Seu silêncio não te protegerá — Racismo no movimento feminista

Tradução do texto de Claire para o site Sister Outrider


Publicado originalmente em 18 de abril de 2016


Breve consideração a ser feita antes da leitura:

Esse texto e os seguintes dessa seção serão traduzidos e disponibilizados para tratar de algo que desde sempre é falado: o racismo de mulheres brancas e seu status de opressora.

É necessário ter em mente que misoginia não é a única opressão que mulheres são sujeitas a. E ainda, que se o objetivo do feminismo é a libertação de todas as mulheres, o feminismo e feministas não podem jamais ignorar ou minimizar classismo, racismo e outras opressões.

Feminismo que apenas fala em gênero não liberta todas as mulheres, apenas as mulheres brancas endinheiradas. Feminismo que apenas fala em gênero exclui categoricamente as mulheres não-brancas e/ou empobrecidas, pois estas sofrem de outras opressões.

Racismo e as demais opressões além da misoginia precisam parar de serem apenas notas de rodapé da herstory, elas precisam ser protagonistas da história também. Afinal, não são elas mulheres?

-Carol Correia


Nota de tradução:

O termo “women of color” foi traduzido como “mulheres não-brancas” ao invés do termo literal “mulheres de cor”, pelas seguintes razões: 1. O termo “mulheres de cor” no Brasil e em Portugal tem conotação pejorativa, algo que o termo em original não tem a menor intenção de ser; 2. Apesar da problemática de nomear um grupo em oposição ao grupo dominante/opressor (o não-branca, ao invés de sua etnia/raça correspondente), não-branca indica exatamente o grupo ao qual “women of color” fala sobre, isto é, todas as mulheres que são racializadas (ou seja, estão fora do padrão racial considerado normal na supremacia branca) e sofrem racismo. No Brasil, essas mulheres seriam asiáticas, indígenas, mestiças e negras. Enquanto nos Estados Unidos, essas mulheres seriam asiáticas, nativo-americanas, indianas, negras e latinas.


Prefácio

Este é o primeiro de uma série de postagens de blog sobre raça e racismo no movimento feminista. Não é algo agradável. Igualmente, não é uma reprimenda. É feita para despertar — algo que espero que seja respondido.


A solidariedade entre as mulheres é vital para a libertação. Para que o movimento feminista seja bem-sucedido, os princípios feministas devem ser aplicados tanto na ação quanto nas palavras. Embora a interseccionalidade seja usada como uma palavra-chave[1] no ativismo contemporâneo, de muitas formas nos desviamos do propósito proposto por Crenshaw: trazer as vozes marginalizadas da periferia para o centro do movimento feminista, destacando a coexistência das opressões[2]. Mulheres brancas com políticas liberais rotineiramente se descrevem como feministas interseccionais antes de falar em cima e desconsiderar aquelas mulheres que negociam com identidades marginalizadas de raça, classe e sexualidade em acréscimo ao sexo. A interseccionalidade como sinalização de virtude é diametralmente oposta à práxis interseccional. A teoria não surgiu para ajudar as mulheres brancas na busca de biscoitos — foi desenvolvida predominantemente por feministas negras com o objetivo de dar voz às mulheres não-brancas.

As feministas brancas de todas as vertentes estão caindo no cruzamento da raça. As feministas liberais frequentemente não consideram o racismo em termos de poder estrutural. As feministas radicais muitas vezes não estão dispostas a aplicar os mesmos princípios de análise estrutural à opressão enraizada na raça como no sexo.

Mulheres brancas que são autoproclamadas feministas tem o hábito de esperar que mulheres não-brancas escolham entre suas identidades de raça e sexo, priorizar a misoginia desafiadora em relação ao racismo opositor, em nome da irmandade. Textos de feministas negras clássico datando do início de 1970 em diante detalha esse fenômeno e fala que muito pouco sobre a dinâmica inter-racial entre as mulheres mudou desde sua publicação. O que mulheres brancas costumam falhar em considerar é que, para mulheres não-brancas, raça e sexo são intrinsecamente conectados em como nós experimentamos o mundo, como nós estamos situadas dentro das estruturas de poder. Ademais, a discussão sobre raça costuma ser tratada como um descarrilhamento das Reais Questões Feministas (isto é, aquelas relacionadas diretamente a mulheres brancas), a implicação de que mulheres não-brancas são, no máximo, um subgrupo dentro do movimento.

Independentemente de como sua política feminista se manifesta, a questão da raça é aquela que não é tão facilmente respondida, ou até mesmo reconhecida por muitas mulheres brancas. Através da teoria e do ativismo feminista, as mulheres desenvolvem uma compreensão estrutural da hierarquia patriarcal e onde estamos posicionados dentro desse sistema. Técnicas como conscientização e organização coletiva permitiram que as mulheres ligassem o pessoal com o político — e é profundamente pessoal. No feminismo, as mulheres se tornam plenamente conscientes de como somos marginalizadas pelo patriarcado. As mulheres brancas consideram que pertencem à classe oprimida em termos de sexo. Sendo conscientes das implicações realizadas por pertencer à classe dominante, as mulheres brancas são, portanto, desconcertadas pela noção de ser o partido opressor na hierarquia da raça (hooks, 2000). Isso nos leva à nossa primeira falácia:

“Fazer [o movimento feminista] sobre raça, divide as mulheres.”

Uma e outra vez, esta linha é usada por mulheres brancas para circumnavigar qualquer discussão significativa da raça, para evitar a possibilidade desconfortável de ter que enfrentar o espectro de seu próprio racismo. Este argumento sugere que o esforço das feministas se concentraria melhor em desafiar a opressão baseada no sexo, excluindo todas as outras manifestações de preconceito. Ao adotar uma aproximação tão estreita ao ativismo, tais mulheres impedem a possibilidade de abordar a raiz da misoginia: patriarcado capitalista da supremacia branca (hooks, 1984). O único foco na misoginia é, em última instância, ineficaz. A análise estrutural seletiva só nos levará até certo ponto. O racismo e o classismo, como a misoginia, são pilares do patriarcado capitalista da supremacia branca, defendendo e perpetuando estruturas de poder dominantes. O patriarcado não pode ser desmantelado enquanto os outros vetores na matriz de dominação (Hill Collins) permanecem no lugar. Essa política e ativismo do laissez-faire carece de profundidade, rigor e de consistência ética necessário para impulsionar uma mudança cultural para a libertação. Também implora a pergunta: Que tipo de feminismo se vê indiferente quando a injustiça prospera?

Não, falar sobre raça não divide mulheres. É o racismo que faz isso — especificamente, o racismo que as mulheres brancas dirigem para as mulheres não-brancas, o racismo que as mulheres brancas observam e não conseguem desafiar porque, em última análise, elas se beneficiam disso. Seja intencional ou casualmente entregue, esse racismo tem o mesmo resultado: mina completamente a possibilidade de solidariedade entre mulheres não-brancas e mulheres brancas. A falta de vontade das mulheres brancas para explorar o sujeito de raça, reconhecer as formas em que eles se beneficiam da supremacia branca, impossibilita a confiança mútua.

“Mas as mulheres brancas não se beneficiam da supremacia branca”.

Argumentar que a misoginia é o agente principal na opressão de todas as mulheres é assumir que a categoria de “mulher” se sobrepõe inteiramente a “classe branca” e “classe média”, o que claramente não é o caso. A hierarquia da raça tem tanto impacto nas experiências vividas das mulheres não-brancas como a hierarquia do gênero. Quando cerca de 70% de pessoas britânicas que estão em empregos que pagam salário mínimo nacional são mulheres, é evidente que a classe desempenha um papel fundamental na vida das mulheres da classe trabalhadora.

Muitas vezes, as mulheres brancas queixam-se de esquerdomachos — a tendência dos homens de Esquerda de permanecer misteriosamente incapaz de perceber como a hierarquia da classe social é refletida pelo gênero. Esta é uma crítica válida, uma crítica necessária. É também uma crítica inteiramente aplicável às mulheres brancas autoproclamadas feministas que não querem se envolver com políticas antirracistas. Mesmo que experimentem o classismo e/ou a lesbofobia, as mulheres brancas continuam a beneficiar de sua branquitude.

De acordo com a Fawcett Society, a diferença de remuneração de gênero para empregados em tempo integral fica em 13,9%[3]. As pessoas do BAME (Negros e Minorias Étnicas) com GCSEs são pagas 11% menos[4] do que os nossos pares brancos, um déficit que eleva-se para 23%[5] entre graduados. Além disso, os formandos do BAME têm mais de duas vezes mais probabilidades de estar desempregados do que os graduados brancos. As mulheres não-brancas enfrentam um duplo risco, nosso trabalho é subestimado tanto por motivos de raça quanto de sexo. Zora Neale Hurston descreveu as mulheres negras como “mule uh de world”, uma observação que se mostra quando aplicado à diferença salarial. As mulheres do BAME também são mais propensas a serem perguntadas sobre nossos planos relacionados ao casamento e à gravidez por potenciais empregadores do que mulheres brancas. As mulheres brancas são objetificadas pelos homens, resultado da misoginia. As mulheres não-brancas são objetificadas, são vistas e tratadas como intrinsecamente diferentes e estranhas[6], fetichizadas[7] e tratadas como selvagens[8] hipersexuais pelos homens, resultado da misoginia e do racismo. BAME e mulheres migrantes também “experimentam uma taxa desproporcional de homicídio doméstico”.

Mesmo que você não esteja preparado para ouvir o que as mulheres não-brancas[9] têm a dizer sobre racismo[10], os fatos e os números sustentam esse fato.

“As mulheres são mais fortes quando todas estamos juntas”.

Sim. A irmandade é uma poderosa força de sustentação. Mas esperar que as mulheres não-brancas permaneçam em silêncio sobre o assunto de raça por causa do conforto branco não é irmandade — pelo contrário. A irmandade não pode existir desde que as mulheres brancas continuem a ignorar a hierarquia da raça, enquanto simultaneamente esperam que as mulheres não-brancas dediquem nossas energias unicamente para ajudá-las a ganhar igualdade aos homens brancos. Este paradigma é explorador, uma manifestação tóxica do direito branco dentro do movimento feminista.

Para que a irmandade exista entre mulheres não-brancas e mulheres brancas, devemos ter uma conversa sincera sobre raça dentro do movimento feminista. O privilégio branco deve ser reconhecido e oposto pelas mulheres brancas. A branquitude deve deixar de ser tratada como o padrão normativo da feminilidade dentro da política feminista. A mesma lógica que é aplicada para criticar a misoginia deve ser aplicada a desaprender o racismo. As questões enfrentadas pelas mulheres não-brancas devem ser consideradas uma prioridade e não uma distração a ser tratada após a revolução. As mulheres não-brancas devem deixar de ser tratadas como algo que você faz simplesmente por ser algo que você é obrigado a fazer e, em vez disso, reconhecidas pelo que somos, o que sempre fomos: essenciais para o movimento feminista.

Tudo isso é imperativo para alcançar uma verdadeira solidariedade — e isso é possível. No que diz respeito às coisas, cabe às mulheres brancas chegar e reparar qualquer fenda que ocorra com base em raça. Em última análise, isso nos aproximará da libertação.


Bibliografia

Davis, Angela. (1981). Women, Race & Class. (Disponível em português em http://biblioteca-feminista.blogspot.com.br/2016/04/angela-davis-mulher-raca-e-classe.html)

Grewal, Shabnam, ed. (1988). Charting the Journey: Writings by Black and Third World Women.

Hill Collins, Patricia. (2000). Black Feminist Thought.

hooks, bell. (1984). Feminist Theory: From Margin to Center.

hooks, bell. (2000). Feminism is for Everybody.

Lorde, Audre. (1984). Sister Outsider.

Wallace, Michele. (1978). Black Macho and the Myth of Superwoman.

  • Os demais livros não são encontrados em português por completo, apenas trechos e alguns capítulos.

Notas de rodapé:

[1] http://kathydavis.info/articles/Intersectionality_as_buzzword.pdf

[2] http://socialdifference.columbia.edu/files/socialdiff/projects/Article__Mapping_the_Margins_by_Kimblere_Crenshaw.pdf. Esse texto “Mapeando as margens: interseccionalidade, políticas de identidade e violência contra mulheres não-brancas” de Kimberle Crenshaw também já foi traduzido por mim nestas quatro partes: https://medium.com/revista-subjetiva/mapeando-as-margens-interseccionalidade-pol%C3%ADticas-de-identidade-e-viol%C3%AAncia-contra-mulheres-n%C3%A3o-18324d40ad1f; https://medium.com/revista-subjetiva/mapeando-as-margens-interseccionalidade-pol%C3%ADticas-de-identidade-e-viol%C3%AAncia-contra-mulheres-n%C3%A3o-21aa0584633b; https://medium.com/revista-subjetiva/mapeando-as-margens-interseccionalidade-pol%C3%ADticas-de-identidade-e-viol%C3%AAncia-contra-mulheres-n%C3%A3o-3888f3bcf935 e a parte 4 que ainda será disponibilizada nesse perfil.

[3] https://www.fawcettsociety.org.uk/close-gender-pay-gap

[4] https://www.iser.essex.ac.uk/research/publications/working-papers/iser/2016-02.pdf

[5] https://www.theguardian.com/money/2016/feb/01/pay-gap-black-white-uk-workers-widens-more-qualifications

[6] https://therearenoothers.wordpress.com/2011/12/28/othering-101-what-is-othering/

[7] https://www.youtube.com/watch?v=zWFQ1uiD8LA

[8] http://www.thefeministwire.com/2014/02/black-female-too-muchness-between-hypersexual-norms-and-respectable-exceptions/

[9] https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2015/oct/05/what-is-misogynoir

[10] https://mediadiversified.org/2015/09/25/misogynoir-vs-the-new-politics/


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