Para a mulher branca que deseja saber como ser minha amiga: um guia feminista negro para a solidariedade interracial

Publicado por Claire, em 1º de novembro de 2016 para o Sister Outrider

Mural, Falls Road, Belfast, 1983. “Solidariedade entre mulheres em batalhas armadas”; mulheres militantes da Organização da Libertação para Palestina, Cumann an mBan e a Organização de Pessoas Sul-Africanas.

Traduzido por Carol Correia, com o objetivo de nomear o racismo e procurar formas de bani-lo no ativismo feminista. Leiam os outros três textos da série de racismo no feminismo e faça algo.


Nota de tradução:

O termo “women of color” foi traduzido como “mulheres não-brancas” ao invés do termo literal “mulheres de cor”, pelas seguintes razões: 1. O termo “mulheres de cor” no Brasil e em Portugal tem conotação pejorativa, algo que o termo em original não tem a menor intenção de ser; 2. Apesar da problemática de nomear um grupo em oposição ao grupo dominante/opressor (o não-branca, ao invés de sua etnia/raça correspondente), não-branca indica exatamente o grupo ao qual “women of color” fala sobre, isto é, todas as mulheres que são racializadas (ou seja, estão fora do padrão racial considerado normal na supremacia branca) e sofrem racismo. No Brasil, essas mulheres seriam asiáticas, indígenas, mestiças e negras. Enquanto nos Estados Unidos, essas mulheres seriam asiáticas, nativo-americanas, indianas, negras e latinas.


Um breve prefácio: esta é a conclusão da minha série de ensaios sobre a raça e o movimento feminista. As Partes 1[1], 2[2] e 3[3] podem ser acessadas aqui. Os seguintes conhecimentos foram adquiridos com grande gasto pessoal. Use-o como você quiser. Dedicado a todas as mulheres — negras, indianas, nativo-americanas, latinas, asiáticas e brancas — que me sustentaram através da irmandade.


Sempre que discuto racismo no movimento feminista, esta pergunta é sempre invocada como resultado: as mulheres brancas se perguntam “o que, especificamente, posso fazer sobre o racismo? Como posso criar uma solidariedade com as mulheres não-brancas?” É uma questão complicada, que tenho estado considerando há mais de um ano e não há uma resposta simples. Em vez disso, há muitas respostas, das quais nenhuma é estática e todas as quais são susceptíveis de mudar em relação ao contexto. A realidade da situação é que não há solução rápida para o racismo de centenas de anos — o racismo sobre o qual nossa sociedade foi construída, suas hierarquias de riqueza e poder estabelecidas — que moldam a dinâmica entre mulheres não-brancas e mulheres brancas. Esse desequilíbrio de poder e privilégio colore as interações pessoais. Ele cria as camadas de desconfiança justificável que as mulheres não-brancas sentem em relação às mulheres brancas — mesmo (talvez especialmente) em um contexto feminista.

Alterar essa dinâmica em que a raça só existe como uma hierarquia, construindo formas sustentáveis de solidariedade entre as mulheres, exigirá uma persistente autorreflexão, esforço e uma vontade das mulheres brancas de mudar sua abordagem. Aqui está a minha perspectiva sobre os passos práticos que as mulheres brancas podem adotar para desafiar seu próprio racismo, realizadas conscientemente e subconscientemente, com a esperança de que isso crie o potencial para oferecer uma verdadeira irmandade às mulheres não-brancas.

“A primeira coisa que você deve fazer é esquecer que eu sou negra. Em segundo lugar, você nunca deve esquecer que eu sou negra.”
- Pat Parker, For the White Person Who Wants to Know How to be My Friend

Reconheça as diferenças provocadas pela raça. Não defina mulheres não-brancas por nossas etnias respectivas. Igualmente, não finja que nossas vidas são iguais às suas. Não ver raça significa não ver o racismo. Não ver o racismo significa permitir que ele floresça, sem controle. Comece por reconhecer nossa humanidade, vendo mulheres não-brancas como pessoas auto-atualizadas com percepção, poderes de pensamento crítico e — o que é muitas vezes negligenciado nessa conversa — sentimentos. Comece por examinar como você pensa sobre as mulheres não-brancas e construir a partir daí.

Atividade de controlar e restringir e autoridade

Muitos problemas são perpetuados por mulheres brancas se posicionando como as controladoras do discurso feminista, autoridades qualificadas exclusivamente para determinar o que é e não é um bom feminismo. Não é coincidência que as contribuições de mulheres não-brancas, em especial os comentários sobre racismo ou privilégio branco são frequentemente descartados como uma distração da preocupação feminista principal, ou seja, questões que tem um impacto diretamente negativo sobre as mulheres brancas.

A suposição tácita de que a perspectiva de uma mulher branca é mais legítima do que a nossa, mais informada, que se as mulheres não-brancas simplesmente aprendessem mais sobre uma questão em particular, a nossa perspectiva também se tornaria matizada, é persistente. Subjugar essa suposição é a crença de que as mulheres brancas são as especialistas orientadoras do movimento feminista e mulheres não-brancas estão em uma posição de subserviência. A mesma situação se desenrola no contexto da política de classes, com as mulheres da classe trabalhadora destituídas como desinformadas quando suas perspectivas feministas não se alinham com as das mulheres da classe média. Reforçar essas hierarquias é o maior obstáculo à solidariedade entre as mulheres.

As mulheres brancas têm o hábito de arbitrar o que é e não é feminista de uma forma que centraliza a mulheridade branca, posiciona-a como o padrão normativo contra o qual a experiência feminina é medida. Se a mulheridade branca é padrão, a mulheridade negra e não-branca torna-se uma forma desviante por definição — um paradigma que contribui para que as mulheres não-brancas sejam selecionadas como o Outro.

Feminismo é um movimento político dedicado à libertação das mulheres contra a opressão. Algumas dessas opressões são de gênero. Alguns deles são racializados. Algumas delas são baseadas em classes sociais. Alguns deles se relacionam com a sexualidade. Alguns dizem respeito a deficiência. E dentro dessas categorias, sempre existe o potencial de sobreposição. O fracasso em reconhecer a intersecção de identidades garante que as mulheres mais marginalizadas continuarão a ser oprimidas — que não é um objetivo feminista por qualquer padrão. Respondendo com “este não é o seu momento, meninas”, quando as mulheres não-brancas abordam o racismo é uma contradição direta dos princípios feministas. Esperar que as mulheres não-brancas permaneçam em silêncio para o bem maior, isto é, em benefício das mulheres brancas, não é um ato inerentemente feminista. A ideia de que há um tempo e um lugar para reconhecer uma forma de opressão experimentada por mulheres mina os princípios sobre os quais o movimento feminista é construído. As mulheres brancas precisam parar de criticar o racismo e, em vez disso, ouvir o que as mulheres não-brancas têm a dizer sobre o assunto.

Há um padrão infeliz de mulheres brancas que se enquadram como as salvadoras iluminadas, homens não-brancos como opressores selvagens e mulheres não-brancas como vítimas passivas de uma opressão que se origina puramente de homens que estão dentro de nosso próprio grupo étnico. Este modelo reconhece que as mulheres não-brancas experimentam violência de gênero, ao mesmo tempo que apagam a opressão racializada a que estamos sujeitas a. Além disso, nega a realidade das mulheres brancas pertencentes a uma classe opressora — uma manobra dissimulada e cínica que absolve as mulheres brancas de seu papel na manutenção do racismo sistemático. Se o problema do racismo não existe, não precisa ser discutido. Se o racismo não for discutido, as mulheres brancas podem continuar a se beneficiar dele sem impedimentos.

Para que a solidariedade inter-racial exista dentro do movimento feminista, a questão da posse e propriedade deve ser abordada. Uma e outra vez, as mulheres brancas se comportam como se o movimento feminista fosse sua propriedade exclusiva, algo com o qual as mulheres não-brancas podem juntar-se, mas nunca liderar no estabelecimento de discurso ou ação. Esta abordagem não apenas apaga o papel crucial que as mulheres não-brancas têm historicamente desempenhado no movimento feminista, mas nega a possibilidade de futuros esforços colaborativos ocorrerem em pé de igualdade.

As mulheres brancas que querem a confiança e a solidariedade com as mulheres não-brancas devem primeiro considerar como elas colocam as mulheres não-brancas nas suas mentes, como elas nos conceituam — você nos vê como irmãs ou alguém a quem você é hipócrita sem nem nos ouvir corretamente? Somos uma parte central da luta feminista ou não? A reflexão interior honesta é essencial. Analise como você pensa em nós, explore criticamente por que isso acontece e trabalhe a partir daí.

Organização feminista

Você está planejando um grupo para mulheres? Criando um evento ou espaço feminista? Construindo uma rede feminista? Toda reunião de mulheres cria novas possibilidades para o movimento feminista, uma das quais é uma oportunidade para melhorar a dinâmica da raça em um contexto feminista. Com a organização coletiva, há uma pergunta que as mulheres brancas devem se perguntar: há mulheres não-brancas neste grupo? Se não, há uma razão. Está muito bem falando sobre como as mulheres se juntam como amigas ou um conjunto de ativistas compartilhando um objetivo particular, mas a forma como esse grupo foi formado não ocorreu dentro de um vácuo social. Aconteceu em uma sociedade em que as mulheres não-brancas são racializadas e se aproximam do ponto em que nossa mulheridade é percebida como fundamentalmente menor. Como resultado, nossa compreensão das questões políticas das mulheres e, portanto, do feminismo é percebida como inferior.

Por exemplo, quanto mais forte é meu compromisso com a política negra, mais minhas credenciais feministas são policiadas por mulheres brancas apanhadas em duas falácias: primeiro, é impossível se preocupar com questões múltiplas simultaneamente, em segundo lugar, que as políticas de libertação podem ser perfeitamente divididas porque nenhuma sobreposição de identidade precisa ser tomada em consideração. A percepção de que meu apoio à libertação negra deve vir à custa do meu apoio à libertação das mulheres, diluindo minha política feminista, não compreende a essência de como ambos os setores de política foram estabelecidos e o fato de que eles estão inerentemente conectados através da vida das mulheres negras.

Se não houver mulheres não-brancas envolvidas em seu conjunto feminista, considere como isso aconteceu e, posteriormente, como isso pode ser abordado. E quanto ao seu modo de organização, seu conteúdo, sua práxis feminista, pode ser alienante? A autorreflexão crítica não é de modo algum um processo confortável, mas é necessário que a solidariedade seja possível. Um elemento-chave deste assunto é a forma como as mulheres brancas se comportam em relação às mulheres não-brancas.

Tratar mulheres não-brancas como um exercício de diversidade em oposição aos membros autênticos da equipe trai uma forma de racismo na forma como somos conceitualizadas. Nossas habilidades, conhecimento e compromisso com as mulheres não são consideradas o estado natural de coisas em um ambiente feminista, da mesma forma que as contribuições das mulheres brancas para o grupo são. A suposição de que podemos estar sempre presentes como um meio de preencher contingentes traz uma altivez à nossa humanidade. Esconda essa linha de pensamento. Procure o nosso valor como indivíduos da mesma maneira que você está automaticamente inclinada a procurá-lo em uma mulher branca e você se habituará a vê-lo. Desfaça seu racismo com o mesmo vigor que você desfaz sua misoginia internalizada.

É importante que as mulheres não-brancas estejam envolvidas a nível organizacional, como parte da equipe que planeja seus eventos e campanhas. Solte o paternalismo que assegura você, como mulher branca, estar em posição de falar por todas as mulheres.

Comportamento

O ponto mais óbvio: não seja racista, em palavras ou em ações. De uma maneira ou de outra, irá vir à luz. Se você está dizendo algo sobre mulheres não-brancas em um contexto privado que você não expressaria em um contexto público, considere porque é que você diferencia as duas configurações — a resposta geralmente se relaciona com mulheres brancas que não desejam parecer racistas. Parecer racista, paradoxalmente, tornou-se mais tabu do que o racismo em si.

E se o seu racismo é abordado, não trate isso como um ataque pessoal. Não sejam as mulheres brancas que fazem disso, sua própria dor, a mulher branca que grita sua saída da responsabilidade por suas ações. Reflita sobre a magnitude da dor causada às mulheres não-brancas sujeitas a esse racismo — garanto que é tão doloroso que seu próprio desconforto seja pequeno em comparação. Dê às mulheres não-brancas que experimentam racismo a empatia que você estenderia para uma mulher branca que experimentasse misoginia.

“No final, nós nos lembraremos não das palavras dos nossos inimigos, mas o silêncio dos nossos amigos.” — Dr. Martin Luther King Jr.

Não fique em silêncio quando seus amigos são racistas. Não olhe para o outro lado. Não pretenda que nada aconteceu. Seu silêncio torna você cúmplice nesse racismo. Seu silêncio normaliza esse racismo; é parte do que legitima esse racismo em um contexto dominante. Não é fácil confrontar alguém com quem você está próximo, alguém com maior poder ou influência do que o seu. Mas o certo não é sempre fácil de fazer. Por fim, não cresça complacente. Em uma entrevista recente com Feminist Current[4], Sheila Jeffreys lamentou o surgimento da política de identidade, que ela combinou com a práxis interseccional, afirmando que, porque os homens nunca foram esperados para fazer tudo, as mulheres também não deveriam. Essa atitude não é atípica entre feministas brancas. No entanto, a perspectiva de Jeffreys levanta a questão: desde quando o feminismo lésbico radical se modelou conforme o comportamento de homens? O feminismo não é uma corrida para o fundo, é um movimento político radical. E isso envolve algum pensamento crítico intensivo — consistente de desafiar a opressão estrutural que não é seletiva, mas completa.

Não será confortável. Não será fácil. Mas abre novas vias de apoio e irmandade entre as mulheres. Solidariedade que sustente e nutra todas as mulheres enquanto trabalhamos para a libertação.


Bibliografia

Bilge, Sirma, & Hill Collins, Patricia. (2016). Intersectionality.

Grewal, Shabnam. ed. (1988). Charting the Journey: Writings by Black and Third World Women.

King, Martin Luther. (1968). The Trumpet of Conscience.

Parker, Pat. (1978). Movement in Black.


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