Objetificação? Não, obrigada.

Ninguém merece ler que alguém “quer” ser objetificado.

Dos mesmos criadores do “sou mulher de cadeira de rodas e queria ser assediada”, agora: “vamos lá, me objetifiquem”, disse uma mulher trans em um artigo na porra da Playboy.

Sim, é isso mesmo que você leu. Ela fala de como suas amigas “cis” (odeio esse termo) são objetificadas, de como seus amigos gays são sexualizados, e sobre como quando ela vai à balada com essas pessoas, ela se sente mal, porque ela não é sexualizada, mas as “cis” e os gays são.

Vamos ao texto.

“A mensagem de que ser considerado um indivíduo ‘sexual e desejável’ é algo universalmente negativo é majoritariamente baseado nas experiências de pessoas sem deficiência, brancas, ‘cis’ e magras que têm experiências — às vezes até demais — com objetificação sexual. Como uma pessoa trans, essa nunca foi minha experiência e eu não estou sozinha nisso. Como ressignificamos a conversa sobre objetificação para representar de forma mais precisa as experiências de todas as pessoas?” [1]

Primeiro que isso é muito misógino. É muito racista. É misógino E racista. Partir do pressuposto de que as pessoas que são objetificadas são brancas é um apagamento absurdo da sexualização quase que inerente à mulher preta. Porque se mulheres brancas são sexualizadas e reduzidas a coisa, mulheres pretas não são nem isso, são exóticas, animais mesmo.

Segundo que se formos considerar a existência e a vivência pessoal de todas as pessoas, então, bem… não vamos poder fazer análise estrutural nenhuma. Você está basicamente nos pedindo para destruirmos séculos de tentativa de unificação das mulheres enquanto classe, porque compartilhamos de muitas opressões — é claro que algumas mulheres acumulam e sofrem de opressões que outras não; mas, ainda assim, a base de nossa inferioridade na hierarquia social é a mesma — e isso é muito egoísta. Absurdamente egoísta.

“A ideia de que ser visto como um ‘objeto sexual’ — em qualquer momento, sempre — é universalmente uma coisa ruim é simples demais, como muitos princípios do feminismo direto e não-interseccional. Como uma pessoa que não se conforma com seu gênero, eu não sou objetificada sexualmente basicamente, bem, nunca.” [2]

Simples demais. Simples demais. Minha cereja feita de chuchu, será que no seu “treinamento feminista”, como você diz no texto, você realmente estudou alguma coisa sobre a origem da opressão da mulher?

Será que você leu de verdade Simone explicando por que mulher não é algo que se nasce, é-se feita? Será que te explicaram que isso significa que a categoria “mulher” é construída socialmente de acordo com — adivinha — o egoísmo masculino? Será que você chegou a ler que a subjetividade, a idiossincrasia, a arqueologia da mulher foi toda moldada para não-ser, porque ser é um privilégio masculino? Será que nesse seu treinamento você leu sobre a criação do patriarcado, sobre a apropriação masculina das capacidades reprodutivas da mulher, sobre a venda de mulheres como commodity?

Você realmente não sabe que a nossa objetificação é reflexo direto da nossa condição de não-ser?

Ou, vamos lá. Mesmo que você tenha aprendido feminismo por uma ótica marxista. Ninguém te falou que a exploração da mulher — da prostituta e da esposa — dentro de casa é a reprodução da exploração do proletariado? Que o patriarca explora a mulher, suas capacidades laborais e reprodutivas, para mantê-la sob seu poder? Que a mulher é tida como propriedade do patriarca?

Que privilégio da p*rra, hein?

Eu quero ser sexualmente objetificada e isso nunca acontece. Eu quero que as pessoas apreciem o tempo e o esforço que eu empenho no meu corpo e no meu visual. Eu quero que as pessoas olhem pro meu batom perfeitamente aplicado e me desejem por causa disso. Eu quero que minhas pernas longas causem sentimentos nas pessoas. Eu quero dançar no bar e deixar garotos sem fôlego, ofegantes, e desesperados para falar comigo. [3]

Sabe qual é a verdade que ninguém vai te dizer? Você quer essa objetificação simplesmente porque nunca sofreu com ela. Você quer essa objetificação por puro fetiche. Você quer garotos “ofegantes” por você porque você não sabe e nunca vai saber que isso, se causa qualquer coisa à mulher, causa medo. Você quer essa objetificação porque associa a objetificação à mulheridade e isso é machista pra porra.

Você quer que as pessoas te notem por causa do seu batom porque você nunca foi cobrado pela sociedade a ter que usar batom, a ter que usar saias, a ter que usar maquiagem, a ter que estar sempre apresentável. Porque essas são coisas impostas à mulher — nós nunca fizemos a escolha de nos submetermos a rituais de feminilidade, porque eles nos foram impostos. Muitas vezes eles são pré-requisitos pra que nos enxerguem sem tanto desprezo ou nojo — que dirá uma mulher negra que não alisa o cabelo.

Como a maior parte das coisas sexuais, [a questão] é reformular a conversa pra ser não sobre conceitos universais de “bom” ou “ruim”, mas pra ser sobre consentimento. Como sexo, objetificação deve ser consensual.[4]

Dos mesmos criadores de “privilégio cis”, apresentamos: objetificação consensual.

Isso é fruto de uma ideia totalmente distorcida sobre sexualidade — uma que é pautada em poder. Porque se uma parte está sendo objetificada, então a outra está objetificando; porque ela tem o poder, a agência de objetificar. Isso automaticamente a coloca numa posição de hierarquia e de superioridade.

Inserir a proposta de “consenso” no meio só serve pra nos afastar do real problema: a própria objetificação! O ruim não é ser objetificada “sem deixar”, o ruim é ser objetificada! Eu não acredito que estamos tendo que reafirmar isso quase setenta anos depois d’O Segundo Sexo!

Como nutrir um feminismo que permite que aqueles de nós que gostem da objetificação a alcancem sem sujeitar outras pessoas, que não desejam, à objetificação? [5]

Spoiler: não dá.

Eu acho que começa com cada um de nós mudando seu monólogo interno. Começa com aprender a admitir que tá tudo bem desejar objetificação consensual (sic). Se quisermos, tá tudo bem gostar de ser olhada. Tá tudo bem gostar da ideia de pensarem em você e te desejarem. É humano. [6]

De todos, acho que esse parágrafo é o mais cretino.

Parte da nossa socialização como mulher é a internalização da culpa. De tudo. Mesmo das coisas que não têm nada a ver com a gente. Porra, sentimos culpa até quando somos vítimas.

E a pessoa vai lá e inverte a lógica da culpa, falando — implicitamente — que é culpa nossa, das mulheres, acharmos ruim a objetificação. Que temos que trabalhar isso internamente, que temos que aceitar o desejo masculino. Afinal, é humano.

Sabe onde mais eu já li isso? Em discursos de estupro corretivo de lésbicas.

Aqui tá rolando uma confusão muito perigosa entre ser desejada e ser objetificada. É perfeitamente possível que te desejem — enquanto ser sexual, atraente, voluptuoso — sem te objetificarem. Porque a objetificação, como já disse, está relacionada a poder. O desejo, não. O desejo é, de fato, humano. A pessoa que deseja não está necessariamente reduzindo a outra ao status de coisa.

Isso é cultura do estupro pura e simples.

Eu quero ser objetificada em determinadas circunstâncias e em determinados lugares. Eu quero ser objetificada em um baile quando eu tiver gasto cinco horas na minha maquiagem e vestidos escolhendo o vestido perfeito. […] E só porque eu quero ser objetificada em alguns lugares, isso não significa que eu queira ser objetificada em todos os lugares. Eu não quero ser objetificada em um escritório. [7]

Isso me lembrou o discurso de outra pessoa que falou que a parte mais difícil de ser mulher era escolher o vestido.

Adivinha: quando você é objetificada, você não tem essa escolha. De novo. Porque você é objetificada, você é o sujeito passivo, você não escolhe isso. Nem escolhe, nem permite.

Que é o que as mulheres passam todo. fucking. dia.

Ou você acha que suas amigas “cis” que são objetificadas na balada não o são em escritórios e em lugares de emprego?

Você não quer ter a experiência de uma mulher? Isso é a experiência de uma mulher. Não ter escolha pra porra nenhuma. Ou você quer só a parte colorida e glitterizada?

Em um futuro feminista, cada um de nós tem a chance de dominar os tipos de objetificação (se houver algum) de que gostamos e os tipos de objetificação que rejeitamos. [8]

Não.

Em um futuro feminista, ninguém vai objetificar ninguém, porque as pessoas vão se encarar umas às outras como seres humanos, e não como coisas, objetos a serem possuídos.

E se você estiver no caminho disso, vamos passar por cima mesmo.


Pra mim, isso é um caso claro disto.


[1] “ The message that being considered as a “sex-having and desiring” individual is universally negative is mostly based in the experiences of white, cis, thin, able-bodied people who have regular, and often too much, experience with sexual objectification. As a trans person, that has never been my experience and I’m not alone in that. So how do we retool the conversation about objectification to more accurately represent the experiences of everyone?”

[2] “The idea that being seen as a “sex object”–at any time, ever–is universally a bad thing is too simple, like many tenets of straightforward, non-intersectional feminism. As a gender nonconforming person, I’m sexually objectified basically, well, never. When it comes to being viewed as a purely sexual being, I don’t get any.”

[3] “I want to be sexually objectified and it never happens. I want people to appreciate the time and effort that I put into my body and my look. I want people to look at my perfectly applied lipstick and want me because of it. I want my long legs to give people feels. I want to dance on the bar and leave boys breathless, panting, and desperate to talk to me.”

[4] “ Like most things sexual, it’s about reframing the conversation not to be about universal good or bad, but to be about consent. Like sex, objectification must be consensual.”

[5] “How do we foster a feminism that allows those of us who enjoy objectification to get it without subjecting others to objectification who’d rather not?”

[6] “I think it begins with each of us shifting our internal monologue. It begins with learning to admit that it is okay to desire consensual objectification. If we want it, it is okay to enjoy being looked at. It is okay to enjoy being thought about and desired. It is human.”

[7] “I want to be objectified in certain circumstances and in certain places. I want to be objectified at a gala when I’ve spent five hours on my makeup and weeks picking out the perfect dress. […]And just because I want to be objectified in some places, that doesn’t mean that I want to be objectified in all places. I don’t want to be objectified in the office.”

[8] “In a feminist future, we each have the chance to own the types of objectification (if any) that we like and the types of objectification that we’d rather do without.”


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