Reality Shows e a misoginia como entretenimento
Os reality shows são programas de televisão que simulam a realidade, por meio de competições entre participantes de um jogo ou apenas por filmar cenas aparentemente cotidianas de uma família, grupo de amigos ou desconhecidos.
A maior parte dos reality shows norte-americanos (que são exportados para o Brasil em sua versão original ou em versões nacionais) criam conteúdos para empresas. Mais do que vender o espaço comercial nos intervalos, o próprio programa insere os anúncios nos seus conteúdos. Um dos programas de TV mais lucrativos da história, American Idol (reality de competição entre cantores, do canal Fox) tem as empresas Coca-Cola e Ford associadas ao conteúdo do programa. O programa mais lucrativo da rede ABC, Extreme Makeover: Home Edition (um reality sobre construção de casas para famílias necessitadas), recebe da empresa Sears um milhão a cada seis episódios para criar narrativas que integrem a sua marca ao programa.
As grandes empresas ditam o conteúdo dos reality shows, mas a maior parte do público que assiste a esse tipo de programa ainda acredita que vê a realidade e não um comercial. O impacto disso nessas pessoas pode ser desastroso, especialmente para uma das camadas mais vulneráveis da sociedade, as meninas.
No Brasil, mais de três quintos do público dos realities são do sexo feminino e 40% têm menos de 25 anos. Ou seja, as meninas e mulheres jovens estão bastante sujeitas às mensagens que os reality shows veiculam.

CONTEÚDO VEICULADO É CRUEL
Um dos reality shows de maior sucesso no Brasil (e no mundo) é o Big Brother. A versão brasileira já foi criticada por racismo e misoginia. Na questão da misoginia, o programa já exaltou um pedófilo, já abafou um estupro e já televisionou um relacionamento abusivo como forma de entretenimento. Isso só para ilustrar as formas mais graves de violência contra a mulher exibidas no programa.
O Big Brother Brasil, exibido pela Rede Globo, não é o único reality brasileiro a mostrar e a endossar a misoginia. Frequentemente, machistas são recompensados nesses programas. O programa A Fazenda, da TV Record, já deu visibilidade a diversos agressores de mulheres, incluindo justamente um que havia sido denunciado no Big Brother Brasil.
Todos esses homens, cujos nomes me recuso a citar, tiveram sua impunidade televisionada. Esses programas têm uma audiência bem grande e há anos são exibidos no Brasil como apenas pessoas isoladas exprimindo sua opinião, e não como parte de um problema mais amplo ou de um discurso de ódio aprovado pelas emissoras. E esse não é um problema local.
A crítica de mídia norte-americana Jennifer Pozner afirma que os reality shows exploram mulheres, minorias e crianças. Ela estudou por mais de uma década esse tipo de programa e detectou que eles costumam representar estereótipos femininos em suas temporadas. As personagens representadas são: a puta (cujo comportamento sexual devemos condenar); a invejosa (em quem não podemos confiar); a bonitona chorosa (que disputa desesperadamente a atenção masculina); a negra selvagem (que incita as pessoas a brigarem); a interesseira (supostamente mais mercenária que a rede que explora sua pessoa); e a loira burra (incompetente no trabalho, no lar, na gramática e na matemática). As personagens que aparecem não são reais, mas pretendem que o público acredite que são, reforçando ideias antifeministas.

A INFLUÊNCIA DOS REALITIES NAS MENINAS
As meninas são uma categoria vulnerável da sociedade. Conforme vão crescendo, vão absorvendo as marcas da sociedade machista. Começam a crer que as mulheres não são confiáveis e que precisam de um homem para se sentirem completas e que, para isso, precisam estar sexualmente disponíveis. Começam a supervalorizar a imagem, a buscar um corpo ideal (que é sempre outro, nunca o delas) e a achar que a ciência e o mundo lógico não serve para elas. Que elas devem ser boazinhas e bonitas, esposas e mães. Esse é o mundo que a misoginia preparou para elas e que, infelizmente, muitas tomam como real, natural e imutável.
Os reality shows são apenas uma parte da expressão da cultura misógina, mas são uma parte importante. Ao afirmar que esses programas mostram a realidade, passamos para as crianças a ideia de que mulheres e homens são mesmo da forma que os programas os retratam: as mulheres devem se encaixar em um dos esteriótipos e a violência masculina é normal e sai impune, assim, as mulheres nem se devem dar ao trabalho de reclamar dela.
Um estudo do Girl Scout Research Institute revelou que as meninas que assistem a realities estão mais propensas a aceitar agressão e bullying em suas vidas. O estudo fez algumas afirmações para que as meninas dissessem se concordavam com elas e, em todas as afirmações que naturalizavam um comportamento negativo associado a mulheres, a tendência de concordância era maior entre as meninas que assistiam realities regularmente. Bem como era maior, entre as que assistiam, o índice de meninas que tinham problemas em confiar em outras meninas.
Também foi detectado que as meninas que assistem a realities dão mais valor às suas aparências físicas. O único dado positivo da pesquisa é que as meninas que assistem são mais autoconfiantes, porém associam mais o sucesso a ser mau e mentir. Os realities também influenciam negativamente na visão que os meninos têm das meninas: 74% dos que assistem regularmente (contra 63% dos que não assistem ou assistem de vez em quando) afirmam que as meninas frequentemente competem pela atenção dos homens.

A FAMA COMO UM FIM
American Idol é o único programa de televisão americano a ficar em primeiro lugar de audiência por oito temporadas consecutivas. O programa, cuja versão brasileira ganhou o nome de Ídolos, é uma competição que celebra a conquista da fama instantânea.
A busca da fama tem sido um fenômeno muito discutido na sociedade contemporânea, tendo em vista, por exemplo, as redes sociais, basicamente formadas pela autopromoção. Todo mundo está vendendo a própria imagem o tempo todo e as empresas adoram isso. São cada vez mais comuns anúncios que incentivam a ideia de que o consumidor merece um tratamento especial. E a ideia de que se é de fato especial é disseminada entre os jovens. Nancy Jo Sales, em seu livro Bling Ring, relata uma sondagem feita entre universitários, na qual um terço dos entrevistados disse que deveria ter o direito de mudar a data de uma prova se isso interferisse nos seus planos para as férias, por exemplo.
Entre as meninas, o chamado fenômeno princesa é algo gritante. Meninas pequenas são levadas a querer vestimentas espalhafatosas e joias de plástico e serem chamadas de princesas, enquanto seus responsáveis atendem aos seus desejos infantis. Note que a marca “Disney Princesas” movimenta cerca de 4 bilhões de dólares por ano.
Uma das explicações para esse fenômeno narcisista de se sentir especial é o advento de reality shows, que reforçam o valor atribuído à fama, segundo os autores de The Narcissism Epidemic. A mídia hoje é centrada nas celebridades. As pessoas desejam ver os famosos fazendo coisas comuns e desejam ser famosas também. Nem que para isso tenham que se submeter a tratamentos degradantes. Em 2017, o Ministério Público brasileiro chegou a abrir inquérito contra o reality show A Casa, da TV Record, por violação de direitos humanos.
Pessoas como Paris Hilton e Kim Kardashian ficaram famosas ao terem vídeos íntimos seus vazados na internet. Ambas depois do acontecido estrelaram seus próprios reality shows. Audrina Patridge estava na piscina de um prédio, quando um produtor a “descobriu” e a escalou num reality em que faria o papel de morena sedutora e apareceria frequentemente de biquíni.
A fama parece, assim, ser o objetivo final da sociedade. E, com a disseminação dos reality shows, estamos ensinando às crianças que ela é importante, que todos devem buscá-la a qualquer custo, já que todos são seres muito especiais que a merecem, e que a renúncia à própria dignidade humana não é nada comparada a poder ser famoso.
A HIPERSEXUALIZAÇÃO DE CRIANÇAS EM REALITIES
Os realities apresentam mulheres de comportamentos chocantes, que usam linguagem de baixo calão e estão sempre dispostas a se despirem. Quando esses programas mostram meninas como protagonistas, não é diferente. Não só as adolescentes, como também as crianças pequenas apresentam linguagem e comportamento chocante, além de serem sexualizadas.
Como exemplo emblemático disso, há um episódio de Pequenas Misses (Toddlers and Tiaras, no original), em que uma mãe veste sua filha de 4 anos como a personagem de Julia Roberts em Uma Linda Mulher, uma mulher prostituída. Esse reality em particular é todo centrado em fazer meninas muito pequenas parecerem adultas e disputarem o título de mais bela entre si.
Pequenas Misses deu origem a outro programa, chamado Chegou Honey Boo Boo (Here Comes Honey Boo Boo, no original). A protagonista é uma menina de 6 anos chamada Alana, que por ser “irreverente” conquistou o público em Pequenas Misses. A irreverência da menina, no entanto, vem do fato de ela não se encaixar no padrão de miss e, por isso, tirar várias risadas dos espectadores. A menina é mostrada gritando que gosta de dinheiro, com maneirismos de stripper, e bebendo energéticos para que possa ter mais vigor ao gravar. O programa foi cancelado depois da revelação de que a irmã mais velha de Alana foi estuprada pelo namorado da mãe aos 8 anos de idade. Caso que continua sendo explorado pela mídia, em que a culpa recai na mãe das meninas.
Mesmo quando as mulheres atingem a maioridade, há uma preocupação em mostrá-las como adolescentes, por ter mais apelo para o público. No reality Pretty Wild, do canal E!, por exemplo, as protagonistas de 18 anos apareciam indo para a escola, mesmo já tendo concluído o ensino médio. Elas eram frequentemente mostradas se despindo ou de biquíni, além de ter um episódio em que faziam pole dancing e outro em que uma das protagonistas encorajava a irmã de 16 anos a experimentar sutiãs de renda.
Esse tipo de comportamento é normalizado nos realities shows e jovens e adolescentes do sexo feminino são o público-alvo da maioria deles. As crianças se identificam com as personagens dos programas que assistem e imitam seus comportamentos. Os realities prejudicam as meninas. Não só pelo fato de o tratamento cruel de mulheres ser usado como forma de entretenimento, mas também por deturpar as visões que as meninas têm de si mesmas e das mulheres em geral.
Quando se fala em proibir a exibição de um programa, as redes de televisão começam uma grande campanha pela liberdade de expressão. Mas elas próprias não têm liberdade para gerar seus conteúdos, visto que eles são ditados pelas empresas que anunciam na rede. A censura já existe e é regulada pelo mercado. Por que então seria um problema proibir que conteúdo cruel seja veiculado?
Que tipo de sociedade é essa que permite que o entretenimento seja feito às custas do bem-estar das mulheres e das crianças? A liberdade de expressão é um conceito importante, mas numa sociedade misógina, ela não existe. Quando as mulheres falam, são silenciadas e acusadas de censoras, enquanto os homens podem falar a favor da violência e não sofrer sanção nenhuma. Numa sociedade realmente livre, os realitiy shows não existiriam.
FONTES:
ABEP (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa). Pesquisa revela o perfil das pessoas que assistem reality show. Acesso em 27 de março de 2018.
CARASCO, Daniela. ‘A Fazenda 9’ e por que os agressores das mulheres saem impunes. Acesso em 10 de agosto de 2018.
CARDOSO, Bia. BBB 2017: relacionamento abusivo como entretenimento televisivo. Acesso em 10 de agosto de 2018.
O Estado de São Paulo. Record TV é denunciada por violação de direitos humanos após estreia de reality.Acesso em 10 de agosto de 2018.
Girl Scout Research Institute. Real to Me: Girls and Reality TV. Acesso em 27 de março de 2018.
KAPLAN, Don. ‘American Idol’ is still a huge moneymaker. Acesso em 27 de março de 2018.
POZNER, Jennifer. Reality TV Exploits Women, Minorities and Children. Acesso em 27 de março de 2018.
POZNER, Jennifer. Reality TV Lets Marketers Write the Script. Acesso em 27 de março de 2018.
POZNER, Jennifer. The Unreal World. Acesso em 27 de março de 2018.
R7. Anna Cardwell, de Chegou Honey Boo Boo, fala sobre estupro: “A culpa é da minha mãe”. Acesso em 10 de agosto de 2018.
SALES, Nancy Jo. Bling Ring: A gangue de Hollywood. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2013.
TWENGE, Jean M. e CAMPBELL, W. Keith. The Narcissism Epidemic. Simon & Schuster, 2009.

