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Seu feminismo apoia as mulheres vulneráveis?

Existe uma grande desinformação sobre assuntos que afetam as mulheres em todas as formas e aspectos. Há desinformação sobre os corpos femininos, por exemplo. Os livros de ginecologia, de acordo com Jessica Pin, ainda não publicam a descrição completa da vulva. A endometriose afeta milhares de mulheres todos os anos, causando sangramento ou menstruação de alto fluxo, mas o diagnóstico pode levar entre cinco a dez anos para ser finalizado. Uma pesquisa americana da empresa Intimina em 2020 revelou que uma em cada quatro mulheres não sabe identificar todos os elementos da genitália feminina, com 46% delas sem saber o que é o colo do útero ou onde fica. Menopausa, menstruação e amamentação são estigmatizadas, e faltam estudos científicos para saber como seria possível aliviar os sintomas que afligem as mulheres nessas condições.

Há desinformação sobre o movimento feminista. Pouca gente sabe que o feminismo é, na verdade, um movimento pela libertação das mulheres, pela sua falta de autonomia corporal quanto à sua capacidade reprodutiva, e a falta de representação política e de independência financeira, que deixa as mulheres à mercê do patriarcado para serem exploradas. Fala-se de “feminismos”, como se o feminismo fosse uma escolha individual, sendo que escolha é algo que as mulheres absolutamente não têm dentro de sociedades patriarcais. Fala-se que o feminismo é a luta pela igualdade das mulheres, mas as mulheres não estão lutando para ser iguais aos homens na maneira em que eles exploram o mundo, mas sim para ter direito aos mesmos recursos, oportunidades, representação e liberdade que os homens têm. Fala-se que o feminismo é a luta pelos direitos das mulheres, mas os direitos das mulheres são sempre questionados quando elas levantam sua voz para reparar a injustiça histórica a que estão submetidas por centenas de anos.

Há desinformação até mesmo sobre o que é ser uma mulher. Diversos setores da sociedade estão afirmando que ser mulher é um sentimento baseado em estereótipos, ao invés de uma realidade material biológica. Ainda que só existam dois gametas envolvidos na reprodução de uma esmagadora parcela das espécies e, consequentemente, uma enorme quantidade de seres vivos sejam divididos em machos e fêmeas, pessoas nascidas com Diferenças no Desenvolvimento Sexual (DDS) são usadas como token para embasar o argumento de que existiriam vários sexos.

Há desinformação também sobre como combater opressões estruturais, que são três: raça, sexo e classe. Ferramentas de análise de interseccionalidade estão sendo usadas de maneira leviana para propositadamente confundir a figura do opressor e a do oprimido. Fala-se que todo mundo têm uma "identidade de gênero" e que portanto mulheres “cisgênero” nascem com anatomia feminina, enquanto “mulheres trans” são mulheres nascidas sem anatomia feminina, mas ignoram a falta de autonomia corporal feminina quanto à sua capacidade reprodutiva, que em El Salvador e na Venezuela condena à cadeia mulheres que sofreram até mesma perda gestacional de um feto muito desejado, porque ignoram também que a maternidade é compulsória.

Há desinformação sobre os perigos da linguagem inclusiva e neutra nas questões femininas. Onde substituir as palavras “mulher”, “mãe” ou “maternidade” nas questões reprodutivas femininas resultam em puro e simples apagamento. Quando se apaga a feminilidade e a mulheridade biológica — especificamente, as consequências de se nascer com anatomi feminina em uma sociedade patriarcal — não é possível lutar contra a opressão feminina, porque simplesmente ela deixa de existir, assim, magicamente. Porque mulheres deixaram de ser nomeadas e, portanto, deixam de existir como uma classe sexual autoônoma e idependente da classe sexual masculina, que explora a capacidade de gestar das fêmeas da espécie humana.

Portanto, é preciso corrigir essa desinformação que desmantela a luta das mulheres. Dizer os fatos como eles são. As mulheres são discriminadas pela sua capacidade potencial de gestar e esta capacidade é explorada em sociedades patriarcais. Inclusão de mulheres que não mais se identificam como mulheres não pode vir às custas de mulheres vulneráveis, que têm aborto negado, mesmo após estupro, como foi o caso de duas meninas, de 10 e 11 anos, em agosto de 2020. Não é possível desmantelar o sistema de exploração das mulheres apagando a sua realidade material.

O seu feminismo apoia, cuida e vela pelas mulheres em situação vulnerável? As mulheres prisioneiras, a maior parte das quais estão na cadeia por crimes não violentos, como roubar três ovos de páscoa, e têm de usar pedaços de jornal ou papel higiênico para fazer um rolinho para usar como absorvente interno. As meninas e mulheres estupradas durante a quarentena do Covid19. As mulheres gestantes que estão perdendo a vida durante o parto ou por coronavirus. As que perderam seu ganha-pão durante a pandemia. As camponesas, que fazem a maior parte da força de trabalho na agricultura mundial. As indígenas, que são coagidas a fazer cesárea e depois voltam para as suas tribos sem assistência médica regular pós-cirúrgica. As mulheres negras, que sofrem mais violência obstétrica. As meninas e mulheres que sofrem mutilação genital feminina e têm a parte externa do clitóris cortada.

A opressão feminina existe e ainda vai levar muito tempo para que seja devidamente combatida, justamente porque muita gente acredita que as mulheres nem oprimidas mais são, simplesmente porque “se identificam com o sexo que nasceram”. Portanto, é preciso retomar o movimento pela libertação de todas as mulheres fincando o pé quanto aos direitos das mulheres como seres humanos.

“Eu não sou livre enquanto alguma mulher não o for, mesmo quando as correntes dela forem muito diferentes das minhas.”

Audre Lorde

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Andreia Nobre

Andreia Nobre

Jornalista, blogueira, poetisa, feminista, amante de antropologia e professora primaria que pratica desescolarizacao

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