TERF é o novo feminazi

É [quase] sempre complicado, polêmico e doloroso engatar uma discussão sobre feminismo radical onde não temos a certeza absoluta de que todas presentes têm um conhecimento minimamente profundo sobre o assunto. Não porque nos recusamos a ouvir opiniões contrárias, mas porque nós incomodamos. Aquelas que levantam a bandeira do movimento abolicionista nadam contra a forte corrente do patriarcado, do capitalismo e de todos os instrumentos de manutenção de um sistema hegemônico e opressor. Dentre todos esses pilares, estão a prostituição, a pornografia, a maternidade compulsória e o gênero.

Feministas radicais começaram a usar o termo ‘gênero’ na década de 60, com o objetivo de distinguir o sexo biológico (significado puro) das suas relações sociais. Nós, materialistas, o reconhecemos como um sistema de hierarquias, construído socialmente para manter a subordinação do sexo feminino.

Nesse sistema, a mulher branca é doutrinada para ser submissa, feminina, dócil, maternal e secundária, enquanto o homem é projetado para ser dominador, agressivo, viril, emocionalmente distante e protagonista de todas as esferas. Isso acontece porque, historicamente, os seres escolhidos para tal exploração foram as fêmeas — você sabe, mulheres: aquelas que nascem com vagina. É por isso que não se nasce mulher, torna-se. Penso que Simone de Beauvoir reviraria no túmulo se soubesse o quanto essa frase está sendo intencional e desonestamente deturpada.

Gênero é a divisão criada para determinar quais membros são de uma casta ou outra, a privilegiada e humana, e a desumanizada e violentada, apropriada. Gênero não é identidade. Não existe um “Ser mulher” imanente e transcendental, patriarcado é regime de escravidão, e determina que escravizadas e subordinadas cheguem a crer que nasceram e morrerão no “ser escravo”. Se alguém se identifica com o “Ser mulher” como algo inerente está se identificando com um “Ser escrava”, a feminilidade. E isso foi imposto pelo opressor”
— Heleieth Saffioti, socióloga marxista

NOTA: Novos aprendizados surgiram após a publicação desse texto. Dentre eles, a informação de que a socialização de mulheres negras chega a ser tão violenta que, ao contrário de mulheres brancas, elas são vistas como seres humanos condicionados a ter uma resistência acima da média, ou seja, são consideradas capazes de suportar mais dores do que brancas. Isso implica na privação de anestesia na hora do parto ou cirurgias por exemplo, prática comum em hospitais públicos ou outras instituições com pouco material anestésico. É nessa tática racista, consequência da época da escravatura, que mulheres negras se tornam mais vulneráveis à violência obstétrica, violência médica etc. Nos comentários dessa publicação, você encontra recomendação de leitura da feminista Carol Correia para aprofundamento do assunto.


O gênero é uma casta política, sem chance de mobilidade ou de ascensão. É uma imposição iniciada no momento do nascimento do ser humano, extremamente resistente a mudanças. Este processo extremamente violento recebeu o nome de socialização, um sistema que molda a nossa identidade e no qual ninguém sai ileso. E é a nossa biologia que decide qual processo vivenciaremos: a do dominador ou a da dominada.

Socialmente, pouco importa como você se identifica, o seu órgão reprodutor já ditou qual caminho você terá que percorrer. E é exatamente por isso que dizer que o feminismo radical reduz as mulheres à sua genitália é irresponsável, desonesto e, no mínimo, insciente. A sociedade faz isso, nós apenas nos utilizamos desse fato para uma análise assertiva.

No Feminismo Radical, encontrei a resposta do que deveria ter questionado no meu primeiro ano de contato com o movimento feminista: afinal, o que é ser mulher? É um sentimento? É uma vontade? É arbitrário?

“ (…) ser mulher significa ser membro duma classe, duma casta, ‘portar a estrela de davi’. Não é sensação, nem sentimento, nem performance, nem decisão. É apartheid. É ser parte daquelas pessoas que como dito, foram designadas como estupráveis, e são mantidas nessa classe por meio disso, de estupro e pela força, pelo terror, para que não se sublevem. Identificar-se com uma classe seria o mesmo que dizer que proletariado e pobreza é uma performance e uma identificação e algo a ser celebrado” (Saffioti)

Ao ter contato com feministas abolicionistas e valorizar a academia, entendi que a mulheridade é uma construção social e histórica. É fator biológico em consonância com a posição social. O “ser mulher” representa um conjunto de estereótipos, expectativas, deveres e características que sempre vão nos acompanhar, construindo nossa personalidade, recortando oportunidades e moldando a nossa vida.

Entendemos que este processo é tão violento, desumano e intenso que constrói uma redoma blindada em sua volta. É impossível resistir completamente às imposições da socialização vivendo sob os regimes de uma cultura.

E se homens são literalmente treinados para colonizar, violentar e dominar enquanto mulheres são ensinadas a acatar, o que nos confirma que, apenas por uma vontade, seríamos capazes de escapar das regras desse sistema? Não me parece cabível acreditar que um indivíduo tem forças o suficiente para suportar o peso de uma cultura sem cair. É por isso que insistimos em dizer que socialização não falha.

O feminismo radical é uma das poucas ações populares que, em sua essência, não são centradas no homem, seu pênis e suas ordens. Neste movimento, de mulher e para a mulher, a presença de pessoas nascidas e criadas na socialização masculina não é bem-vinda. Enquanto você nos chama de TERF [Feministas Radicais Trans-Exclusionárias] segregadoras e odiosas, nós nos apresentamos como cautelosas e prevenidas.

Se o ‘seu feminismo’ não tem como prioridade preservar a segurança das mulheres e se comprometer ao máximo com a destruição do sistema patriarcal, talvez seja a hora de repensar se você realmente quer a libertação das mulheres.

Vale pontuar que feministas radicais não apoiam a desumanização contra transexuais, do mesmo modo que nós não nos importamos com o que você e terceiros gostem ou o com o que vestem. Discordar teoricamente de alguém não é uma violência.

O que nos ofende, contudo, é quando querem nossa aprovação, energia e o nosso apoio para com um lobby que tenta nos enfiar o falo goela abaixo dentro de em um espaço que demoramos anos para conquistar por causa da nossa vagina.

Com útero, sem opinião

Ao compreender o peso da socialização, a fragilidade do ego masculino emana e a resposta só pode ser uma: odiar mulheres, ainda mais. Agora, a obsessão é enfatizar que “o feminismo radical é um ‘tipo’ de feminismo que não acredita em mim quando eu digo que meu pênis é feminino, que sofro misoginia e que o meu privilégio masculino é automaticamente excluído a partir do momento que, por uma ‘sensação’, me declaro mulher”.

Não podemos dizer que TERF é uma descrição objetiva construída a partir de um ponto de vista teórico. É apenas um insulto venenoso, com o propósito de disseminar a discórdia, minar o feminismo e silenciar as feministas radicais. O termo desempenha o papel de uma verdadeira placa de identificação, criada para causar uma ira justificada contra mulheres — lésbicas, em sua grande maioria. Coincidência? Não.

Os ataques contra as “radfem”, que partem de homens e mulheres, envolvem agressões físicas e verbais, seja dentro ou fora do mundo virtual. Assim como na primavera feminista, quando o infeliz termo ‘feminazi’ se popularizou, mulheres estão sendo atacadas por lutar contra o sistema que as colonizam há anos. Mas por quê quando as vítimas são feministas radicais vocês agem como se fosse ‘tiro trocado’?

Recentemente, na campanha do novo coletor menstrual da Fleurity, onde a youtuber JoutJout destinou o produto à “pessoas com útero”, a misoginia se escancarou de uma forma assustadora.

Pela gravidade do conteúdo, escrito pelos homens das imagens, manterei seus nomes expostos

Em setembro desse ano (2017), três transativistas do sexo masculino espancaram uma senhora de 60 anos em Londres na porta de um evento sobre gênero, palestrado pela feminista radical Julia Long. Machos literalmente se mobilizaram para atacar um encontro feminista e violentar mulheres com a justificativa de que “TERF nem é gente”.

Mas nem eu, nem você, somos TERF.

São décadas produzindo conteúdo e construindo um movimento para abolir o patriarcado sob ataques impiedosos de homens e suas advogadas de bolso, que deslegitimam e criminalizam nossa militância e nos reduzem a um acrônimo cuspido com veneno.

E não importa sua posição. Qualquer um que problematizar o essencialismo da teoria queer se torna, automaticamente, a maior vilã desse teatro que os transativistas e seus aliados pensam viver. É como um telefone sem-fio desenfreado. É, mais uma vez, a mulher sendo decapitada na guilhotina do patriarcado. Mais um exemplo da identidade feminina sendo usurpada e reformada por homens, com o apoio fiel de mulheres aprisionadas, seja por ignorância ou Síndrome de Estocolmo.

Parafraseando a feminista Robin Morgan, na Conferência de Lésbicas de 1973, eu não vou chamar um homem de ‘ela’. Mais de vinte anos de sofrimento e sobrevivência nessa sociedade me fizeram merecer o título de mulher. Pelos nomes de nossas mães, avós e pelos nossos, eu me recuso a chamá-los de ‘irmãs’.

Por fim, nós temos pautas mais importantes do que o transativismo, seu essencialismo e sua teoria de caráter extremamente liberal. É bem perigoso, entretanto, nos concentrar exclusivamente nos outros pilares do patriarcado quando a origem da opressão feminina é deturpada e glamourizada. Nossos debates sobre ponografia, maternidade, prostituição, lesbofobia estão presentes, mas enquanto um movimento liberal e desonesto se apropriar do que é ser mulher, resistiremos em nome da luta feminista.

Meu apelo é que mulheres esqueçam, ao menos por um momento, seus opressores e ouçam suas semelhantes. Gênero é um sistema político de violência, não um produto da biologia. Não há escolha. Não há sentimento. Não há identidade. Há que se destruir-lo.


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