Repensando sexo e gênero

(Parte 1/2)

Furiosa
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May 24, 2018 · 14 min read

Tradução do artigo de Christine Delphy

Do original Rethinking Sex and Gender. DELPHY, Christine. Women’s Studies Int. Forum, vol. 16, n. 1, pp. 1–9, 1993.

Até então, a maior parte dos trabalhos sobre gênero, inclusive a maioria do trabalho feminista sobre gênero, tem sido baseado em um pressuposto ignorado: que o sexo precede o gênero. Entretanto, apesar de esse pressuposto ser historicamente explicável, é teoricamente injustificável, e sua existência contínua está nos impedindo de avançar nas análises sobre gênero. Está nos impedindo de repensar o gênero de uma forma aberta e não enviesada. Ademais, essa falta de esclarecimento intelectual está inseparavelmente emaranhada às contradições políticas produzidas por nosso desejo como mulheres de escapar da dominação, por um lado; e ao nosso medo de que possamos perder o que parecem ser categorias sociais fundamentais, por outro lado.

O que é comum a esses impasses intelectuais e contradições políticas é uma inabilidade (ou uma recusa) de pensar rigorosamente sobre a relação entre divisão e hierarquia, uma vez que a questão da relação entre sexo e gênero não somente é paralela a essa questão, mas é, de fato, a própria questão ela mesma.

O que eu quero fazer aqui é argumentar que para entendermos a realidade, e portanto eventualmente para que tenhamos o poder de modificá-la, devemos estar preparadas para abandonar nossas certezas e para aceitar a dor (temporária) de uma crescente incerteza sobre o mundo. Ter a coragem de confrontar o desconhecido é uma pré-condição para a imaginação, e a capacidade de imaginar outro mundo é um elemento essencial do progresso científico. É certamente indispensável à minha análise.

DOS PAPÉIS SEXUAIS AO GÊNERO

A noção de gênero se desenvolveu a partir daquela dos papéis sexuais, e, correta ou incorretamente, a pessoa que leva o crédito por ser a “mãe” dessa linha de pensamento é Margaret Mead. Sinteticamente, é sua tese (Mead, 1935) de que a maioria das sociedades divide o universo de características humanas em dois, e atribui uma metade aos homens e a outra metade às mulheres. Para Mead, essa divisão é bem arbitrária, mas ela não a condena totalmente. Ela vê essa divisão como dotada de desvantagens, por exemplo, leva a alguns ‘desajustamentos’, em particular à homossexualidade. Mas, de forma geral, ela considera que essa divisão traz diversas vantagens para a sociedade, para a cultura e para a civilização.

A própria Mead não lida nem com a divisão sexual do trabalho nem com as diferenças de status de homens e de mulheres. No que lhe diz respeito, a divisão do trabalho é natural, e os poucos comentários que a autora faz sobre isso mostra que ela atribui [a divisão] aos diferentes papéis reprodutivos de mulheres e de homens e às diferenças de força física entre os sexos. Essas são, é claro, as razões “clássicas” tanto dentro do pensamento antropológico quanto dentro do pensamento de “senso comum” (incluindo o feminista). Mead também não questiona a hierarquia entre os sexos. Ela ou a ignora ou a considera legítima. Ela também não discute as diferenças prescritas entre os sexos, exceto dentro do domínio bastante limitado do ‘temperamento’ (sob cujo nome ela agrupa habilidades, aptidões, e personalidade emocional).

Por um longo tempo a análise de Mead das diferenças prescritas foi o tema principal na crítica aos papéis sexuais — uma crítica que adveio de uma preocupação em defender os direitos de os indivíduos expressarem suas individualidades livremente. Nesse processo, ficou implícito que traços “masculinos” e “femininos” juntos constituem e exaurem o todo das possibilidades humanas.

Apesar de a expressão ser frequentemente creditada a ela, a própria Mead raramente usa a expressão “papéis sexuais” porque ela de fato não estava preocupada com esses papéis, menos ainda com criticá-los. Sua preocupação era, antes, a análise e a crítica dos ‘temperamentos’ masculinos e femininos. Na verdade, a ideia de papéis sexuais foi desenvolvida criticamente dos anos 40 aos anos 60, ou seja, as décadas comumente consideradas como um período em que o feminismo estava “latente” — por meio do trabalho de Mirra Komarovsky (1950), Viola Klein e Alva Myrdal (Myrdal & Klein, 1956), e Andrée Michel (1959, 1960). Todas essas autoras trabalharam dentro de uma perspectiva sociológica Parsoniana, e entendiam o papel como o aspecto ativo de um status. Amplamente falando, ‘status’ era o equivalente ao nível de prestígio dentro da sociedade, e cada status tinha papéis cujos indivíduos tinham de preencher. Essa perspectiva é claramente sociológica no verdadeiro sentido da palavra: as situações e atividades das pessoas são forçadas a derivarem da estrutura social, ao invés de sua natureza ou de suas capacidades particulares.

Portanto, quando essas autoras falam dos ‘papéis’ das mulheres e dos homens elas já estavam dando um largo passo em direção à desnaturalização das ocupações e situações respectivas dos sexos. Sua abordagem não era totalmente oposta à abordagem antropológica de Mead, mas se desenvolveu de duas formas:

  1. Confirmaram o aspecto arbitrário da divisão de qualidades entre os sexos, dessa vez por uma imposição epistemológica, ou seja, pelo postulado de que todas as pessoas desempenham papéis;

À divisão de trabalho e a hierarquia entre homens e mulheres, então, começou a ser concedido um caráter cultural, enquanto Mead as considerava natural, e uma vez que são culturais e não naturais, as autoras enfatizaram seu caráter arbitrário. Em adição, uma vez que o conceito de papéis sexuais também emergiu dentro da estrutura conceitual de uma crítica feminista (mesmo que o termo ‘feminista’ não fosse explicitamente usado), essas autoras todas enfatizaram que como a posição das mulheres era socialmente determinada, ela é modificável. Apesar de os conceitos usados serem Parsonianos em sua origem, a teoria de Parson foi questionada assim como sua premissa de harmonia entre os sexos, e Andrée Michel particularmente criticou enfaticamente a contenção das mulheres dentro de papéis tradicionais, além da ideia de Parson de que isso era bom para as mulheres e para a sociedade.

A expressão ‘papéis sexuais’ então permaneceu sendo usada por bastante tempo, até o conceito de gênero, que derivou diretamente dela, apareceu no início dos anos 70.

Se pegarmos um dos primeiros trabalhos diretamente sobre ‘gênero’, “Sexo, Gênero e Sociedade” (Sex, Gender and Society), de Ann Oakley, publicado em 1972, nós encontraremos a seguinte definição:

‘Sexo’ é uma palavra que se refere às diferenças biológicas entre machos e fêmeas: as diferenças visíveis nas genitálias, a diferença relacionada na função reprodutiva. ‘Gênero’, por outro lado, é uma questão de cultura: refere-se à classificação social de ‘masculino’ e ‘feminino’. (Oakley, 1985, p. 16)

Este livro é dedicado parcialmente a uma narrativa crítica de pesquisas recentes sobre a psicologia diferencial dos sexos, sobre elementos inatos e adquiridos de diferenças de aptidão (‘talento’, na terminologia de Mead) e de atitude (‘temperamento’) entre homens e mulheres, e parcialmente a um relato do que a pesquisa antropológica pode nos ensinar sobre a divisão sexual do trabalho. De acordo com Oakley, as diferenças psicológicas entre os sexos são devidas ao condicionamento social, e não há pesquisa que nos permita inferir qualquer determinismo biológico. Ela também diz que enquanto uma divisão sexual do trabalho é universal, o conteúdo das tarefas ser considerado feminino ou masculino varia consideravelmente de acordo com a sociedade.

O uso de Oakley do conceito de gênero então cobre todas as diferenças estabelecidas entre homens e mulheres, sejam elas diferenças individuais (estudadas pela psicologia), ou papéis sociais ou representações culturais (estudadas pela sociologia e pela antropologia). Ainda, em seu trabalho o conceito de gênero cobre tudo que é variável e socialmente determinado — sendo a variabilidade a prova de que é social em sua origem. Ela diz que “A constância do sexo deve ser admitida, mas também a variabilidade do gênero” (1985, p. 16).

Mas uma coisa que falta à definição de Oakley, apesar de já ter estado presente nos trabalhos sobre papéis sexuais, e que se tornou central às posições feministas que foram subsequentemente desenvolvidas, é a assimetria (Hurtig & Pichevin, 1986) e a hierarquia (Delphy, 1981; Varikas, 1987) fundamentais entre os dois grupos, ou papéis, ou sexos, ou gêneros.

SEXO E GÊNERO

Com a chegada do conceito de gênero, três coisas se tornaram possíveis (o que não significa que aconteceram):

  1. Todas as diferenças entre os sexos que pareciam ser sociais e arbitrárias, independentemente se de fato variassem de acordo com a sociedade ou se eram meramente suscetíveis a mudanças, foram agrupadas em um conceito.

Uma vez que foram se acumulado estudos mostrando a arbitrariedade dos papéis sexuais e a falta de fundamento para os estereótipos em diversas áreas, a ideia de que o gênero é independente do sexo progrediu. Ou então, uma vez que é uma questão de conteúdo, a ideia de que os dois gêneros são independentes dos dois sexos progrediu, e os aspectos dos ‘papéis sexuais’ e situações sexuais que são reconhecidamente construídos socialmente ao invés de biologicamente determinados também tem crescido. A linha que divide o que é cultural e o que é social não foi colocada no mesmo lugar por todas as pessoas que trabalham na área, mas teria sido surpreendente se tivesse sido. É fato que a questão continua em aberto.

O que é problemático, entretanto, é que a discussão corrente sobre essa questão tem paradigmas epistemológicos e metodológicos presumidos que na verdade deveriam ter sido questionados. Nós continuamos a falar de gênero em termos de sexo; a vê-lo como uma dicotomia social determinada por uma dicotomia natural. Nós agora vemos o gênero como o conteúdo tendo o sexo como o recipiente. O conteúdo pode variar, e algumas pessoas consideram que deve variar, mas o recipiente é considerado como invariável por ser parte da natureza, e a natureza ‘não muda’. Além disso, parte da natureza do próprio sexo parece ser sua tendência a ter um conteúdo social ou a variar culturalmente. (!)

O que deveria ter acontecido, entretanto, é que reconhecer a independência dos gêneros para com os sexos deveria ter nos levado a questionar se o gênero é de fato independente do sexo. Mas essa questão não foi feita. Para a maioria das autoras e autores, a questão da relação entre o sexo e o gênero é simplesmente “que tipo de classificação social o sexo originou? É forte ou fraca, igual ou desigual?”. O que nunca perguntam é por que o sexo deveria originar qualquer forma de classificação social. Até a questão neutra de “nós temos aqui duas variáveis, duas distribuições, que se coincidem totalmente. Como podemos explicar essa covariância?” não é considerada.

A resposta é sempre: o sexo vem primeiro, cronologicamente, e, portanto, logicamente — apesar de nunca ser explicado por que deveria ser assim. Na verdade, se essa precedência é ou não explicada não faz muita diferença. O próprio fato de sugerir ou de admitir a precedência do sexo, mesmo que implicitamente, leva a pessoa a se localizar, objetivamente, e uma teoria em que o sexo causa, ou explica, o gênero. E a teoria de que o sexo causa o gênero, mesmo que não determine as formas exatas que as divisões de gênero assumem, pode derivar apenas de duas linhas lógicas de raciocínio:

  1. Na primeira linha de raciocínio, o sexo biológico, e particularmente as diferentes funções na reprodução entre machos e fêmeas que ele provoca, necessariamente leva a uma divisão mínima do trabalho.
    Eu incluiria nessa linha de raciocínio, com suas premissas naturalistas, a maior parte das narrativas antropológicas contemporâneas, tanto feministas quanto patriarcais, de George Murdock (1949) a Martha Moia (1981) passando por Gayle Rubin (1975) [com apenas algumas exceções notáveis, como Mathieu (1991) e Tabet (1982)]. Falha em explicar satisfatoriamente: (a) a natureza e a razão natural para a primeira divisão do trabalho; e (b) as razões para ter se estendido a todos os campos da atividade, ou seja, por que não é limitado ao domínio da reprodução. Falha, portanto, em explicar o gênero para além de suposições que, antes, reintroduzem um ou mais elementos que deveriam depois explicar.

Eu chamo essa última linha de raciocínio de “cognitivista”, não por ser particularmente defendida pelos “Cognitivistas” mas por presumir alguns pré-requisitos da cognição humana. A versão acadêmica mais conhecida dessas teorias é a de Lévi-Strauss, que, por não ter sido psicólogo, baseou toda sua análise das relações de parentesco e (por extensão) das sociedades humanas em uma necessidade irrepreensível e pré-social (portanto psicológica) dos humanos de dividir tudo em dois (e, então, em múltiplos de dois). Lévi-Strauss (1969) foi muito influenciado por linguistas, particularmente pela fonologia de Saussure (1959), e ele idealizou, por uma construção análoga, o que as ciências sociais chamam de “estruturalismo”.

Uma versão mais recente dessa tese foi apresentada por Derrida (1976) e seus pupilos, que defendem que as coisas só podem ser distinguidas por oposição a outras coisas. Entretanto, enquanto Saussure se preocupa puramente com estruturas linguísticas, Derrida e seus pupilos querem tirar conclusões filosóficas sobre a importância da “diferença” (différance). Essas conclusões elas mesmas incorporam pressupostos sobre as condições para a possibilidade de conhecimento humano, portanto sobre o espírito humano, que são muitos similares àqueles de Lévi-Strauss. A teoria de Saussure não tinha tais ambições, e sua validade em seu próprio campo de referência — a linguística — não deveria ser tomada como uma garantia de sua aplicabilidade em outros campos. Podemos concordar que as coisas só podem ser conhecidas por distinção e portanto por diferenciação, mas essas diferenciações podem ser, e muitas vezes são, múltiplas. Ao lado de repolhos e de cenouras, que não são ‘opostos’ um do outro, há abobrinhas, melões, e batatas. Além disso, distinções não são necessariamente hierárquicas: vegetais não são colocados em uma escala de valor. De fato, são muitas vezes usados como um aviso contra qualquer tentativa de hierarquização: É proibido comparar (ou tentar somar) repolhos com cenouras. São imensuráveis. Portanto, não podem ser avaliados em termos de serem mais ou menos, ou melhores ou piores do que o outro.

Aqueles que aderem à tese de Derrida portanto falham em distinguir entre as diferenças em que a linguagem é baseada e as diferenças nas estruturas sociais. As características da cognição, no limite em que podem ser reduzidas às características da linguagem, não explicam a hierarquia social. Isso lhes é externo. Não podem, portanto, dar conta do gênero — ou só podem fazê-lo com o custo de abandonar a hierarquia enquanto um elemento constitutivo do gênero.

Portanto, nenhuma das duas linhas de raciocínio que poderiam justificar uma relação causal entre sexo e gênero é satisfatória. O pressuposto de que existe tal relação de causa permanece, portanto, dessa forma: como pressuposto.

Mas se formos pensar sobre gênero, ou sobre qualquer coisa que seja, devemos abandonar o domínio dos pressupostos. Para pensar sobre gênero, devemos repensar a questão de sua relação com o sexo, e para pensar nisso devemos em primeiro lugar, de fato, fazer a pergunta. Devemos abandonar a noção de que já sabemos a resposta. Devemos não só admitir, mas também explorar, duas outras hipóteses:

  1. Que a coincidência estatística entre sexo e gênero é só isso, uma coincidência. A correlação se deve ao acaso.
    Essa hipótese é, entretanto, insustentável, porque a distribuição é tal que a coincidência entre o suposto sexo biológico e o gênero é ‘estatisticamente significante’. É mais forte que qualquer correlação poderia ser ao acaso.

O valor simbólico do sexo certamente não escapou aos teóricos da psicanálise. Mas o que lhes escapou totalmente é que isso deveria ser uma de suas conclusões finais de uma longa progressão; deveria ser o ponto de chegada, e não o ponto de partida. Infelizmente, esse ponto cego é compartilhado por ambas feministas e psicanalistas.

Uma vez que a sociedade localiza o signo que separa os dominantes dos dominados na zona dos traços físicos, mais duas observações precisam ser feitas:

  1. O marcador não se encontra em estado puro, pronto para ser usado.
    Como Hurtig e Pichevin (1986) demonstraram, biólogos veem o sexo como feito de diversos indicadores que são mais ou menos correlacionados uns com os outros, e a maioria são variáveis contínuas (ocorrem em níveis variáveis). Então para que o sexo seja usado como uma classificação dicotômica, os indicadores devem ser reduzidos a apenas um. E como Hurtig e Pichevin (1985) também dizem, essa redução ‘é um ato social’.

Vale a pena fazer uma pausa aqui, porque os ‘cognitivistas’ pensam que o sexo é um ‘traço proeminente’ porque pensam que o sexo físico é fortemente relacionado a diferenças funcionais, e porque presumem que o resto da humanidade compartilha desse “conhecimento”. Mas só pensam que o sexo biológico é uma “percepção espontânea” da humanidade porque eles mesmos estão convencidos de que é um traço natural que ninguém poderia ignorar. Para eles, é autoevidente que existem dois, e apenas dois, sexos, e que essa dicotomia se cruza perfeitamente com a divisão entre gestores e não-gestores potenciais de crianças.

Tentar questionar esses ‘fatos’ é realmente tentar quebrar um dos paradigmas mais fortes de nossa percepção do mundo.

Devemos portanto adicionar à hipótese de que o gênero precede o sexo a seguinte pergunta: Quando conectamos gênero e sexo, estamos comparando algo social com algo natural, ou estamos comparando algo social com algo que também é social (no caso, a forma como dada sociedade representa a ‘biologia’ para ela mesma)?

Alguém poderia pensar que isso logicamente teria sido uma das primeiras perguntas a terem sido feitas, e é sem dúvida a razão por que algumas feministas francesas (por ex., Guillaumin, 1982, 1985; Mathieu, 1980; e Wittig, 1992) são contra o uso do termo “gênero”. Elas acreditam que o termo reforça a ideia de que o próprio “sexo” é puramente natural. Entretanto, não usar o conceito de gênero não significa que assim se diretamente questiona o caráter natural do sexo. Então economizar o uso do conceito de gênero não me parece a melhor forma de progredir.

‘Sexo’ denota e conota algo natural. Não é possível, portanto, questionar o ‘sexo’ de cara, de uma vez, uma vez que fazer isso envolve uma contradição de termos (‘naturalidade’ é uma parte integral da definição do termo). Devemos primeiro demonstrar que ‘sexo’ é aplicado a divisões e distinções que são sociais. Então devemos não só separar o social de seu termo original, que permanece definido por sua naturalidade, mas também fazer o social emergir. É isso que as noções de ‘papéis sexuais’ e depois ‘gênero’ fizeram. Apenas quando a ‘parte social’ é claramente estabelecida como social, quando tem um nome próprio (seja ele ‘papel sexual’ ou ‘gênero’), somente então podemos voltar à ideia do começo. Primeiro precisamos definir reivindicar um território para o social, tendo uma localização conceitual diferente daquela de sexo mas amarrada ao senso tradicional da palavra ‘sexo’, para que sejamos capazes, a partir dessa localização estratégia, de desafiar o significado tradicional de ‘sexo’.

Para finalizar essa seção, eu diria que só podemos avançar em nosso conhecimento se inicialmente aumentarmos nosso desconhecimento: se estendermos as áreas que são nubladas e indeterminadas. Para avançar, precisamos renunciar a algumas verdades. Essas ‘verdades’ nos fazem sentir confortáveis, assim como todas as certezas, mas nos impedem de fazer perguntas — e fazer perguntas é o jeito mais certeiro, se não o único, de conseguir respostas.


Notas de rodapé

[1] Ver, por exemplo, Archer & Lloyd (1985), que dizem que o gênero continuará porque é uma ‘maneira prática de classificar as pessoas’.

[2] Este é ‘o árbitro final’ da classificação sexual dicotômica, de acordo com Money e Ehrhardt (1972, citado por Hurtig & Pichevin, 1985)


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