Sapataria Radical
Aug 12, 2016 · 6 min read
“FEMINISMO é a teoria; LESBIANISMO é a prática”

Das mazelas que a vivência heterossexual me trouxe, a culpa é a que mais me aterroriza. Às vezes tenho a impressão de que nunca vou me livrar dela. Por mais que eu tome cada vez mais consciência do quão violento foi me relacionar com homens, por mais que eu reconheça de novo e de novo em minha mente que eu era apenas uma menina, eu me culpo. Eu não me sinto merecedora da lesbianidade. Eu tenho nojo de mim. Preciso me lembrar, várias vezes por dia, dessas novas resoluções que me aliviam por alguns momentos, pra conseguir sobreviver. Lésbica. Lésbica, lésbica, lésbica. É isso que eu sou, por mais que a culpa me confunda de quando em quando.

Eu já sentia necessidade de validação masculina muito antes de sequer saber o que era atração sexual. A primeira vez que eu senti o que eu li como atração por um homem, foi numa matinê, aos doze anos, quando uma amiga minha — um pouco mais velha — beijou o garoto considerado o mais bonito da escola. Eu ainda não tinha beijado ninguém, e o que mais me incomodava nisso não era não saber como é um beijo; era a possibilidade de isso significar que ninguém queria me beijar. Eu fiquei observando minha amiga, e senti pela primeira vez esse gancho na boca do meu estômago, essa ansiedade inexplicável, a vontade de chorar sem saber nem pelo quê. Depois, eu cheguei à conclusão de que era ciúmes, e que eu devia estar apaixonada pelo garoto. Hoje as coisas estão muito mais claras. Eu queria ser a minha amiga. Queria ser alguém que o garoto mais bonito da escola queria beijar. Queria me sentir bonita.

Parece simplório, mas isso resume o que foi minha vida enquanto achei que me atraía por homens. Sexo pra mim era como assistir pornografia, só que a atriz era eu mesma. As poucas vezes que senti prazer estando com um homem, ele veio da fetichização da minha pessoa enquanto figura feminina desejável, sendo o que se chamaria de “boa de cama”. Sexo era o auge da minha afirmação enquanto pessoa, o momento em que minha insegurança diminuía, que eu sentia que possuía algum valor.

Eu me encaixei em vários estereótipos, buscando o que era mais “empoderador”. A que gosta de sexo violento. A que fala das energias que são trocadas durante o sexo. A que faz coisas que outras mulheres não fazem. A que sente prazer só de olhar para o corpo de um homem. Eu fui todas essas mulheres, e concretizar essas fantasias alimentava minha auto-estima, ainda que por um mínimo espaço de tempo. O liberalismo do movimento dito feminista ao qual tive acesso nessa época potencializou essas situações, porque não falava sobre dizer não, não falava sobre amadurecer antes de começar a exercer sua sexualidade, não falava sobre cuidado.

Eu quero deixar o mais claro possível o quanto isso é grave. O quanto o conceito pessimamente aplicado de empoderamento trouxe consequências seríssimas para a minha vida e de outras mulheres. Algumas delas não tem volta.

Eu engravidei, uma vez. Aos dezessete anos, ano em que fui para outra cidade para estudar. Eu estava num relacionamento extremamente abusivo, e não recebi nenhum apoio. Essa gravidez indesejada — e a culpabilização que sofri daquele que eu achava que me amava — não se encaixava nas minhas fantasias. Eu, que me considerava tão empoderada, não consegui tomar nenhuma atitude sobre isso. Eu só continuei vivendo, em pânico, mas fingindo que nada estava acontecendo, fingindo até pra mim mesma. Parei de comer. Eventualmente, parei de sair de casa. E bebia. O tempo inteiro.

Abortei espontaneamente no segundo mês. Não pedi ajuda a ninguém. Eu morava sozinha, e passei um fim de semana achando que ia morrer, e não dando a mínima pra essa possibilidade. Vomitei e desmaiei de dor. Segurei os coágulos que saíam de mim entre minhas mãos, me culpando, me sentindo a pior pessoa do mundo. Quatro anos depois, tomei um alucinógeno numa festa, e revi esses coágulos, dessa vez pretos, e enormes, aterrorizantes. De vez em quando eu ainda sonho com todo o sangue. Um aborto deveria ser só um aborto, e eu fico feliz que meu corpo tenha dado conta do que eu não consegui me movimentar pra fazer. Mas a sociedade patriarcal fez disso um trauma, e desse trauma veio a culpa.

Afora isso, foram inúmeras as sequelas para a minha saúde física; o sexo heterossexual gira em torno da penetração, idealizada, fetichizada, sem camisinha. Lembro de pedir pra virar de costas para meus “parceiros” sexuais para que eles não vissem minha cara de dor, quando meu colo do útero era machucado, de novo e de novo. Cauterizei mais feridas do que me lembro. Tenho duas DSTs que não tem cura. Também me culpo por elas, pela minha irresponsabilidade, pela displicência com a qual tratei meu corpo, pela inocência de acreditar que tinha maturidade suficiente para saber o que eu queria e o que diabos eu estava fazendo.

Eu lidaria muito mais facilmente com todas essas coisas se as sequelas psicológicas não fossem tão avassaladoras. Da mesma forma que pornografia vicia, e que isso não tem relação com a nossa sexualidade, eu viciei em penetração. Eu nunca senti nada remotamente parecido com prazer com sexo penetrativo. Acredito que meu inconsciente fez conexões bizarras entre fatos não relacionados, porque eu não vejo outra explicação para a necessidade que eu sentia e sinto de ser penetrada às vezes. E isso não tem nada a ver com sexo. Isso é pura violência masculina gravada a fogo no meu corpo. E eu sinto que isso macula tudo que eu toco. Que essas sensações são um borrão na minha essência, em quem eu sou, uma anomalia defeituosa. Eu sinto asco.

O processo de me assumir lésbica foi exaustivo e doloroso. Demorei um ano inteiro desde que me percebi lésbica pra me aceitar e por final me afirmar para o mundo. Eu tive medo, porque não me senti merecedora. Eu ainda tenho medo. Porque por mais que a teoria me tranquilize de que não é minha culpa por alguns momentos, a relativização me invade, e eu duvido de mim. E eu reconheço essa dúvida em outras pessoas. Mulheres, lésbicas, feministas. Eu reconheço a desconfiança involuntária que elas sentem porque eu também sinto, e isso é mais doloroso do que eu consigo escrever aqui.

A sociedade não legitima a lesbianidade, e para algumas mulheres isso atrasa o processo de entender a sua sexualidade de forma extremamente nociva, como aconteceu comigo. Como eu queria que alguém tivesse me dito pra ter cuidado — que me garantisse que eu não estava sendo julgada, que não estava tendo minha liberdade cerceada, mas que no futuro eu me arrependeria de tanta coisa, porque não tem volta. Os pesadelos, os flashbacks, as crises de ansiedade, de despersonalização, o transtorno de estresse pós-traumático — essas coisas todas são sequelas com as quais terei que conviver pra sempre por conta da compulsoriedade da vivência heterossexual. São coisas que mancham a plenitude do que vivo hoje, num relacionamento saudável com a mulher que eu amo. E o pior de tudo é que eu me odeio por elas.

Escrevo esse texto mais pra mim mesma do que qualquer outra coisa. Pra me lembrar, quando for necessário, de que não é justo eu me odiar pelas sequelas do que me foi infligido. É como uma estaca que finco para os momentos em que minha cabeça vira uma tempestade de dor, algo pra me agarrar; uma outra eu me dizendo, com convicção, que não é minha culpa. Que está tudo bem acordar no meio da noite chorando e precisar de carinho. Que está tudo bem ter um flashback de violência no meio do sexo — mesmo que esse sexo seja diferente, seja a prática exacerbada do amor que me transborda — e que isso não suja quem nós somos. Pelo contrário, cada vez que ela me toca com carinho, cada vez que pressiono seu corpo no meu como se nunca estivéssemos perto o suficiente, é como se ela me limpasse. É como se nosso amor fosse transformando cicatriz por cicatriz em pele nova. E tudo bem se eu ainda precisar de muito tempo pra que todo o meu corpo esteja curado. Tudo bem se algumas delas nunca se curem. O que importa é que não é minha culpa.

E que nada do que eu vivi nessa sociedade patriarcal faz de mim menos lésbica. Porque compulsoriedade não é consentimento, necessidade de validação não é atração sexual, e esse amor que hoje eu sinto é diametralmente oposto a qualquer sentimento que já nutri por qualquer homem. Estar com ela me emociona. Às vezes eu caio no choro quando me dou conta de que cheguei até aqui. Quebrada, frágil, traumatizada, doente. Mas cheguei.

Seguirei resistindo.


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