O ódio que você semeia

Ainda precisamos entender sobre privilégios.

Beatriz G.
Sep 2, 2018 · 5 min read

“O ódio que você semeia” ou “The hate u give” é um livro escrito por Angie Thomas que, mais do que abordar uma temática velha e conhecida por nós (a violência e o racismo existentes em nossa sociedade), o faz de uma forma simples e envolvente falando sobre a temática do movimento Black Lives Matter (que denuncia a violência policial contra jovens negros nos Estados Unidos). O título em inglês já transmite a ideia do livro, visto que The Hate U Give — formam o anagrama “THUG”, ou seja, bandido.

A protagonista Starr tem 16 anos e mora em um bairro de negros nos Estados Unidos. Ao iniciar o livro, a realidade vivida por ela fica bem clara. Ela começa a narrativa contando os diversos ensinamentos que seus pais lhe deram ao longo de sua vida:

Quando eu tinha 12 anos, meus pais tiveram duas conversas comigo. Uma foi a de onde vêm os bebês e tal. Bom, na verdade, eu não ouvi a versão habitual. Minha mãe, Lisa, é enfermeira, e me contou o que entrava onde e o que não precisava entrar aqui, lá e nem em nenhum outro lugar até que eu tivesse crescido. Naquela época, eu duvidava que qualquer coisa fosse entrar em algum lugar. Enquanto todas as outras garotas começaram a ter seios entre o sexto e o sétimo ano, meu peito era liso como as minhas costas.
A outra conversa foi sobre o que fazer se um policial me parasse.

O livro é uma série de lições sobre como a vida de uma pessoa negra e de uma pessoa branca se diferenciam graças ao racismo presente em nossa sociedade. Seja pelo localidade e moradia, as oportunidades oferecidas, os aspectos culturais, tudo favorece para um mundo que foi feito e produzido para que pessoas brancas pudessem caminhar livremente e negros continuassem a margem da sociedade.

Além do tema principal da história ser a morte de seu melhor amigo vítima de uma “batida policial” graças a três disparos feitos, a história trata também dos conflitos da personagem que estuda em um colégio majoritariamente de brancos e convive com aspectos que passam desapercebidos por nós e que são sim, racismo. Ela cita, por exemplo, a expectativa ao redor dela e do outro colega negro do colégio para que ambos desenvolvam um relacionamento, como se negros somente pudessem se relacionar com negros; a constante reeducação que ela faz a si própria de se portar como “uma pessoa branca deve se portar”, deixando “a Starr do gueto guardada dentro de uma caixinha”, e etc. O livro segue com aquele sentimento de “eu já sabia disso” e também do “toma essa porrada na sua cara”.

Ser mulher não é fácil, e você que está aqui lendo sabe muito bem disso. Todas nós como mulheres passamos poucas e boas todos os dias para conquistar nosso espaço, seja para mostrar nossa capacidade, seja para termos o direito de amar quem quisermos, de sermos quem quisermos, de andarmos como quisermos, de fazermos nossas escolhas e afins. Porém, sabemos mais ainda e não é nunca demais lembrar que uma mulher negra passa por essas poucas e boas em nível elevado ao quadrado. Ainda que todo o espaço público não seja feito para nós, mulheres, ser branca dá acesso que seja de 0,00001% maior do que de uma mulher negra.

Basta ver dados simples:

  • As mulheres negras compõem a maioria de trabalhadoras do lar (61,7%);
  • Enquanto mulheres brancas lutam para que seus salários (média de R$ 797,00) sejam equiparados aos salários dos homens brancos (média de R$ 1.278,00), as mulheres negras recebem ainda menos (média de R$ 436,00);
  • As mulheres negras e pobres são as que mais morrem em abortos clandestinos, já que encontram resistência do sistema de saúde, sendo coagidas por equipes médicas e por religiosos de suas comunidades, fora o fato de muitas vezes não terem acesso nem mesmo ao aborto;
  • Nas estatísticas do feminicídio, negras são mais de 60% das vítimas;
  • Além disso, a mulher negra é culturalmente associada a ideia de ser “mais forte”, o que faz com que a violência sexual seja muito mais agressiva;
  • Tenho certeza que você já ouviu o famoso “a cor do pecado”. Essa sexualização do corpo das mulheres negras a todo instante (“alô globeleza”), faz com que haja pensamentos como “mulheres brancas são para casar, mulheres negras são para diversão”. E não é de agora, os seus tataravós senhores de escravos já faziam isso;
  • O encarceramento em massa que os últimos anos vem mostrando nos presídios femininos vira outra estatística rápida quando vemos que o número de negras é muito, mas muito maior do que brancas.
  • Tá cansada do padrão de beleza? Pois é, imagina que difícil lutar o tempo todo pra que a mídia pare de encher você de imagens de corpos perfeitos, cabelos lisos e rostos maquiados. Agora mais que isso, imagine nem ao menos ter uma figura para a qual revogar esses padrões. É isso que uma mulher negra enfrenta, uma mídia com rostos, formas e padrões que não a incluem;

Esse são apenas alguns exemplos de como a mulher negra e o feminismo negro são pautas deveras importantes. E sei que o primeiro intuito ao ler dados assim, além da revolta constante, nos vem a “pena”. Mas a nossa querida protagonista Starr admite ela mesmo que odeia essa palavra. Não devemos ter pena, devemos dar espaço, devemos dar voz e não silenciar de forma alguma todo esse racismo.

Precisamos, e eu faço questão de me incluir nessa NÓS, como mulheres brancas, é primeiramente nunca nos esquecermos dos nossos privilégios como brancas, e mais do que isso, ajudarmos com esse alicerce que temos na luta antirracista das mulheres negras. É muito fácil nos sentirmos ofendidas quando lemos isso, que esse mesmo sistema opressor, de alguma forma bizarra nos beneficia, mas ter isso em mente é saber que cada vez mais é necessário dar espaço para mais Starr e companheiras negras de terem seu espaço de fala e discutirem em ambientes de conversa. É importante saber que o feminismo negro existe, mas que ele não está separado do feminismo, muito pelo contrário, ele está junto e muito que junto.

A “facilidade” de ser branco — em exemplos como maior facilidade de acesso à moradia, educação, saúde, da valorização dos seus traços étnicos -, resulta no “peso” da posição subalterna que ocupam os não-brancos na sociedade brasileira. Reconhecer privilégios também uma forma de combater os mesmo e buscar uma união entre as lutas. Entender a branquitude é compreender a desigualdade racial pelo ângulo das inúmeras vantagens brancas, individuais ou estruturais, assim como representa olhar o racismo diante das formas de estruturas de poder sociais. Enxergarmos que nós, mulheres brancas, somos privilegiadas, significa assumir um peso na questão do racismo, e isso é muito ruim, mas é importante para ajudarmos a combatê-lo, seja em um comentário na roda do bar, dentro da sala de aula, no comentário familiar, nas urnas de votação, no ambiente de trabalho, nas ruas e na sociedade brasileira.


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