Tradução do texto de Claire para o site Sister Outrider

Carol Correia
Sep 2, 2017 · 10 min read

Publicado originalmente em 25 de abril em 2016 por Claire, no Sister Outrider neste link


Breve consideração a ser feita antes da leitura:

Esse texto e os seguintes (o primeiro desta série se encontra aqui, em meu perfil[1]) dessa seção serão traduzidos e disponibilizados para tratar de algo que desde sempre é falado: o racismo de mulheres brancas e seu status de opressora.

É necessário ter em mente que misoginia não é a única opressão que mulheres são sujeitas a. E ainda, que se o objetivo do feminismo é a libertação de todas as mulheres, o feminismo e feministas não podem jamais ignorar ou minimizar classismo, racismo e outras opressões.

É urgente que mulheres brancas se responsabilizem quando elas são opressoras perante outras mulheres. E perante outros homens. Sim. Mulheres brancas e/ou endinheiradas estão em situação de opressora perante a homens não-brancos e/ou pobres. Reconhecer isso faz parte e não invalida a opressão decorrente ao sexo.

Se vocês desejam que o feminismo seja unido e que todas as mulheres sejam libertas, é necessário falar sobre todas as demais opressões que moldam a vida de mulheres; sem maniqueísmo, sem minimizar discussões a trivialidades brancas e sem nos empurrar a escolher perante questões femininas e questões decorrente das outras opressões.

- Carol Correia


Nota de tradução:

O termo “women of color” foi traduzido como “mulheres não-brancas” ao invés do termo literal “mulheres de cor”, pelas seguintes razões: 1. O termo “mulheres de cor” no Brasil e em Portugal tem conotação pejorativa, algo que o termo em original não tem a menor intenção de ser; 2. Apesar da problemática de nomear um grupo em oposição ao grupo dominante/opressor (o não-branca, ao invés de sua etnia/raça correspondente), não-branca indica exatamente o grupo ao qual “women of color” fala sobre, isto é, todas as mulheres que são racializadas (ou seja, estão fora do padrão racial considerado normal na supremacia branca) e sofrem racismo. No Brasil, essas mulheres seriam asiáticas, indígenas, mestiças e negras. Enquanto nos Estados Unidos, essas mulheres seriam asiáticas, nativo-americanas, indianas, negras e latinas.


Prefácio:

Este ensaio é o segundo de uma série sobre raça e racismo no movimento feminista. É um trabalho de reflexão pessoal. Nenhum indivíduo, organização ou evento são/serão nomeados ou identificados diretamente. Meu objetivo não é chamar nem lubrificar qualquer mulher, mas sim destacar algumas realidades da dinâmica interracial entre as mulheres no feminismo.


O pessoal é político[2]. O clamor da reunião do feminismo da segunda onda, uma perspectiva que caracterizou um corpo significativo da teoria feminista. É por esta razão que eu decidi dividir uma reflexão sobre a minha experiência como mulher negra dentro do movimento. Há uma teoria dentro do feminismo negro que se inicia com ser um intruso com base nas posições de raça e sexo. As mulheres negras como observadoras, nos dão uma visão particular das estruturas de poder dominantes e dos meios pelos quais se manifestam (Hill Collins, 2000). Com isso em mente, eu pretendo viver de acordo com os padrões estabelecidos por minhas antecessoras e melhorar esse movimento para as mulheres não-brancas que seguirão depois de mim.

Feminismo é para todos (no original, Feminism for Everybody) — então diz bell hooks. (Nota: hooks não está argumentando que o movimento deve priorizar os homens ou qualquer outra classe dominante, mas sim ser totalmente inclusivo em razão de raça, classe e sexualidade). Este texto foi crítico no meu desenvolvimento de um feminismo radical negro, o momento em que o negro tornou-se Negro. Feminismo é para todos descreveu a importância de reconhecer a raça e a classe ao lado do sexo se o patriarcado capitalista da supremacia branca deve ser desmantelado e forneceu um modelo para a verdadeira solidariedade interracial entre as mulheres. Aqui, hooks postula que a irmandade pode existir entre mulheres não-brancas e mulheres brancas desde que a raça seja reconhecida como uma hierarquia, racismo como um sistema de poder, do qual as mulheres brancas se beneficiam. Se as mulheres brancas continuam a negar o privilégio de branquitude, desconsiderando inúmeros depoimentos entregues por mulheres não-brancas, não temos motivos para confiar nelas como aliadas políticas — esta é uma perspectiva de hooks e uma com a qual eu concordo de todo o coração.

Solidariedade interracial entre as mulheres é possível. Eu sei. Eu experimentei isso. Mas eu também aprendi que é bastante raro; de forma que nunca vou condenar outra mulher não-branca por reivindicar o contrário. Esta solidariedade não está de modo algum garantida — na minha opinião, é mais seguro nunca esperar — mas é poderoso quando está certo.

O primeiro lugar em que experimentei uma verdadeira solidariedade interracial dentro do movimento foi na organização de mulheres onde eu fui voluntária. Os valores e práxis desta organização são interseccionais no sentido mais puro — é um lugar para mulheres não-brancas, mulheres da classe trabalhadora, mulheres lésbicas e bissexuais, mulheres com deficiência. As mulheres que negociam identidades marginalizadas não são tratadas como tokens, ou uma caixa a ser marcada para fins de financiamento: estamos no cerne da organização. Quanto mais tempo eu estive lá, mais eu aprecio isso. Quanto mais tempo eu estive lá, mais incomum percebo que esta situação realmente é. É um lugar onde eu posso sentar em torno de uma mesa trabalhando com mulheres brancas e sei que elas não veem minha Negritude como um método fácil de sinalização de virtudes, algo a ser exibido quando conveniente e desconsiderado quando não é. A diferença não é fetichizada ou ignorada, mas reconhecida e tratada em conformidade — exatamente os critérios definidos por hooks. Estas são mulheres que vivem seus princípios feministas e eu estou orgulhosa de trabalhar ao lado delas.

Vale a pena observar que a maioria das mulheres brancas com quem compartilho a solidariedade são significativamente mais velhas que eu e/ou lésbicas e/ou da classe trabalhadora. Quanto ao motivo pelo qual essas mulheres tendem a ser mais velhas: o feminismo foi significativamente mais radical quando começaram o caminho do ativismo, que indubitavelmente moldou sua perspectiva sobre a opressão estrutural. A política feminista radical acrescentou profundidade à sua análise estrutural, na medida em que a ignorância da raça tornou-se extremamente difícil de justificar e é desonestidade intelectual.

É fácil responder a parte lésbica desta dinâmica — em sua novela The Night Watch, Sarah Waters postulou que as lésbicas tendem a mostrar “galanteria” com base em que ninguém mais irá fazer o mesmo e, em termos gerais, acho que ela está certa. Em alguns casos, são mulheres que lutaram a Seção 28[3] — é razoável imaginar que elas agora assistem as babydykes florescerem e as consideram uma conquista. Tendo experimentado uma marginalização considerável, essas mulheres são mais propensas a estarem conscientes da marginalização vivida por outros — como a interseccionalidade[4] é suposto de funcionar, mas nem sempre acontece.

Por que eu acho uma afinidade mais fácil com mulheres da classe trabalhadora branca também é evidente. Elas estão conscientemente desaprendendo racismo enquanto eu (uma mulher da classe média negra) conscientemente desaprendo o classismo. Como várias obras feministas argumentaram, a raça e a classe estão inextricavelmente ligadas por estruturas de poder dominantes. Nem a classe negra nem a classe trabalhadora apresentam a imagem cor-de-rosa da vida no Reino Unido pintada pela mentalidade da Grã-Bretanha. Nós duas pertencemos às partes da sociedade que representam outras, por lá, não são pessoas como o “nós” hegemônico. As mulheres brancas da classe trabalhadora se comprometeram com meu ativismo e me mostraram uma bondade extraordinária de uma maneira que, a meu pensamento, exemplifica a irmandade.

Essas mulheres me mostraram toda consideração pessoal e profissional. Elas encorajaram meu trabalho, amplificaram minha voz e ouviram atentamente o que eu tenho a dizer. São minhas irmãs. Elas têm minha confiança. E são a exceção à regra do racismo branco.

Participar no movimento feminista como uma mulher negra é, francamente, difícil. Isso não é por causa dos ativistas de direitos dos homens e racistas de Direita que são rotundamente subjugadas pelo desejo de me chamar de “niger”, sugerindo que eu “volte para a África” (Para sua informação: impossível — para meu arrependimento, nunca visitei esse continente e eles nunca estão dispostos a pagar pelo meu bilhete de avião…), façam alguma alusão à escravidão ou ao Ku Klux Klan com a esperança de me causar desconforto, etc. Essas pessoas são irrelevantes. Ao longo do tempo, eu me dessensibilizei com esses ataques. Não, o que dificulta a minha participação no feminismo é: testemunhar e enfrentar o racismo das mulheres brancas que eu já havia considerado como aliadas — as mulheres que entendem a misoginia a nível estrutural, mas se fecham a visão do racismo. Elas foram responsáveis por cada um dos inúmeros pontos em que eu queria deixar o movimento, distanciar-me do que sei ser uma causa vital.

Sempre que discuto raça, o resultado é o mesmo. As mulheres brancas autoproclamadas feministas me juraram, falaram sobre o que eu falei/falo, questionaram minhas credenciais feministas, zombaram de mim, fizeram piadas racistas pouco veladas e — de forma mais bizarra — policiaram minha raça. Tão rapidamente, a defensiva branca evolui para a crueldade branca. Não vou dar exemplos. Não incluirei screencaps, nem nomearei e envergonharei as culpadas. O que direi é que acontece regularmente o suficiente a ponto de que estou automaticamente de guarda com feministas brancas, apenas esperando que as microagressões[5] comecem. E elas acontecem.

Algumas feministas brancas ainda se sentem compelidas a fazer pequenos testes, que só posso ver como demonizando homens negros e priorizando sexo a raça na minha análise. Eu não posso nem me importar com aquele trivial passatempo na internet de comentar atitude grotesca de Kanye West sem que uma mulher branca apareça em minhas menções, esperando que eu a) mostre a monstruosa masculinidade negra; b) pare de ouvir sua música; c) distanciar-me da cultura negra em nome da irmandade. Se eu criticar a afromisoginia dirigida às mulheres negras na indústria da música, como Nicki Minaj[6], a resposta é igualmente previsível. Mulheres brancas apagam sobre como Nicki repetidamente incentiva suas fãs femininas a se concentrar em sua educação[7] e nunca dependerem de um homem[8], ignoram a mensagem por trás de sua música e a forma como eleva a feminilidade negra — elas só querem criticar a sexualidade de sua imagem. Pontos de bônus se Taylor Swift for mantida em contraste como um bom modelo para meninas.

E então há as mulheres brancas que vem se associar comigo como uma via rápida para os biscoitos. “Eu não posso ser racista: eu tenho uma amiga negra!” Em várias ocasiões, as feministas brancas me marcaram em seus argumentos do Twitter com racistas, muitas vezes expondo-me a imagens gráficas e linguagem racista no processo. Eles fazem isso com menos consideração a mim que Ash Ketchum já enviou um Pokémon a batalha. Elas fazem isso na crença de que vou lutar em seu favor, usar minha voz para fornecer-lhes um terreno moral alto. Eu não farei. As imagens da violência branca contra os negros são profundamente perturbadoras. Esse direito ao meu trabalho intelectual é um ato de desprezo. É desumanizante, acompanhado por um desrespeito real pelo meu bem-estar.

É impossível sentir solidariedade com as mulheres que esperam que eu minimize e ignore a minha negritude e suas implicações políticas para o seu conforto. Eu não posso sentir a irmandade com mulheres que esperam que eu fique em silêncio porque é “apenas raça”, descartando um sistema de opressão que continua a moldar minha vida como “uma distração”. Não há espaço para confiança quando estou constantemente desviando do racismo. Quando eu falo sobre raça e feminismo com outras mulheres não-brancas, elas sabem. Elas instintivamente entendem. Não há necessidade de explicar e isso é uma coisa maravilhosa em um mundo em que a ordinária variedade de preconceituosos e feministas brancas estão direcionando racismo em nosso caminho.

No entanto, não consigo desistir da visão de um movimento feminista unido. As mulheres brancas com quem compartilho a solidariedade trabalharam para alcançar esse nível de consciência. Elas mostram que o racismo não precisa ser uma barreira entre as mulheres, se todas nós estamos empenhadas em desafiar a supremacia branca. Na autobiografia de Angela Davis, há uma passagem particularmente tocante em que revela o compromisso de sua mãe com a solidariedade interracial na luta contra todas as formas de opressão. A generosidade do espírito de Sallye Davis, a força que mostrou ao manter essa esperança viva, são inspiradoras.

Se eu estou disposta a permanecer uma otimista, é porque acredito em um movimento feminista construído sobre uma verdadeira solidariedade — em que “todas as mulheres” significam “todas as mulheres” e não a insistência de que as mulheres brancas são priorizadas. Não existe hoje, mas pode existir. Quando as mulheres brancas estão prontas para colocar o trabalho, eu estarei preparada para chamá-las de irmã.


Bibliografia

Davis, Angela. (1974). An Autobiography.

hooks, bell. (1984). Feminist Theory: From Margin to Center.

hooks, bell. (2000). Feminism is for Everybody.

Hill Collins, (2000). Black Feminist Thought.

Smith, Barbara. (1998). The Truth That Never Hurts: Writings on Race, Gender and Freedom.

Waters, Sarah. (2006). The Night Watch.

-> Urjo para que todos leiam toda a bibliografia apresentada acima se tiverem algum nível de inglês, pois infelizmente essas obras ainda não se encontram traduzidas.



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Ativista antiprostituição e Formada em Direito (pós em Constitucional e Processo Penal). Acessem também: antiprostituicao.wordpress.com

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