O que a polêmica envolvendo Rose McGowan nos diz sobre o transativismo?

Ariana Amara
Feb 6, 2018 · 7 min read

A atriz e uma das iniciadoras do movimento #MeToo foi recentemente atacada por um transativista em uma palestra sobre seu novo livro autobiográfico "Brave". Após o incidente, Rose teve suas palestras sobre o livro canceladas.

Rose McGowan

Uma vítima de abuso sexual se junta com outras sobreviventes e lança um movimento para responsabilizar seus algozes. O movimento ganha espaço, as denúncias se multiplicam, alguma responsabilidade é cobrada. O movimento #MeToo foi um dos catalisadores de uma grande denúncia coletiva de algo que todo mundo já suspeitava que acontecia no meio artístico, porque acontece em todos os outros meios. A violência sexual é realmente interseccional.

Rose McGowan foi uma das primeiras mulheres a apontar o produtor Harvey Weinstein como um predador sexual e, ao dividir sua história de violência e silêncio forçado, deu cara e voz a um novo momento de um movimento (O #MeToo na verdade, foi uma iniciativa de Tarana Burke, uma mulher negra que começou uma campanha para conscientizar a população americana sobre a violência masculina cometida contra as mulheres negras), que agora está tornando público os abusos praticados por homens poderosos na indústria do entretenimento.

O apoio midiático ao movimento tem sido inesperadamente positivo (com óbvias tentativas de deslegitimação por setores conservadores), com menções às atitudes corajosas dessas mulheres em premiações importantes como os Grammy`s e o Globo de Ouro. A violência contra as mulheres está sendo debatida açucaradamente em meios dominantes, assim como o conceito de "consentimento". Um pouco de conveniência dos meios detentores da formação de opinião e um pouco da pressão feminista que insiste em apontar o dedo a quem nos oprime e a exigir reparação. Apenas a constatação de que as situações de abuso masculino compõe a vida cotidiana das mulheres, por parte de uma indústria que ajudou a consolidar e que lucra com as hierarquias entre classes, etnias e sexos não é nem perto do suficiente.

Mas de qualquer forma, a violência masculina contra as mulheres está em pauta. Se as fábricas de sonhos contemporâneas de Hollywood e da Indústria da Música americana conseguem admitir e tratar o problema do abuso e violência sexual com seriedade, as chances de uma mudança cultural se aproximam. Pessoalmente, a abolição dessas indústrias dos sonhos projetáveis seria o ideal na minha concepção, mas vivemos tempos trevosos demais para se ter esse tipo de sonho comunicativo.

Anyways

…existe um grupo de pessoas que se sente bastante excluído do debate acerca da violência masculina, e que culpa as mulheres e nosso óbvio protagonismo em exigir responsabilidade dos homens pelas violências sexuais e física que eles praticam enquanto uma classe sexual: os transativistas.

Explico exemplificando com o caso de Rose: durante uma sessão de autógrafos e debate do seu novo livro "Brave" (em que atriz narra sua trajetória de superação dos abusos e violências que permearam sua carreira em Hollywood), e que estava atrelada às atividades do movimento #MeToo, Rose foi interpelada por um ativista que se identifica como "mulher trans", que no meio de sua fala, acusou Rose de não fazer nada para apoiar as mulheres trans, que segundo ele, morrem mais em violência doméstica e abuso sexual do que as mulheres. O transativista Andi Dier também acusou Rose de não se importar com as mulheres trans que são enviadas para prisões masculinas quando cometem crimes.

Em tempo: apesar da afirmação de Andi Dier, não há números que possam comprovar sua fala, ao contrário.

Com dados divulgados pela organização Trans Respect Versus Transphobia, foram 2.343 homicídios de transexuais num período de 2008 a 2017 no mundo inteiro. Esse número não pode ser comparado com as taxas de feminicídio, violência doméstica e estupro, que são epidêmicas e avassaladoras. Até o assassinato de homossexuais e as leis que punem com pena de morte a homossexualidade em vários países no globo são de absurdo alcance para caberem no número 2.343 em 9anos. Os homicídios de transexuais motivados por crimes de ódio ou discriminação não constituem uma epidemia em particular, se comparado ao alcance do feminicídio e da homofobia institucionalizados.

Andi Dier não se interessa pelo feminicídio nem pelas taxas de estupro epidêmicas que assolam a realidade das mulheres que ele considera “cis”, como Rose McGowan.

Em um vídeo que rodou o Instagram e agora está sendo usado para provar a “falta de controle” de Rose, vemos Andi Dier da platéia interromper Rose aos gritos. Naquele momento em que mulheres estavam reunidas para pensar coletivamente a violência sistêmica praticadas contra nós, um homem que se identifica como mulher decide que mais importante do que tratar do assunto, era apontar o quanto aquelas mulheres não estavam fazendo nada para proteger… ele.

A cara que Rose McGowan faz enquanto escuta o floco de neve descrever que é assediado com frequência (como se Rose, e todas as mulheres do mundo, não soubesse exatamente qual é a sensação de ser assediada diariamente) é representativa da paciência que nos é imposta para ter que abraçar os problemas de toda a humanidade.

Ou fazemos isso, colocamos os problemas de todos na frente dos nossos, ou certamente virão tentar nos pintar de exclusionárias em nossas próprias palestras.

O vídeo completo pode ser conferido aqui.

Felizmente, a paciência de Rose não durou muito e ela enfrentou o garoto histérico com o que agora está sendo taxado de uma “fúria transfóbica” da parte dela. Suas palestras subsequentes de lançamento do livro foram canceladas e muitos convites para falar foram retirados. Ela foi ativamente punida por não aceitar ser assediada e a mídia progressista foi rápida em taxar seus problemas psicológicos como mais uma prova de sua “transfobia”.

Seatle Arts & Lectures avisa aos alunos que as palestras de Rose foram canceladas

Então chegamos a esse ponto da história: uma famosa sobrevivente de violência sexual faz uma turnê de seu livro alertando sobre a violência sexual e é interrompida aos gritos por um homem que se identifica como mulher que a acusa de não se preocupar com a violência sexual. A sobrevivente é punida por se defender dos ataques.

Agora chegamos ao último fato dessa história, e talvez o mais esclarecedor de todos os outros: Andi Dier, a pessoa que atacou Rose McGowan, está sendo acusado por dezenas de adolescentes por ter praticado violência sexual contra elas.

Isso mesmo. O transativista que estava tão preocupado com a falta de apoio de Rose McGowan aos transexuais vítimas de violência sexual é um predador compulsivo e conhecido. Logo após o episódio na livraria em que Rose palestrava, diversas meninas foram ao Twitter denunciar os abusos contínuos e persistentes de Andi Dier. A maioria delas tinha entre 13 e 14 anos quando o transativista, na época com 23, fez suas investidas violentas.

Imagem: GenderTrender

Uma das vítimas trocou mensagens com Rose McGowan:

Imagem: Gender Trender

É de se perguntar o porquê de Dier estar tão preocupado com mulheres trans que cometem crimes irem pagar suas penas em presídios masculinos. Como alguém com histórico de abuso de menores de idade se propõe a vocalizar a defesa de um movimento que diz que luta contra a exploração sexual de pessoas trans?

Pessoalmente, considero a situação ao mesmo tempo surreal e previsível. É quase cômico – o cúmulo do cúmulo – que seja aceitável que um estuprador critique uma vítima de estupro por não se preocupar com uma parcela específica da população que é estuprada também.

Por outro lado, é apenas o bom e velho patriarcado agindo. Vale ressaltar que a maioria das garotas vítimas de Dier, ao se referirem à ele nos episódios de abuso, o tratam como “ela”. “Essa mulher”. A própria Rose McGowan, ao se defender dos ataques, chegou a dizer “ nós somos iguais!”, o que é verdade se você quiser adotar uma postura humanista de igualdade, mas entre homens e mulheres, não. Andi Dier não é igual a nós. Não é à toa que ele estupra, e nós somos estupradas. Não é à toa que ele se sinta no direito de tentar calar vítimas e alienar o debate. Ele é um homem. E homens estupram.

Enquanto nosso ativismo depender de não magoar os sentimentos de outros homens, o feminismo, o movimento #MeToo e qualquer outra tentativa de apontar a violência masculina será abafada por todos aqueles que fingem se importar com ele. Nós, enquanto mulheres, precisamos estar do lado das nossas e saber definitivamente quem somos e o que não vamos suportar mais. Time's up, right?


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