Como assim, temos experiências diferentes?!

Furiosa
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Jan 30, 2018 · 8 min read

Descobrir-se uma pessoa branca é muito diferente de se descobrir uma pessoa não-branca — principalmente, e justamente, porque somos privilegiadas o suficiente para nossa experiência ser universalizada a ponto de acharmos que todas as pessoas vivem o que vivemos, independentemente de classe social, etnia, cultura, país, idade, enfim.

(Claro que isso também tem muito a ver com o capitalismo, mas vamos nos focar na questão da branquitude)

Isso é uma estratégia de fortalecimento — da própria branquitude, do racismo institucional e da opressão estrutural da população preta; porque aliena as pessoas pretas (e não-brancas, de forma geral) de sua opressão ao mesmo tempo em que aliena pessoas brancas de seus privilégios, fazendo com que esses dois grupos pensem que vivem em uma mesma realidade quando poderiam muito bem estar em universos diferentes.

É claro que isso também acontece com as mulheres.


Quando começamos a estudar e a nos engajar mais com o feminismo, deparamo-nos com diversas questões que parecem muito universais: direito ao aborto, o combate à cultura do estupro, o combate ao feminicídio, a luta pelo acesso igualitário ao mercado de trabalho e a cargos de liderança, a luta por representatividade política, o combate à misoginia inerente à indústria da moda e às opressões estéticas… sendo que diversas dessas questões e lutas falam diretamente com a gente, com nossas histórias e nossas vidas pessoais. É muito importante que falemos a mesma língua para que a gente consiga agregar mais mulheres à luta: é imprescindível que se entenda que essa luta é tão nossa quanto delas.

Daí vem o problema. Eu, enquanto branca, partia de diversos pressupostos errados — pressupostos advindos da minha branquitude e do quanto essa branquitude interferiu na (e participou da) construção tanto da minha própria identidade quanto do meu iniciante feminismo.

A língua feminista que eu falava não era a mesma falada pelas pretas (vou focar pelo resto do texto nas mulheres pretas).

A primeira vez em que eu me toquei, pela primeira vez, de que a realidade das mulheres pretas era tão ditada pela opressão de raça quanto de sexo foi em um debate sobre opressão estética. Eu falava sobre as amarras da feminilidade, quando uma mulher (obviamente, preta) me chamou a atenção para o fato de que, para uma mulher preta, usar certas maquiagens sem se sentir vulgar ou hipersexualizada é uma pequena revolução, porque as mulheres pretas nunca puderam se dar ao luxo de serem vaidosas, de cuidarem da própria aparência e de se sentirem bonitas, inclusive porque todos os traços físicos e estéticos associados à negritude têm sido considerados feios e inferiores (como o cabelo crespo, o nariz largo, a boca grossa, a própria cor da pele…). Isso sem mencionar o fato de que a indústria de cosméticos, até pouco tempo atrás, sequer considerava as mulheres pretas como potencial mercado consumidor (quantas marcas de maquiagem só começaram a fazer bases para peles mais escuras só agora?).

Foi nesse dia, com esse apontamento tão simples, quando eu realmente questionei minhas próprias vivências enquanto mulher e tudo o que eu já lera de teoria feminista, e passei a analisar, uma a uma, todas as questões em que a raça (e, muitas vezes, consequentemente, a classe) diferenciava as experiências das mulheres brancas e das mulheres negras.

Vou compartilhar aqui com vocês só alguns dos meus apontamentos (feitos todos, obviamente, tendo textos de mulheres negras como guias).

A infância. É fato que nós vivemos numa cultura de pedofilia e que tanto meninas brancas quanto negras são hipersexualizadas, mas a preta carrega o peso extra de sua cor. Estudos já comprovaram que meninas negras são vistas como menos inocentes do que meninas brancas da mesma idade — ou seja: a menina preta não só é sexualizada como adultizada. Isso interfere na forma como a menina será tratada em todas as suas relações (afetivas, familiares, sociais, de emprego), porque será considerada “mais madura” e parecerá precisar “de menos atenção”.

Os direitos civis e trabalhistas. De forma geral, é um discurso comum no meio feminista que as mulheres somente há pouco “conquistaram” o mercado de trabalho, o direito ao voto, o direito às igualdades civil e política, o direito à propriedade, dentre outros. Mas temos de nos questionar: que mulheres? Porque as mulheres pobres e as pretas sempre tiveram de trabalhar (as pretas foram trazidas para o Brasil pra trabalharem forçadamente, afinal).

Discursos sobre a inferioridade feminina. A gente sabe que, ao longo da história, a ciência e a filosofia buscaram diversas justificativas para manter o status quo de uma sociedade patriarcal. Dentre essas justificativas, estavam as tendências femininas à histeria, a inferioridade física (incapacidade para trabalhos braçais, fraqueza, fragilidade), inferioridade intelectual, irritabilidade, acometimentos mensais de males terríveis, baixa resistência a dor e a fortes emoções… até em termos de criminologia havia diferenciação entre criminosos e criminosas, já que a natureza feminina tornaria as mulheres criminosas mais propensas a determinados crimes. Só que, bem… nunca se questionou a capacidade de trabalho das mulheres negras. Nunca se questionou suas aptidões físicas para trabalhos braçais. Para a medicina, talvez as pessoas pretas sequer fossem consideradas pessoas, já que os próprios cientistas armavam e bancavam zoológicos de pessoas pretas na Europa nos séculos passados. Os próprios cientistas e médicos executavam cirurgias experimentais sem anestesia nenhuma em mulheres negras para testarem suas técnicas para, somente depois, efetuarem as técnicas bem-sucedidas em mulheres brancas, com anestesia. E, acredite ou não, ainda hoje mulheres negras recebem menos anestesia do que mulheres brancas na hora do parto.

(Sobre isso, espero que você já tenha lido o — infelizmente, ainda atual — discurso de Sojourner Truth: E não sou eu uma mulher?)

Se ainda não conhecem, sugiro que conheçam a história de Saartjie Baartman.

Estupro e feminicídio. Vocês devem saber das estatísticas — as mulheres pretas são as maiores vítimas de violência sexual, em números. E, enquanto o homicídio de mulheres brancas diminuiu, o de mulheres negras aumentou 54% no mesmo período. Hein? Não era pra avançarmos todas juntas? Mas deixa eu te contar: sim, as mulheres todas são reduzidas a propriedades e a objetos sexuais aos olhos dos homens. Só que a mulher negra carrega, ainda, o histórico da escravidão, em que ela era literalmente uma escrava sexual, em muitos casos. É dessa tradição de uso da mulher negra por parte do homem branco que, principalmente em nosso país, nos deparamos com conceitos como o de “beleza exótica” e de “mulata” (ou, ainda pior — “mulata tipo exportação”). A própria Globeleza.

Aborto. É uma pauta essencial para todas nós, mas, materialmente, os motivos de o direito à escolha ser tão importante são bastante diferentes. Mulheres brancas costumam lutar pelo direito ao aborto muito mais enquanto institucionalização de um direito subjetivo ao próprio corpo, muitas vezes ignorando a realidade de que, para as mulheres negras, não se trata só de mais algumas linhas de leis: é a única saída para pararem de morrer. Porque nós sabemos que as maiores vítimas de morte em consequência de um aborto malsucedido são as mulheres negras. E, antes de essas estatísticas se concretizarem, a vida da mulher é marcada por diversos abandonos — o abandono do Estado, que não fornece educação sexual nem métodos contraceptivos acessíveis; o abandono da família; o abandono do parceiro; a ameaça de perda do emprego; a estigmatização feita pela sociedade… e, além de ser preta, carrega uma potencial criança — provavelmente — preta no ventre, que não poderia ser mais insignificante aos olhos do Estado. Para a mulher branca, costuma ser uma questão de direito. Para a mulher negra, é definitivamente questão de vida ou morte.

Solidão afetiva. A gente costuma brigar muito pra quebrar o ideal de “se casar e viver feliz pra sempre com um príncipe” que filmes de princesa passam para nossas crianças… mas que crianças? Esse é um sonho factível e compatível com a realidade da menina branca, que vê ao seu redor mulheres brancas adultas casadas ou em relacionamentos estáveis. Mas a menina negra nasce e cresce em um ambiente marcado por mulheres solteiras (muitas vezes, com crianças para criar). Não à toa, o tema de solidão da mulher negra é tão importante (e tão preocupante). Lendo textos a respeito, vemos que elas relatam serem preteridas por mulheres brancas até em relacionamentos afrocentrados — ou seja, nem os homens pretos as consideram potenciais parceiras. (Leia a respeito aqui, aqui e aqui)

A divisão sexual (e social) do trabalho. É consenso entre as feministas a existência da divisão sexual do trabalho, consistente (em resumo) na atribuição de diversos trabalhos domésticos (e não remunerados) às mulheres (como o cuidado com a casa, o cuidado e a criação de crianças e, muitas vezes, até o cuidado com pessoas idosas). Mas a gente convenientemente sempre esquece de problematizar a nossa própria faxineira ou babá, que além de arrumar e cuidar da própria casa, tem de arrumar e cuidar da casa e das crianças de outras pessoas — brancas — , muitas vezes, nesse processo, perdendo a oportunidade (e o tempo) de criar e de cuidar de suas próprias crianças… Não adianta a gente se livrar, socialmente, da responsabilidade de limpar a casa se acabarmos, com isso, simplesmente terceirizando o serviço.


Se o feminismo é a luta pela emancipação de todas as mulheres, então muitas vezes a interseccionalidade enquanto ferramenta de análise — que estuda as interações entre as várias estruturas de poder que atuam sobre a vida de uma pessoa, gerando opressões e discriminações — é necessária justamente para que tomemos consciência de como a situação material de uma mulher é afetada por vários fatores além de seu sexo. Isso não significa a criação de “subcategorias” (ou “identidades”) dentro da “categoria mulher”; pelo contrário: a conscientização beneficia a todas enquanto grupo, pois só assim conseguiremos manter um discurso coerente, não excludente e verdadeiramente prático, principalmente quando lutarmos por pautas pontuais.

(Sobre isso, recomendo a leitura do texto “Mapeando as margens: interseccionalidade, políticas de identidade e violência contra mulheres não-brancas”, de Kimberle Crenshaw — a criadora do conceito de ‘interseccionalidade’ — e traduzido pela maravilhosa Carol Correia)


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feminismo radical e materialista de forma didática. textos autorais e traduções. fúria, cultura do estupro, política, prostituição e teoria feminista.

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