Carol Correia
Nov 26, 2017 · 6 min read

Introdução

O primeiro passo para combater o racismo é reconhecer que ele existe; nomeando-o em todos os espaços. O segundo passo é procurar formas para enfrentar cada aspecto do racismo que molda nossa sociedade e nossa existência. E o terceiro é pôr essas formas em prática a fim de vencê-lo.

Tal questão é necessária de ser abordada a fim de cumprir verdadeiramente o objetivo do feminismo. Afinal, se o feminismo visa a libertação de todas as mulheres, então ele precisa discutir as outras opressões que moldam nossa existência. Feminismo que só discute sobre gênero e ignora ou minimiza outras questões tais como raça, classe, sexualidade, entre outros, apenas foca no grupo mais privilegiado das mulheres: as mulheres brancas e endinheiradas (de classe social média ou alta). Feminismo que apenas discute sobre gênero centra a discussão da mulheridade na mulher branca e, consequentemente, exclui categoricamente as questões que atingem mulheres indígenas, negras e asiáticas; excluindo todas as mulheres racializadas e empobrecidas.

Surge dessa marginalização no próprio movimento das mulheres, a necessidade de racializar todo o feminismo. Sem “recorte” racial, mas integrando raça nas análises feministas. Afinal, as pessoas não são apenas mulheres, homens, brancas, negras, indígenas, asiáticas — elas são várias coisas ao mesmo tempo e isso influi na forma que o resto do mundo te percebe e te trata, assim como a forma que você se percebe.

Logo, o presente texto tem como objetivo nomear o racismo dentro do feminismo, observando tanto o discurso teórico quanto as práticas feministas e de indivíduos feministas.

Nomeando o problema: racismo no feminismo

O primeiro passo para o combate ao racismo é reconhecer que ele existe — afinal, não é possível lutar contra algo que você não sabe o que é. E esse reconhecimento do racismo nos discursos e práticas feministas é feito através da nomeação, isto é, do apontamento de comportamentos e lógicas racistas.

É perceptível que há duas formas do racismo florescer: através de ações e de omissões.

Vejamos.

1. Através das omissões: ou seja, ao não discutir raça, o racismo floresce.

A omissão é perceptível na maior parte da teoria feminista quando apresenta a mulheridade branca como uma experiência universal; olvidando-se que mulheres não são um grupo homogêneo e que raça é um grande fator para a construção da identidade das mulheres.

Assim como é um grande fator para como mulheres racializadas experienciam o mundo, isto é, como a sociedade percebe mulheres negras, indígenas e asiáticas, como as trata e como elas mesmos se percebem e se tratam.

A teoria feminista não foi criada em um vácuo descontextualizado, ele foi resultado de seu meio — um espaço em que as divisões entre as mulheres já estavam estabelecidas socialmente, de forma que havia mulheres que detinham um status de opressora sob outras mulheres.

A omissão de boa parte da literatura feminista de incluir raça em sua análise implica que mulheres brancas se veem como pertencentes a uma raça neutra e ao não discutir sobre como raça é fator para ampliar a violência contra mulheres, incluem-se mulheres racializadas em dados e campanhas para a conscientização sobre misoginia, mas as ignora quando é pensado como as políticas públicas devem ser conduzidas.

A dificuldade do feminismo em falar na conjunção raça e sexo implica na dificuldade em pautar questões específicas a mulheres negras, indígenas e asiáticas. Marginaliza-as. E nessa marginalização molda a seletividade de quem é ouvido e de quem é ignorado dentro do movimento — que denúncias são importantes e quais não são; que pautas devem ser priorizadas e quais não devem.

2. Através das ações (e distorções): ou seja, através de comportamentos racistas que são tolerados e, muitas vezes, difundidos.

Feministas são (ou deveriam ser) mulheres minimamente politizadas, mas quando o assunto é raça e racismo — algumas mulheres brancas se recusam a aceitar que detém privilégios e são opressoras.

E como feministas são minimamente politizadas, significa que elas não serão racistas de forma tão explícita como chamar alguma negra de macaca ou mandá-la voltar para a África; significa que o comportamento racista terá um discurso que aparenta ser progressiva.

E é dessa forma que muitas feministas brancas perpetuam o racismo, por que elas sabem que o racismo as beneficiam de diversos modos.

Analisemos.

Qual é a desculpa dita para que não se debata racismo dentro de espaços feministas? “Falar sobre raça divide o movimento”.

O que, todos sabemos, é uma mentira. As diferenças entre mulheres já existiam antes do feminismo ser pensado. Ou seja, as mulheres já estavam divididas socialmente.

A dificuldade de pautar racismo é que falar sobre raça não beneficia o grupo mais privilegiado das mulheres (mulheres brancas); logo não é uma pauta que elas desejam fazer.

A dificuldade de pautar racismo no feminismo está no fato de que algumas mulheres brancas desejam estar em par de igualdade com homens brancos e não focada na libertação completa de todas as mulheres.

Em Feminismo é para todos, bell hooks fala

Todas as mulheres brancas nesta nação sabem que a branquitude é uma categoria privilegiada. O fato de que as mulheres brancas escolherem reprimir ou negar esse conhecimento não significa que elas são ignorantes; significa que estão em negação.

Outro comportamento racista por parte de algumas feministas brancas está nas duas medidas e dois pesos em relação a tolerância zero a misoginia e a alta tolerância a racismo.

Observem que qualquer caso de misoginia de um homem é levado a sério, especialmente quando é acometido a uma mulher branca. Mas casos de racismo de uma mulher branca acometido a uma mulher racializada é diminuído como “apenas raça”, “estamos todos aprendendo a desconstruir racismo”, “ela foi socializada para pensar e fazer isso”.

O mais interessante é que tais justificativas (se é que elas justificam alguma coisa) não seriam aceitáveis se fossem perante situações de misoginia vinda de homens. Ou “é apenas gênero”, “estamos todos aprendendo a descontruir misoginia”, “ele foi socializado para pensar e fazer isso” é algo compreensível para você?

A cumplicidade de feministas brancas perante mulheres racistas é, infelizmente, gigantesca. E o que se tornou bastante comum é a desvirtuação de termos para blindar o comportamento racista delas, enquanto as veem como pobres vítimas.

O termo interseccionalidade que implica em uma análise em que dois ou mais opressões são analisadas juntas se tornou uma forma de feministas brancas se apresentarem como “boazinhas”.

O termo rivalidade feminina que explica a desunião feminina e a contínua competitividade entre mulheres acaba sendo a razão para que feministas racistas sejam blindadas de denúncias de racismo de mulheres negras, indígenas, asiáticas e algumas brancas. Isto é, não estão reclamando sobre um comportamento racista seu; é tudo recalque — resultado da rivalidade feminina a qual todas nós estamos submetidas.

Um tema como padrão de beleza que fala sobre como mulheres são empurradas em um ideal de beleza quase impossível de magreza e branquitude que leva várias mulheres a terem problemas de autoimagem, de autoestima, transtornos alimentares, além da gordofobia a qual algumas mulheres passam por é muitas vezes reduzido a banalidades como “sou bonita ou sou apenas branca?”, desvirtuando o tema por completo ao egocentrismo de algumas feministas brancas.

E talvez o único momento em que haja interesse real em pautar racismo seja: na tentativa em defender sua vertente feminista ou sua militância de ser racista.

A necessidade em racializar o discurso e a prática feminista

Fica evidente que o feminismo tem uma história inegável de comportamentos e teorias racistas sendo perpetuadas e validadas. É inegável que a construção da teoria e da prática feminista foi influenciada pelo racismo que algumas feministas brancas cometiam. De modo que as mulheres negras, indígenas e asiáticas ou não são mencionadas em nenhum momento ou se o são, são reduzidas a estereótipos racistas.

A fim de que seja combatido o racismo dentro do feminismo é necessário racializar o discurso e a prática feminista.

O que significa racializar o feminismo? Pôr raça na análise em mesmo nível de importância que sexo; não como “recorte”, mas junto de.

A ideia de “recorte” racial apenas coloca raça como questão secundária a sexo. E isso é um problema. Porque raça tem tanta ou talvez até mais influência na forma em como nossa sociedade é hierarquizada que sexo. E é urgente reconhecer isso.

Logo, racializar o feminismo é fundamental para que a libertação de todas as mulheres sejam algo atingível.

E como disse Claire do Sister Outrider:

“É tempo de aposentar a ideia de que mulheres brancas não podem ser cúmplices ou se beneficiar de racismo pela razão de que elas experimentam misoginia.”


Aplauda! Clique em quantos aplausos (de 1 a 50) você acha que ele merece e deixe seu comentário!

Quer mais? Segue a gente:

Medium

Facebook

Twitter

QG Feminista

Feminismo em Revista

Carol Correia

Written by

Ativista antiprostituição e Formada em Direito (pós em Constitucional e Processo Penal). Acessem também: antiprostituicao.wordpress.com

QG Feminista

Feminismo em Revista

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade