparelho reprodutor como ovários policísticos, endometriose, e gestamos, parimos, amamentamos. O único mundo feminino imutável é o mundo que concerne à nossa biologia. Um mundo onde temos que lidar por nascer com vagina, útero, dutos mamários. Nenhuma mulher perde a capacidade de ter corrimentos se usar short de tactel e blusa regata. Maquiagem, jóias, bolsas, salto alto, vestidos, nada disso pertencente “naturalmente” ao mundo feminino. Estes são apenas restos de culturalidades que perpetuaram ao longo da história da humanidade e que foram categorizadas como femininas em determinado ponto para nos diferenciar dos homens e provar “cientificamente” que são eles que devem dominar o mundo e as ideias.

Lembremos sempre que pinturas corporais não foram criadas para embelezar humanos, mas como forma de tratamento em determinadas circunstâncias, como os óleos que os egípcios passavam no corpo para se proteger do calor seco daquela região. Posteriormente, virou símbolo de status. Status que não era apenas das mulheres — os homens também usavam, bem como saias. Tudo o que concerne a aparência feminina atualmente não é feminino de forma inata.

Somos uma máscara que se apresenta ao mundo de determinada maneira para sermos mais aceitas por ele. O mundo feminino tem de mudar a sua imagem. Estamos aprisionadas a estereótipos que nos machucam e nos impedem de progredir como seres humanos.

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