Ser uma adolescente negra pode matar-te por dentro

Como o racismo estrutural adoece meninas pretas

Imagem retirada da Internet

A discriminação na minha adolescência foi de várias partes e por vários motivos, por eu ser negra, lésbica e feminista! Eu queria dormir e não acordar mais, sabe? Ou só quando isso tudo tivesse passado, e todos os dias eu me perguntava, muitas vezes até me culpava daquilo tudo estar acontecendo.” — D. S. (entrevistada)

De todos os períodos os quais experienciamos ao longo da vida, a adolescência demarca-se enquanto um divisor de águas. Nossas relações abruptamente deixam de limitar-se à família, aos cuidadores ou à escola e expandem-se para o mundo. Um mundo que em nada é acolhedor para com mulheres, sobretudo, negras. Conflitos a respeito do corpo, personalidade e preferências pessoais são de praxe, porém, em uma sociedade completamente adoecida, onde tudo transforma-se em um campo minado de sexualização precoce, indústria da moda, do entretenimento, pornográfica e farmacêutica, as adolescentes são postas em fogo cruzado, a receber bombardeios constantemente. Alinhando tais vivências ao racismo estrutural, adolescentes negras são submetidas à situações específicas que acabam por afetar negativamente seu processo de desenvolvimento.

Do porquê a adolescência negra e branca são diferentes

A socialização de mulheres negras e brancas, em uma sociedade segmentada pela hierarquia racial, é completamente diferente. Historicamente, em Brasil, mulheres negras são empurradas para um amadurecimento precoce em diversos segmentos sociais. Algumas, sendo maioria em comunidades periféricas e dividindo este posto com mestiças e indígenas em comunidades ribeirinhas, quilombolas e interioranas, iniciam-se em variados trabalhos mal remunerados, são preparadas para contribuir no sustento da família e instruídas a tornar-se “donas de casa”, precocemente. Mesmo quando oriundas de famílias em classe social favorável, mulheres negras ainda vivenciam processos que forçam-nas a incorporar um amadurecimento precoce. Para além disto, tais fatores levam a ratificação de um dos mitos a rondar meninas pretas: a mulher madura.

Tal mito, faz-se presente em comunidades e repete-se igualmente nas grandes cidades do país, apesar de apresentar nuances diferenciadas. Por um lado, a mulher madura não manifesta-se somente na aquisição de maiores responsabilidades, mas também, na rápida divisória entre a infância e adolescência na qual meninas negras são inseridas. Comumente relacionadas ao mito da “força” e “promiscuidade”, tais garotas são incentivadas a deixar comportamentos infantis e incorporar um papel “amadurecido” ainda em idade infantil. Pesquisas comprovam que uma parte da sociedade considera meninas negras “menos inocentes”, em relação a brancas de mesma idade. Desde a infância, mulheres negras são alvo de maiores desconfianças, maus tratos e até mesmo, sofrem mais punições.

Desde bebês, as crianças negras são mais punidas do que as crianças brancas, recebem apelidos depreciativos e, nas situações de conflito, são as preteridas ou as culpadas.

Ellen de Lima Souza, pedagoga, mestre, doutoranda e diretora do Itesa (Instituto de Tecnologia, Especialização e Aprimoramento Profissional).

Tal ótica replica-se na adolescência. A sociedade espera das garotas negras a performance de estereótipos relacionados à brutalidade, promiscuidade e ignorância. Esses mesmos, fazem-nas vivenciar uma condição de sufocamento. Há o desejo por desenvolver sua personalidade e subjetividades, porém, a todo momento, vêem-se impelidas a incorporar alguns desses estereótipos, ainda para que tornem-se menos excluídas dos círculos sociais. O racismo manifesta-se de forma violenta nas fases iniciais da vida, quando mais deseja-se o convívio social. Pois, nesses momentos, toma-se a consciência da disparidade de tratamentos oferecidos à brancas, mestiças e negras.

No início da adolescência, lá pelos 13/14 anos eu percebia que os meninos me cumprimentavam diferente em relação às minhas amigas. Eles davam beijinhos nos rostos delas e para mim era sempre um aperto de mão.” — K. S. (entrevistada)

Comumente alvo de comentários pejorativos, atrelados à construção social de uma feminilidade que em nada inclui fenótipos para além do branco, meninas negras crescem, por vezes, cultivando imenso ódio por suas características físicas. Cabelos crespos, narizes largos e lábios volumosos, tornam-se seus algozes. Nesta fase, poucas conseguem relacionar o ódio recebido, ao racismo, mas sim, acabam por conceber tratar-se de um problema inerente à elas. “A culpa é nossa, por sermos tão escuras ou possuirmos cabelos tão crespos. Por sermos mais altas ou mais gordas, por termos corpos tão avantajados ou musculosos”.

A construção social da feminilidade, dá-se no interior de uma ideologia fomentada pelo patriarcado para aprisionar a fêmea branca. Feminilidade tal qual a conhecemos, jamais tratou-se de um conceito interessado em abarcar vivências de mulheres negras. O padrão de opressão é branco, assim sendo, pretas são duplamente extirpadas, para que nele caibam. Nossa repressão tece-se por vias diferenciadas. A questão estética, extremamente relacionada à maquiagens, pele clara, delicadeza, passividade e amabilidade exacerbadas, em nós, são substituídas por maternidade e heterossexualidade compulsória, complexos de servidão e inferioridade, sob uma perspectiva de exploração dos corpos, não somente por conta do sexo, mas também, da raça. Essa sociedade erotiza-nos e coloniza-nos duplamente.

Pesquisa relacionada às capas de revistas teen e femininas ao longo das décadas. Como pode-se perceber, há a vigência de uma hiper-representação branca, estereotipada e elitizada. Basicamente, não há resultados para capas de revistas com a presença de mulheres e adolescentes negras.

O repúdio ao corpo negro ainda na adolescência, manifesta-se principalmente através das representações midiáticas e sociais do adolescente. Em revistas, filmes, séries e até mesmo pesquisas digitais guiadas por algoritmos, o adolescente a ser representado é majoritariamente branco. As vivências expressas em revistas ou sites teen, eram tão somente relacionadas a um cenário excludente, onde as vozes de garotas negras não soavam mais do que simples ecos. Nesta sociedade capitalista, consumista e hiper-conectada, não estar largamente retratado em veículos midiáticos, eletrônicos e sociais, transmite uma única mensagem: você não existe, ou ao menos, não deveria existir.

Socialização, sentimentos e saúde mental

O processo de socialização das fêmeas humanas, submete-nos à padrões, estereótipos, conceitos e vivências extirpadoras, doentias e repressivas. Como é de conhecimento, tais processos influenciam negativamente a saúde mental das mulheres em sociedade. Porém, pesquisas comprovam que a vivência da repressão patriarcal aliada ao racismo, pode transformar este cenário em uma intensa tortura psicológica. Recentes estatísticas acerca de suicídios em Brasil, levam-nos a um número de ocorrências maior entre jovens negros, em especial, adolescentes do sexo feminino:

A cada 10 suicídios envolvendo adolescentes e jovens seis ocorreram em negros. No sexo feminino, o risco de suicídio nas adolescentes e jovens negras foi até 36% maior do que nas brancas.
Fonte: Parceria para reduzir índice de suicídio na população negra

A saúde mental de jovens mulheres negras é negligenciada desde sua base. A precariedade democrática e ausência de políticas públicas para facilitar seu acesso à cuidados psicológicos e psiquiátricos, maximizado por uma cultura que além de reprimi-las, ainda desconsidera questões íntimas e mentais, acaba por levá-las a um maior aprofundamento em patologias psiquiátricas, dentre elas, os transtornos alimentares, depressão e TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada).

Ser continuamente associada à estereótipos racistas, também mina um campo extremamente explorado na adolescência: a sexualidade. Se a adolescente branca é sexualizada nos parâmetros de “ninfeta”, “pura”, a “despertar o desejo” dos homens, adolescentes negras são sexualizadas sob um viés contrário, por serem classificadas enquanto “negrinhas promíscuas”, “sujas” e “oferecidas”. Neste ponto, cabe salientar que crianças e adolescentes negras encabeçam as estatísticas de vítimas de pedofilia e estupro na sociedade brasileira. Meninas pretas estão mais vulneráveis à abusos, exploração sexual e gravidez precoce, nessa sociedade onde a teia patriarcal estende-se às questões de raça e classe.

Adolescentes negras vivenciam a dualidade dos estereótipos racistas relacionados ao sexo. Há a faceta hipersexualizadora, como também, um viés dessexualizador por parte daqueles de mesma idade. Os relatos de rejeições na adolescência, ser sempre escolhida a “mais feia” da turma ou a última a namorar, são constantes nas vivências de mulheres negras. Ao passo de que são cobiçadas ao extremo desde o despontar dos seios, são preteridas ao máximo em espaços onde o cerne não é a exploração, mas sim, amor ou respeito. Durante séculos, mulheres pretas não foram vistas como dignas de amor. Em uma fase da vida onde tudo o que almejamos é a aceitação e integração à um grupo, tal rejeição pode tornar-se fatal.

“Não está belo em mim, não sou branca”

Se adolescentes brancas são perseguidas arduamente pelo mito da beleza(*), poderíamos teorizar que as negras são perseguidas pelo mito da não-beleza(*). A feminilidade enquanto construção sócio-histórica, patriarcal e capitalista, utiliza subterfúgios das características tipicamente associadas às mulheres caucasianas, para exercer sobre as mesmas, o seu jugo. Em nossa sociedade, arquitetada após longos processos de colonização, não somente física, como também cultural e ideológica, a mulher negra, em suas características africanas, fora alocada na outra extremidade. Tornando-se assim: a não-mulher. Seus traços físicos, culturais e subjetivos, em nada alocam-se nos padrões da feminilidade. Assim sendo, o processo no qual tais mulheres tentam incluir-se nesse padrão, desde a adolescência, torna-se duplamente extirpador e embebido em racismo.

Até os 16 anos eu achava que não podia usar cordão de ouro fininho delicado porque só ficava realmente bonito em mina branca porque elas eram mais “delicadas”.” — G. I.

Eu achava que cabelo grande era só pra quem tinha cabelo liso, porque igual o meu era sujo.” — B. A.

Eu não tinha nem coragem de furar meu nariz porque achava que meu nariz não era fino e delicado o suficiente pra isso.” — T. P.

Eu não pintava a unha com esmaltes coloridinhos porque achava que só combinava nas meninas brancas.” — I. D.

Eu achava que não ficava bem de (sic)cardigã porque era muito grosseira. Tentei deixar a unha crescer pra ficar menos agressiva. Até perguntei pras brancas da escola como fazia pra ser mais delicada.” — F. N.

Eu não usava roupa aparecendo sutiã porque achava que só ficava bonito em meninas brancas e em mim ficaria muito desleixado (até hoje isso permanece porém comecei a usar).” — M. L.

Comprei um óculos dourado de armação fina porque vi em brancas pensando que ia ficar deixado em mim como fica nelas, porém me olho no espelho e me vejo suja e grosseira de certa forma, não sei explicar.” — T. M.

Mulheres negras são submetidas a esse “não-lugar” na feminilidade, através de processos puramente sociais, culturais, religiosos e familiares. Ser socializada enquanto mulher, nos moldes desta feminilidade, é cruel e adoecedor. Porém, ser uma fêmea humana e não conseguir ou ser permitida a encaixar-se nesses moldes, joga-nos em um espaço de subalternidade ainda maior. Quando adolescentes, tal processo desenvolve em nós complexos dos quais dificilmente livrar-no-emos. As perspectivas da negritude são alocadas no patamar mais sujo e socialmente indesejável, levando adolescentes negras a tentar afastar-se de tudo o que expressa e demarca sua negritude, desejando imergir em um mundo branco, feminilizado e branco.

Conclusão

Quando adolescentes, desejamos a descoberta do mundo. Ávidos, buscamos incessantemente por acolhimento, auto-identificação, satisfações pessoais e… amor. As vivências relatadas por mulheres negras, em uma perspectiva estrutural e de classe, demonstram-nos as diferentes nuances criadas pela opressão patriarcal aliada ao racismo. Em nossas subjetividades, o racismo estrutural adoece-nos e mata, vivenciamos a opressão e desenvolvimento, de maneiras diferenciadas. Por conta disso, a implementação de espaços étnico-inclusivos e étnico-centrados para mulheres negras, possui uma enorme importância. Tal modificação, estende-se não apenas sobre o viés social, como também, deve alocar-se no próprio feminismo.Carecemos de compreender os mecanismos e variantes destas opressões, para que possamos desenvolver represálias, cuidados e alternativas às vivências traumáticas de adolescentes negras em Brasil.

Arte por: “Gregg DeGroat”

(*) O mito da beleza trata-se do emaranhado de estereótipos sócio-culturais e históricos fomentados pelo sistema patriarcal acerca das concepções do belo e como esta mesma agiria sobre as mulheres. Catalogando-as e hierarquizando-as.

(*) O mito da “não-beleza” trata-se de um termo cunhado por mim para exemplificar a exclusão de mulheres racializadas, em especial, negras, dos conceitos pré-estabelecidos de feminilidade, delicadeza e mulheridade.


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