Ariana Amara
Jun 28 · 9 min read

Essa é uma nova seleção de histórias sobre o #MeToo do comércio sexual, que recebemos por meio da página “Share your Story”. Agradecemos profundamente a todas que compartilharam suas histórias. Cada uma delas é poderosa, emocionante e corajosa, e revela de forma necessária o que o comércio sexual realmente é.

“Eu fui prostituída não por escolha, mas pelas circunstâncias. São os homens que possuem escolha, e uma vez que dinheiro é poder, são os homens que possuem todo o poder. Eles agem como se mulheres escolhessem livremente solicitar sexo dos homens, como se nós tivéssemos o poder do sexo, quando na verdade o pagamento é um suborno que eles pagam para poder nos machucar. Eles pensam que mulheres são as guardiãs do sexo e que devemos isso a eles, para justificar seu uso da força para conseguir sexo por meio de violência, chantagem/persistência, drogas/álcool e dinheiro.” – Cammy

Anon

Há algum tempo eu venho apoiando mulheres envolvidas na indústria do sexo e é tão desolador saber a verdade sobre as reais experiências dessas mulheres em uma sociedade em que a agenda neoliberal pró-comércio sexual domina. Existe tanto sofrimento que as pessoas preferem não ver porque ele não encaixa na narrativa de que mulheres “escolhem” essa situação, tirando o foco de quem controla a demanda. As mulheres em sua maioria possuem traumas significativos, e são controladas ou forçadas à prostituição por cafetões ou pela pobreza. E mesmo que elas não tenham sido forçadas a entrar, a saída é praticamente impossível por conta de várias barreiras, incluindo a imigração, dívidas, abuso de substâncias, falta de moradia, medo, auto-estima impressionantemente baixa, doenças mentais entre tantos outros fatores.

E a prostituição não afeta apenas as mulheres na indústria. Ela afeta a todas as mulheres quando algumas de nossas irmãs estão sendo compradas, estupradas coletivamente e filmadas, agredidas por compradores que exigem mais por terem gastado dinheiro, etc etc…

Ao conhecer mulheres no chamado “distrito da luz vermelha” durante meu trabalho, eu não me senti segura no local e tive que ouvir comentários degradantes dirigidos a mim em plena luz do dia, já que é essa a cultura e atitude comuns direcionadas às mulheres nessas áreas. E muitos dos homens com quem convivemos estão consumindo pornografia, prostituição filmada, causando todo um impacto em como nós tratamos as mulheres na nossa sociedade.

Adele

Por ter crescido em um ambiente em que eu era tratada como uma vagabunda, puta, vadia e prostituta pelo meu irmão mais velho e meu padrasto, hoje faz completo sentido que eu tenha ido trabalhar no comércio sexual.

Meu irmão despejava seu ódio contra as mulheres em cima de mim e frequentemente me espancava usando essas palavras para definir quem eu era enquanto meu padrasto me abusava sexualmente. Eu tenho vagas lembranças do meu irmão mais velho também me abusando, mas esse é um fragmento da minha memória.

Infelizmente, eu não fui capaz de juntar os pedaços dessas memórias, o que me causa poucas lembranças coerentes dos primeiros 24 anos da minha vida, boa parte deles gastos na prostituição. As pessoas me perguntam se eu já fui agredida. Os clientes, que podemos dizer que estavam sexualmente me abusando, em sua maioria me tratavam razoavelmente bem. Eu nunca soube que eu era bonita, até que um cliente me disse, e mesmo assim eu não acreditei. Como eu poderia ser bonita, se ao crescer eu era chamada de vagabunda?

Eu lembro que minha mãe apoiava meu trabalho sexual. Ela chegou até a passar um fim de semana com seu parceiro e um cliente que eu encontrava regularmente. Brincando de casais felizes. Parece brincadeira. Casais felizes. Eu estava dissociada, oca, sendo abusada sexualmente por homens mais velhos mas essa era a única vida que eu conhecia. Ninguém nunca me disse que eu era inteligente e poderia conquistar o que eu quisesse, se eu me esforçasse.

Vinte anos se passaram e agora eu sou uma psicoterapeuta de sucesso, mãe e estudada, apesar de ter saído da escola aos 13 e entrado na indústria do sexo com apenas 15. Dentro dessa subcultura de vilões, cafetões e prostitutas, minha autoconsciência, ou minha consciência oca, passou pela vida sozinha, sofrendo e acreditando que eu nunca habitaria o mundo em que eu vivo agora. Pessoas com estudo eram boas. Eu era má, suja, uma vagabunda, puta, prostituta. Eu tinha medo de fazer parte de outro mundo…

Mas fazer parte de outro mundo, entretanto, foi o que fiz. Minha jornada em direção à cura não foi fácil e às vezes, especialmente agora que sou mãe, é uma batalha. Ainda existem partes de mim que querem morrer, mas elas estão diminuindo. Eu tive que deixar minha vida anterior, minha família, meus amigos dentro da indústria e criar uma nova vida para mim, sozinha. Mas eu consegui e me orgulho de ter conquistado além do inacreditável.

Obrigada por ler minha história.

Pessoa não identificada

Eu tinha 15 anos e tinha acabado de entrar no ensino médio de uma escola pública em Cleveland [EUA]. Eu fui recrutada precocemente porque eu andava e fazia amizade com pessoas negras. Uma amiga queria eu conhecesse um amigo dela em um parque depois da aula. Eu experimentei maconha com ele e seus amigos, apesar de ficar surpresa com a idade avançada deles (uns 20 anos).

Eles me empurraram para dentro de um carro e me raptaram, me levaram para um apartamento em outra cidade, me drogaram e me estupraram. Eu me lembro de um deles falando “ela é nova demais”, mas isso não os impediu. Durante o estupro eu perguntei por que ele estava fazendo aquilo comigo. Ele disse “porque eu te amo, querida.”

Depois que tudo aconteceu ele disse que agora eu pertencia a ele, que tinha me tornado uma puta e que ele era o cafetão. Ele me mandou me limpar. Eu estava sangrando. Eu era virgem. Eu apaguei enquanto gritava desesperada dentro do banheiro. Eu ouvi eles dizendo “se ela não parar de gritar vamos ter que nos livrar dela”. Então eu parei de gritar.

Eles me mostraram uma arma e disseram que sabiam onde eu morava e que matariam toda minha família se eu contasse pra alguém o que tinha acontecido.

Esse foi o começo da minha história de ser vendida para sexo. Primeiro fui oferecida a seus “primos”, um após o outro. Meus pais não sabiam que depois da aula, eles me buscavam para vender sexo no centro da cidade. Eu coloquei na minha cabeça que aqueles homens estavam me protegendo, que eu tinha causado meu próprio abuso, que eu não valia nada e seria uma puta para sempre.

Eu percebi que a minha amiga era minha “esposa” que tinha basicamente me recrutado. Eu fiquei conhecida como puta na escola, como a “garota do Bobby”. Eles me chamavam de “branca de neve”, porque eu era sua única garota branca.

Bobby era um criminoso, coberto de cicatrizes de facada que já tinha sido preso. Um dia ele chorou ao lembrar da cadeia, e eu tive que ir vender sexo para conseguir dinheiro para ele pagar suas dívidas e não ser preso de novo.

Eu não lembro dos estupros, tirando o primeiro; algo morreu dentro de mim naquela época. Eu nunca alcancei um orgasmo nem gostei de sexo. Eu não me sentia sexual. Eu me sentia suja, envergonhada e queria morrer. Eu não podia contar aos meus pais nem a ninguém, e um dia eu tomei uma overdose de remédios para acabar com o sofrimento. No hospital, eles perceberam que eu tinha passado por traumas sexuais, mas eu me recusei a falar do assunto, então a situação continuou.

A situação não parou até toda minha família se mudar de país. Aquilo salvou a minha vida. Eu tenho síndrome de estress pós-traumático até hoje e problemas na coluna por conta daquele tempo. Por conta de algum milagre, eu não peguei AIDS ou alguma doença. Eu consegui construir uma vida apesar dos desafios à minha saúde mental.

Eu apaguei da minha memória boa parte dessa história, mas ela voltou como uma onda pra cima de mim quando um namorado começou a me abusar fisicamente depois de eu ter tido meu primeiro filho. Eu não podia sequer acreditar que essas memórias eram reais de tão horríveis que eram; muitas vezes me lembrava apenas de coisas aleatórias como sangue, o papel de parede, dor, confusão e baratas. Eu vivia em uma dissociação terrível e sofria com perdas de memória.

Agora que estou na faixa dos 50 anos, tive meus dois filhos, construi uma carreira, mas sempre tive problemas com relacionamentos. Só estou em paz com meu passado agora, mas continuo tomando medicação psiquiátrica, que estou sempre monitorando. Eu já tentei me matar cinco vezes ao longo da vida.

Se eu não tivesse mudado de país, eu ainda estaria vivendo aquilo, ou morta. Esses são os caminhos. Eu agradeço a deus por ter conhecido o lado bom da vida, de ter conhecido o amor, e por ter me tornado uma ativista feminista há 30 anos, e uma professora de crianças com necessidades especiais. Eu continuo vendo essas coisas terríveis acontecendo e consigo detectar sinais de abuso que a maioria das pessoas deixam passar. As vidas roubadas. Por favor, não se deixe enganar. Nenhuma jovem entra nessa vida horrorosa sabendo do que se passa. É estupro e tráfico, não uma escolha consciente, para nenhuma das mulheres que eu conheci. Por favor, façam isso parar.

Cammy

Eu fui abusada até a vida adulta pela minha mãe narcisista, que permitiu que homens mais velhos me machucassem e me culpou por ser uma criança molestada. Eu fugi de casa três vezes antes de fazer 18 anos e me mudei duas vezes depois de adulta, a última vez para valer, há quase 2 anos atrás.

Antes de sair de casa, eu era “cam girl”. Era degradante e eu tive que acionar o DMCA para conseguir tirar as fotos não consensuais do arquivo do Google. Também houve o caso de um homem de quem eu era amiga e amante que usou do pornô de vingança contra mim ao mandar uma foto em que eu estava nua (tirada sem meu consentimento) para mais de 30 pessoas pelo e-mail. Tudo isso porque eu discordei dele sobre prostituição, uma vez que ele admitiu ser comprador e aí ele usou dessa foto para me punir.

Nos quartos onde gravávamos, eu testemunhei garotas sendo traficadas e drogadas. Muitas de nós usavam drogas ou bebiam para conseguir continuar nas sessões de webcam.

Durante esse tempo, eu também conheci um cara do OkCupid que depois admitiu que era casado, e alegou que sua mulher não fazia sexo o suficiente com ele. Quando transávamos, ele enfiava um dedo no meu ânus, e continuava a fazer isso mesmo que eu pedisse para ele parar. Ele também me machucava durante o sexo. Depois disso, ele me deu dinheiro como se aquilo compensasse o que ele tinha feito. Era para fazê-lo se sentir melhor. Eu tentei devolver o dinheiro, e ele insistiu para que eu ficasse com ele, e uma vez que eu estava sozinha e precisando de dinheiro, eu acabei levando o dinheiro para casa.

Outro homem também foi violento comigo durante o sexo, e alegou que algumas mulheres gostavam de violência. Eu disse que eu não gostava, que eu não era assim, e que se alguém gostava de sexo dolorido (seja dando ou recebendo) a pessoa tinha problemas. Ele me deu dinheiro também.

O último homem que me prostituiu me dava drogas e me culpava pela situação. Eu fui prostituída não por escolha, mas pelas circunstâncias. São os homens que possuem escolhas, e como dinheiro é poder, são os homens que possuem todo o poder. Eles agem como se mulheres simplesmente escolhessem solicitar sexo dos homens, como se nós tivéssemos o poder do sexo, quando na verdade o pagamento é um suborno para calar nossa dor. Eles acham que mulheres são as guardiãs do sexo, e que nós devemos isso a eles, para poder justificar seu uso da força para obter sexo por meio de violência, chantagem, drogas/álcool e dinheiro.

Anon

Eu tinha dois anos quando meu avô, meu tio e seus amigos me estupraram coletivamente. Eu tinha de 3 para 4 anos quando meu avô me levou para seu clube e formou uma fila para meu estupro. Quando fiz 5 anos, eu já tinha testemunhado pessoas traficando drogas, a morte, overdoses e um suicídio filmado que se tornou um filme snuff. Meu avô morreu quando eu fiz 6 anos, mas meu tio continuou com seu legado. Eu tive que fazer um detox de álcool aos 7 e a violência e tráfico só acabou quando minha família mudou de estado, quando eu tinha 10 anos. Foi no mesmo ano em que minha avó morreu e meu tio colocou todas as fotos de infância da minha mãe, assim como as minhas e as dos meus primos na internet.

Anon

Eu fui atraída por tumblers que exaltavam a cultura da “prostituta feliz”, primeiro para praticar “sugar daddy” e mais tarde para a prostituição convencional. Era doloroso, degradante e aterrorizante, mas eu bloqueei todos esses aspectos uma vez que eu usava do dinheiro que eu ganhava para me voltar contra meu próprio corpo com cirurgias desnecessárias.

Compartilhe sua história! Se você esteve no mercado do sexo, ou foi afetada por ele durante sua vida de formas menos diretas, nós queremos ouvir você! Entre em contato com o @NordicModelNow


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