Religião e feminismo, será?

nada é assim tão simples

Duda Antonino
Sep 2, 2018 · 17 min read

Um legado pouco útil do feminismo secular tem sido a tendência em abordar o estudo da religião e do gênero em termos de uma única e reducionista problemática: religião, é boa (libertadora) ou ruim para as mulheres? Reforça ou mina o patriarcado? Diante dos inúmeros problemas em relação a essa abordagem sobre a temática, um deles é que a pergunta é muito ampla e muito contundente para fazer justiça às formas extremamente variadas de religião ou as maneiras sutis, complexas e altamente específicas em que as mulheres habitam, subvertem e negociam com elas. Outra é que o critério de bondade ou maldade (muitas vezes é equiparado a libertação e opressão) igualmente complicado e complexo sobre vários pontos, principalmente, sobre a diferença cultural e histórica (Woodhead, 2012). Sem contar que, nessa perspectiva, o papel histórico crucial desempenhado por mulheres religiosas em conquistar posições melhores no lar e na sociedade (Braude, 2004), bem como sua luta interna pela igualdade de gênero em seus próprios contextos religiosos são deixados de lado.

Dessa forma, “o papel da fé na vida cotidiana de mulheres é muitas vezes ignorado, ainda mais, muitas vezes é visto como símbolo do tradicionalismo e atraso, obstáculo a emancipação e raramente reconhecido como uma inspiração na luta das mulheres por justiça social e os direitos das mulheres” (Žarkov, 2015:6).

Algumas coisas precisam ser pontuadas com intuito de se ampliar a consciência sobre os "feminismos", primeiramente: é importante ressaltar que as ideias feministas não surgiram apenas no meio das mulheres seculares, as mulheres religiosas, as suas crenças e práticas também foram temas de debate no âmbito de diferentes tradições religiosas e congregações (Sahgal e Yuval-Davis, 1992; Bayes e Tohidi 2001; Dhaliwal e Yuval-Davis 2014). Mas, o que se observa é que as estudiosas, na escola feminista, têm há tempo “visualizado a consciência de gênero como nascida fora da crença e experiência religiosa, como uma precursora histórica do primeiro movimento dos direitos da mulher” (Braude, 2004: 569). Não há quase nenhuma menção as mulheres religiosas em movimentos ou contextos ativistas. Por conta dessa carência, revisitei algumas teóricas religiosas feministas (sim, elas existem. E também precisamos conhecê-las, entender suas ações, construir pontes e até unir forças) e vou trazer agora a história do seu ativismo e sua relação com o feminismo não-religioso (ver, por exemplo, Braidotti 1995, 2009; Hammar 1999; McFadden, 1999; Nyhagen Predelli 2003; Braude, 2004).

É importante entender que, “a relação entre as mulheres, religião e mudança social tomou uma grande variedade de formas. As mulheres têm trabalhado dentro de movimentos religiosos que eram revolucionários em suas implicações. As mulheres têm trabalhado dentro de movimentos revolucionários que eram religiosos (pelo menos parcialmente) em sua inspiração. As mulheres foram inspiradas individualmente pela religião para participar de movimentos trabalhando por mudanças na sociedade; mulheres têm sido solicitadas para trabalhar por mudanças sociais e mudanças na religião. A religião tem sido um instrumento de libertação para as mulheres. Da mesma forma como se torna um instrumento de opressão social das mulheres” (Haddad, 1988:21).

Também é preciso ressaltar que até muito recentemente o tema do gênero tinha sido quase ausente da agenda de estudo da religião. Mas, a situação mudou, em parte, como resultado do impacto da Segunda Onda do feminismo[1] que se desenvolveu após a década de 1960 e cujas perspectivas e análises gradualmente influenciaram muitas das disciplinas que compõem o estudo da religião. As mulheres religiosas e religiosas feministas têm sido parte da história contemporânea dos movimentos de mulheres em todo o mundo. Ao lado de mulheres não-religiosas, elas lutaram pelos direitos das mulheres e pela igualdade, enquanto também se identificam com sua fé religiosa pessoal. Para algumas feministas, a crença religiosa e a prática das mulheres tem sido uma questão impugnada, enquanto outras feministas têm aceito, abraçado ou sido indiferente à religião. Os debates sobre religião e mulheres tiveram lugar entre feministas desde a primeira mobilização dos movimentos de mulheres no fim do século XIX e cedo no século XX e em contextos europeus, as três religiões principais (católica, judaica e muçulmana) do mundo têm sido analisadas pelas mulheres feministas religiosas e não-religiosas, e a questão de se crença religiosa poder coexistir com valores feministas tem sido debatida vigorosamente.

A teoria das feministas religiosas vem para sugerir que religião, sim, pode contribuir para a luta pela justiça, incluindo a luta pela igualdade entre os sexos e que as feministas religiosas são potenciais aliadas das feministas seculares (Nussbaum, 2012). Elas criticam fortemente os binarismos (religião é ruim/autoritária/machista; secularismo é bom/libertador/igual) retratando-o como falsos e opressivos. Niamh Reilly e Joan Scott sugerem que o binário — religioso versus secular — atualmente está implicado em novas formas de violência do estado contra as minorias, onde, por exemplo, os muçulmanos, particularmente as mulheres muçulmanas, em contextos ocidentais (França) são direcionadas e submetidas a interrogatório, vigilância e outras formas de violência e controle estatal, sem poder deixar de lado uma legislação que dita o que ela pode e não pode vestir. Reconhece que a religião pode SIM ser utilizada para legitimar desigualdades e a discriminação das mulheres. No entanto, rejeita-se a ideia de que a religião é por necessidade patriarcal (Scott, 2007).

Ainda apontam para uma mudança nas práticas de gênero dentro de suas próprias tradições de fé, argumentando, por exemplo, que as mulheres religiosas devem poder executar funções e papéis que têm sido, tradicionalmente, dos homens. As mulheres muçulmanas em diversas localizações geográficas debatem as noções de igualdade, dos direitos da mulher e feminismo em relação ao Islã (Wadud, 2006; Barlas, 2008; Seedat, 2013; Taj, 2013). Elas estão a assumir nova liderança relacionada a funções religiosas, inclusive como porta-vozes de organizações, líderes de grupos de mulheres e ensinando a religião (Nyhagen Predelli, 2008). A noção, no Islã, de que as funções de um líder religioso da mesquita (imaam) são uma reserva estritamente masculina recentemente tem sido contestada através de orações lideradas por mulheres[2] (Roald, 2001; Haddad et al, 2006; Wadud, 2006; Nyhagen Predelli, 2008).

Amina Wadud vai contra as tradições religiosas e conduz uma oração em congregação no ano de 2005, na Synod House da Cathedral of St. John the Divine, em Nova Iorque.

A verdade é que: as mulheres podem experimentar tanto empoderamento como subordinação dentro de contextos religiosos como nos contextos seculares. Religião, portanto, pode ser analisada como um recurso e uma barreira para os direitos das mulheres, bem como a sua participação e pertencimento dentro e fora das comunidades religiosas (Cady e Fessenden, 2013; Reilly e Scriver 2013). Num estudo recente sobre as evangélicas no Brasil chegou-se a conclusão que o papel de “submissão” defendido dentro do contexto religioso era praticado dentro das classes baixas mais baixas, onde o grau de independência da mulher em relação ao seu companheiro era maior, apenas reproduzindo o padrão de antes da conversão religiosa, ou seja, do patriarcado na sociedade em geral. Já nas famílias de classe média e alta, a conversão não fazia a mulher adotar práticas de “submissão” porque ela não era dependente do companheiro antes da religião e não acreditavam que adorar um Deus significava se submeter ao marido (Toledo-Francisco, 2002). Dessa forma, direitos da mulher e igualdade de gênero devem ser estudados em contextos particulares que considerem suas oportunidades e a participação em uma perspectiva ampla, incluindo a religião. Mas não só a religião, também deve-se pensar as interscções de raça, a classe, a formação educacional, deficiência, idade, etc.

Muños (1999:13) ressalta que “as sociedades ocidentais seculares tem sido mal informadas e tornam-se tendenciosa a tal ponto que não podem ou não entendem que o problema das mulheres, por exemplo, não é religioso, mas sim de uma religião sendo usada por uma sociedade patriarcal e, portanto, a militância feminista pode realmente permitir que as mulheres desenvolvam um relacionamento moderno com a religião e abram brechas na ordem patriarcal existente independentemente se isto está em conformidade com a ideologia dos HOMENS religiosos ou não. Termina-se, que muitas análises sobre a religião são seletivas e não contam toda a história, nem fornecem o contexto completo das atitudes, eventos e ações, ou falha em conseguir abarcar toda a diversidade das práticas religiosas. Já coloca a religião e as mulheres religiosas num mesmo pacote, ou seja, todas são submissas, passivas e sem voz.

Um fato que poucos tem conhecimento, por exemplo, é que a entrada das mulheres na vida pública, nos países islâmicos ocorre em taxas diferentes, e inevitavelmente gera suas próprias tensões. Ao contrário do Ocidente, onde a modernização foi um processo interno à sociedade e foi impulsionada principalmente pelos homens (artes, ciência, tecnologia, negócios e comércio, lei e política), a modernização nas sociedades islâmicas tornou-se uma tarefa compartilhada de povos inteiros, tanto masculinos como femininos e foi perseguida com o desejo consciente de seguir um caminho islâmico em vez de um caminho ocidental. As mulheres participam nas religiões, porque estas oferecem espaços sociais para a articulação de suas vidas, medos e desejos. Em muitas destas sociedades a religião tende a ser mais central para o processo de modernização do que foi no Ocidente, e a posição das mulheres é afetada por isto. Considerando que, nos movimentos feministas do ocidente tende-se a rejeitar a religião, porque ela foi identificada com a esfera privada e doméstica, nestas sociedades não-ocidentais a religião pode se tornar o sítio e o recurso para a articulação de movimentos feministas nativos. Fora do Ocidente, o processo de diferenciação entre público e privado tem sido muitas vezes menos austero. Igualmente, a modernização tem sido muitas vezes tanto religiosa como um desenvolvimento secular. Isto significa que a religião não foi “privatizada” ou “domesticada” como no Ocidente, e, consequentemente, que as mulheres não tiveram que escolher entre religião (tradicional) e a entrada na vida pública. Pelo contrário, religião pode servir de mediador entre o privado e público de maneiras criativas (WOODHEAD, 2004).

De acordo com Maggie Humm (1945) e Rebecca Walker (1969), a história do feminismo pode e dever ser dividida em ondas, a primeira; a segunda e a terceira. Como já foi publicado aqui no Qg Feminista, “onda feminista foi um momento histórico de relevante efervescência militante e acadêmica onde determinadas pautas e questões das mulheres se insurgiram e dominaram o debate[3]”. De forma bem resumida: (1) primeira onda feminista foi no século XIX e início do século XX, (2) segunda onda foi na década de 1960 e 1970, e (3) terceira onda estende-se desde a década de 1990 para o presente. A teoria feminista surgiu em decorrência desses movimentos e manifesta-se em uma variedade de disciplinas como a geografia feminista, a história feminista e a crítica literária feminista. Durante grande parte de sua história, a maioria das teóricas feministas e líderes dos movimentos feministas eram predominantemente de classe média, mulheres brancas da Europa Ocidental e da América do Norte (Humm, 1990; Walker, 1992).

A primeira onda do feminismo se refere principalmente ao movimento pelo sufrágio universal (principalmente preocupadas com a emancipação). A segunda onda, em contraste com a primeira, traz inúmeros relatos de opressões que antes não eram nomeadas nem descritas, ao falar e encontrar definições para aquilo que afligiam as mulheres elas saiam do isolamento e adquiriam poder. Uma parte essencial do movimento feminista dessa época eram os “grupos de conscientização”, nos quais as mulheres conversavam sobre as suas experiências (Solnit, 2017). As feministas da terceira onda estão mais do que dispostas a acomodar a diversidade e a mudança. Elas estão particularmente ansiosas para entender as maneiras pelo qual gênero e outros tipos de opressão humana criam e mantêm umas as outras (Tong, 2009).

Voltando para o movimento feminista. A primeira onda que surgiu no contexto da sociedade industrial e da política liberal, mas está ligada ao movimento liberal dos direitos das mulheres e o início do feminismo socialista no final do século XIX e início do século XX nos Estados Unidos e na Europa, estava preocupada com o acesso a igualdade de oportunidades e foi caracterizada pela forte crítica as religiões institucionalizadas, que foram acusadas de promover a submissão das mulheres tanto num nível prático como no nível simbólico. Neste contexto, o feminismo histórico é principalmente anticlerical e rejeita a tradição religiosa como sendo parte da estrutura dominante (Woodhead, 2001). Por outro lado, os movimentos religiosos pelos direitos das mulheres também emergiam nos contextos religiosos, dentro do cristianismo, surgiu a Catholic Société des féministes chrétiennes e o Protestant Mouvement Jeunes Femmes, que estão na raiz da Teologia Feminista (Forcades, 2015; Stanton, 1895 e 1898).

O Protestant Mouvement Jeunes Femmes surgiu em 1946, quando algumas participantes afirmaram que gostariam de criar uma estrutura na qual as mulheres cristãs pudessem buscar a realização espiritual, dar apoio umas às outras e se esforçar para lidar com problemas específicos relacionados à sua situação. Uma questão importante, para aquele tempo, era a possibilidade de mulheres serem pastoras, a discussão veio à tona e em 1949, Elisabeth Schmidt liderou a primeira congregação. Outras mulheres também foram notáveis ​​por defender os valores intrínsecos de sua fé protestante e ao mesmo tempo defender os ideais feministas: Jeanne Lebrun, (1903–1996); Suzette Duflo, (1910–1983); Francine Dumas (1917–1988) e Christine Rigal. Seus principais temas de defesa foram: planejamento familiar, o desenvolvimento harmonioso do casal, o direito das mulheres para com o trabalho fora de casa, as mulheres assumindo responsabilidades na Igreja (CHAPERON, 2000).

Encontro do grupo Protestant Mouvement Jeunes Femmes.

A Teologia Feminista no ambiente eclesial trouxe questionamentos para as práticas estruturais vigentes no Cristianismo, tais como: a ocultação das mulheres na construção do discurso teológico; a hierarquização social de sexos; a apropriação masculina do sagrado; o controle das práticas, dos discursos, das crenças e das representações simbólicas por parte de um único sujeito — o masculino. Tais práticas foram, em parte, resultado do discurso teológico androcêntrico que apagou as mulheres da história e legitimou a sua ausência no centro da história patriarcal e da revelação bíblica. Nesse sentido, afirma-se que “o afastamento das mulheres da liderança e da teologia no espaço eclesial foi realizado por meio da domesticação da mulher sob autoridade masculina”. Hoje, encontramos uma vasta produção teológica que, amparada pelos estudos feministas e de gênero, tem contribuído significativamente na re-releitura das representações e dos discursos simbólicos que sustentaram o pensamento androcêntrico e legitimaram, tanto na sociedade como na Igreja, a subordinação das mulheres. (Fiorenza, 1995:9).

Na segunda onda do feminismo, nas sociedades Ocidentais do pós-guerra, percebe-se um feminismo intimamente ligado às vozes radicais das mulheres e ao direito diferencial. As feministas da segunda onda viram desigualdades culturais e políticas das mulheres tão inextricavelmente ligadas que encorajaram as mulheres a entender as facetas de suas vidas pessoais, tão profundamente politizadas e manifesta-las como estruturas de poder sexistas. Pensadora crítica feminista Carol Hanisch lançou vários proeminentes protestos durante o auge do feminismo radical. Foi ela quem criou a frase “O pessoal é político” em 1969, que se tornou sinônimo da segunda onda do feminismo. Durante as décadas de 1980 a 1990, ainda ocorreu o início da participação de mulheres de cor e do “Terceiro Mundo” (Gordon e Baxndall, 2005).

Nos anos 60 e 70, também em conexão com a chamada segunda onda do feminismo e a concretização dos direitos da mulher, houve um interesse crescente das formas de religiosidade que subverteram a hierarquia entre os gêneros ou que excluíam os homens, como alguns movimentos da New Age, crenças baseadas na Deusa da Terra e teorias baseadas em formulários do matriarcado e em um laço privilegiado entre mulheres e natureza. Isso não necessariamente tem a ver com a negação da religião, mas sim com o reconhecimento do valor adequado das formas de religiosidade — aquelas especialmente femininas (Woodhead, 2001) e dentro de religiões tradicionais (Saiving, 1979; McLaughin, 1975).

No seio das religiões tradicionais, textos sagrados começaram a tornar-se objeto de uma releitura crítica. A ministra protestante Brackenbury Crook (1964), por exemplo, ofereceu uma reanálise feminista da teologia e da Bíblia, enquanto a teóloga católica Elisabeth Schüssler Fiorenza (1983), uma das fundadoras do Journal of Feminist Studies in Religion, usou uma perspectiva feminista com um cunho político e hermenêutico em sua releitura de textos sagrados. Feminismo também é confrontado com a religião (Giorgi, 2016). Feminismos (por exemplo, o feminismo negro nos EUA) combinava ativismo político com forte religiosidade dentro de religiões tradicionais (Lorde, 1984; hooks, 1990). A este respeito, deve-se referir o desenvolvimento extremamente inspirador da teologia da mulher, com seu foco sobre a adoção da feminilidade preta e sua atenção para o papel da religião na experiência de mulheres negras (Walker, 1983).

Desafiando todas as versões do feminismo que os precederam, o pensamento feminista aumentou na diversidade durante o último quarto de século. Entre as questões de identidade que estão enfrentando, o surgimento e a crescente popularidade do feminismo pós-moderno e da terceira onda feminista empurra o pensamento para novos limites. Embora exista a recusa das feministas pós-modernas em desenvolver uma explicação abrangente e uma única solução para a opressão das mulheres — que coloca grandes problemas para a teoria feminista — esta recusa também adiciona combustível necessário para os incêndios feministas de pluralidade, multiplicidade e diferença. Feministas pós-modernas convidam cada mulher a se tornar o tipo de feminista que ela quer ser. Não existe uma única fórmula para ser uma “boa” feminista (Tong, 2009).

A partir da percepção da pluralidade da experiência das mulheres que começa a se defender que o feminismo tem que se basear ou de qualquer forma tocar na sua base, na variedade de histórias da vida real que as mulheres fornecem sobre elas mesmas. Desse movimento por inclusão no feminismo, as mulheres de cor, foram aquelas que mais levantaram a queixa do silenciamento e, principalmente, de serem incluídas em um universo que elas não escolheram e que não reconhecem. Elas vão defender um feminismo não imperialista que abra espaço real para as suas articulações, interpretações, reflexões e teoria, abandonando reinvindicações universais das mulheres, pelo simples fato dessa não ser a realidade de todas as mulheres (Spelman; Lugone, 2013).

O feminismo como um movimento social, político, econômico e intelectual tem sido definido de várias maneiras há mais de 200 anos. O consenso atual é que não há nenhum feminismo, mas, na verdade, muitas tradições dentro de um movimento maior dedicado à obtenção de capital para as mulheres (Boles, 1996). De forma bastante resumida, o feminismo, foi definido por bell hooks (1984) como um movimento para acabar com o sexismo, exploração sexista e opressão. Também se defendeu o feminismo como uma crença de que as mulheres e os homens são inerentemente de igual valor. Porque a maioria das sociedades privilegia homens como um grupo; os movimentos sociais são necessários para alcançar a igualdade entre mulheres e homens, com a compreensão que gênero sempre cruza com outras hierarquias sociais (Freedman, 2002).

É difícil trazer uma definição precisa do que é feminismo, pois o termo traduz todo um processo que tem origem no passado, que se constrói no presente e não tem um ponto de chegada. Como todo processo de transformação, contém contradições, recuos, avanços, alegrias e tristezas. O gênero é político porque contêm relações de poder, o feminismo rompe com a tradicional ideia do que é político está reservado apenas a esfera pública e uma neutralidade em relação ao espaço individual ou privado. O discurso feminista também aponta para o caráter subjetivo das opressões e revela laços existentes entre as relações pessoais e a esfera pública (Alves e Pitangy, 1985). Mas, de uma maneira geral, poderia se definir o feminismo como o movimento social que reivindica a melhoria das condições de vida das mulheres, e, para isso, almeja eliminar as desvantagens em relação ao status alcançado pelos homens ao longo da história. Ou talvez seria melhor dizer “feminismos”, uma vez que a pluralidade de abordagens é uma das características que esse trabalho busca respeitar (Lucena, 2012; Miguel e Biroli, 2014).

Debates entre feministas brancas e pretas e entre as feministas que falam de diferentes perspectivas ocidentais e coloniais, também contribuem para as múltiplas perspectivas dentro dos movimentos de mulheres (Nyhagen Predelli e Halsaa 2012). Em cada localidade, através do tempo, conectado com a realidade e necessidades das diferentes mulheres surgem movimentos, muitas vezes mais diversificados do que unidos. Pontuando apenas as ideologias feministas, particular ao movimento ocidental, vai-se encontrar diversos “feminismos”: as feministas liberais, radicais, culturais e marxista-socialistas, anarquistas, ecológicas, pós-coloniais, psicanalíticas, para citar só algumas. Apesar dos problemas que existem com a tentativa de categorizar ou enquadrar o pensamento feminista, exatamente pelo fato dessa matriz ser incrivelmente diversificada e ter várias grandes pensadoras no movimento, ainda assim, antigos rótulos existem e persistem até hoje. Esta lista de rótulos é incompleta e altamente contestável. No entanto, os rótulos sinalizam ao público que o feminismo não é uma ideologia monolítica e que todas as feministas não pensam da mesma forma. Os rótulos também ajudam a marcar a gama de diferentes abordagens, perspectivas, e estruturas de uma variedade das feministas e como elas explicam tanto a opressão das mulheres quanto as soluções propostas para sua eliminação (Tong, 2014).

Algumas mulheres vão insistir para que sua chance de sucesso na esfera pública seja igual a dos homens. A justiça de gênero, insisti as feministas liberais, em primeiro lugar, exigem que as regras do jogo sejam justas e, em segundo lugar, certificam-se de que nenhum dos competidores na corrida para a sociedade de bens e serviços esteja sistematicamente desfavorecido. Mas o programa feminista liberal é suficiente para desfazer completamente a opressão das mulheres? As feministas radicais, acham que não. Elas afirmam que o sistema patriarcal é caracterizado pelo poder, dominância, hierarquia e concorrência. E ele não pode ser reformado, mas deve ser arrancando pela raiz. Não são só as estruturas jurídicas e políticas patriarcais que devem ser derrubadas para a liberação das mulheres, suas instituições sociais e culturais (especialmente a religião organizada e família) também devem ser liquidadas (Tong, 1989).

Independentemente do rótulo, seja marxista, liberal, radical, religiosa um consenso parece gradualmente se acumular, entre pessoas com escolaridade, formuladores de políticas, redes de apoio de mulheres e indivíduos– e não apenas entre os círculos das pensadoras feministas — a violência baseada no gênero e tentativas de subordinação para “dominar” as mulheres existem em todas as sociedades, em todo o ciclo da vida e através de todas as clivagens socioeconômicas e culturais (Gill & Rehman 2004).

Saiba mais:

📌 Documentário: “Radical Grace” de Rebecca Parrish

“O amor é cego. A obediência não deve ser”. Este é slogan do documentário. A história é simples. Em 2009 o Vaticano resolveu endurecer as investigações em torno de um grupo de freiras americanas que seriam “feministas”. A ideia é garantir que elas permaneçam “na doutrina”. Entre as “investigadas” estão as “perigosíssimas” irmãs Simone Campbell, advogada devotada a causas sociais; Chris Schenk, que peregrina de igreja em igreja conscientizando fieis de que a Igreja Romana precisa “refletir o que Deus representa” e Jean Hughes, que se dedica a ex-presidiários.

📌 “Frente Evangélica pela Legalização do Aborto”

Frente de luta pelo direito das mulheres que afirma que existe, dentro das igrejas, enfrentamento a essa lógica de morte estabelecida pelo fundamentalismo.

Disponível em: www.facebook.com/frenteevangelicapelalegalizacaodoaborto/

📌 Grupo “Católicas pelo Direito de Decidir”

A organização foi fundada no Dia Internacional da Mulher de 1993. A ONG apoia-se na prática e teoria feministas para promover mudanças em nossa sociedade, especialmente nos padrões culturais e religiosos. As religiões são profundamente importantes na história, cultura e imaginário social, portanto influenciam nosso cotidiano, comportamento e decisões. Consideramos que as religiões devem ajudar as pessoas a terem uma vida digna e saudável, e não dificultar sua autonomia e liberdade, especialmente em relação à sexualidade e reprodução. Por isso, lutamos pela laicidade do Estado que deve ser livre da interferência religiosa na criação e condução das políticas públicas.

Disponível em: www.catolicasonline.org.br/

📌Podcast “O Nome Disso é Mundo”: ONDE Islã #009 — Feminismo Islâmico.

As lutas das mulheres é uma realidade nos países de maioria muçulmana: o feminismo islâmico existe e é uma das presenças nas comunidades muçulmanas de todo o mundo. A pesquisadora Cila Lima nos apresenta alguns dos resultados de suas pesquisas, identificando organizações não governamentais de feministas muçulmanas, suas lideranças e expoentes do movimento.

Disponível em: www.onomedissoemundo.com/2018/04/onde-isla-009-feminismo-islamico/

📌Plataforma: “Isla&Feminis”

Este recurso explora a relação do Islã com o feminismo ambos de uma perspectiva histórica e através da realidade diversa de várias mulheres muçulmanas hoje. Queremos destacar a gama de pensadores do Feminismo Islâmico, e evitar falas definitivas que levam a discussões polarizadas. Como uma das nossas contribuintes afirma, “feminismo não deveria ser um clube exclusivo; as ideias deveriam ser acessíveis a todos”.

Disponível em: www.islamandfeminism.org/

📌 TEDxTalks: A Feminist’s Choice to Wear the Hijab | Attiya Latif | TEDxUVA

O “Hijab” o lenço na cabeça utilizado por algumas mulheres muçulmanas, geralmente é associado com opressão feminina e silencio, mas porque mulheres que usam o “Hijab” não podem ser consideradas feministas?

Disponível em: www.youtube.com/watch?v=EtXBZ8wS1EQ

[1]Acessar o texto publicado no Qg Feminista “As ondas Feministas” disponível em:

[3] Acesse o texto do Qg Feminista “O que são as ondas feministas? https://medium.com/qg-feminista/o-que-s%C3%A3o-as-ondas-do-feminismo-eeed092dae3a


Aplauda! Clique em quantos aplausos (de 1 a 50) você acha que ele merece e deixe seu comentário!

Quer mais? Segue a gente:

Medium

Facebook

Twitter

QG Feminista

Feminismo em Revista

Duda Antonino

Written by

buceta ingovernável

QG Feminista

Feminismo em Revista

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade