Por que o Drag escapou às críticas feministas e LGBTQ?

Não vou intencionalmente para muitos shows de drag. Não como decisão política ou mesmo pessoal — na verdade, não é algo que eu tenha pensado tanto assim. Acho que essa forma de entretenimento simplesmente nunca me interessou.

Dito isto, o drag está por aí há tantos anos que essas performances são praticamente mainstream — muitos documentários foram feitos sobre a cultura drag e drag queens e as performances de drag são muitas vezes parte das noites gay/queer, arrecadação de fundos e outros eventos. É praticamente impossível ter faltado o drag. Mas porque não faz parte do meu mundo, acho que escapou do meu radar em termos de análise feminista.

Outra noite, eu estava num bar para uma noite gay e uma parte da noite tinha apresentações de drag queens. Conforme assistia, fiquei impressionada quão aceito é o drag por conservadores e progressistas — pessoas que irão, sem pensar duas vezes, chamar Black face e yellow face, que é mais entendida por muitos (frustrantemente, ainda há quem continua precisando ser educado sobre por que blackface não é engraçado ou ok), de racista.

Por que drag é diferente? Sério, estou perguntando. É possível que eu não esteja entendendo alguma coisa aqui…

Para mim, parece equivalente à apropriação cultural ou a forma como os brancos zombaram dos negros, das pessoas asiáticas, dos povos indígenas e praticamente todas as outras raças/etnias que não são a sua, sob o disfarce de “performance” ou “sátira”. Por que é fofo ou engraçado ou divertido para os homens zombarem das mulheres via drag? Por que não se considera uma forma de apropriação cultural, mas em relação ao gênero? Por que os progressistas e as feministas em geral evitam a crítica dessas performances, em grande parte?

Imagino que a defesa do drag incluiria argumentos que dizem que essa performance da feminilidade é tão exagerada que não zomba tanto das mulheres quanto zomba da versão caricata da feminilidade extrema, mas não estou convencida de que transformar as mulheres em caricaturas extremas para serem ridicularizadas seja particularmente progressista — em vez disso, me parece regressivo. Deve haver uma razão pela qual as mulheres não fazem isso aos homens — isto é, transformando a masculinidade em entretenimento ou piada.

Por que é divertido para os homens se vestirem “como mulheres” e não é para as mulheres se vestirem como homens? Há algo sobre essa performance que diz que a feminilidade e, por sua vez, as mulheres, são uma piada (assim como as pessoas brancas que se vestem como “índios” para o Halloween, transformam povos e culturas indígenas em uma piada ou simplesmente uma fantasia que se pode colocar ou tirar à vontade). Se ao menos ser uma mulher fosse simplesmente uma fantasia que pudéssemos tirar…

Fonte: https://www.dailyxtra.com

No ano passado, uma drag queen chamada Daytona Bitch foi demitida de um evento do Toronto Pride por uma performance de Blackface na qual, como Laura Kane relata, “ela vestiu-se como Miss Cleo, um telepsicótica kitsch do final dos anos 90, com blackface.”

“Depois de tuítar fotos do traje, ela recebeu várias respostas ultrajadas nas mídias sociais dos membros da comunidade LGBTQ”. E com razão. Mas, onde está a comunidade LGBTQ em relação ao drag? Por que se entende que a apropriação de uma etnia, raça ou cultura marginalizada é facilitada pelo privilégio branco e que é ofensiva, mas não que os mesmos argumentos possam ser aplicados a um grupo de homens (que se beneficiam do privilégio masculino) que adequa a feminilidade como uma forma de entretenimento?

Num artigo de 2006, intitulado “A Imitação dos Outros como Controle: o Drag é Sexista/Racista?”, Kirsten Anderberg escreve:

Quando os homens se vestem de drag e supostamente imitam as mulheres, na maioria das vezes são muito sexistas de uma forma notavelmente similar aos brancos que imitam as minorias raciais… Todas as coisas que eu evitei como parte do antigo “culto da feminilidade”, todos os superficiais, comercializados e falsos aspectos da “feminilidade” que eu lutava para me livrar, esses homens estavam abraçando como sua “feminilidade”! Toneladas de maquiagem, grandes cabelos coloridos, lingerie de liga, saltos, nylons, depilação… e esses homens de drag que supostamente agiam como mulheres, também agiam de modo tonto, estúpido, superficiais… é estranho para mim que isso possa ser visto como qualquer coisa, exceto um sexismo flagrante.

Embora tenha havido a crítica inesperada aqui e ali, vi pouco vindo do feminismo convencional ou da comunidade LGTBQ sobre o sexismo do drag. Em um post de 2011 chamado “O Drag é Sexista?”, Kelly Kleiman pergunta:

Por que desprezamos a performance no Blackface e celebramos a performance no drag? Blackface é considerado um insulto e drag uma piada por causa de alguma diferença inerente entre eles, ou porque os afro-americanos não toleram o ridículo, enquanto o movimento das mulheres ainda está tentando provar que temos senso de humor?

E não posso deixar de me perguntar o mesmo. As feministas são rotineiramente acusadas de serem “chatas”, sem senso de humor e geralmente como se odiassem tudo. Nós tentamos muito, como mulheres, estar “na brincadeira”. Nós fingimos gostar de pornografia, participamos de cânticos de estupro, rimos de piadas de estupro e nos auto-objetificamos, alegando que gostamos e nos sentimos empoderadas por nossa própria opressão — estamos no comando e, portanto, está tudo bem. Pós-feminismo iludido, eu chamaria assim.

Kleiman escreve: “Havia uma ridicularização de afro-americanos. ‘Veja como eles são tolos! Mas olha como eles riem, e isso não prova que eles estão felizes no confinamento em que os colocamos?’. Do mesmo modo, os homens que se vestem como mulheres e adotam comportamentos femininos estereotipados são cômicos por causa de seu comportamento estereotipado e a inferência que o público é encorajado a depreender não é que os estereótipos são cômicos, mas que as mulheres são”.

Além disso, é como se as drag queens recebessem um passe livre para insultar as mulheres e adotar a linguagem mais sexista (vadia, puta, etc.) e objetificarem as representações das mulheres de maneira que elas nem levem a cabo, dentro de um contexto feminista.

Divine, drag queen. Fonte: http://www.japagirl.com.br

Depois de assistir a um documentário sobre a famosa drag queen, Divine, Julie Bindel escreveu: “Ele fez, de acordo com seu gerente, personagens femininas que eram ‘lixo’, ‘imundas’ e ‘obscenas aos montes’”. Mas Divine nasceu em uma família conservadora de classe média e interpretou estereótipos desagradáveis de mulheres de trailers trash para arrancar gargalhadas. Em seus filmes, Divine chamou suas coxas femininas de vadias co-estrelas”.

Então, um homem privilegiado pode zombar de mulheres e usar linguagem sexista e depreciativa porque, o quê? “Arte de performance”? “Humor?” Ajude-me aqui…

Para ser clara, eu não acho que as Drag Queens estão intencionalmente trabalhando para subordinar as mulheres (mas quem sabe?, eu nunca perguntei a nenhuma), nem acho que sua diversão de performances drag (se você realmente curte) faça você necessariamente Má e Errada, pessoa misógina. Mas acho que a falta de vontade da comunidade LGTBQ e do feminismo convencional em falar sobre drags como algo que não é mais aceitável do que qualquer outro tipo de apropriação cultural ou que os esforços dos brancos para tornar sua etnia e raça em um estereótipo e uma brincadeira, é significativo.

Depois que Daytona Bitch foi demitida, o diretor executivo de Toronto Prides, Kevin Beaulieu, disse sobre a performance: “Não atende a nossa missão ou nosso mandato, que é comemorar a diversidade total da comunidade LGBTQ de Toronto”. A declaração levanta a questão: onde estão as mulheres naquela “celebração” da “diversidade”? Somos importantes? Ou somos apenas uma piada?


NOTA DA TRADUTORA
Essa publicação é de 2014, talvez por isso a autora não ter conhecimento, à época, da existência de Drag Kings. No entanto, drag kings são bastante recentes e há relatos da comunidade LGBTQ de discriminação contra mulheres que tentam fazer performances no meio, como se “não tivessem de estar ali porque são mulheres”. Além disso, se de fato identificamos esse tipo de performance como misógina e insultuosa, não há motivos para ser mais aceitável porque as mulheres agora também podem participar como Drag Kings, tal como (a título de exemplo) negros que fizessem “Whiteface” não diminuiriam de forma alguma todo o racismo contido na Blackface.


Texto original: Megan Murphy do Feminist Current


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