Sou carne ou mulher?

Quando me dei conta de que me enxergam como um objeto sexual

Quando me encontrava na época de puberdade, não entendia os olhares sedentos de homens, principalmente mais velhos, direcionados a mim. Me sentia bastante invadida ao notar que olhavam o meu corpo púbere em desenvolvimento. Fui logo tratando de arranjar um sutiã, pois meus seios estavam surgindo. Foi a primeira pancada dessa coisa de “agora você tá virando mulher”. Até hoje me sinto presa quando visto um sutiã, parece uma espécie de cabresto. Pior, reparam quando você está sem ele e reparam quando ele está à mostra. Nunca tá bom pro senso comum. Eu me sentia bastante sufocada, tentando ser isso aí que chamam de essência feminina.

Voltando as lembranças da pré adolescência, lembro de uma vez, quando fui seguida por um homem em torno dos 40 anos, a caminho da escola. Minhas mãos suavam frio e ao notar que eu tinha percebido a perseguição, ele alcançou os meus passos e me lançou comentários indecorosos sobre meu corpo. Após isso, atravessou a rua e foi embora. E eu cheguei pasma a sala de aula, me sentindo um lixo e pior, culpada. Caramba, é isso tornar — se mulher? Crescer? Será que esse homem não tinha reparado que eu era ainda uma criança de 13 anos? Sim, ainda somos crianças com essa idade. Só meninas. Não entendemos a objetificação e sexualização precoce de nosso corpo, na real, nem sabemos o significado dessas palavras ainda. Não é elogio ser vítima de assédio nas ruas.

E eu fui crescendo, me sentindo um peixe fora d’água. A maioria das meninas da escola comprava a feminilidade exposta nas revistas Capricho e Atrevida da vida. Fui comprando as revistas também, afinal, se sou mulher meu papel é esse, né? Me depilar, me maquiar do jeito que o sexo oposto prefere, deixar o cabelo lisinho, não problematizar nada. Comecei a usar roupas mais largas, numa tentativa de esconder meu corpo em desenvolvimento, me escondia atrás de longos cabelos pretos, evitava sentar ao lado de homens no transporte público, atravessava a rua quando via um grupo de machos na calçada. Exagero de uma adolescente problemática, será? Não, apenas uma moça que não queria ser assediada e nem vista como um pedaço de carne no açougue. Perceber que a sociedade patriarcal e doentia te considera pronta pro abate após a puberdade é doloroso. Mais triste ainda é ouvir que essa é sua “função social” por nascer com vagina. Ser comida com os olhos, ouvir comentários nojentos na rua, ligar a televisão e ver peitos e bundas pulando. Seja assim, seja assado, não seja muito quieta senão te acham frígida, toma cuidado com o tamanho da roupa pra não ser considerada vadia.

A lista de opressões diárias é longa e minha saúde mental ia pro ralo. Tive que levantar a cabeça, é necessário ser forte. Os anos foram passando e notei que o problema não sou eu. O problema são vocês homens que se sentem no direito de demarcar território em torno de nós e de sexualizar nossa imagem. É culpa da mídia que ajuda na objetificação dos nossos corpos, na redução do sexo feminino ao papel de brinquedo sexual, na sexualização precoce de nossas meninas. Não somos meras ferramenta para o prazer masculino. Quebrei as correntes quando escutei o meu íntimo. Não, eu não quero me submeter a nenhum estereótipo, não sou capa de revista e nem desejo ser. Pior é que sempre vão arranjar um jeito pra te objetificar, fêmea humana. Seja por sua bissexualidade, lesbiandade, por seus seios pequenos ou grandes, etc, etc, etc. Porque é isso que o patriarcado ensina, isso que é vomitado desde cedo para nossas crianças.


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