Mulheres nos Sindicatos: Organização, Práticas e Exigências

A participação de mulheres em sindicatos na América Latina

Feminismo Com Classe
Feb 11 · 14 min read
Créditos pela foto: CUT-SP

Autora: Monica Gogna [1] — Link para o original
Tradução: Aline Rossi

Durante a última década na América Latina, uma grande quantidade de pesquisas tem sido realizada sobre o tema das mulheres e do trabalho. A razão para este atraso é que o sindicato tem sido e é um “mundo de homens” (Humphrey, 1983). A divisão sexual do trabalho, a segregação do mercado de trabalho e o sexismo dos sindicatos têm dificultado a participação das mulheres na atividade sindical. Mesmo os sindicatos de trabalhadores compostos principalmente por mulheres, como sindicatos de professores e sindicatos de trabalhadores têxteis e de vestuário, são geralmente dirigidos por homens.

Entretanto, em muitos países da América Latina, a taxa de sindicalização das mulheres, assim como a participação das mulheres nas atividades laborais e na tomada de decisões dentro dos sindicatos, aumentou (OIT, 1985).

Curiosamente, esse processo tem atraído apenas a atenção das pesquisadoras que estão especificamente interessadas nas questões de gênero [2]. A maioria dos estudos do movimento de trabalhadores negligencia a crescente participação das mulheres no mercado de trabalho, apesar da sua participação ser amplamente reconhecida pelos analistas como um dos desafios enfrentados pelos sindicatos na década de 1980.

O objetivo desse artigo é “tornar visível” a participação de mulheres no movimento sindical de trabalhadores. Com base nas poucas informações disponíveis, ele analisa a situação da mulher nos sindicatos em vários países, focalizando a organização e as demandas da mulher, e depois analisa o caso da Argentina em termos mais específicos.

Primeiro, entretanto, é necessário examinar como a participação das mulheres no movimento sindical tem sido tratada na literatura, a fim de desenvolver uma estrutura para abordar o tema.

Uma breve revisão da pesquisa

Uma análise dos estudos sobre a participação das mulheres (ou a falta dela) nos sindicatos de trabalhadores latino-americanos revela uma mudança interessante em relação à forma como o assunto foi abordado no passado. No início, os estudos eram principalmente de natureza descritiva, fazendo a pergunta “por que as mulheres não se organizam”.

Por exemplo, o livro “Realidade do emprego e da formação profissional da mulher na América Latina” (Realidad del empleo y la formacion profesional de la mujer en America Latina) contém uma seção intitulada “Mulheres e Atividade Sindical”. Com base em dados de diferentes países, esta seção observa que a participação das mulheres na atividade sindical é baixa, geralmente inferior à dos homens, e se limita à coordenação das atividades recreativas. Fatores que bloqueiam a maior participação das mulheres incluem responsabilidades domésticas, falta de interesse entre as mulheres e o total desrespeito às questões das mulheres pelos sindicatos (Chang & Ducci, 1977).

Ao passo que essa descrição reflete a situação geral na região, em alguns países (particularmente no Brasil), a crescente participação e organização das mulheres [3] no movimento sindical não só atraiu mais atenção como também levou a novas abordagens de pesquisa sobre o tema.

Assim, a pesquisa começou a assumir uma perspectiva mais ampla e a investigar os fatores que levaram ao surgimento das “questões da mulher” como um tema sindical. No caso do Brasil, por exemplo, essa mudança é atribuída tanto ao renascimento dos sindicatos por volta de 1978 quanto às ações do movimento de mulheres que deram mais visibilidade às “questões das mulheres” e ajudaram a legitimá-las em nível sindical.

Ao mesmo tempo, os estudos reorientaram sua atenção da pergunta “por que as mulheres não se organizam?” para “onde as mulheres estão organizadas?” (Hartman Strom, 1983). O interesse aumentou relavtivamente à identificação de formas de participação das mulheres em movimentos sindicais que tendem a ser ignoradas nos registros históricos. O interesse também cresceu em atividades mais “institucionalizadas”, tais como a formação de departamentos de mulheres ou conferências de mulheres dentro de diferentes sindicatos.

Além disso, a adição de uma perspectiva feminista incentivou uma nova leitura das questões que existem entre as mulheres e os sindicatos de trabalhadores. Pesquisas apontaram que, além da exclusão das mulheres, um ponto de discórdia entre as mulheres e os sindicatos era a maneira diferente das mulheres se expressarem dentro do sindicato devido a diferenças culturais e existenciais (Souza Lobo, 1984). A premissa subjacente a esta pesquisa foi que, devido à divisão sexual do trabalho dominante em nossas sociedades e dentro da classe trabalhadora, os gêneros vêem e fazem as coisas de maneira diferente. Em suma, “a classe trabalhadora também tem um sexo” (op.cit).

Há duas suposições subjacentes a este trabalho que são particularmente relevantes para o nosso tópico.

A primeira premissa era que a entrada das mulheres em um ambiente tradicionalmente masculino poderia trazer diversificação ao conteúdo e à condução das atividades sindicais; ou seja, a consciência das mulheres de seus duplos papéis como trabalhadoras e consumidoras geraria mais demandas não-salariais (creche, condições humanistas de trabalho, etc.) que são frequentemente negligenciadas pelo movimento operário masculino (Baxandall, 1976). Abramo (1985) argumenta na mesma linha que as mulheres resistem mais fortemente a subordinar sua vida pessoal à sua vida profissional. Essa resistência pode se traduzir em exigências inovadoras, que são capazes de afetar e transformar a prática sindical de trabalho.

A segunda premissa era que, se as experiências, formas de participação e “questões” são de alguma forma diferentes para os sexos, as estratégias que os sindicatos adotam para atrair trabalhadores devem refletir essas diferenças.

Organizações de mulheres trabalhadoras e suas demandas: algumas semelhanças

Esta seção discute a crescente participação das mulheres em sindicatos de trabalhadores que ocorreu em muitos países da América Latina no final da década de 1970 e início da década de 1980. Ela se baseia em informações da Bolívia, Brasil, Chile e Argentina e se destina a mostrar as características comuns das diferentes experiências.

O que descobrimos é que o processo de incorporação das mulheres aos sindicatos é semelhante nestes países, apesar da diversidade dos contextos políticos e econômicos em que ocorre ou do tipo de sindicato envolvido (trabalhadores rurais, de fábrica ou de serviços):

Créditos da foto: CTA Autónoma

Argentina: um estudo de caso

A filiação das mulheres aos sindicatos de trabalhadores argentinos seguiu o padrão regional geral. Enquanto as mulheres participam dos órgãos delegados (em percentuais diferentes, dependendo do sindicato), elas estão basicamente ausentes da liderança. Nos blocos políticos do movimento sindical argentino não há porta-vozes ou representantes femininas. Tampouco há apoio trabalhista a qualquer membro feminino do atual Parlamento (Rosenzvaig, 1987). Entretanto, desde o retorno do governo civil em 1983, a filiação das mulheres aos sindicatos e à organização das trabalhadoras tem crescido. Isto ocorreu por várias razões.

Primeiro, muitos sindicatos de trabalhadores, principalmente no setor de serviços, formaram seções femininas a fim de fortalecer a participação das mulheres e aumentar seu acesso a cargos de liderança. O treinamento de mulheres organizadoras e delegadas com vistas às futuras eleições sindicais é um dos objetivos dessas seções. Sua formação, entretanto, era geralmente precedida por um intenso debate sobre a conveniência de confiar em “espaços separados”.

Muitas mulheres ativistas e líderes não estavam inicialmente preocupadas com os problemas das mulheres. Aquelas que apoiavam a criação de seções femininas nos sindicatos argumentavam que, como as mulheres têm exigências “particulares” (basicamente ligadas às condições de trabalho, treinamento e responsabilidades familiares), organizações separadas para as mulheres eram, por enquanto, indispensáveis.

Em segundo lugar, no final de 1984 foi criada uma organização intra-sindical de mulheres. Mulheres sindicalistas de cerca de doze sindicatos criaram a Mesa de Mujeres Sindicalistas (Plataforma Sindical Feminina) para trabalharem juntas para promover a filiação das mulheres em suas organizações, para condenar o isolamento das trabalhadoras e para reivindicar uma participação justa e equitativa das mulheres filiadas em seus sindicatos.

O objetivo da Plataforma era: a) criar consciência da discriminação contra as mulheres no mercado de trabalho e na sociedade; b) promover atividades que chamassem a atenção para a dupla carga de trabalho das mulheres; e c) incentivar a formação de departamentos de mulheres nos sindicatos (Plataforma Sindical Feminina, 1986). [5]

Além dessas iniciativas institucionais, as mulheres parecem ter aumentado sua participação nas atividades sindicais, particularmente em cursos de treinamento, de acordo com fontes informadas. As informações sobre as eleições sindicais após o retorno da democracia também sugerem uma certa melhoria na condição da mulher na gestão sindical.

Práticas e exigências sindicais: a perspectiva das mulheres

Como já observado anteriormente, muitas das pesquisas sobre a relação entre as mulheres e os sindicatos de trabalhadores sugerem que a filiação feminina poderia gerar mudanças no conteúdo e nos objetivos das políticas sindicais. As seguintes informações da Argentina podem lançar luz sobre esta suposição. Os dados são de uma pesquisa realizada em 1986 com líderes sindicais de ambos os sexos sobre questões sociais, políticas e sindicais [6].

A amostra era composta de 445 pessoas, das quais 16% eram mulheres. As respostas foram desagregadas por sexo para determinar os pontos de vista das mulheres sobre assuntos sindicais e se suas demandas e percepções diferiam das dos homens. Embora esse material não possa cobrir suficientemente uma questão dessa natureza, é um começo interessante. As tendências identificadas na pesquisa, no entanto, devem ser exploradas com mais detalhes com outros tipos de pesquisa.

A pesquisa indica que:

Notas

Bibliografia

ABRAMO, Lais. 1985. “Las mujeres obreras en la industria paulista” en FEIJOO, Maria del Carmen. A comparative research program on the mechanisms that generate and reproduce discrimination of women in Latin America (mimeograph).

ARDAYA, Gloria and SOSTRES, Fernanda. 1984. “Practicas de resistencia y reivindicaciones de la mujer campesina: el caso de las “Bartolinas” (mimeograph).

BAXANDALL, Rosalyn. 1976. “Women in American Trade Unions: A Historical Analysis” in MITCHELL & OAKLEY (Eds.) The Rights and Wrongs of Women. Pelican Books.

CHANG, Ligia & DUCCI, Maria Angelica. 1977. Realidad del empleo y la formacion profesional de la mujer en America Latina. CINTERFOR.

GALVEZ, Thelma and TODARO, Rosalba. 1985. “Antecedentes para evaluar la participacion de las mujeres en las organizaciones sindicales”. Centro de Estudios de la Mujer, Santiago, Chile (mimeograph).

GOULART, Nair. 1987. “Depoimento Pessoal de uma sindicalista” in F.F. NAUMANN. Participacion Politica de la Mujer en el Cono Sur. Buenos Aires.

HARTMAN STROM, Sharon, 1983. “Challenging Women’s Place: Feminism, the Left, and Industrial Unionism in the 1930's”, in Feminist Studies, Vol. 9, №2.

HUMPHREY, John. 1983. “Sindicato: un mundo masculino” in Novos Estudos CEBRAP, Vol.2, №1.

MESA DE MUJERES SINDICALISTAS (Women’s Labor Union Platform). 1986 (pamphlet).

MOREIRA ALVES, Branca. 1987. “O movimento de mulheres no Brasil: um esboco” in F.F. NAUMANN. Participacion Politica de la Mujer en el Cono Sur. Buenos Aires.

ORGANIZACION INTERNACIONAL DEL TRABAJO, Informe VII, 1985. Igualdad de oportunidades y de trato para los varones y las mujeres en el empleo.

ROSENVAIG, Adriana. 1987. “La mujer y la participacion gremial: realidades, limitaciones, y perspectivas” in F.F. NAUMANN, Participacion Politica de la Mujer en el Cono Sur. Buenos Aires.

SOUZA LOBO, Elizabeth. 1984. La clase obrera en femenino: practicas obreras y practicas de las obreras en San Pablo (mimeograph).

TRANSNATIONAL INFORMATION EXCHANGE (TIE), 1984. The New Militancy, pp. 36–37. Amsterdam.

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