Subordinação de mulheres, natureza e colônias

O subsolo do patriarcado capitalista ou da sociedade civilizada

Feminismo Com Classe
QG Feminista
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26 min readJan 20, 2020

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ANTES DE LER, SAIBA QUE…
Esta é a 2ª Parte da tradução do capítulo 3 de “Capítulo 3 de “Patriarcado e Acumulação Capital em Escala Mundial: mulheres na divisão internacional do trabalho”, de Maria Mies. Veja aqui a PARTE I — A Dialética do Progresso e Retrocesso (recomendado).

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Maria Mies

A seguir, tentarei traçar o processo contraditório, esboçado brevemente acima, pelo qual, ao longo dos últimos quatro ou cinco séculos, as mulheres, a natureza e as colônias foram exteriorizadas, declaradas fora da sociedade civilizada, derrubadas e, assim, tornadas invisíveis como a parte subaquática de um iceberg que, sendo invisível, ainda assim constitui a base do todo.

Metodologicamente, tentarei, na medida do possível, desfazer a divisão dos polos das relações de exploração que geralmente são analisadas como entidades separadas. Nossa compreensão do trabalho ou pesquisa acadêmica segue exatamente a mesma lógica que a dos colonizadores e cientistas: eles recortam e separam partes que constituem um todo, isolam essas partes, analisam-nas em condições de laboratório e sintetizam-nas novamente em um novo modelo artificial, construído pelo homem.

Eu não seguirei essa lógica. Vou tentar traçar as ‘conexões subterrâneas’ que ligam os processos pelos quais a natureza foi explorada e colocada sob o domínio do homem aos processos pelos quais as mulheres na Europa estavam subordinadas e examinar os processos pelos quais esses dois estavam ligados à conquista e colonização de outras terras e pessoas. Daí a emergência histórica da ciência e tecnologia europeia e seu domínio sobre a natureza têm de estar ligado à perseguição às bruxas europeias. E tanto a perseguição às bruxas quanto a ascensão da ciência moderna precisam estar ligadas ao comércio de escravos e à destruição das economias de subsistência nas colônias.

Esta não pode ser uma história abrangente de todo esse período, por mais desejável que seja. Destacarei principalmente algumas conexões importantes que foram cruciais para a construção das relações de produção patriarcal capitalistas. Uma é a conexão entre a perseguição das bruxas na Europa e a ascensão da nova burguesia e da ciência moderna, e a subordinação da natureza. Isso já foi tratado por vários pesquisadores (Merchant, 1983; Heinsohn, Knieper, Steiger, 1979; Ehrenreich, English, 1979; Becker et al, 1977). A análise a seguir é baseada no trabalho deles.

As conexões históricas entre esses processos e a subordinação e exploração dos povos coloniais em geral, e das mulheres nas colônias em particular, ainda não foram adequadamente estudadas. Portanto, vou lidar com essa história mais amplamente.

A perseguição às bruxas e a ascensão da sociedade moderna: registro produtivo das mulheres no final da Idade Média

Entre as tribos germânicas que ocuparam a Europa, o patriarca da casa (pater familias) tinha poder sobre tudo e todos na casa. Esse poder, chamado munt (Alto Alemão Arcaico) (mundium = manus = mão), implicava que ele poderia vender, faturar, etc, a esposa, os filhos, os escravos etc.

A munt do homem sobre a mulher era estabelecida através do casamento. O relacionamento era de direitos de propriedade sobre as coisas, que se baseava na ocupação (sequestro de mulheres) ou compra (venda de mulheres).

Segundo a lei germânica, o casamento era um contrato de venda entre as duas famílias. A mulher era apenas o objeto nessa transação. Ao adquirir o poder da munt, o marido adquiria o direito sobre os pertences da esposa, pois ela era propriedade dele. As mulheres estavam ao longo da vida sob a mão (munt) de homens — marido, pai, filho.

A origem desse munt foi excluir as mulheres do uso de armas. Com o surgimento das cidades desde o século XIII e o surgimento de uma burguesia urbana, a “casa inteira” — a forma germânica anterior da família e do parentesco — começou a se dissolver. O velho potestas patriae, o poder do pai sobre filhos e filhas, terminavam quando eles saíam de casa. As esposas eran colocadas sob a guarda ou tutela do marido.

No entanto, se as mulheres solteiras possuíam propriedades próprias, às vezes eram consideradas mundig (principais) perante a lei. Em Colônia, as mulheres solteiras que seguiam algum ofício eram chamadas selbslmundig em 1291 (Becker et al, 1977: 41). As leis vigentes nas cidades, assim como algumas leis para o campo, libertaram as mulheres, através do artesanato, da angústia ou dependência de um pai ou marido.

A razão dessa liberalização da escravidão sexual deve ser vista na necessidade de permitir que as mulheres nas cidades exerçam seus ofícios e negócios de forma independente. Isso ocorreu devido a vários fatores:

1. Com a extensão da troca e do comércio, a demanda por bens manufaturados, principalmente roupas e outros bens de consumo, aumentou. Estes bens eram produzidos quase exclusivamente na casa de artesãos e mulheres. Com o crescimento da oferta de dinheiro nas mãos dos patrícios, o consumo de bens de luxo também aumentou. Roupas caras de veludo e seda, golas de renda, cintas etc, tornaram-se moda. Em muitos desses ofícios, as mulheres eram predominantes.

No entanto, na Alemanha, as mulheres casadas não tinham permissão para realizar seus negócios ou qualquer transação de propriedade sem o consentimento do marido, que continuava sendo seu tutor e mestre. Contudo, artesãs ou empresárias podiam comparecer perante um tribunal como testemunhas ou reclamantes, sem um tutor. Em algumas cidades, as mulheres de negócios ou mulheres do mercado receberam direitos iguais aos homens. Em Munique, foi declarado que “uma mulher que está no mercado, compra e vende, tem todos os direitos que seu marido tem”. Mas ela não podia vender a propriedade dele.

A independência das artesãs e comerciantes medievais não era ilimitada; era uma concessão dada a elas porque a crescente burguesia precisava delas. Mas, dentro da família, o marido mantinha seu papel de mestre.

2. A segunda razão dessa relativa liberdade para as mulheres no comércio e no artesanato foi a escassez de homens no final da Idade Média. Em Frankfurt, a proporção de sexo era de 1.100 mulheres para 1.000 homens, segundo um censo do século XIII; em Nuremberg (século XV), a proporção de sexo era de 1.000 homens para 1.207 mulheres. O número de homens diminuiu devido às cruzadas e à guerra constante entre os estados feudais. Além disso, a mortalidade masculina parece ter sido maior que a feminina ‘por causa da intemperança dos homens em todo tipo de folia’ (Bucher, citado em Becker et ai, 1977: 63).

Entre os camponeses do sul da Alemanha, apenas o filho mais velho tinha permissão para se casar, porque, caso contrário, a terra seria dividida em propriedades pequenas demais para serem viáveis. Não era permitido que os trabalhadores se casassem antes de se tornarem mestres. Os servos dos senhores feudais não podiam se casar sem o consentimento de seus senhores. Quando as cidades abriram suas portas, muitos servos, homens e mulheres, fugiram para as cidades; “O ar da cidade liberta os homens” era o mote. As pessoas pobres do campo precisavam enviar suas filhas para cuidarem de si mesmas como criadas, porque não podiam alimentá-las até que se casassem.

Tudo isso resultou em um aumento no número de mulheres solteiras, desvinculadas ou viúvas que precisavam ser economicamente ativas. As cidades, nos séculos XII e XIII, não excluíram as mulheres de nenhum ofício ou negócio que desejassem assumir. Isso foi necessário, pois, sem a contribuição delas, a troca e o comércio não poderiam ter sido expandidos.

Mas a atitude em relação às mulheres economicamente independentes sempre foi contraditória. No começo, as guildas de artesanato eram exclusivamente associações de homens. Parece que eles tiveram que admitir algumas artesãs mais tarde. Na Alemanha, isso só aconteceu depois do século XIV. As mulheres tecelãs, as costureiras e as mulheres envolvidas em outros ramos da manufatura têxtil foram autorizadas a ingressar em guildas.

A tecelagem esteve nas mãos dos homens desde o século XII, mas as mulheres fizeram vários trabalhos auxiliares, e mais tarde também as tecelãs mestres são mencionadas em certos ramos, como tecelagem de véu, tecelagem de linho, tecelagem de seda e tecelagem de ouro, etc., que eram realizadas apenas por mulheres. Em Colônia, até havia guildas femininas do século XIV.

Além do artesanato, as mulheres estavam envolvidas principalmente no comércio de frutas, frango, ovos, arenques, flores, queijo, leite, sal, óleo, penas, geleias etc. As mulheres tiveram muito sucesso como vendedoras ambulantes e feirantes, e constituíram um certo desafio para os comerciantes do sexo masculino. Mas elas não se envolviam em comércio exterior, embora adiantassem dinheiro a comerciantes que negociavam com os mercados externos.

As fiandeiras de Colônia costumavam se casar com comerciantes ricos que vendiam os preciosos produtos de suas esposas em mercados distantes. Em Flandres, Inglaterra, no Mar do Norte e no Mar Báltico, nas grandes feiras de Leipzig e Frankfurt (Becker et al., 1977: 66–67). Apenas uma comerciante é mencionada como tendo viajado para a Inglaterra no século XV: Katherine Ysenmengerde, de Danzig (Becker et al, 1977: 66–67).

Nos séculos XV e XVI, no entanto, a antiga ordem europeia entrou em colapso e “chegou a haver uma economia mundial europeia baseada no modo de produção capitalista” (Wallerstein, 1974: 67). Esse período é caracterizado por uma tremenda expansão e penetração da crescente burguesia nos ‘Novos Mundos’ e por pauperização, guerras, epidemias e turbulências nos antigos estados centrais.

Segundo Wallerstein, essa economia mundial incluía, no final do século XVI, o noroeste da Europa, o Mediterrâneo cristão, a Europa Central, a região do Báltico, certas regiões da América, Nova Espanha, Antilhas, Peru, Chile e Brasil. Na altura, foram excluídos a Índia, Extremo Oriente, Império Otomano, Rússia e China.

Entre 1535 e 1540, a Espanha alcançou o controle sobre mais da metade da população do Hemisfério Ocidental. Entre 1670–1680, a área sob controle europeu passou de cerca de três milhões de quilômetros quadrados para cerca de sete milhões (Wallerstein, 1974: 68). A expansão possibilitou a acumulação em larga escala de capital privado ‘que foi usado para financiar a racionalização da produção agrícola’ (Wallerstein, 1974: 69).

“Uma das características mais óbvias dessa economia mundial europeia do século XVI foi a inflação secular, a chamada revolução dos preços”
(Wallerstein, 1974: 69).

Essa inflação foi atribuída, de uma maneira ou de outra, ao influxo de metais preciosos, lingotes, da Hispano América. Seu efeito foi sentido principalmente no fornecimento de alimentos disponíveis a preços mais baratos. “Nos países em que a indústria se expandiu, foi necessário revolver uma proporção maior da terra para as necessidades dos cavalos”. Os grãos tiveram que ser comprados no Báltico a preços mais altos. Ao mesmo tempo, os salários permaneceram estagnados na Inglaterra e na França por causa da rigidez institucional, e até ocorreu um declínio nos salários reais. Isso significou maior pobreza para as massas.

Segundo Wallerstein, a Europa do século XVI tinha várias áreas centrais: norte da Europa (Holanda, Inglaterra, França), onde o comércio florescia e onde a terra era usada principalmente para fins pastorais, não para grãos. O trabalho de campo rural tornou-se a forma dominante de controle do trabalho. Os grãos foram importados da Europa Oriental e dos Bálticos — a periferia — onde ‘servidão secundária’ ou ‘feudalismo’ emergiram como o principal controle do trabalho. No norte e no centro da Europa, esse processo levou a uma grande pauperização dos camponeses. Parece ter havido crescimento populacional no século XVI e a pressão sobre as cidades aumentou. Wallerstein vê essa pressão populacional como motivo da emigração.

Europa

Na Europa Ocidental, houve emigração para as cidades e uma crescente vagabundagem que era “endêmica” (Wallerstein, 1974: 117). Não havia apenas o êxodo rural devido ao despejo e ao sistema de cercos (dos homens da Inglaterra), “havia também a vagabundagem causada pelo declínio dos corpos feudais de retentores e pela dissolução dos exércitos inchados que haviam se reunido para servir os reis contra seus vassalos” (Marx, citado por Wallerstein, 1974: 117).

Esses andarilhos — antes de serem recrutados como trabalhadores para as novas indústrias — viviam sem saber se teriam o que comer no dia seguinte. Eram as massas empobrecidas que se reuniam em torno dos vários profetas e seitas hereges. A maioria das ideias radicais e utópicas da época se preocupa com essas massas pobres. Muitas mulheres pobres estavam entre esses vagabundos. Elas ganharam a vida como dançarinas, trapaceiras, cantoras e prostitutas. Reuniam-se nas feiras anuais, nos conselhos da igreja, etc. Na Dieta de Frankfurt, em 1394, vieram 800 mulheres; para o Conselho de Constance e Basileia, 1500 (Becker et ai, 1977; 76). Essas mulheres também seguiam os exércitos. Não eram apenas prostitutas para os soldados, mas também tinham que cavar trincheiras, cuidar dos doentes e feridos e vender mercadorias.

Essas mulheres não eram desprezadas no começo, elas faziam parte da sociedade medieval. As cidades maiores as colocavam em ‘casas de mulheres’ especiais. A igreja tentou controlar o aumento da prostituição, mas a pobreza levou muitas mulheres pobres às ‘casas de mulheres’.

Em muitas cidades, essas prostitutas tinham suas próprias associações. Nas procissões e festas públicas da Igreja, elas tinham seus próprios estandartes e lugares — até uma santa padroeira, Santa Madalena.

Isso mostra que a prostituição até o século XIV não era considerada uma coisa ruim. Mas no final do século XIV, as Estátuas de Meran determinam que as prostitutas devam ficar longe de festas e danças públicas onde estão ‘mulheres dos burgos e outras mulheres honradas’. Elas deviam ter uma fita amarela nos sapatos, para que todos pudessem distingui-las das ‘mulheres decentes’ (Becker el ai, 1977: 79).

A caça às bruxas que assolou a Europa entre os séculos XII e XVII foi um dos mecanismos para controlar e subordinar as mulheres, camponesas e artesãs, mulheres que em sua independência econômica e sexual constituíam uma ameaça para a ordem burguesa emergente.

A literatura feminista recente sobre as bruxas e sua perseguição mostrou que as mulheres não estavam desistindo passivamente de sua independência econômica e sexual, mas que resistiam de muitas formas ao ataque da igreja, do Estado e do Capital.

Uma forma de resistência eram as muitas seitas heterodoxas nas quais as mulheres desempenhavam um papel proeminente ou que, em sua ideologia, propagavam liberdade e igualdade para as mulheres e condenavam a repressão sexual, propriedade e monogamia.

Assim, a ‘Irmandade do Espírito Livre’, uma seita que existiu por várias centenas de anos, estabeleceu vida em comunidade, aboliu o casamento e rejeitou a autoridade da Igreja. Muitas mulheres, algumas delas estudiosas extraordinárias, pertenciam a esta seita. Várias delas foram queimadas como hereges (Cohn, 970).

Parece plausível que toda a fúria da caça às bruxas não tenha sido apenas o resultado da decadente ordem antiga em seu confronto com novas forças capitalistas, ou mesmo uma manifestação de sadismo masculino atemporal, mas uma reação das novas classes dominadas pelos homens contra a rebelião das mulheres.

As mulheres pobres ‘libertadas’, ou seja, expropriadas de seus meios de subsistência e habilidades, lutaram contra seus expropriadores. Alguns argumentam que as bruxas tinham sido uma seita organizada que se reunia regularmente no “sábado das bruxas”, onde todas as pessoas pobres se reuniam e já praticavam a nova sociedade livre sem senhores e servos.

Quando uma mulher negava que era bruxa e que tinha algo a ver com todas as acusações, ela era torturada e, por fim, queimada na fogueira. O julgamento das bruxas, no entanto, seguia um procedimento legal meticulosamente pensado. Nos países protestantes, encontramos comissões seculares especiais e comissários de bruxas. Os padres estavam em constante relacionamento com os tribunais e influenciavam os juízes.

Um promotor, Benedikt Carpzov, primeiro advogado na Saxônia, depois professor em Leipzig, assinou 20.000 sentenças de morte contra bruxas. Ele era um filho fiel da igreja protestante (Dross, 1978: 204).

Se alguém denunciava uma mulher como bruxa, uma comissão era enviada a esse local para coletar evidências. Tudo era evidência: bom tempo ou mau tempo, se ela trabalhava duro ou se era preguiçosa, doenças ou poderes curativos. Se sob tortura a bruxa nomeasse outra pessoa, essa pessoa também era presa imediatamente.

A subordinação e a ruptura do corpo feminino: tortura

Aqui estão os minutos da tortura de Katherine Ups de Betzlesdorf, 1672:

Depois disso, o julgamento foi novamente lido e ela foi exortada a falar a verdade. Mas ela continuou a negar. Ela então se despiu de bom grado. O carrasco amarrou as mãos e a pendurou, baixou-a novamente. Ela chorou: “ai, ai”. Mais uma vez ela foi puxada, mais uma vez ela gritou, “ai Deus no céu, me ajude”. Os dedos dos pés estavam amarrados (…) as pernas foram colocadas em botas espanholas — primeiro a esquerda e depois a perna direita foi apertada com o parafuso (…) ela chorava: ‘Senhor Jesus, venha me ajudar” (…) Ela disse que não sabia de nada, mesmo que a matassem. Eles a puxaram para cima. Ela ficou em silêncio, depois disse que não era bruxa. Então eles novamente colocaram o ferro nas pernas dela. Ela novamente gritou e chorou (…) e ficou em silêncio (…) ela continuou dizendo que não sabia de nada. (…) Ela gritou que sua mãe saísse do túmulo para ajudá-la (…) Eles então a levaram para fora da sala e rasparam a cabeça para encontrar o estigma. O mestre voltou e disse que havia encontrado o estigma. Ele enfiara uma agulha nela e ela não sentiu. Além disso, nenhum sangue tinha saído. Novamente, eles a amarraram nas mãos e nos pés e a puxaram para cima, novamente ela chorou e gritou que não sabia de nada. Eles colocaram-na no chão e a mataram, etc., etc., etc.” (citado em Becker et al, 1977; 426ss).

Mulher sendo torturada om as “botas espanholas”.

Em 1631, Friedrich von Spee ousou escrever um ensaio anônimo contra as torturas e a caça às bruxas. Ele expôs o caráter sádico das torturas e o uso que as autoridades, a igreja e as autoridades seculares fizeram da histeria das bruxas para encontrar um bode expiatório para todos os problemas e perturbações e inquietação das pessoas pobres, e para desviar a ira do povo contra eles para algumas mulheres pobres.

31 Outubro 1724: Tortura de Enneke Fristenares de Cocsfeld (Munster)

Depois que a acusada foi em vão confessada, o Dr. Gogravius anunciou a ordem de tortura (…) Ele pediu que ela dissesse a verdade, porque o interrogatório doloroso a faria confessar de qualquer maneira e duplicaria a punição (…) depois disso, o primeiro grau de tortura foi aplicado a ela. Então o juiz passou para o segundo grau de tortura. Ela foi levada para a câmara de tortura, estava despida, amarrada e foi interrogada. Ela negou ter feito qualquer coisa (…) Como teimava em confessar, eles prosseguiram para o terceiro grau e seus polegares foram parafusados. Como ela gritava tão horrivelmente, eles taparam-lhe a boca e continuaram a aparafusar os polegares. Cinquenta minutos depois, os parafusos foram afrouxados e apertados alternadamente. Mas ela alegava sua inocência. Ela também não chorava, apenas gritava: “Eu não sou culpada, ó Jesus, venha me ajudar.” Então, “Nossa Senhoria, me leve e me mate”. Então eles passaram para o quarto grau, os espanhóis (…) Como ela passou sem chorar, o dr. Gogravius se preocupou se a acusada poderia ter se feito insensível à dor através da feitiçaria. Portanto, ele novamente pediu ao carrasco para despi-la e descobrir se havia algo suspeito em seu corpo. Em seguida, o carrasco informou que examinou tudo meticulosamente, mas não encontrou nada. Mais uma vez, ela foi condenada às botas espanholas. A acusada, no entanto, continuou a afirmar sua inocência e gritou: “Jesus, eu não fiz isso. Eu não fiz isso. Vossa Excelência, me mate. Não sou culpada, não sou culpada!”

Esse clamor continuou por 30 minutos sem resultado.

Então o Dr. Gogravius ordenou o quinto grau:

A acusada foi pendurada e espancada com duas varas — mais de 30 golpes. Ela estava tão exausta que disse que confessaria, mas com relação às acusações específicas, continuou negando ter cometido algum dos crimes. O carrasco teve que puxá-la para cima até torcer os braços ou as articulações.

Por seis minutos essa tortura durou. Então ela foi espancada novamente, e novamente seus polegares foram presos em parafusos e suas pernas nas botas espanholas. Mas a acusada continuou negando que tivesse algo a ver com o diabo.

Como o Dr. Gogravius chegou à conclusão de que a tortura havia sido aplicada corretamente, de acordo com as regras, e depois que o carrasco declarou que a acusada não sobreviveria mais a torturas, o Dr. Gogravius ordenou que a acusada fosse retirada e solta. Ele ordenou que o carrasco colocasse seus membros no lugar certo e cuidasse dela (citado em Becker et al., 1977: 433–435. Trad. M.M.).

Queima de bruxas, acumulação primitiva de capital e a ascensão da ciência moderna

A perseguição e queima das parteiras como bruxas estava diretamente ligada ao surgimento da sociedade moderna: a profissionalização da medicina, a ascensão da medicina como uma ‘ciência natural’, a ascensão da ciência e da economia moderna.

As câmaras de tortura dos caçadores de bruxas eram os laboratórios onde se estudava a textura, a anatomia, a resistência do corpo humano — principalmente o corpo feminino.

Pode-se dizer que a medicina moderna e a hegemonia masculina sobre esse campo vital foram estabelecidas com base em milhões de corpos femininos esmagados, mutilados, rasgados, desfigurados e, enfim, queimados. [2]

Havia uma divisão calculada do trabalho entre Igreja e Estado na organização dos massacres e do terror contra as bruxas. Enquanto os representantes da igreja identificavam bruxas, davam a justificação teológica e conduziam os interrogatórios. O “braço secular” do estado era usado para realizar as torturas e, finalmente, executar as bruxas na pira.

A perseguição às bruxas era uma manifestação da sociedade moderna em ascensão e não, como geralmente se acredita, um remanescente da irracional “idade das trevas” da Idade Média. Isso é mais claramente demonstrado por Jean Bodin, o teórico francês da nova doutrina econômica mercantilista.

Jean Bodin foi o fundador da teoria quantitativa do dinheiro, do conceito moderno de soberania e do populismo mercantilista. Ele era um firme defensor do racionalismo moderno, e era ao mesmo tempo um dos defensores mais vocais das torturas e massacres das bruxas ordenados pelo Estado. Ele defendia que, para o desenvolvimento de novas riquezas após a crise agrária medieval, o Estado moderno deveria ser investido com soberania absoluta.

Além disso, esse Estado tinha o dever de fornecer trabalhadores suficientes para a nova economia. Para isso, ele exigia uma polícia forte que, acima de tudo, lutaria contra bruxas e parteiras que, segundo ele, eram responsáveis por tantos abortos, infertilidade dos casais ou relações sexuais sem concepção. Quem impedia a concepção ou o nascimento de filhos, ele considerava uma assassina que deveria ser perseguida pelo Estado.

Bodin trabalhou como consultor do governo francês na perseguição às bruxas e defendeu a tortura e a pira para erradicar as bruxas. Seu tratado sobre bruxaria foi um dos mais brutais e sádicos de todos os panfletos escritos contra bruxas na época.

Como Institoris e Sprenger na Alemanha, ele destacava as mulheres por ataque. Ele estabeleceu uma proporção de 50 mulheres por cada homem para as perseguições às bruxas (Merchant, 1983: 138). Essa combinação de racionalidade moderna, a propagação do novo Estado e um ataque violento direto às bruxas também encontramos com outro grande mestre da nova era da civilização europeia, a saber Francis Bacon (cf. Merchant, 1983: 164–177).

Da mesma forma, existe uma conexão direta entre os pogroms de bruxas e o surgimento da profissionalização do Direito. Antes desse período, a lei alemã seguia o antigo costume germânico; era a lei das pessoas ou a lei consuetudinária, mas não uma disciplina a ser estudada. Mas agora que o direito romano fora introduzido, a maioria das universidades estabeleceu uma faculdade de Direito e várias universidades, como a Universidade de Frankfurt, consistiam, de fato, apenas na Faculdade de Direito. Alguns contemporâneos reclamam das universidades:

“Elas não servem para nada e treinam apenas parasitas que aprendem a confundir as pessoas, como fazer das coisas boas em más e das coisas más em boas, que retêm o que é legítimo dos pobres e dão o que não é seu direito aos ricos” (Jansen, 1903, citado em Hammes, 1977: 243; trad. MM).

“A razão pela qual os filhos da crescente classe urbana estavam migrando para as faculdades de Direito era a seguinte: Em nossos tempos, a jurisprudência sorri para todos, para que todos desejem se tornar médicos. A maioria é atraída para esse campo de estudos por ganância de dinheiro e ambição” (ibid.).

Os julgamentos de bruxas forneceram emprego e dinheiro para uma série de advogados, defensores, juízes, conselheiros, etc. Eles eram capazes, por meio de interpretações complicadas e aprendidas dos textos oficiais, de prolongar os julgamentos para que os custos do julgamento aumentassem.

Havia uma estreita relação entre as autoridades mundanas, a Igreja, os governantes dos pequenos Estados feudais e os advogados. Estes últimos eram responsáveis pela inflação de taxas e enchiam seus cofres espremendo dinheiro das pobres vítimas da caça às bruxas. A fuga do povo foi tão desenfreada que até um homem como o eleitor de Trier (o arcebispo de Trier foi um dos sete príncipes que elegeram o Gennan Kaiser), Johann von Schoenburg, que já tinha executado centenas de pessoas como bruxas e feiticeiras, tiveram que verificar o roubo de viúvas e órfãos pelos juristas eruditos e todos os outros relacionados aos julgamentos de bruxas.

Alguns governantes criaram contadores para verificar o que os vários funcionários haviam feito com o dinheiro extraído e as taxas que eles exigiram. Entre os custos de um julgamento estavam os seguintes:

[*] pelo álcool consumido pelos soldados que perseguiram uma bruxa;
[*] pela visita que o padre fez à bruxa enquanto estava na prisão;
[*] para a manutenção da guarda particular do carrasco
(Hammes, 1977: 243–257).

De acordo com o direito canônico, a propriedade da bruxa deveria ser confiscada, independentemente de haver herdeiros ou não. A maior parte da propriedade confiscada, nunca menos de 50%, era apropriada pelo governo. Em muitos casos, tudo o que restava após a dedução dos custos do julgamento ia para o tesouro do Estado. Esse confisco era ilegal, como proclama a “Constitutio Criminalis” do imperador Carlos V em 1532. Mas essa lei só tinha valor no papel.

O fato da caça às bruxas ser uma fonte tão lucrativa de dinheiro e riqueza levou em certas áreas à criação de comissões especiais que tinham a tarefa de denunciar cada vez mais pessoas como bruxas e feiticeiras. Quando as acusadas eram consideradas culpadas, elas e suas famílias tinham que arcar com todos os custos do julgamento, começando com as contas de álcool e comida da comissão de bruxas (sua diária) e terminando com os custos de lenha da estaca.

Outra fonte de dinheiro eram as somas pagas pelas famílias mais ricas aos juízes e advogados instruídos, a fim de libertar uma de suas membros da perseguição, se ela fosse acusada de bruxa. Essa também é uma razão pela qual encontramos mais pessoas pobres entre as que foram executadas.

Manfred Hammes trouxe à luz ainda outra dimensão da “economia política” da caça às bruxas, a saber, a captação de recursos pelos príncipes europeus em guerra para financiar suas guerras, particularmente a Guerra dos Trinta Anos de 1618–1648. A partir de 1618, a Lei de Carlos V, que proíbe o confisco de propriedades de bruxas e feiticeiros, foi praticamente abandonada e a caça às bruxas foi especificamente organizada ou incentivada por alguns dos príncipes, a fim de poder confiscar a propriedade de seus súditos.

Hammes nos dá o exemplo da cidade de Colônia e a disputa que surgiu entre os patriarcas da cidade e o Infante Fernando da Baviera — o governante da diocese. A cidade de Colônia, um rico centro de comércio e indústrias, permaneceu neutra por um longo tempo durante a Guerra dos Trinta Anos. (No início do século XVII, a cidade tinha visto um comércio florescente — principalmente de seda e têxteis.) [3] No entanto, a cidade tinha pago quantias consideráveis ao fundo de guerra do Imperador. Isso foi possível graças ao aumento de impostos. Quando exércitos estrangeiros estavam assaltando e saqueando as aldeias, muitas pessoas rurais fugiram para a cidade livre e neutra. O resultado foi uma escassez de suprimentos de comida que levou a tensões entre as pessoas e até a revoltas. Ao mesmo tempo, começou o julgamento contra Catherine Hernot [4], acusada de bruxaria, seguido por uma intensa caça às bruxas.

Quando os primeiros julgamentos foram proferidos, o Infante Fernando da Baviera, que teve que pagar seus exércitos, apresentou um projeto de lei às autoridades da cidade. Neste projeto, ele alegou que todas as propriedades das bruxas executadas deveriam ser confiscadas e entregues para o Tesouro.

O conselho da cidade tentou de todas as formas impedir a implementação desta ordenança. Eles pediram aos advogados que fizessem um estudo especializado da lei. Mas o Infante e seus advogados finalmente proclamaram que o projeto era uma medida de emergência. Como o mal da bruxaria havia assumido tais dimensões nos últimos tempos, seria politicamente insensato seguir a lei vigente (a saber, Constitutio Criminalis de Carlos V proibindo confiscos) palavra por palavra.

No entanto, os advogados da cidade não estavam convencidos e sugeriram um compromisso. Eles disseram que era certo e justo que as pessoas que estavam envolvidas no julgamento das bruxas, os advogados, os carrascos etc, recebessem uma taxa como compensação “pelo trabalho duro e pelo tempo que passaram no julgamento”. O infante, como não pôde extrair dinheiro da caça às bruxas urbana, confiscou todas as propriedades das bruxas executadas nas áreas rurais da diocese.

Mas não apenas a classe feudal (particularmente os príncipes menores que não podiam competir com a crescente burguesia nas cidades, ou os senhores maiores), mas também as classes proprietárias nas cidades estavam usando o confisco da propriedade de bruxa como meio de acumulação de capital.

Assim, na própria Colônia, em 1628, dez anos após o início da guerra, as autoridades da cidade introduziram o confisco de propriedades de bruxas. Uma das legitimações enviadas pelos advogados de Colônia era que as bruxas haviam recebido muito dinheiro do diabo e que era perfeitamente possível que o dinheiro desse diabo fosse confiscado pelas autoridades para permitir a erradicação da raça maligna de feiticeiros e bruxas.

De fato, parece que, em alguns casos, as cidades e os príncipes usaram pogroms e confiscos de bruxas como uma espécie de ajuda ao desenvolvimento para suas economias arruinadas. Os patriarcas da cidade de Mainz não se incomodaram com detalhes legais e simplesmente pediam a seus funcionários que confiscassem todas as propriedades das bruxas. Em 1618, o Mosteiro de Santa Clara de Hochheim tinha doado 2000 florins para a “erradicação de bruxas”.

Há um relatório do oficial de justiça Geiss, que escreveu a seu Lorde de Lindheim, pedindo-lhe que lhe permitisse começar a perseguição, porque ele precisava de dinheiro para a restauração de uma ponte e da igreja. Ele observou que a maioria das pessoas estava preocupada com a disseminação do mal da bruxaria:

“Se Vossa Excelência estivesse disposto a iniciar a queima, teríamos o prazer de fornecer a lenha e arcar com todos os outros custos, e Vossa Excelência ganharia tanto que a ponte e também a Igreja poderiam ser reparadas. Além disso, receberia tanto que poderia pagar a seus empregados um salário melhor no futuro, porque é possível confiscar casas inteiras e, particularmente, as mais prósperas” (citado em Hammes, 1977: 254; trad. M.M.).

Além dos grandes sanguessugas — as autoridades religiosas, os governos mundanos, a classe feudal, as autoridades urbanas, a fraternidade de juristas, os carrascos –, cresceu todo um exército de alevinos menores que viviam das fogueiras das bruxas. Monges mendigos andavam por aí e vendiam fotos dos santos que, se ingeridos pelos compradores, os impediriam de serem atingidos por bruxaria. Havia muitos comissários de bruxas autonomeados. Como as autoridades pagavam taxas pela descoberta, prisão e interrogatório de bruxas, eles acumularam dinheiro vagando de um lugar para outro instigando os pobres a ver a causa de toda a sua miséria no trabalho das bruxas.

Então, quando todos estavam sob o controle da psicose em massa, o comissário dizia que viria erradicar a praga. Primeiro, o comissário enviava seu coletador, que ia de casa em casa para coletar doações para provar que os próprios camponeses o haviam convidado. Então o comissário vinha e organizava duas ou três fogueiras de bruxas. Se alguém não estivesse pronto para pagar, virava suspeito de ser um feiticeiro, uma bruxa ou um simpatizante das bruxas. Em alguns casos, as aldeias pagavam uma quantia ao comissário com antecedência, para que ele não viesse. Isso aconteceu na vila de Rheinbach, em Eifel. Porém, cinco anos depois, o mesmo comissário voltou e, como os camponeses não estavam dispostos a ceder uma segunda vez a essa chantagem, ele acrescentou mais sentenças de morte ao recorde de 800 que já alcançara.

A esperança de ganhos financeiros pode ser vista como uma das principais razões pelas quais a histeria de bruxas se espalhou e por que quase ninguém foi absolvido. A caça às bruxas era um negócio. Isso é claramente explicado por Friedrich von Spee, que finalmente teve a coragem, em 1633, de escrever um livro contra essa prática sórdida. Ele observa:

[*] advogados, inquisidores etc. usam tortura porque querem mostrar que não são advogados superficiais, mas responsáveis;
[*] eles precisam de muitas bruxas para provar que seu trabalho é necessário;
[*] eles não querem perder a remuneração que os príncipes prometeram para cada bruxa.

Para resumir, podemos citar Cornelius Laos, que disse que os julgamentos de bruxas ‘eram uma nova alquimia que produzia ouro com sangue humano’ (Hammes, 1977: 257). Poderíamos acrescentar, do sangue das mulheres.

O capital acumulado no processo de caça às bruxas pelas antigas classes dominantes, bem como pela nova classe burguesa em ascensão, não é mencionado em nenhum lugar nas estimativas e cálculos dos historiadores econômicos daquela época. O dinheiro sujo da caça às bruxas foi usado para o enriquecimento privado de príncipes falidos, de advogados, médicos, juízes e professores, mas também para assuntos públicos como financiamento de guerras, construir uma burocracia, medidas de infraestrutura e, finalmente, o novo estado absoluto. Esse dinheiro ensanguentado alimentou o processo original de acumulação de capital, talvez não na mesma extensão que a pilhagem e roubo das colônias, mas certamente em uma extensão muito maior do que se sabe hoje.

Mas a perseguição e tortura das bruxas não foi motivada apenas por considerações econômicas. O interrogatório de bruxas também forneceu o modelo para o desenvolvimento do novo método científico de extração de segredos da Mãe Natureza.

Carolyn Merchant mostrou que Francis Bacon, o ‘pai’ da ciência moderna, o fundador do método indutivo, usou os mesmos métodos, a mesma ideologia para examinar a natureza que os perseguidores de bruxas usavam para extrair os segredos das bruxas, a saber: tortura, destruição, violência. Ele deliberadamente usou as imagens da caça às bruxas para descrever seu novo método científico: tratava a natureza ‘como uma mulher torturada por invenções mecânicas’ (Merchant, 1983: 168), pois as bruxas eram torturadas por novas máquinas.

Ele afirmou que o método pelo qual os segredos da natureza poderiam ser descobertos consistia em investigar os segredos da bruxaria através da inquisição: ‘Pois você precisa apenas de segui-la e, como se estivesse perseguindo a natureza em suas jornadas, você será capaz, quando bem entender, de governá-la e levá-la de volta para o mesmo lugar” ‘(citado por Merchant, 1983: 168).

Ele defendia fortemente o rompimento de todos os tabus que, na sociedade medieval, proibiam a escavação de buracos na Mãe Terra ou a violavam: ‘Nenhum homem deve fazer escrúpulos em entrar e penetrar nesses buracos e cantos, quando a inquisição da verdade é todo o seu objeto…’ (Merchant, 1983: 168). Ele comparou a inquisição da natureza tanto ao interrogatório de bruxas quanto ao das testemunhas do tribunal:

“O que quero dizer (segundo a prática em causas civis) neste grande apelo ou ação concedido pelo favor e providência divinos (pelos quais a raça humana busca recuperar seu direito sobre a natureza) examinar a própria natureza e as artes sob interrogatórios…” (Merchant, 1983: 169).

A natureza não revelaria seus segredos, a menos que violada à força pelos novos dispositivos mecânicos:

“Pois, assim como a disposição de um homem nunca é bem conhecida ou provada até que ele seja atravessado, nem Proteus mudou de forma até que tenha sido endireitado e segurado, também a natureza se mostra mais claramente sob as provações e vexações da arte (dispositivos mecânicos) do que quando deixada consigo mesma” (citado por Merchant, 1983: 169).

De acordo com Bacon, a natureza deve ser ‘atada ao serviço’, transformada em ‘escrava’, colocada em ‘restrição’, precisa ser ‘dissecada’; do mesmo modo que o útero da mulher cedeu simbolicamente ao fórceps, o útero da natureza abrigava segredos que, através da tecnologia, podiam ser arrancados de suas mãos para serem utilizados na melhoria da condição humana (Merchant, 1983: 169).

O método científico de Bacon, que ainda é a base da ciência moderna, unificou o conhecimento com o poder material. Muitas das invenções tecnológicas estavam de fato relacionadas à guerra e conquista, como pólvora, navegação, ímã. Essas ‘artes da guerra’ foram combinadas com o conhecimento — como a impressão. A violência, portanto, era a palavra-chave e o método-chave pelo qual o Novo Homem estabeleceu seu domínio sobre as mulheres e a natureza. Esses meios de coerção não exercem, como os antigos, apenas uma orientação suave sobre o curso da natureza; eles têm o poder de conquistá-la e subjugá-la, de sacudi-la até às raízes’ (Merchant, 1983: 172).

Assim, conclui Carolyn Merchant:

“O interrogatório das bruxas como símbolo para o interrogatório da natureza, o tribunal como modelo para sua inquisição e a tortura através de dispositivos mecânicos como ferramenta para a subjugação da desordem foram fundamentais para o método científico como poder” (ênfase adicionada) (Merchant, 1983: 172)

A classe que se beneficiou desse novo domínio científico patriarcal sobre as mulheres e a natureza foi a crescente classe de comerciantes protestantes e capitalistas, industriais de mineração e capitalistas mais elegantes. Para essa classe,

era necessário que a antiga autonomia das mulheres sobre sua sexualidade e capacidade reprodutiva fosse destruída e que as mulheres fossem forçadas a criar mais trabalhadores.

Da mesma forma, a natureza teve que ser transformada em um vasto reservatório de recursos materiais a serem explorados e transformados em lucro por essa classe.

Portanto, a Igreja, o Estado, a nova classe capitalista e os cientistas modernos colaboraram na subjugação violenta das mulheres e da natureza.

As mulheres vitorianas fracas do século XIX foram os produtos dos métodos de terror pelos quais essa classe talhou e moldou a ‘natureza feminina’ de acordo com seus interesses (Ehrenreich, inglês, 1979).

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