Orgulho lésbico

Capítulo 7 de Our Blood: Prophesies and Discourses on Sexual Politics por Andrea Dworkin

Carol Correia
Nov 26, 2018 · 3 min read

Discurso feito em um comício para o Lesbian Pride Week em Central Park, Nova York, 28 de junho de 1975.

Capítulo 1. Capítulo 2. Capítulo 3. Capítulo 4. Capítulo 5. Capítulo 6. Capítulo 7. Capítulo 8. Capítulo 9. [fim]

Traduzido por Carol Correia. Qualquer erro na tradução, só avisar no carolcorreia21@yahoo.com.br


Para mim, ser lésbica significa três coisas –

Primeiro, significa que eu amo, prezo e respeito as mulheres em minha mente, em meu coração e em minha alma. Esse amor das mulheres é o terreno em que minha vida se enraizou. É o terreno da nossa vida em comum juntos. Minha vida cresce fora deste terreno. Em qualquer outro terreno, eu morreria. De qualquer maneira que eu sou forte, eu sou forte por causa do poder e paixão deste amor carinhoso.

Segundo, ser lésbica significa para mim que existe uma paixão erótica e intimidade que vem do toque e do gosto, uma ternura selvagem e salgada, um suor doce e úmido, nossos seios, nossas bocas, nossas bucetas, nossos cabelos entrelaçados, nossas mãos. Estou falando aqui de uma paixão sensual tão profunda e misteriosa como o mar, tão forte e imóvel quanto a montanha, tão insistente e mutável quanto o vento.

Terceiro, ser lésbica significa para mim a memória da mãe, lembrada em meu próprio corpo, procurada, desejada, encontrada e verdadeiramente honrada. Significa a lembrança do útero, quando éramos um com nossas mães, até o nascimento, quando nos separamos. Significa um retorno àquele lugar dentro, dentro dela, dentro de nós, aos tecidos e membranas, à umidade e ao sangue.

Há um orgulho no amor carinhoso que é nosso terreno comum, e no amor sensual, e na memória da mãe — e esse orgulho brilha tão brilhante quanto o sol de verão ao meio-dia. Esse orgulho não pode ser degradado. Aqueles que a degradam estão na posição de jogar punhados de lama ao sol. Mesmo assim ainda brilha, e aqueles que jogam lama apenas sujam as próprias mãos.

Às vezes o sol é coberto por densas camadas de nuvens escuras. Uma pessoa que olha para cima jura que não há sol. Mas ainda assim o sol brilha. À noite, quando não há luz, o sol ainda brilha. Durante a chuva, granizo, furacão ou tornado, ainda assim o sol brilha.

O sol se pergunta: “Eu sou bom? Eu valho a pena? Há o suficiente de mim?” Não, o sol queima e brilha. O sol se pergunta: “O que a lua pensa de mim? Como Marte se sente em relação a mim hoje?” Não, o sol queima e brilha. O sol se pergunta: “Eu sou tão grande quanto os outros sóis em outras galáxias?” Não, o sol queima e brilha.

Neste país nos próximos anos, penso que haverá uma tempestade terrível. Eu acho que os céus vão escurecer além de todo reconhecimento. Aqueles que andam pelas ruas os caminharão na escuridão. Aqueles que estão em prisões e instituições mentais não verão o céu, apenas a escuridão das janelas gradeadas. Aqueles que estão com fome e em desespero podem não ver nada. Eles verão a escuridão no chão diante de seus pés. Aqueles que são estuprados verão a escuridão enquanto olham para o rosto do estuprador. Aqueles que são agredidos e brutalizados por loucos olharão atentamente para a escuridão para discernir quem está se movendo em direção a eles a cada momento. Será difícil lembrar, como a tempestade está furiosa, que ainda, embora não possamos vê-lo, o sol brilha. Será difícil lembrar que, mesmo que não possamos ver, o sol queima. Nós vamos tentar vê-lo e vamos tentar senti-lo, e esqueceremos que nos aquece ainda, que se não estivesse ali, ardendo, brilhando, esta terra seria um lugar frio, desolado e árido.

Enquanto tivermos vida e fôlego, não importa quão escura a terra ao nosso redor, aquele sol ainda queima, ainda brilha. Não há hoje sem isso. Não há amanhã sem isso. Não houve ontem sem ele. Essa luz está dentro de nós — constante, quente e curativa. Lembre-se, irmãs, nos tempos sombrios que estão por vir.

QG Feminista

Feminismo em Revista

Carol Correia

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uma coleção de traduções e textos sobre feminismo, cultura do estupro e racismo (em maior parte). email: carolcorreia21@yahoo.com.br

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