Mulheres, sexualidade e relações de poder

Sapataria Radical
Sep 24, 2015 · 5 min read

A afirmação de que bifobia não existe é baseada em uma análise material, e essa análise é coerente com os conceitos de opressão, exploração e manutenção de poder que fundamentam a política feminista. Para esmiuçar essa afirmação, é preciso que essa análise seja contextualizada.

Opressão pode ser resumida enquanto degradação política, econômica, cultural ou social de indivíduos pertencentes a um grupo social, que resulta em estruturas de submissão e dominação e coloca tal grupo em condições de exploração, sendo exploração qualquer relação (individual ou não) que não seja mutualmente benéfica e resulte no usufruto injusto dos bens ou da força de trabalho do explorado pelo explorador. Nomear uma opressão, então, necessariamente nomeia uma relação de poder. Não existe privilégio social sem uma detenção e manutenção de poder que garanta o funcionamento da estrutura em benefício do grupo privilegiado e a serviço dele próprio, e não de outros. Logo, vantagens recebidas por se adequar a exigências e barreiras criadas para a manutenção de um grupo privilegiado não configura privilégio. Por exemplo: sendo a heterossexualidade um regime político que beneficia homens, a heterossexualidade feminina não configura privilégio.

O que acontece ao se tentar encaixar o conceito de bifobia nessa categoria de análise?

A primeira falha na classificação de bifobia como opressão é a ausência de um grupo social específico sobre o qual ela recairia. Mulheres bissexuais e homens bissexuais não são um grupo e definitivamente não sofrem a mesma opressão, pois independente de sua sexualidade ser a mesma, são indivíduos pertencentes a castas sexuais diferentes. E sexo e sexualidade estão intrinsecamente ligados.

A segunda falha é que a existência de bifobia enquanto opressão determinaria um privilégio, o chamado privilégio monossexual. A existência desse privilégio colocaria mulheres lésbicas e heterossexuais e homens gays e heterossexuais num mesmo grupo social ou categoria de análise, o que já é uma inverdade, e ainda: um grupo com detenção e manutenção do poder de oprimir outro grupo. Ainda que ignoremos o fato de que o grupo social denominado enquanto opressor monossexual não existe materialmente enquanto categoria política, não seria coerente da mesma forma, pois mulheres lésbicas não detém nenhum poder em função de sua sexualidade. É por isso que lésbicas podem e devem falar de bifobia. Podem a partir do momento que essa falácia as coloca numa posição de poder que não ocupam, e, por consequência, as prejudica.

O conceito de bifobia ignora qualquer recorte de classe sexual. E falar de sexualidade sem pensar em classe sexual é no mínimo ingênuo e no máximo uma análise pouco ou nada material. Por mais se queira, não dá pra adequar conceitos políticos ao bel prazer. Nomear conceitos que pretendem estabelecer uma análise material da realidade e basear toda uma militância política neles traz consequências. E ignorar ou flexibilizar essas consequências não torna esses conceitos reais.

Isso não quer dizer que pessoas bissexuais não estão em situação de vulnerabilidade. Mulheres bissexuais, enquanto mulheres, sofrem misoginia, enquanto mulheres que se relacionam com mulheres, sofrem lesbofobia (que é, por si só, uma ramificação da misoginia que atinge mulheres que se envolvem em relações lésbicas) — essa é a relação de poder estrutural à qual estão submetidas. E nomear a opressão que essas mulheres sofrem não é uma tentativa de universalizar sua vivência com a de mulheres lésbicas: existem especificidades pelas quais só mulheres bissexuais passam, sim, mas elas não configuram uma relação de opressão e exploração específica, assim como as especificidades pelas quais só mulheres lésbicas passam também não configuram. Isso não faz com que especificidades de mulheres bissexuais sejam menos importantes ou não devam ser levadas em consideração, muito pelo contrário.

Isso também não quer dizer que mulheres bissexuais tenham a mesma vivência ou sofram opressão quantitativamente e qualitativamente da mesma forma que mulheres lésbicas, que se relacionam exclusivamente com mulheres. Quer dizer que a lesbofobia diz respeito também a mulheres bissexuais. Ao nomear lesbofobia enquanto opressão que atinge, obviamente que em quantidades e de formas diferentes, todas as mulheres que se relacionam com mulheres, colocamos as coisas em seu lugar: nossos opressores, no que diz respeito a sexualidade, são, como sempre, os homens, como era de se esperar num patriarcado. Não existem relações de poder entre mulheres baseadas puramente em sua sexualidade.

Outro aspecto nocivo da militância bissexual como é dada hoje é a nomeação da monossexualidade enquanto norma patriarcal. A heterossexualidade compulsória, regime político do patriarcado, não pressiona mulheres à uma monossexualidade, e sim à heterossexualidade. Se a mulher se relaciona com homens, espera-se que ela o faça apenas com eles, sim. Mas se se relaciona com mulheres, espera-se que ainda fique com homens, ainda que de vez em quando. O ideário da lésbica na sociedade patriarcal não é monossexual: é a mulher-machona que se relaciona com mulheres mas fica com um cara ou outro de vez em quando, na balada; ou ainda aquela mulher feminilizada que se atrai por mulheres masculinizadas porque na verdade gosta de homens. Quando a sociedade olha para uma mulher bissexual e, independente do motivo, assume que ela é lésbica, ela não está assumindo que essa mulher seria monossexual, apenas ligeiramente desviante, uma fase, um trauma temporário com o sexo masculino. E ser lida como lésbica, sendo lésbica, não é um benefício por si só. Lesbianidade não é um privilégio. Contrariam a norma quando ficam com mulheres, e contrariam a norma mais uma vez quando não ficam com homens. Atribuir um privilégio por isso é violento e imaterial.

O que é necessário que se entenda é que as opressões que pessoas sofrem por estarem inseridas numa ou noutra classe ou grupo não são suficientes para definir sua vivênciao que quer dizer que nem tudo que passamos vai ser explicado pelos poderes que nos oprimem. Nem todo preconceito configura opressão, e uma violência não ser embasada numa opressão não a torna menos importante. Nem tudo que magoa ou machuca é fruto de uma relação institucionalizada de poder.

A classe mulher como um todo sofre com a misoginia, consubstancialmente a outros marcadores sociais e inúmeras outras particularidades de cada vivência. Nomeia-se lesbofobia enquanto opressão incidente a mulheres que amam mulheres, como um chamado: mulheres bissexuais, vocês estão do lado de cá da trincheira. Mulheres lésbicas, elas estão do lado de cá da trincheira. Nossas lutas são muito mais próximas do que a de qualquer homem. Não nos hostilizemos.

Um adendo importantíssimo para esse texto foi escrito aqui.

QG Feminista

Feminismo em Revista

Sapataria Radical

Written by

Escritos pessoais e políticos de uma feminista radical lésbica.

QG Feminista

Feminismo em Revista

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade