O pacto entre os defensores dos direitos trans e o lobby do mercado do sexo

Ariana Amara
Apr 13, 2018 · 8 min read

Em seu novo livro, “A Cafetinagem da Prostituição: Abolindo os mitos do trabalho sexual”, Julie Bindel explora as conexões entre o “trabalho sexual” e o transativismo.

Por Julie Bindel

A seguir, um pedaço do livro “The Pimping of Prostitution: Abolishing the Sex Work Myth,” que foi recentemente publicado pela Palgrave Macmillan.

A ascensão das políticas de identidade trans trouxe uma tentativa estridente de mesclar as identidades da prostituição e dos chamados “genderqueer”. Existem vários argumentos que são usados para afirmar que a experiência de ser trans e de ser prostituída são muito similares, ou quase a mesma coisa. O primeiro argumento é que muitas mulheres trans não conseguem encontrar empregos regulares, ou precisam de dinheiro rápido para pagar pelas cirurgias, e portanto acabam recorrendo ao mercado do sexo. O outro, é um argumento queer que diz que somos todos parte de uma linda aliança debaixo do arco-íris e que os direitos das “profissionais do sexo”, os direitos trans e queer são todos parte da mesma coisa. O que esses argumentos ignoram é uma análise do poder masculino em relação ao poder das mulheres. Na verdade, tirando as mulheres trans, mulheres são completamente excluídas da equação.

Os acrônimos recentemente construídos também levam até minha teoria de que a questão de pessoas transgênero e “o direito das profissionais do sexo” se tornam tão conectados a ponto de você ser incapaz de apoiar uma causa sem apoiar a outra. SWERF (Sex Worker Exclusionary Radical Feminists) e TERF (Trans Exclusionary Radical Feminists) são termos que rimam. Ambos os grupos parecem ter percebido como é importante mesclar seus interesses. Lobistas pró-prostituição recebem apoio regular do lobby trans e vice-versa. Eu pude notar o quão benéfico esse apoio mútuo foi para ambos os grupos durante a campanha da Grã-Bretanha para introduzir uma lei que criminalizava a compra de sexo. Isso aconteceu em 2009, e a proposta de lei que estava em debate no Parlamento criminalizaria aqueles que compram sexo de alguém que foi traficado ou coagido. Ainda é considerado importante que essa proposta passe, apesar de muitos serem céticos com sua eficácia uma vez que essa lei separaria as mulheres que podem provar que foram cafetinadas ou forçadas daquelas que estiverem sendo abusadas ou exploradas no mercado do sexo, o que seria quase impossível de policiar.

A acadêmica Belinda Brooks-Gordon cunhou o curioso termo "Crimonologia Continuada" para descrever o que ela considera pouca pesquisa sobre o mercado do sexo. Por exemplo, Brooks-Gordon foi signatária da reclamação publicada pelo jornal Guardian sobre a pesquisa sobre "Grande Bordel" em que eu fui co-autora.

Na construção do debate no Parlamento e na Casa dos Lordes sobre a nova proposta lei, Brooks-Gordon estava profundamente envolvida em fazer campanha de oposição. Ela postou mensagens em websites de proxenetas como aqueles em que os compradores de sexo fazem uma "avaliação" sobre as mulheres prostituídas que eles compram. Steve Elrond é um comprador de sexo frequente, lobista pela ampla discriminalização, e dono de websites que fazem propagandas de mulheres para outros compradores. Ele postou uma mensagem de Brooks-Gordon em seu site pessoal, que não está mais disponível mas pode ser acessado por meio de sites de arquivo.

“Dr Belinda Brooks Gordon [sic] que é brilhante em fazer lobby pelos nossos direitos pediu para que o comentário fosse divulgado," escreveu Elrond. A mensagem de Brooks-Gordon ofereceu razões pelas quais mulheres prostituídas (ou "profissionais do sexo", como ela chama) e compradores de sexo ("clientes") deveriam fazer lobby em todos os partidos para garantir que os deputados votem contra leis que criminalizam a demanda por pessoas traficadas. Ela seguiu explicando o quão importante foi formar alianças entre questões diferentes, antes de explicar seu próximo passo:

“Na quinta à noite eu vou me encontrar com um grupo transgênero para explicar o porquê eles devem se opor ao projeto de lei (alguns ainda estão balançados [sic] com esse assunto) — uma coisa pra eles foi fazer uma demonstração contra a nomeação de Bindel na premiação, mas o trabalho sexual é outra questão, então vamos trabalhar nisso. Algumas boas conexões foram possíveis durante a manifestação então vou mantê-los informados sobre a posição deles sobre esse assunto. Se alguém quiser se juntar, será bem-vindo."

No ano passado, eu fui nomeada na categoria "Jornalista do Ano" nos prêmios anuais de Stonewall. Assim que minha nomeação foi anunciada, a comunidade transgênero e boa parte da mídia gay se armou. Eu sou regularmente acusada de "transfobia" por conta de um artigo que escrevi para o Guardian Weekend Magazine em 2004. Eu não pedi para ser nomeada para o prêmio, mas assim que os protestos começaram eu percebi que eu deveria comparecer ao evento ou iria parecer que eu estava intimidada o suficiente para não ir.

Na chegada, eu vi que tinham mais de 100 manifestantes argumentando que minha nomeação deveria ser retirada e que eu vendia "discurso de ódio". Ao lado dos transativistas estavam uma quantidade de lobistas pró-prostituição e acadêmicos de conhecimento limitado. A manifestação foi a maior da história do ativismo transgênero no Reino Unido e houve muita publicidade relacionada à isso.

Uma das principais organizadoras da demonstração era Sarah Brown, colega Brooks-Gordon durante o que tempo em que ambas eram conselheiras Liberais Democratas. Depois da saga Stonewall, Brooks-Gordon viu uma oportunidade de atrair membros do lobby transgênero para se opor à lei que criminalizava a demanda, e para lutar pela ampla descriminalização do mercado do sexo.

O que é interessante, pelo menos de acordo com Brooks-Gordon, é que naquele momento de 2009, alguns do lobistas trans eram "reticentes" sobre se afirmar em público a favor da linha pró-prostituição.

Ultimamente no Reino Unido, várias filiais locais e dois grandes partidos políticos se responsabilizam por criar e implementar políticas sobre prostituição no mercado do sexo em suas plataformas LGBT. O Democratas Liberais, por exemplo, levam frequentemente mulheres trans para discursar em suas conferências, na intenção de passar moções que apoiem a ampla descriminalização do mercado do sexo. O mesmo acontece com o Partido Verde (exceto pelo fato de que eles se auto-denominam como LGBTIQA+) e algumas filiais locais do Partido dos Trabalhadores.

Por exemplo, um membro chave da plataforma LGBT na filial do Partido dos Trabalhadores de Islington é Catherine Stephens. Stephens é a fundadora da União Internacional das Trabalhadoras do Sexo (IUSW), uma união falsa constituída de acadêmicos pró-prostituição, consumidores de sexo, cafetões, donos de bordéis e outros lobistas para a descriminalização do mercado do sexo. Nos últimos 10 anos que eu encontro com Stephens em conferências e outros eventos públicos, e nunca a vi se declarando lésbica ou bissexual. No entanto, ela agora se identifica como bissexual, o que significa que ela recebeu legitimidade dentro do grupo LGBT.

A influência Trans no "Trabalho Sexual"

Sarah Noble é uma Democrata Liberal ativista pró-prostituição e mulher trans. Em 2014, Noble fez um discurso em uma conferência pedindo pela descriminalização. Brown, também mulher trans, fez também uma fala adicional na conferência apoiando a descriminalização.

Janet Mock é um homem que se identifica como mulher trans e ativista, que foi catapultada para a arena pública com a publicação de suas memórias sobre crescer sendo uma pessoa transgênero, Redefining Realness: My Path to Womanhood, Identity, Love & So Much More em 2014. No video que acompanha o livro, Mock parece celebrar o involvimento de crianças no mercado do sexo:

“Eu tinha 15 anos a primeira vez que visitei a Merchant Street, o que muitos chamavam de "as redondezas" para mulheres trans envolvidas no mercado do sexo nas ruas. Na época, eu tinha começado meu tratamento de transição médica, e era um lugar em que garotas jovens, como minhas amigas e eu, íamos nos divertir, flertar e dar uns amassos com os garotos, e socializar com outras mulheres trans, as lendas da nossa comunidade."

Mock continua a explicar como ela "idolatrava" as mulheres trans prostituídas da área, incluindo aquelas usadas na pornografia e nos clubes de strip. "Essas mulheres foram as primeiras mulheres trans que eu conheci e eu rapidamente equalizei a mulheridade trans com o trabalho sexual," conta Mock, ao explicar que ela passou a entender o mercado do sexo como um "ritual de passagem" para garotas trans.

Mock é depreciativa sobre o papel da mídia em tratar a prostituição como "degradante e vergonhosa". Como muitos lobistas pró-prostituição, Mock considera o estigma associado com a prostituição como extramamente prejudicial, mais prejudicial do que o mal causado nas pessoas prostituídas por compradores, cafetões e donos de bordel. Na verdade, Mock deixa muito claro que qualquer condenação sobre o mercado do sexo irá levar à violência contra aqueles que vendem sexo, afirmando que qualquer pessoa com visões negativas sobre o mercado do sexo "desumaniza" as pessoas prostituídas.

Mock afirma:

“Profissionais do sexo são constantemente ignoradas, e isso faz mesmo as pessoas mais liberais desumanizarem, desvalorizarem e diminuírem as mulheres envolvidas no mercado do sexo. Essa desumanização perversa das mulheres no mercado do sexo leva à muitas pessoas ignorarem o silenciamento, a brutalidade, o policiamento, a criminalização e violência que profissionais do sexo enfrentam, até as culpando por serem defeituosas, promíscuas e sem valor."

Como Mock assumiu anteriormente, ela aprendeu a conectar a prostituição e o fato de ser transgênero, e argumenta que, porque ela aprendeu que a prostituição é vista como vergonhosa, ela começou a ver o fato de ser transgênero também como vergonhoso: “Eu não conseguia separar essa ideia dos meus problemas com minha aparência, meu senso de independência, minha culpa internalizada sobre ser trans, mestiça, pobre, jovem e mulher."

Esse é um argumento bizarro e perigoso. O que Mock está efetivamente dizendo é que a não ser que nós normalizemos completamente e desestigmatizamos o mercado do sexo, as mulheres trans como ela nunca poderão se sentir orgulhosas de sua "mulheridade". Pense nas implicações disso: primeiro de tudo, a completa junção da prostituição com o fato de se identificar com transgênero, acrescido de um argumento manipulador que diz que se nós não aceitarmos completamente a prostituição como algo "empoderador", as mulheres trans irão ter sentimentos de auto-ódio.

Mock escreve:

“Essas mulheres me ensinaram que nada estava errado comigo ou com meu corpo, e que se eu quisesse, elas me mostrariam o caminho. E foi nesse circuito underground de recursos criados por mulheres pobres, marginalizadas, que me permitiu com 16 anos pular pra dentro do carro do meu primeiro cliente regular e escolher meu caminho para sobrevivência e libertação."

Aí está o argumento: prostituição é sobre libertação e qualquer condenação desse sistema significa que mulheres e garotas marginalizadas não terão condições de sobreviver.

Julie Bindel é jornalista, ativista feministas contra a violência masculina, e autora do livro The Pimping of Prostitution: Abolishing the Sex Work Myth.


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