por um feminismo sem mulheres
sobre a incongruência de se pretender feminista apagando a história de mulheres
texto original de Andrea Franulic, aqui. tradução de fêmea brava.

esse texto foi escrito por Andrea Franulic, feminista co-autora da autobiografia de Margarita Pisano, e desenvolvedora de uma análise do discurso feminista. no texto, ela fala sobre um colóquio acontecido no Chile, em 2010. fiz a tradução porque, ao meu ver, ele dá conta de explicar o feminismo, e papo vai, papo vem, essa questão retorna nos grupos de debate. eu sempre achei que o feminismo fosse uma epistemologia e uma prática, mas, óbvio, Andrea Franulic faz muito melhor.
“Por um feminismo sem mulheres” é o título de um colóquio que acontece agora na primeira semana de junho, na Universidade do Chile e na Universidade de Arcis. É organizado pela Coordenadora da Universidade para Dissidência Sexual (CUDS) e pelo Colegiado de Estudos Feministas de Arcis. Expõem, entre outras pessoas, Nelly Richard, Olga Grau, Alejandra Castle e Diamela Eltit: “moças moderadas”, como diria Kirkwood; ou “feministas vergonhosas”, como diria Caffarena?
O título me basta, por enquanto. Sabemos que os títulos são importantes, sintetizam os sentidos dos discursos e instalam, no imaginário público, essa síntese. Para a análise crítica do discurso, os títulos sintetizam ideologias. Então, este título significa coisas. Por exemplo, à primeira vista, o problema são as mulheres e não o Feminismo. Mas este (o Feminismo) é um pensamento filosófico-ético, um projeto político-civilizatório, uma práxis libertária e um movimento, uma história e um corpus de conhecimento, que foi inventado, pensado e trazido à realidade pelas mulheres, com custos em suas vidas das perseguições e invisibilizações. Nossa história é nossa genealogia do pensamento e das mulheres insolentes. A fogueira e a guilhotina não podem ser negociadas.
O Feminismo surge dessa troca com uma igual, da profunda cumplicidade entre as mulheres reconhecendo-se como tal e encontrando no pensamento da Woolf, da Lonzi, da Rich, da Beauvoir, da Pisano, das Cómplices, das Autónomas Cómplices e também da Milagros Rivera e da Sendón de León, incluindo o da Celia Amorós ou da Hannah Arendt, as palavras inteligentes para desenhar de maneira inteligente como esta cultura que habitamos, e que nos habita, é nomeada e perpetuada. Woolf, em seu livro Tres Guineas, nos estimula a “nunca parar de pensar” e depois pergunta “em que consiste essa civilização em que nos encontramos?”, projetando a atual civilização masculinista como um objeto delimitado de estudo. Ali está a força criativa das mulheres, ao questionar radicalmente a misoginia, quando quem me encoraja com suas ideias, suas ações e suas palavras é outra mulher insolente.
Adrienne Rich diz que a força criativa das mulheres não está na “filha obediente ao pai”, pelo contrário, esta é apenas uma “égua de tração”. As italianas da Biblioteca de Mulheres de Milão, em 1988, dizem que as mulheres não são lidas em uma genealogia de mulheres pensantes e que, na história dos homens e suas ideologias, elas perdem a sua força criativa e são transformadas, segundo as palavras de George Eliot, nas “Santas Teresas, fundadoras de nada”. A misoginia se acende nestes casos com a intensidade da alienação de não ter palavras apropriadas para nos dizer. A misoginia insiste em crescer e se estabelecer quando continuamos a admirar a filosofia dos homens. As italianas também contam que Emily Dickinson apenas leu as mulheres literárias de seu tempo e suas predecessoras, mas nunca leu nem mesmo o consagrado Allan Poe. O feminismo nasce da relação entre mulheres e, no mesmo movimento, da relação com nós mesmas. É a busca perturbadora, a descoberta e a criação de uma atribuição simbólica para existir no mundo e criar com total liberdade.
É uma relação política e simbolicamente lésbica. Para algumas, para muitas, abre também o erotismo. Sheila Jeffreys diz que “toda mulher pode se tornar lésbica”. Ou seja, toda mulher pode chegar a se ler e se interpretar em uma filosofia e história de mulheres pensantes. Toda mulher pode chegar a deixar de procurar a si mesma no trabalho dos homens… e respirar; pode chegar a abandoná-los como amantes… e respirar. O lesbianismo, assim entendido, desmonta a misoginia, o leitmotiv da feminilidade, desvendando o fio mais fino e firme do tecido ideológico masculinista. Essa história é o vazio mais ignorado e mal-intencionado que mantém a civilização patriarcal para perpetuar seu poder de domínio, que consecutivamente eles vêm tentado apagar. Isso é o feminismo, não é uma história de busca pelos “direitos humanos”, para estar dentro da cultura atual.
Então, apagar mulheres arrasta o controle patriarcal para os relacionamentos lésbicos. No entanto, muitas lésbicas integram a diversidade sexual que defende a tendência ideológica de “feminismo sem mulheres”, e algumas outras mulheres são suas teóricas. Isso sempre aconteceu assim. A masculinidade, com sua institucionalidade em seus ombros, sua tradição político-filosófica e sua extensa e visível história de pensadores e intelectuais, apela à longa e duramente reforçada misoginia interna das mulheres, acompanhada pela ignorância obscurantista sistemática que existe sobre nossa história de pensadoras insolentes e seu continuum. Assim, as mulheres, sem atribuição simbólica, efetivamente não o são . E, permanecendo fiéis à feminilidade como um destino político, voltam — repetidas vezes — “a ser a parte à sombra de uma história iluminada pelos projetos dos homens” (em ‘Non credere di avere dei diritti’ — Biblioteca de Mulheres de Milão).
Santiago, 2010.
(tradução livre. original aqui: http://autonomiafeminista.cl/por-un-feminismo-sin-mujeres-2010/)

