fêmea brava
Sep 28, 2017 · 4 min read

confesso que nunca consumi pornografia. acredito que, em parte, porque correspondia bastante aos padrões morais que minha família e a cidade pequena me empunham; e, por outro lado, porque não tinha internet nesses moldes, na minha adolescência. então, das poucas vezes que zapeei e apareceu alguma cena de pornô, naqueles canais depois da meia-noite, eu vi violência. de verdade. as cenas que eu consegui ver, de relance, não me convenciam que aquilo era sobre prazer. me parecia agressão: as expressões das mulheres, os gemidos, a frequência, as porradas, etc.

aconteceu algo parecido com um cara que conheci. ele era pré-adolescente quando o irmão mais velho foi apresentar o universo dos filmes pornô. ele ficou estático, gelado, paralisado, pálido, enjoado: muito violento. lembrei disso nesses dias, quando estava assistindo a uma comédia romântica, bem boba por sinal, e um dos protagonistas procurava expressões que eu nunca tinha ouvido falar pra se masturbar, enquanto a esposa saia ao trabalho: “bukake”; “milf” — — e, quando fui tirar a dúvida do que se tratava, me deparei com as clássicas notícias sobre o submundo da indústria pornográfica que os homens convenientemente tratam de não pesquisar. é violência. lembrei também de uma postagem de uma amiga, perguntando sobre coisas/ situações/ cenas que deixaram pessoas chocadas, impactadas, na vida. as pessoas podiam falar de qualquer coisa, mas os comentários quase todos tinham a ver com indústria pornográfica. violento.

percebam, então: eu não preciso assistir essa merda pra saber do que se trata. é tipo BBB, que você sabe o que aconteceu e quem ganhou crônica do Bial mesmo sem ter televisão em casa. sem contar que, se você fizer sexo heterossexual, mesmo que ocasionalmente, perceberá que esse lixo educou todos os homens que você resolver transar. sem excessão. eu tinha uns 22 anos quando chamei umas amigas pra conversar e perguntei a elas: “por acaso os caras que vocês transam fazem as coisas assim, assim, assado? sempre nessa ordem?”. vocês devem imaginar a resposta. eu tinha 22 anos e percebi o roteiro que os caras seguiam, desde o primeiro beijo, até a hora de levantar e ir pra casa. mesmo caras que nunca haviam tido relações sexuais já seguiam o mesmíssimo roteiro. comecei a tentar propor outras coisas e os caras tremiam, se assustavam, não raro perdiam o tesão.

homens não estão dispostos a repensar suas práticas sexuais. não estão dispostos a abrir mão de seus prazeres socialmente construídos a partir da pornografia. e, conseguintemente, muitas de nós também não. afinal de contas, é muito dispendioso, especialmente se você se relaciona sexualmente exclusivamente com homens, tentar outras formas de prazer, genuínas, algo próprio e do seu corpo, por exemplo. algo que não seja tão exógeno e patriarcal quanto a indústria pornográfica.

além de educar a eles, a pornografia nos educa e conduz os nossos desejos. isso é muito sério. muitas de nós afirmam categoricamente que gostam de “agressividade”, “porrada”, “violência”, com essas expressões. muitas de nós afirmam não gostar de sexo oral. sexo oral é quando seu parceiro/ sua parceira lambe o único órgão do mundo que existe exclusivamente para o prazer feminino. e nós. afirmamos. não. gostar. e por que isso é tão mais comum entre mulheres que entre homens? você tentou dar um tapa na cara de um homem sem que ele pedisse? e quantas vezes tomou um tapa na cara sem pedir? além de nos conduzir a desejos plastificados e glamurizar a violência, a pornografia é violência em si mesma, com as trabalhadoras que se submetem àquela rotina. é estupro. é estupro porque não se compra consentimento. é estupro. porque não se compra e não se filma e não se ameaça consentimento. é violência.

a indústria pornográfica é violência, assim como o sexo heterossexual também o é, em sua maioria. é sobre o prazer de homens educados por uma indústria zilionária, que está se lixando pra mulheres e pra vida das mulheres. não à toa, muitas de nós nos sentimos vazias, ocas, depois do sexo com homens. esse vazio constantemente nos faz sentir em não-conformidade com o que eles esperam de nós. noutro dia, li um conhecido dizer que “viver é performar”. eu concordo que é só disso que homens precisam: que nós performemos pra eles gozarem. pra nós eu consigo ver outra saída.


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rebelda. feminista em luta, quebrando correntes, pela libertação de todas as mulheres. todas.

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